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Colunistas


Os Monumentos Às Mães

Sexta-Feira, 12/10/2018 às 06:00, por Arquivo Histórico Regional

Um de 1863, outro de 1964. Ambos localizados na cidade de Passo Fundo. O primeiro, conhecido como Chafariz da Mãe Preta, localizado no entroncamento das ruas 10 de Abril com Uruguai, defronte ao IOT e a Unicred. O segundo, o Monumento à Mãe, situado na Av. Brasil em frente ao Colégio Estadual Fagundes do Reis. O Chafariz criado em pleno contexto sociopolítico do período escravagista no final do sec. XIX. A homenagem à Mãe, data de cem anos depois. O Chafariz carrega consigo os elementos imaginários de dois relatos míticos, que descrevem o sofrimento de mães que perderam seus filhos. Já na Praça da Mãe, encontra-se uma escultura em bronze de uma mãe, com dois filhos, uma menina e um menino.


Qual é a relação entre eles? Existe? Arraigado na tradição da memória passo-fundense não serão poucos que dirão: sim! E justificarão seu argumento dizendo: O Monumento à Mãe rememora o Mito da Mãe Preta. Eu, respeitosamente, quero subverter este entendimento e contrariar está argumentação. Faço isso com base em documentos consultados em parte no acervo do Arquivo Histórico Regional de Passo Fundo.


Sobre o caso do Chafariz da Mãe Preta, este foi construído em terras doada por Manoel José das Neves, e ficou conhecido durante anos como: o arroio do Lava Pés, dos escravos, do Chafariz, da 10 de Abril com a Uruguai. Como é possível observar, quando o Chafariz surge na história passo-fundense, ele está associado à sua localização geográfica ou a sua função. Ou seja, o que é um Chafariz? Uma fonte de abastecimento de água. A fonte passará a ser reconhecida oficialmente como Chafariz da Mãe Preta em 1965, quando a Prefeitura decide reconstruí-lo, o que acontece somente 1982, quando há a regulamentação da área em que está situado atualmente.


Associado ao Chafariz há dois relatos míticos, um da Mãe índia Goici, e outro da Mãe Preta Mariana. No relato da Mãe índia, diz-se que esta possui um filho que desaparece. Ao chorar a ausência do filho, o Urubu-Rei a transforma em um pé de milho que, arrancado pela tribo, deu origem a um córrego. Na versão de Mãe Preta, esta tinha um único filho que foge. Devido a seu sofrimento é visitada por Jesus menino, o qual informa que a sua criança se encontrava na mansão celeste. Jesus diz que em recompensa a sua dor ela poderia pedir o que quisesse que lhe seria concedido. Assim, Mãe Preta pede para ir para junto do filho, e como lembrança, solicita que queria deixar a fonte, para que todo aquele que dela bebesse retornasse àquele lugar.


Então, o Monumento a Mãe, rememora a lenda de Mãe Preta, e a escultura contida na praça faz alusão a perda de seu filho. Ora, penso que se isso realmente procedesse, no Monumento à Mãe, deveria ter somente uma única criança, e não duas. Ainda, a escultura, deveria ter no mínimo algumas características estereótipas a uma mulher negra no contexto do sec. XIX.


Este monumento, o da Mãe, foi uma iniciativa do jornal O Nacional juntamente com o Rotary Club Passo Fundo Norte, que contou com a colaboração de inúmeras pessoas da comunidade passo-fundense. Foi realizada uma campanha, lançada em 1961, em que a cidade teria um monumento que homenagearia as Mães. Qual delas? Todas, sem objeções.


Para arrecadar recursos financeiros para edificação do monumento, foram realizados entre 1961 a 1964, desfiles, chá, bailes, apresentações, até mesmo, Teixeirinha esteve em Passo Fundo em 1963 realizando duas apresentações - em uma delas a arrecadação da bilheteria foi revertida em benefício ao Monumento a Mãe.


A escultura foi realizada pelo casal de artistas Paulo e Lucienne Ruschel, sendo fundida em bronze na metalúrgica Eberle S/A de Caxias do Sul, inaugurada em 7 de agosto de 1964, como parte integrante das comemorações da Semana do Município daquela época. Quadro anos depois há a inauguração da Praça da Mãe, em 12 de maio de 1968, na ocasião da data que comemorava o Dia das Mães daquele ano. Sintetizo minha obstinação em uma alegação simples e objetiva. O Chafariz da Mãe Preta é um dos principais monumentos históricos da cidade de Passo Fundo, e considero ser o único que perpassa no tempo a abrangência de nossa historicidade. O Monumento a Mãe, é a mãe, qualquer alegação que contrarie esta afirmação, faz parte da memória em contraste a sua história.

 

 

Diego J. Baccin
Doutorando em História – PPGH/UPF/Bolsista CAPES




Histórias de um Império

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Arquivo Histórico Regional

Em 7 de setembro de 1822, o Brasil declarava a sua independência de Portugal. Nascia assim o Império do Brasil, sob a regência de D. Pedro, filho de D. João VI, tornando-se D. Pedro I do Brasil. A monarquia e o império perdurariam até 1889, quando a república fora proclamada. deixando para trás uma rica história de um dos períodos mais turbulentos de nossa história. Período de guerras e revoluções, mas também de prosperidade e paz, onde personagens como imperadores, princesas, escravos, índios e imigrantes, vindos de todos os cantos do mundo, principalmente da Europa, coexistiram. 

 

A história desses personagens fora deixada para nós através de várias fontes, como cartas, livros, jornais e documentos. Não apenas a histórias dos imperadores, marechais ou de ricos empresários, mas também do povo comum, como, por exemplo, a do escravo fugido Ignacio, que foi perseguido e morto após uma luta com as forças imperiais, aqui mesmo em Passo Fundo, no dia 1 de dezembro de 1878. Esse fato deveu-se a roubo de gado cometido no município e região. Ignacio teria vindo fugido de São Paulo, após raptar uma moça de nome Emília que, de acordo com o relatório da Assembleia Legislativa de 1879, era filha de uma pobre viúva, tida como “honesta”.


Outro caso seria do imigrante espanhol Thomas Solano que enviou ao vice-cônsul brasileiro na Argentina, através do porto de Uruguaiana, pelo vapor Uruguai em 1879, um caixote contendo, aquilo que foi chamado pelas autoridades de “uma máquina explosiva”, destinada a cometer grandes “estragos”. Porém, devido a um defeito no dispositivo, ela deixou de explodir no momento em que o caixote foi aberto. Solano fora preso, mas, devido a um habeas-corpus, foi solto posteriormente, vindo a desaparecer logo em seguida.


Numa averiguação de situações criminosas, a nobreza também se fez presente. Foi o caso do barão de Ijuhy, preso em 1877, por ter ordenado o ataque a um igreja onde estava sendo realizada a contagem das cédulas eleitorais do pleito primário, no dia 4 de outubro do mesmo ano. De acordo com os documentos, “indivíduos não qualificados, vindos do Estado Oriental, que costumavam a estar aggregados ao bando do barão de Ijuhy.’’, realizaram atos de violência contra as pessoas que ali trabalhavam, resultando na morte de um coronel e no ferimento de vários outros, além da destruição da urna e consequentemente de todas a cédulas eleitorais.


Relatos do período imperial como estes e muitos outros mais, não somente do Rio Grande do Sul mas de todo o Brasil, encontram-se disponíveis para consulta no acervo do Arquivo Histórico Regional (AHR), seção do Império.

 

Jeferson Hensel Zanon
Acadêmico do Curso de História UPF
Estagiário do Arquivo Histórico Regional




Uma história de colonização e (re)ocupação do espaço Sul-Rio-Grandense

Sábado, 01/09/2018 às 06:00, por Arquivo Histórico Regional

O Arquivo Histórico Regional de Passo Fundo disponibiliza em seu acervo uma ampla documentação referente à Secretária de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul, correspondente ao período de 1903 a 1993. Dentre os documentos que compõem este acervo encontram-se os da Comissão de Terra e Colonização de Passo Fundo, composto de cadernos de informações, ofícios, correspondências, circulares, requerimento de títulos, telegramas, registro de concessão de lotes, relatórios, guias de recolhimento de dívida colonial que, entre outros, se referem ao ordenamento agrário do estado.


A Comissão de Terra e Colonização de Passo Fundo teve por objetivo a legitimação de posses, mediação, conservação, demarcação e alienação das terras devolutas do estado. A referida Comissão era subordinada à Diretoria de Terras e Colonização, articulada à Secretaria de Negócios das Obras Públicas do Estado – cada setor possuía suas particularidades e distintas tarefas. Este manancial de materiais serve como fontes de pesquisa para várias áreas do conhecimento. O objeto de estudo do projeto de pesquisa “Práticas político-jurídicas e econômicas no processo de ocupação do espaço e da constituição da sociedade sul brasileira, 1930 a 1990”, coordenado pela Profª Drª Ironita A. Policarpo Machado, do qual as autoras fazem parte como pesquisadoras, busca compreender as implicações da (re)ocupação territorial do norte do estado e, para isso, é necessário contextualizar o momento em que o referido processo surge e se solidifica no Rio Grande do Sul, durante o final do século XIX e início do XX.
Nesse sentido, muitas leis e decretos foram criados para administrar as terras públicas e colonizá-las, desde os tempos do Império até os dias atuais. Um dos exemplos marcantes, pelo ineditismo, foi a lei número 601 de 18 de setembro de 1850, sendo a primeira a falar sobre a questão de ceder títulos ligados a terra para empresas particulares, estabelecimento de colônias nacionais e internacionais, para assim promover a colonização estrangeira, além de ser um modo de fazer com que as terras fossem ocupadas.
No governo de Júlio de Castilhos, primeiro presidente do Rio Grande do Sul após a proclamação da República pelo Partido Republicano Rio-grandense (PRR), uma das preocupações fora a administração das terras públicas do estado, principalmente pensando nas questões de estancar as fraudes e usurpações que estavam ocorrendo no território (Coletânea da legislação das terras públicas do Rio Grande do Sul. Governo do estado do Rio Grande do Sul, Secretaria da Agricultura- Diretoria de Terras e Colonização, 1961: p.24 - Arquivo Histórico Regional-UPF). Para Castilhos o Estado teria a função de dar um tratamento mais sério à questão da terra, bem como regularizar os casos pendentes, a fim de inserir as regiões devolutas no processo de colonização e, por extensão, na economia.


Após um período de pesquisa no acervo do AHR, percebe-se que a Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul teve papel fundamental no processo de colonização, reocupação territorial e capitalização da terra sul-rio-grandense. Esta documentação é de extrema importância para o estudo do mundo rural e à compreensão do processo histórico de (re)ocupação territorial.

 

*Caroline da Silva - Mestranda em História pelo PPGH/UPF
*Milena Moretto e Vitória Comiran - Acadêmicas do curso de História da UPF




O AHR e a Memória Fotográfica: para além das imagens...

Sábado, 11/08/2018 às 06:00, por Arquivo Histórico Regional

No acervo AHR podemos encontrar outros documentos como jornais, sendo seu maior fundo o arquivo do periódico O Nacional, que se estende de 1925 (seu começo) até os dias atuais. Além de periódicos, revistas, livros, processos judiciais, documentos públicos, privados, sociais entre outros. O Arquivo é um espaço de pesquisa e produção de conhecimento para acadêmicos e a comunidade – é nosso centro de memória e história regional, aberto a todos os interessados para consultas gratuitas.


Você sabia que no Arquivo Histórico Regional existe também um rico acervo de fotografias? As fotos são variadas e registram a construção da universidade, paisagens da cidade, eventos, obras que datam a partir do ano de 1900. Os registros são diferenciados, com imagens em preto e branco, coloridas, fotos negativas (mais conhecida como foto filme), digitalizadas, entre outras.


A fotografia, como visualizamos hoje, sofreu um longo processo de desenvolvimento, isto pode ser observado pelo próprio formato delas. A imagem formada pela máquina digital foi possível devido a progressivas descobertas de cientistas que iniciaram em fins de 1800 e início de 1900, e que seguiu até nossos dias com avanços expressivos e também pela democratização de sua produção e consumo. O uso das tecnologias representa o início das composições fotográficas. Ao observar suas características, os cientistas possibilitaram a formação da leitura visual desafiando o que se tinha como mais tradicional, a escrita.


Hoje, a foto faz parte do nosso cotidiano é usado para os mais diferentes objetivos, como lembrança, publicidade, arte e para ser estudada. Aqui procuro relacioná-la para além dos seus usos habituais citados acima, mas sim pelo seu valor cultural e social. A mensagem da imagem representa/expressa costumes e valores, auxiliando na compreensão das relações sociais, econômicas e políticas de dada época. A singularidade está na imagem, seu argumento está no conjunto dos elementos dela.


No campo da História as fotografias, e outras imagens, são trabalhadas em espaços de memórias conhecidos popularmente como Museus, Arquivos Históricos, Igrejas, Patrimônios (construções antigas, reservas naturais) realizando o trabalho de preservação dos documentos com a finalidade do saber, de conhecer o passado via ilustração ou pesquisa. A foto é uma ponte de ligação entre os tempos passado e presente. Como objeto de pesquisa, no momento em que se faz a leitura da imagem, procura-se identificar aspectos e concepções de diferentes grupos sociais. A imagem tem elementos concretos, como indivíduos, ruas, construções, carros, objetos..., que mostram o desenvolvimento da sociedade.


Usamos a fotografia pela sua função mais comum de “congelar o tempo”, ao passo que convido você a utilizá-la também como um registro histórico. No Arquivo a utilizamos pela sua funcionalidade da lembrança, de materialização de fatos. De acordo com as informações que a imagem traz podemos avaliar seu significado no tempo de sua produção. A foto nos fornece informações sobre o momento, a partir dela podemos realizar uma leitura através do tempo. Nos espaços de memória a imagem é centrada na própria questão da lembrança. Aqui, procura-se mostrar este outro lado do documento iconográfico, agora servindo de manancial para a produção do conhecimento histórico. Esta lembrança visualizada nas imagens permite ao observador realizar uma comunicação com seu conteúdo.


A fotografia tem como principal função a do registro no tempo, sendo muito importante a sua ligação com a História. No AHR os fundos iconográficos/imagéticos procuram despertar o interesse pela curiosidade do conhecer. As imagens são carregadas de referências entre seu tempo e seus elementos (pessoas, casa, ruas, construções). O modo pelo qual são vistas nestes espaços possibilita, tanto para os acadêmicos, quanto a própria comunidade a realizar um trabalho de reconhecimento histórico.

 

Luiza Tedesco Castamann
Acadêmica do Curso de História UPF
Estagiária do Arquivo Histórico Regional.




O Antigo Chafariz

Sábado, 28/07/2018 às 06:00, por Arquivo Histórico Regional

Para quem gosta de histórias, aqui vai uma bem bacana sobre Passo Fundo, uma história da época em que quase tudo era terra de Cabo Neves. O mesmo possuía uma escrava chamada Mariana, que tinha um único filho, peralta e arteiro como qualquer criança. O menino era a alegria de sua mãe. Um dia a criança teria fugido deixando sua mãe sozinha, desolada, aos prantos, quando lhe restava apenas uma ultima gota de lágrima, o próprio filho de Nossa Senhora, que entendia muito bem a dor de uma mãe apareceu dizendo que o menino agora encontrava-se junto ao Pai. Disse ainda que pela dor que a mãe Mariana, estava sentindo, ele lhe concederia um pedido. Mariana pediu para ir ao encontro de seu filho, porém, como lembrança, que naquele local nascesse uma fonte de água, para que todos aqueles que bebessem dela, sempre retornassem para àquele lugar. É dessas palavras que teria vindo o ditado “quem bebe das águas da Mãe Preta a Passo Fundo sempre retorna”.


Se é uma história real ou não, não podemos afirmar, porém, na confluência das ruas Uruguai e Dez de Abril, está uma fonte, não a original que ficava quase no meio da rua, com seus tanques de água aonde as escravas durante o dia lavavam as roupas dos seus senhores e à noite abrigava os casais apaixonados que ali se encontravam para namorar. Por volta de 1965 começou a circular pela imprensa local uma discussão sobre a demolição ou não do velho chafariz. Alguns jornalistas defendiam fortemente a permanência do monumento histórico. O ator Delorges Caminha, em apoio à sua manutenção, fez alguns versinhos, expondo seus sentimentos em relação ao chafariz:

“Múcio de Castro, perdoa
Estes versinhos que eu fiz.
Parece uma coisa atoa,
Mas é amor ao chafariz.”...
“Moçada de Passo Fundo,
Onde eu nasci e fui feliz.
Ouvi o apelo profundo...
Salvem nosso Chafariz.”...
“Falta de amor ao passado,
É a prova triste e infeliz.
Não posso ficar calado,
Pois amo esse Chafariz” (...)

 

Já moradores da localidade, queriam a demolição dos tanques, tudo em nome do progresso do bairro. O senhor Vasconcellos em apoio aos moradores também fez alguns versos:
“Dá licença sr. Múcio
Vou mandar umas brasinhas
Em reposta ao grande artista
Ator Delorges Caminha.”
“Está muito aborrecido
Pelo menos é oque diz
Não consente que destruam
O seu velho chafariz.”
“felizmente o Cafruni
Meteu também o nariz
Se é prá o bem do boqueirão
Destruam o Chafariz.”
“Também o ilustre Prefeito
Teve uma idéia feliz
Aproveitamos a fonte
Mas destruam o Chafariz.” (...)

 

Em outubro de 1965 mulheres negras visitaram o então Prefeito de Passo Fundo Mário Menegaz, solicitando que fossem demolidos os tanques, mas que mantivessem a fonte, e que ali fosse feito um busto de uma mulher negra em homenagem a Mãe Preta. O velho chafariz foi destruído, apesar dos prós e contras. Agora em seu lugar existe uma praça com o busto que representa a Mãe Preta, uma placa com a lenda e uma bica d´água insalubre.

 

Acervo AHR
João Vitor da Costa Benedetti
Acadêmico do Curso de História/UPF




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