OPINIÃO

Transhumano, demasiado transhumano

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Há quem acredite que, a ciência, ao pretender, pela via da biologia sintética, reinventar a natureza, criando praticamente um novo reino, acabará reinventando a nós mesmos. E que mais que evocar pelo “humano, demasiado humano”, de Nietzsche, acabaremos clamando pelo “transhumano, demasiado transhumano”, seja o que for que nesse novo constructo não natural, carregue junto o prefixo “trans”. Etimologicamente, “trans”, nesse contexto, exprime a ideia de “mais além”, de “exceder”, de elevar-se “acima de alguma coisa”, enfim de “superioridade”. E, sendo a espécie humana, por algumas atitudes, considerada a pior entre os animais, que podemos esperar de um “transhumano”? Pelo menos duas coisas: algo melhor que o melhor dos humanos e algo pior que o pior dos humanos.

Os chamados organismos sintéticos não são diferentes de outras formas de vida, exceto pelo fato de trem sido criados por nós, na busca de melhores soluções para os velhos problemas que afligem a humanidade desde que ela se conhece como tal. A fusão de engenharia (especialmente pelo uso de princípios e visão de processos) com a biologia molecular, criando o que se convencionou chamar de biologia sintética, começou a ser cimentada antes mesmo da descoberta da estrutura do DNA (1953), do código genético (anos 1960) e da tecnologia do DNA recombinante (anos 1970), a partir da publicação, em 1948, do livro de Norbert Wiener, Cybernetics. Nessa obra, Wiener estabeleceu a base matemática para a formulação da teoria de sistemas, que define princípios gerais aplicados na descrição (ou em projetos) de qualquer sistema, independente da sua natureza, quer seja biológica, ecológica, física, etc. Entra nesse rol, o uso de organismos criados pela via sintética para a produção de energias limpas, despoluir ambientes, produção de novos materiais como “plástico” de origem vegetal, eliminação de micróbios danosos à saúde humana, por exemplo.

Entre o universo da ficção científica e a realidade do poder da ciência, em biologia sintética, a zona de fronteira é muito tênue. Saindo dos roteiros dos mestres da ficção científica, como Michael Crichton, que criam micróbios extraterrestres que a cada divisão celular adquirem novas e mais mortais propriedades ou nano robôs que escapam de laboratórios e ameaçam de extermínio a vida, em especial a raça humana, na Terra, regramentos legais, morais e éticos, para a manipulação de organismos sintéticos, são necessários. Ainda que se alegue que organismos sinteticamente produzidos, por algumas exigências específicas de meio de cultura, dificilimamente sobreviveriam fora do mundo dos laboratórios ou das biofábricas, o risco de transferência de genes e possíveis alterações no equilíbrio dos ecossistemas não pode ser totalmente ignorado, além da, sempre presente, preocupação com o bioterrorismo. Também não nos serve alegações primárias em conhecimento biológico, tipo as que surgiram quando a primeira geração de organismos geneticamente modificados começou a ser usada em agricultura (o medo da soja transgênica, por exemplo), que com a biologia sintética estariam sendo criadas fitas de DNA que nunca existiram. A cada nova criança gerada, naturalmente, os pais criam fitas de DNA que nunca existiram. Também as bactérias, há cerca de 4 bilhões de anos, trocam genes, criando fitas de DNA que nunca existiram. Portanto, a criação de DNA que nunca existiu parece ser uma característica inerente à vida na Terra.

Indiscutivelmente, a tecnologia nos domínios da biologia aumentou a nossa capacidade de interagir com o universo ao nosso redor, permitindo mudanças radicais em todas as formas de vidas; inclusive na nossa espécie. A tal ponto, que há quem inclua o “transhumanismo” entre as mais perigosas ideias do mundo contemporâneo. Quem pode assegurar que o nosso egoísmo não vai nos levar na busca de um aperfeiçoamento individual (beleza, inteligência, imunidade a doenças, força física, etc.) que acabará criando uma nova espécie, que de tão imprecisa moralmente poderá determinar o nosso fim?

Os limites da biologia sintética não serão definidos pela tecnologia, mas pela ética. A pergunta que teremos de responder não é “o que podemos fazer?”, pois não há limites para essa resposta, e sim “o que devemos fazer?”.

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