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Colunistas


Pobre gás de cozinha

Quinta-Feira, 31/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

Depois de dez dias de locaute, ou coisa semelhante, as dificuldades vão se acumulando, ou por outra, a gente percebe problemas. A paralisação espalhou-se pelo sistema rodoviário do país, como rastilho de pólvora. Portos e aeroportos passarem a depender da chama propulsora do transporte rodoviário, inclusive os passos do próprio governo que demorou a tomar atitudes. Mais grave é saber que o governo nem é governo. Temer é pífio! Foi assim que se mostrou. A paralisação é dos motoristas transportadores, mas a paralisia já era a constante governista, principalmente pela falta de credibilidade. De Temer, pouco se esperava e não deu outra: não saiu nada! Há mais de uma semana estamos vendo carências como fraturas expostas na força de trabalho e produção do país. São tantos os problemas, desde o diesel e gasolina, até o escandaloso custo do gás de cozinha. Esse preço vem pesando demais há mais tempo, mas é problema de pobre, que não possui frota de caminhões. Por isso ficou esquecido, o pobre botijão de gás, necessário e imprescindível para fazer a comida em todos os ranchos. Isso mesmo, pouco se falou do preço absurdo do gás de cozinha.

 

Vermelhos na mira
Impressionantes são as elucubrações sobre as causas da crise brasileiras. A polícia secreta descobriu que havia interesse paredista de empresários, para lucrar em cima da força trabalhadora. Para tanto não precisava investigar, pois sempre será assim, com interesses manipuladores. O mais curioso, no entanto, ressurge das mentes iluminadas aristocráticas que temem a invasão comunista. Se for rubente é indigitado como subversivo. A aporia de alguns observadores fundamentalistas do ódio apontou infiltração comunista na greve. De tantas suspeitas resolvi olhar pela janela. E fiquei perplexo. Contei, na manifestação de motos e caminhões, muitos vermelhos, “comunistas”, portanto. Quase liguei para o Geddel, o deputado Cunha, Padilha e outros caçadores de comunistas para algemar os caminhões vermelhos infiltrados! Então, se você enxergar um veículo vermelho no acostamento, cuidado! Comunismo! Essa paranóia parece não ter fim.

Inevitável
Diante da súbita mobilização no Brasil inteiro e o esperado rescaldo com algumas medidas governamentais, pouco claras, seria ingenuidade demais esperar que se encerrasse completa e monolítica. As citadas e inevitáveis infiltrações são hipóteses muito prováveis e toleráveis.

 

Governo bandido
Insistir, no entanto, que estamos diante de uma intentona comunista pelas infiltrações é inadmissível. Cegueira demais. O povo vinha aplaudindo os caminhoneiros por muitas e muitas razões de decepção e justificada rebeldia. A burguesia inerte, no entanto, prefere tapar os ouvidos ao clamor do povo que sofre. Retorna ao torpor social pedindo a volta da ditadura militar. É a forma fingida de calar a necessidade de nova consciência política. Para isso os fundamentalistas liberais lançam mãos dos meios odiosos sacramentando elucubrações do tal perigo comunista. As manifestações dos que se dizem esquerdistas são rechaçadas por uma fala retrógrada e pusilânime, clamando por intervenção militar. Isso nem os militares mais conseqüentes admitem, principalmente os que conhecem os momentos de bárbara exceção, verdadeiro banditismo oficial do século passado. Isso merece ser rejeitado como argumento, embora a memória seja um alerta. É absurdo defender uma ditadura em vez de enfrentar democraticamente o alvoroço dos inconformados com o desemprego que degrada as relações. Desprezar a soberania igualitária das urnas e pedir o emprego de força arbitrária é atentar contra a liberdade.

 

Punidade
Nelson Meurer, PP, é o primeiro parlamentar condenado pela Lava Jato. O fato mostra que combate à corrupção não parou no presidente Lula.

 

Caiado
O senador Ronaldo Caiado, DEM, foi à tribuna e apregoou a renúncia de Temer para antecipar pleito presidencial.

 

Perdidos
O país parou e desafiou teses de dominação, quando uma única categoria transportadora mobilizou-se. O Brasil é um gigante que não investe em transporte alternativo e coletivo. O sistema rodoviário, especialmente o automóvel, esgotou-se, por ser individualista. Sem mudança estamos perdidos.




Voz afro na corte inglesa

Quinta-Feira, 24/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

A solenidade de casamento do príncipe Harry com a modelo Meghan teve significado inelutável, além da de todos os charmes cinematográficos da Corte Inglesa. Referimo-nos à importância cerimonial deferido à presença de representantes negros, desde a mãe da noiva, o arcebispo de Canterbury, ou o Coral de descendentes africanos, da Inglaterra. Alguém pode ter se surpreendido com o trepidante cenário bretão, povoado pela importância da cor negra, em vozes ou manifestação religiosa, ou a interpretação magistral do violoncelista negro Sheku Kanneh Hason, 19 anos. Certamente quem queria assistir babaquice viu perplexo que o respeito e o valor humano podem coexistir nas cortes da alta nobreza. E assim foi. Sabe-se que a história da Inglaterra teve momentos bem diferentes, nos últimos séculos. No primeiro momento apoiou a escravidão negra e dela se aproveitou para erigir o grande império anglicano. Depois, a participação no combate ao tráfico de escravos e a severa vigilância nos mares.

 

Sinal dos tempos
Os rituais de Windsor por certo não apagarão os séculos de dominação e soberba nas colônias em todos os quadrantes do continente. Observa-se, no entanto, um gesto de reflexão em Londres descortinando uma aurora do pensamento com o respeito fraterno. O casal da família Real causou a maior sacudida na sociedade elitizada.

 

Meurer
Após 23 anos como parlamentar, o deputado Nelson Meurer, PP, poderá ser condenado pelo STF, que volta a reunir-se na próxima terça-feira. É o primeiro julgamento na suprema corte de réu da Lava Jato.

 

Mensalão tucano
Depois de vinte anos o ex-governador tucano Eduardo Azeredo é condenado em segunda instância a 20 anos e 1 mês de cadeia por corrupção. Como se vê, o Brasil já era viciado em falcatrua política há muito tempo. A condenação surpreendeu tucanos que apostavam na prescrição. No PSDB surgiram os vovôs da propina moderna. Tem-se a impressão que a condenação de Lula abriu as portas da punição para o crime organizado no poder. É certo que muitos vão escapar, mas muitos serão punidos.

 

Alberto Dines
A morte do inspiradíssimo jornalista Alberto Dines marca uma época de busca pela verdade na imprensa Brasileira. Sua verve retumbante preservou cristalinamente a idéia do jornalismo escrito e televisivo, no tom sempre profundo e elevado. Nunca lhe faltou o saber de enorme talento. Deixa-nos aos 86 anos com a imagem de lutador intimorato em favor da liberdade de expressão.


Henrique Meirelles
Em matéria eleitoral não dá pra subestimar a força de uma candidatura. Embora pareça um escrúpulo no sapato da oposição, Henrique Meirelles lançado candidato do MDB é do poder e tem o partido mais forte. Bolsonaro terá que enfrentá-lo.

Tarso em documentário
A memória em produção cinematográfica de Tarso de Castro é documentário sobre trajetória de enorme apreço para cultura jornalística. Enfrentou duras jornadas que podem ficar despercebidas no seu estilo sarcástico e bem humorado, mas de forte ousadia desmistificadora. Talento invejável que semeou coragem invulgar ao desmistificar o poder arbitrário. A obra certamente merece ser conhecida no mundo.

Ricordi D’Itália
A semana que passou teve duas apresentações primorosas do Coral Ricordi D’Itália de Passo Fundo. Uma delas no hotel de Machadinho, com amplo repertório. No sábado o encontro de coros de música italiana no município de Protásio Alves. São três décadas de atividades artísticas e culturais, de um grupo voluntarioso liderado Glaci Bortolini, os mestres Teresinha Fortes, David Reginatto, a pianista Márcia Oltramari e o acordeonista Miguel Pereira.

Pedofilia
A Igreja Católica debate-se diante dos casos de pedofilia na sociedade clerical. O importante é dar transparência e combate a esta desfiguração de caráter de uma minoria. É bom esclarecer que essa deformação nada tem a ver com o celibato, que é considerado dom de se manter solteiro na vida religiosa. Não manter o celibato não é crime. Pedofilia é perversão, combatida pela humanidade, o Papa e toda a Igreja.




Ensino arma o povo

Quinta-Feira, 17/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

A atriz Fernanda Torres, expressão de arte e inteligência social, vê a dificuldade crescente diante do empobrecimento geral das famílias. Aumenta a enorme fenda terrestre das diferenças em função da má distribuição e redistribuição de recursos. A musculatura da força de trabalho parece enfrentar uma gangrena de fluxo que vai da economia doméstica à pequena empresa de produção e comércio. Os empresários sobreviventes são pressionados à redução de atividades e sumária restrição aos segmentos que demandam mão de obra. A economia da China, que alimenta meio bilhão de pessoas, vem tratando isso numa visão macro há longo tempo. Sem outras ilusões ou críticas, a política, mesmo com peculiaridades sobre o sistema democrático monopolizador do Partido comunista vai além do discurso mentiroso do ocidente e cumpre o papel educacional. A decantada prioridade da educação está mais nos palanques pré-eleitorais do que na prática em nosso país. Isso implica diretamente no destino libertário da população brasileira. A educação, como outros primados da nação, não resolve “ipso facto” o abismo das diferenças, mas é a ponte mais segura para essa inelutável proposta da seriedade política. A estrutura de ensino instalada no Brasil não pode estagnar, muito menos regredir, como se observa.

 

Submissão

O comando aristocrático organizou a manutenção, tomada e retomada oligárquica, opondo-se diretamente ao aprimoramento pessoal da classe subalterna. Esse pensamento de obstrução ao desenvolvimento da capacidade das pessoas revelou-se numa das premissas: manter escravos, filhos de escravos e empregados em geral, fora do ambiente escolar. Mesmo após abolição, os projetos de colonização, como na Amazônia dificultavam ao máximo o funcionamento de escolas, mesmo as de alfabetização. Dar menos importância ao processo de aprendizado, eles sabem disso, dificulta a emancipação.




Séculos de terror

Quinta-Feira, 10/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

É preciso compreender que a extrema perversidade da escravidão teve seu grau de lesividade histórica abrangendo a consciência social, cívica e religiosa de nosso país. Ainda em 1534, para colonizar o Brasil, D. João III concedeu regalias aos apaniguados das capitanias com poder de fazer cativos e explorá-los de todas as formas. A força de trabalho do escravo foi lançada ao precito por três séculos de gerações de amargura. O estupendo martírio que sufocava negros e nativos vítimas dos horrores teve também expressões de rebeldia, embora sufocados pela narrativa cruel dos poderosos. As buscas históricas da literatura vêm acrescentando heróis de ação e pensamento. Eles descendem do sangue redentor de Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio (o Tigre da Abolição), Castro Alves e tantos revoltosos contra a tirania.

 

O trabalho Coletivo
Até pouco mais de um século, a denominada civilização agrícola que se iniciava, decepcionava os que só acreditavam no trabalho escravo. “O Brasil não parou a 13 de maio. Ao contrário, foi nesta data que o trabalho coletivo começou”, como define Osvaldo Orico. Entenda-se que, além da libertação oficializada dos escravos, inseria-se no rol de produção também o branco que pensava ser livre, mas preso na própria inércia. A escravidão atrelou conceitos absurdos. Uma dessas aberrações é de que quem deveria trabalhar era o escravo, como ser inferior. Com isso, apodreceu a capacidade criativa da geração brasileira. A afasia ao desenvolvimento retardou a coragem dos cidadãos que não aprenderam a produzir por ojeriza ao trabalho. Isso também cravou descrença que só favorece a minoria do poder que sonega condições ao desenvolvimento dos mais pobres. “Um furacão varreu o Brasil entre 8 e 13 de maio de 1888. Não chegou de repente. Era previsível” diz Juremir Machado da Silva, em Raízes do Conservadorismo Brasileiro. Por essa e tantas o processo ético de respeito ao ser humano, pela força de trabalho (e inteligência) precisa evoluir. Só o escandir da luta heróica dos próprios escravos, almas resistentes, e pensadores de várias matizes explica melhor a grande importância do 13 de maio.

 

Dama e o cão
O episódio trazido a público sobre a punição da servidora que não ajudou a primeira dama Marcela Temer a retirar o cão Piculy que caiu no lago, nem merece comentário. Nem a funcionária teria alegado direito de defesa.
Geddel
O ex-ministro de Temer, Geddel Vieira Lima, deve ser um tipo de personalidade estimulada pela moral do poder deturpado, fortemente firmado no período de escravidão. Essa dinastia do mal vem revestida do completo desprezo ao ser humano. Certamente levita, sem embargo, no conceito de Paracelso “mundus vult decipi, ergo decipiatur” (o mundo quer ser enganado, pois que o seja). O conceito nutre oligarquias como esta impregnada no sistema brasileiro. A frase, aliás, seria também atribuída a Caraffa, que se tornou o Papa Paulo IV!

 

Uso compartilhado

Pareceu-nos valiosa a abordagem da mestra em direito, Flora Regina Camargo Ferreira, sobre áreas do Exército. Ela é capitão do exército. Teve a coragem e escreveu sobre áreas de treinamento ou reservas militares. Avalia como importante o zelo ambiental dessas terras, além do uso do patrimônio para treinamento, segurança nacional, defesa e soberania. O detalhe é a ênfase ao uso compartilhado, uma vez constatadas invasões por população ribeirinha que busca subsistência. Em levantamentos de glebas surgiram também invasores de elite, favorecidos não se sabe por quem, instalando mansões de lazer particular. Não se tem dúvida, esses casos serão resolvidos.

 

A mãe
Um dos versos mais densos e prenhes de esperança, embora seu estigma condoreiro, foi escrito pelo poeta Castro Alves: “ Lá nas areias infindas, /Das palmeiras no país,/ Nasceram – crianças lindas, / Nasceram moças gentis...”

 

Mães
Precisamos de mães que governem o mundo!




A fome cresce

Quinta-Feira, 26/04/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

A comida é bem perecível, por natureza, mas a pendência econômica mais radical em relação ao direito à vida. A saga instintiva da sobrevivência ao deparar-se com a pobreza extrema altera tanto, mas tanto, a pulsação dos estímulos ao ponto de se tornar um novo estado de ânimo. O estado famélico, como fase individualizado da pobreza e miséria, transforma totalmente o ser humano, como acontece em todo o reino animal. Assim que, é melhor prestarmos atenção nos efeitos imponderáveis da fome que faz roncar a barriga e sobrecarrega o cérebro como um circuito de alterações sintomáticas. O conceito seletivo de atitudes, para o ser humano faminto cria novos parâmetros de cunho moral e estético. Sendo urgente e imediato o desejo de saciar a fome, surge alucinante visão dos preceitos, desprezando aparências e facetas que diferenciam o ser racional, tornando mais forte o estímulo originário de sustentação. Corpo e alma sentem as mesmas dores da carência. Mesmo heroicamente suportável, a falta de alimento do homem chega a um limite de suas resistências de autoestima, subjugando verdades. Nesta escala o abalo pode ser catastrófico entre o momento em que vasculha a lata de lixo para saciar a fome e o estertor de nada encontrar nem mesmo no lixo. Fala-se numa situação dramática, não com mero apelo retórico, mas pela realidade assustadora que aflige centenas e milhares de pessoas das periferias do Rio de Janeiro e São Paulo. Assistimos uma reportagem dolorosa que mostrou o retrato dessa fome extrema, em carne viva, na TV Record. A imoralidade da fome, seqüela do desemprego, arde nas favelas. E esta dor que mata (primeiro a alma) e o sonho de viver minimamente, infelizmente cresce. E vem de longe, das diferenças sociais, do crime organizado, da vilania em opulência e toda a corrupção.

 

Incompreensível
Embora as carências sociais venham numa escalada perigosa há algum tempo, essa injustiça abominável não a vemos por inteiro, tão próxima de nós. Mães dos grandes centros ainda se socorrem no desvelo de percorrer mercados, restaurantes e depósitos de frutas ou legumes, em busca de sobras para seus filhos. E ainda ouvimos ameaças de desativar programas sociais de ajuda alimentar a famílias miseráveis. Para estes, os cães são mais nobres.

 

Encarcerados
A estimativa revelada na reportagem é de que são dez milhões de pessoas famintas no país (dois milhões no Rio). É o turbilhão de desamparados que sobrevivem implacavelmente encarcerados pela falta de comida. Não há foro privilegiado.

 

Progressistas
As reiteradas acusações e prisões de líderes políticos que se concentram no PP, agora Progressistas, geram a grande perplexidade. Com a PF na cola, essa sucessão partidária aponta crescimento espantoso no Parlamento. O Progressistas é a terceira bancada do Congresso, a que mais cresceu e tem 50 deputados.

 

Mensalão Tucano
A confirmação em segunda instância da condenação do tucano Eduardo Azeredo, é histórica (desde 1998) - a versão avoenga da corrupção.


Errata
Na última coluna citamos preceito sobre o caráter inaceitável quando a alegação envolve a própria torpeza. Erramos, no entanto, ao dizer “auditor”. A expressão correta é “Nemo auditur propriam turpitudinem allegans” - versão latina que significa “ninguém pode ser ouvido alegando a própria torpeza”.

 

Uma luz
Há pouco mais de um ano li a obra publicada por Elizabeth Souza Ferreira, Uma Luz em Terras Africanas, baseada no diário de Emília Welter. Trata-se da missão estremada da religiosa Emília, que partiu de Passo Fundo para atuar na África, Moçambique. Nesta semana não resisti ao apelo que ficou crepitando, diante das narrativas do diário. A linguagem simples e clara da irmã sexagenária levou-nos a reviver a importância da vida inteiramente dedicada ao povo sofrido da África. A diferença de costumes, a diversidade, pobreza extrema, ignorância, doenças - como malária e cólera, são feridas que podem ser tratadas com o amor e sublime dedicação. Obra valiosa e universal que revela o grande milagre da solidariedade humana.




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