O desenvolvimento tecnológico nos permite ter, em tempo real, informações do mundo inteiro, tanto dos fatos bons quanto dos desastres que causam mais comoção e recebem ampla divulgação. Mesmo que geograficamente sejam acontecimentos distantes, estamos cientes que vivemos num mundo pequeno e tudo tem efeito global. A quantidade e a grandiosidade dos problemas podem conduzir as pessoas ao desespero e esperar sempre soluções grandiosas e impactantes. Soluções que os outros devem propor e realizar.
É muito provocativa a maneira como Jesus Cristo aborda as ações humanas e sua influência no mundo. A liturgia católica deste domingo lê e medita duas parábolas tiradas do mundo vegetal e que trazem uma mensagem muito clara. O evangelista Marcos 4, 26-34 escreve: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo ... O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra... cresce e se torna a maior do que todas as hortaliças...”.
Impressiona, em muitos ensinamentos de Jesus, a insistência na realização de pequenas ações: dar um copo de água, um alimento, uma roupa, uma visita, uma palavra... O modo como Jesus Cristo viveu a maior parte da sua vida, mesmo sendo Deus, foi de participar efetivamente da vida rotineira de uma família. Na vida pública foram poucos os sinais grandiosos, mas dedicou bom tempo para realizar gestos pequenos e ao atendimento individual de pessoas.
Nas parábolas Jesus ressalta a força intrínseca da semente e das condições da terra para fazê-la germinar e se desenvolver. Como também a semente pequena manifesta a sua grandiosidade na planta. A primeira vista, pode parecer que as coisas de Deus sempre devem ser marcadas pela grandiosidade e a excepcionalidade. Esta parábola oferece outra visão, justamente passando a ideia da pequenez e da discrição, mas simultaneamente ressaltando um grande potencial daquilo que é discreto.
Se somente grande ações fossem válidas elas ficariam restritas a poucas pessoas e instituições. Pequenas ações estão ao alcance de todas as pessoas, de todas as condições sociais, econômicas e culturais. É uma forma de permitir que todos sejam protagonistas na construção da sociedade e na solução de seus problemas. Provoca a pessoa a sair da condição de expectador para tornar-se ator ou de torcedor para jogador.
Na vida não faltam oportunidades que solicitam a nossa contribuição efetiva. O temporal acontecido nesta semana, em poucos minutos, colocou muitas pessoas em situação de emergência, com danos materiais além dos emocionais. Não temos condições de impedir o temporal e nem controlar o sofrimento oriundo do desastre. Mas temos condições de sermos solidários para amenizar a dor e restabelecer a esperança.
“Toda ação reta e séria do homem é esperança em ato... Desse modo se contribui a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram também as portas para o futuro... O nosso agir não é indiferente diante de Deus e, portanto, também não o é para o desenrolar da história. Podemos abrir-nos a nós mesmos e ao mundo ao ingresso de Deus: da verdade, do amor e do bem”. (Bento XVI, Spe Salvi, n. 35)