OPINIÃO

Chamados para recall

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Neste espaço democrático já escrevi sobre a vida, meus pais e filhos, falei do amor a minha mulher, a minha profissão e sobre minhas cidades Cruz Alta (terra natal) e Passo Fundo (terra de adoção). São mais de trezentas crônicas de muitas sandices, alguns acertos e muitos questionamentos, incluindo os que seguem.

Minha geração, que nasceu por volta de 1955, viu de tudo ou quase tudo. Vimos o pós-guerra, novos estilos de músicas, jaqueta de couro, moto, queima de sutiãs, lança perfume, Cuba e cuba libre. Sobrevivemos ao estado de exceção militar, cantamos Prá Frente Brasil, vociferamos quando foi possível contra Geisel e Figueiredo, caminhamos pelas Diretas Já, choramos mesmo na armação da morte de Tancredo e elegemos o almofadinha Fernando Collor (conhecido como Caçador de Marajás ou Fernando I).

Demos pé na bunda dele e engatamos FHC (conhecido como Pavão ou Fernando II) e cremos na estabilização da moeda e que vender ou doar as empresas do Brasil aos gringos foi bom negócio. Então, era a hora (quem sabe faz a hora, não espera acontecer) dos descamisados e desfavorecidos. Bingo para Luís Inácio e sua turba que surfou na onda do crescimento da China que ao comprar nossos produtos primários a preço de ouro e a vender-nos seus eletrônicos a preço de banana melhorou nossa balança comercial. Lula, em nome da governabilidade, não viu (e não sabia) mas deixou crescer o comércio dos apoios à governabilidade naquilo que conhecemos e que sempre foi negado como Mensalão.

E hoje é a Dona Dilma, com raízes firmes em nosso torrão rio-grandense e o descrédito exterior a nossa capacidade gerencial das finanças, da preparação à Copa do Mundo, o Pibinho de Guido Mantega, dos apagões pelos raios que castigam o país ou pelos raios que nos partam, pela solução cubana ao caos na área da saúde.
Bem, e a gente ? E nós, que sonhamos um Brasil redentor, a terra do futuro em que se plantando tudo dá. Nós que votamos (nunca votamos tanto) e que esquecemos de cobrar daqueles que escolhemos nas urnas. E nós, celeiro do mundo, do país sorriso, com resultados pífios na educação e no Índice de Desenvolvimento Humano, que não bastando os nossos bandidos acobertamos italianos (Battisti) e ingleses (Biggs) e que nem mais somos os primeiros nem no futebol, como é que chegamos a isso ?

Minhas crônicas criticaram o Príncipe (FHC) e o Sapo (Lula) porque é sempre confortável criticar do que exercer a autocrítica. Queria criticar a mim mesmo e a minha geração pelo fato de que não há a mínima certeza de que deixamos um país melhor. O Brasil tinha um futuro, o Brasil tem um futuro, o Brasil terá um futuro? Sim, terá um futuro, se será venturoso ou não, tem o dedo da geração, da minha e da nossa, aquelas mesmas que estão sendo chamadas urgentemente para fazer recall. Sim a sociedade que emerge, a dos nossos filhos estão questionando o país, as instituições, o planeta que nossa geração plantou. Estão nos chamando para o recall para saber o que fizemos com o país do futuro.

As soluções para quase todos os problemas têm de advir do bom senso. Tomara que a gente não caia na tentação de novamente tentar encontrar o messiânico Sassá Mutema, o salvador da pátria, o que tem soluções mágicas, o único que enxerga as soluções que ninguém vê. Nada do que não emerge de consenso pode ser solução adequada para os nossos problemas, que não são poucos.

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