OPINIÃO

Sobre a fragilidade

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Minha filha Georgia está completando vinte anos. Assim aconteceu comigo em 1977 num ano mágico: André Catimba, Leroy Gomez, Giorgio Moroder, segundo ano da faculdade. Nessa época, para cumprir o que tinha como desiderato – não pedir grana para o meu pai, o que sobrecarregaria infinitamente o orçamento familiar – aceitei a oferta do Irmão Dealmo e de Jorge Ferreira e fui fazer parte da inesquecível Banda Marcial do Colégio Conceição. Não foi por dinheiro, foi pelos livros letivos. Muitos achavam incompatível um estudante de Medicina estar tocando em banda de colégio. Mas, era por necessidade e por diletantismo. Mas, a ninguém interessava saber disso. Foi ano de terminar namoro, de entrar em crise existencial. Ah, meus vinte e poucos anos.

Meu filho Ramon tem razão absoluta. Nós amamos demais essa cidade, talvez até mais que Cruz Alta. Sinto-me pleno ao caminhar pelas ruas que vivi histórias e tão presentes e tenho saudade até das ruas por onde nem andei. Há o sonho do Boqueirão, do Champagnat, da Granja do Quartel, da zona sul e do Vermelhão, da Montanha onde queria ser mescla de Luis Freire e Raul Mattè, do Centro social Santa Terezinha de onde imaginava que iria encontrar a primeira namorada.
É por isso, ou também por isso, que o luto nos invade ao perceber as chamas do elegante prédio dos Ughini. É uma parte da vida de todos nós que se vai. É toda uma vida que se vai para os que perderam a documentação histórica, os sonhos e bens materiais. Mas, a despeito da fragilidade dos bens materiais e da vida de cada um, somos bem maiores que as desgraças e saberemos em união, estender ajuda aqueles desalentados amigos nessa hora de desgraça. Sobre a fragilidade da aventura chamada vida é que deveríamos debruçar mais, principalmente quem dá aulas, quem faz parte das comunicações, que atinge as massas. Talvez tempo de lembrar Horácio e seu Carpe Diem, ou viver o agora intensamente porque...e se não houver o amanhã ?

Janete, mãe de Guilherme, enfermeira, amiga e companheira deixa a todos nós e deixa a lacuna que não pode ser preenchida. Deixa a dor e as tergiversações sobre as fragilidades de tempo e espaço que ocupamos. Resta agradecer pela oportunidade da convivência e torcer que seus familiares bebam infinitamente da mesma fonte que gerou Janete. Boa viagem, boa travessia.

 

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