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Colunistas


Ensino arma o povo

Quinta-Feira, 17/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

A atriz Fernanda Torres, expressão de arte e inteligência social, vê a dificuldade crescente diante do empobrecimento geral das famílias. Aumenta a enorme fenda terrestre das diferenças em função da má distribuição e redistribuição de recursos. A musculatura da força de trabalho parece enfrentar uma gangrena de fluxo que vai da economia doméstica à pequena empresa de produção e comércio. Os empresários sobreviventes são pressionados à redução de atividades e sumária restrição aos segmentos que demandam mão de obra. A economia da China, que alimenta meio bilhão de pessoas, vem tratando isso numa visão macro há longo tempo. Sem outras ilusões ou críticas, a política, mesmo com peculiaridades sobre o sistema democrático monopolizador do Partido comunista vai além do discurso mentiroso do ocidente e cumpre o papel educacional. A decantada prioridade da educação está mais nos palanques pré-eleitorais do que na prática em nosso país. Isso implica diretamente no destino libertário da população brasileira. A educação, como outros primados da nação, não resolve “ipso facto” o abismo das diferenças, mas é a ponte mais segura para essa inelutável proposta da seriedade política. A estrutura de ensino instalada no Brasil não pode estagnar, muito menos regredir, como se observa.

 

Submissão

O comando aristocrático organizou a manutenção, tomada e retomada oligárquica, opondo-se diretamente ao aprimoramento pessoal da classe subalterna. Esse pensamento de obstrução ao desenvolvimento da capacidade das pessoas revelou-se numa das premissas: manter escravos, filhos de escravos e empregados em geral, fora do ambiente escolar. Mesmo após abolição, os projetos de colonização, como na Amazônia dificultavam ao máximo o funcionamento de escolas, mesmo as de alfabetização. Dar menos importância ao processo de aprendizado, eles sabem disso, dificulta a emancipação.




Séculos de terror

Quinta-Feira, 10/05/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

É preciso compreender que a extrema perversidade da escravidão teve seu grau de lesividade histórica abrangendo a consciência social, cívica e religiosa de nosso país. Ainda em 1534, para colonizar o Brasil, D. João III concedeu regalias aos apaniguados das capitanias com poder de fazer cativos e explorá-los de todas as formas. A força de trabalho do escravo foi lançada ao precito por três séculos de gerações de amargura. O estupendo martírio que sufocava negros e nativos vítimas dos horrores teve também expressões de rebeldia, embora sufocados pela narrativa cruel dos poderosos. As buscas históricas da literatura vêm acrescentando heróis de ação e pensamento. Eles descendem do sangue redentor de Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio (o Tigre da Abolição), Castro Alves e tantos revoltosos contra a tirania.

 

O trabalho Coletivo
Até pouco mais de um século, a denominada civilização agrícola que se iniciava, decepcionava os que só acreditavam no trabalho escravo. “O Brasil não parou a 13 de maio. Ao contrário, foi nesta data que o trabalho coletivo começou”, como define Osvaldo Orico. Entenda-se que, além da libertação oficializada dos escravos, inseria-se no rol de produção também o branco que pensava ser livre, mas preso na própria inércia. A escravidão atrelou conceitos absurdos. Uma dessas aberrações é de que quem deveria trabalhar era o escravo, como ser inferior. Com isso, apodreceu a capacidade criativa da geração brasileira. A afasia ao desenvolvimento retardou a coragem dos cidadãos que não aprenderam a produzir por ojeriza ao trabalho. Isso também cravou descrença que só favorece a minoria do poder que sonega condições ao desenvolvimento dos mais pobres. “Um furacão varreu o Brasil entre 8 e 13 de maio de 1888. Não chegou de repente. Era previsível” diz Juremir Machado da Silva, em Raízes do Conservadorismo Brasileiro. Por essa e tantas o processo ético de respeito ao ser humano, pela força de trabalho (e inteligência) precisa evoluir. Só o escandir da luta heróica dos próprios escravos, almas resistentes, e pensadores de várias matizes explica melhor a grande importância do 13 de maio.

 

Dama e o cão
O episódio trazido a público sobre a punição da servidora que não ajudou a primeira dama Marcela Temer a retirar o cão Piculy que caiu no lago, nem merece comentário. Nem a funcionária teria alegado direito de defesa.
Geddel
O ex-ministro de Temer, Geddel Vieira Lima, deve ser um tipo de personalidade estimulada pela moral do poder deturpado, fortemente firmado no período de escravidão. Essa dinastia do mal vem revestida do completo desprezo ao ser humano. Certamente levita, sem embargo, no conceito de Paracelso “mundus vult decipi, ergo decipiatur” (o mundo quer ser enganado, pois que o seja). O conceito nutre oligarquias como esta impregnada no sistema brasileiro. A frase, aliás, seria também atribuída a Caraffa, que se tornou o Papa Paulo IV!

 

Uso compartilhado

Pareceu-nos valiosa a abordagem da mestra em direito, Flora Regina Camargo Ferreira, sobre áreas do Exército. Ela é capitão do exército. Teve a coragem e escreveu sobre áreas de treinamento ou reservas militares. Avalia como importante o zelo ambiental dessas terras, além do uso do patrimônio para treinamento, segurança nacional, defesa e soberania. O detalhe é a ênfase ao uso compartilhado, uma vez constatadas invasões por população ribeirinha que busca subsistência. Em levantamentos de glebas surgiram também invasores de elite, favorecidos não se sabe por quem, instalando mansões de lazer particular. Não se tem dúvida, esses casos serão resolvidos.

 

A mãe
Um dos versos mais densos e prenhes de esperança, embora seu estigma condoreiro, foi escrito pelo poeta Castro Alves: “ Lá nas areias infindas, /Das palmeiras no país,/ Nasceram – crianças lindas, / Nasceram moças gentis...”

 

Mães
Precisamos de mães que governem o mundo!




A fome cresce

Quinta-Feira, 26/04/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

A comida é bem perecível, por natureza, mas a pendência econômica mais radical em relação ao direito à vida. A saga instintiva da sobrevivência ao deparar-se com a pobreza extrema altera tanto, mas tanto, a pulsação dos estímulos ao ponto de se tornar um novo estado de ânimo. O estado famélico, como fase individualizado da pobreza e miséria, transforma totalmente o ser humano, como acontece em todo o reino animal. Assim que, é melhor prestarmos atenção nos efeitos imponderáveis da fome que faz roncar a barriga e sobrecarrega o cérebro como um circuito de alterações sintomáticas. O conceito seletivo de atitudes, para o ser humano faminto cria novos parâmetros de cunho moral e estético. Sendo urgente e imediato o desejo de saciar a fome, surge alucinante visão dos preceitos, desprezando aparências e facetas que diferenciam o ser racional, tornando mais forte o estímulo originário de sustentação. Corpo e alma sentem as mesmas dores da carência. Mesmo heroicamente suportável, a falta de alimento do homem chega a um limite de suas resistências de autoestima, subjugando verdades. Nesta escala o abalo pode ser catastrófico entre o momento em que vasculha a lata de lixo para saciar a fome e o estertor de nada encontrar nem mesmo no lixo. Fala-se numa situação dramática, não com mero apelo retórico, mas pela realidade assustadora que aflige centenas e milhares de pessoas das periferias do Rio de Janeiro e São Paulo. Assistimos uma reportagem dolorosa que mostrou o retrato dessa fome extrema, em carne viva, na TV Record. A imoralidade da fome, seqüela do desemprego, arde nas favelas. E esta dor que mata (primeiro a alma) e o sonho de viver minimamente, infelizmente cresce. E vem de longe, das diferenças sociais, do crime organizado, da vilania em opulência e toda a corrupção.

 

Incompreensível
Embora as carências sociais venham numa escalada perigosa há algum tempo, essa injustiça abominável não a vemos por inteiro, tão próxima de nós. Mães dos grandes centros ainda se socorrem no desvelo de percorrer mercados, restaurantes e depósitos de frutas ou legumes, em busca de sobras para seus filhos. E ainda ouvimos ameaças de desativar programas sociais de ajuda alimentar a famílias miseráveis. Para estes, os cães são mais nobres.

 

Encarcerados
A estimativa revelada na reportagem é de que são dez milhões de pessoas famintas no país (dois milhões no Rio). É o turbilhão de desamparados que sobrevivem implacavelmente encarcerados pela falta de comida. Não há foro privilegiado.

 

Progressistas
As reiteradas acusações e prisões de líderes políticos que se concentram no PP, agora Progressistas, geram a grande perplexidade. Com a PF na cola, essa sucessão partidária aponta crescimento espantoso no Parlamento. O Progressistas é a terceira bancada do Congresso, a que mais cresceu e tem 50 deputados.

 

Mensalão Tucano
A confirmação em segunda instância da condenação do tucano Eduardo Azeredo, é histórica (desde 1998) - a versão avoenga da corrupção.


Errata
Na última coluna citamos preceito sobre o caráter inaceitável quando a alegação envolve a própria torpeza. Erramos, no entanto, ao dizer “auditor”. A expressão correta é “Nemo auditur propriam turpitudinem allegans” - versão latina que significa “ninguém pode ser ouvido alegando a própria torpeza”.

 

Uma luz
Há pouco mais de um ano li a obra publicada por Elizabeth Souza Ferreira, Uma Luz em Terras Africanas, baseada no diário de Emília Welter. Trata-se da missão estremada da religiosa Emília, que partiu de Passo Fundo para atuar na África, Moçambique. Nesta semana não resisti ao apelo que ficou crepitando, diante das narrativas do diário. A linguagem simples e clara da irmã sexagenária levou-nos a reviver a importância da vida inteiramente dedicada ao povo sofrido da África. A diferença de costumes, a diversidade, pobreza extrema, ignorância, doenças - como malária e cólera, são feridas que podem ser tratadas com o amor e sublime dedicação. Obra valiosa e universal que revela o grande milagre da solidariedade humana.




Efeito Lula

Quinta-Feira, 19/04/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

O silêncio dos fanáticos seguidores de líderes tucanos atolados na trama de corrupção é sintomático, após aceitação da denúncia contra Aécio Neves. A prisão do ex-presidente Lula, consumada pelo regular procedimento judicial, traumatizou aliados e liderados. O efeito punitivo começa a preocupar também as hostes dos que exacerbaram o clamor que pressionou o líder petista. A grande cortina de fumaça que apontava como solução absoluta contra a corrupção parece diluir-se no vale das sombras onde repousavam especialmente líderes do MDB, PP e PSDB e outros. O efeito da consumada prisão de Lula é a ponta do tapete que começa a ser erguido. O jogo de acusações não pode abrandar a gravidade do cenário devastador do crime organizado. A culpa de adversários em atos criminosos contra a nação brasileira não pode ser alegada como desculpa. Memorizei a citação do mestre Juarez Azevedo, sabida nas lides forenses, “Nemo auditor propriam turpitudinem allegans” (ninguém pode alegar a própria torpeza em seu favor). Os partidos coligados em algum momento, os delatores criminosos, enfim, essa tétrica confraria da fraude, não pode aliar-se para um favorecimento de conluio. A briga entre facções que atuaram ao bel prazer das oligarquias impregnadas no poder político pode ser producente para revelar verdades. Mas, se todos roubavam, e alguns ainda roubam? Isso chegou a ser cogitado como recorrência relativista. É hora do basta à condescendência aos que mutilaram impiedosamente programas sociais, saúde, educação, habitação ou merenda escolar. Não só judicialmente, mas também socialmente nenhum ato torpe pode justificar inocência dos corruptos e corruptores. E, a justiça, é essa que temos.

 

O momento
Não são raras as manifestações dos que concordam com a punição de todos os que mereceram condenação, inclusive tratando-se de partidários. Esse ódio absurdo e incentivado por fanáticos não é tudo. Há esperança de que o momento seja assumido pela necessidade implacável de decência mínima.

 

Plutocracia
A palavra tem significado mais grave do que se possa imaginar. “Ploutos”, de grego, é riqueza, e “kratos” é poder. É quando o poder e o dinheiro subjugam a ética, o respeito humano. É bom lembrar que estamos diante de situação inédita na secular história do Brasil, em que a polícia chega ao fabuloso mundo criminoso do colarinho branco. A luta é muito difícil para quem não tem dinheiro e poder, mas são estes que devem tomar atitude, agora.

 

Aposentadoria
A pressão econômica global vem obrigando as nações à adoção de modelos de aposentadoria privada. Os grandes grupos financeiros estão aproveitando mais este imperativo cada vez mais óbvio, com o rombo da previdência pública. Caminho difícil!


Escombros
É pesado ver a destruição no Rio de Janeiro, causada pela corrupção no governo. Ver imagens dos Cieps dilapidados pela falta de cuidados é triste. Os escombros são muito semelhantes à devastação da guerra.

 

Torres
O arquivamento do processo contra o senador Demóstenes Torres mostra antagonismo punitivo. Cassado pelo Senado, volta a gozar de direitos eleitorais. Isso mostra que uma acusação criminal, no judiciário, depende de formalização perfeita, principalmente contra poderosos. As principais provas foram anuladas por não estarem de acordo com normas processuais. Muitas artimanhas vão surpreender a opinião pública.

 

Retoques:
Gilmar Mendes, Tofolli e Levandowski, são os ministros que absolveram Demóstenes Torres.
A Arábia Saudita abre o primeiro cinema. É novidade muito interessante, em especial para a população jovem.
Faço dois registros sociais. Marina Rodrigues Meneghini recebeu a carteira de advogada, na semana passada na OAB de Passo Fundo. Estive presente na solenidade, feliz pela conquista da jovem sobrinha.
Amigo de muitos momentos, o advogado e mestre em direito, Júlio César Pacheco, completa 50 anos. Tem uma carreira repleta da conquistas, iniciada no jornalismo. Júlio é referência na advocacia e firme dedicação ao conhecimento. Vida longa!




Oligarquias organizadas

Quinta-Feira, 12/04/2018 às 06:00, por Celestino Meneghini

O domínio do poder teve seu momento mais intenso, da forma oligárquica, ao influenciar o governo a partir da proclamação da República em 1889. A articulação implacável ocorreu em seqüência à abolição legal da escravidão. Os monopólios de produção, concentrados no processo de enriquecimento com base na exploração do trabalho escravo, fortaleceram-se nas mãos dos fazendeiros e latifundiários. A mentalidade de dominação da força de trabalho, com exploração, estendeu-se aos brancos, além da submissão aos negros libertos marcados pelas graves seqüelas do constrangimento secular. Uma vez criminalizada a escravidão e tortura física, o poder financeiro gerou o frenético período oligárquico implantado nos governos a partir de Prudente de Morais (1894-1898). Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, (até 1909) foram bancados por sistema eleitoral espúrio sob a égide das oligarquias. De Nilo Peçanha a Washington Luís o domínio do poder político seguiu estratégias semelhantes. A mentalidade escravista mantinha-se em novos moldes, impregnando dominação inclusive na era Vargas. Oligarquia (oligarkhia) é termo que deriva do grego e literalmente significa “governo de poucos”.

 

Rebeldia
Antes de pular para o momento atual, lembramos que houve movimentos questionadores à oligarquia estabelecida. Guerra dos Canudos, Revolta da Chibata, Guerra do Contestado, Revolta da Vacina, Coluna Prestes e outras erupções de descontentamento, opunham-se à hegemonia perversa. Há um rasto de luta e sangue em nossa história.

 

Corrupção sistêmica
O ministro Luiz Roberto Barroso, entre outros, reportou-se ao nosso estado atual na corrupção sistêmica. As garras do crime organizado mostraram a escalada no Brasil de potências que se fortaleceram à sombra do poder político. São tentáculos estarrecedores. As entranhas dos poderes e instituições foram invadidas pela ação organizada, dissimulada, nos átrios da República. A lesão desse sistema voraz e avassalador fez eclodir a Operação Lava Jato. A contaminação parece infinita, sabendo-se que nem todas as mazelas do assalto aos cofres públicos serão sequer reveladas. A polícia chegou à aristocracia podre. Esta além de tudo, um péssimo exemplo para os pobres e excluídos.

 

Lula na cadeia
O governo do PT, sob a liderança de Lula, alimentou a versão que presumia consolidar um poder dirigido a novos rumos. Apostou errado ao nutrir fortalezas manipuladas pelo controle central oligárquico. Lideranças do Congresso foram alimentadas pela corrupção. Quando a ação da Polícia Federal começou o desmonte da quadrilha que assaltou poder público, só a leda ingenuidade poderia esperar parcimônia de partidos políticos adversários, que se esbaldaram no roubo. Lula foi condenado por ato ilícito e está preso por decisão judicial em processo formalizado. Sofreu o massacre de opositores, mesmo os envergonhados por que estão atolados no crime de corrupção. Objetivamente, Lula condenado é assunto para a 12ª Vara de Execuções Criminais.

 

Efeitos
Uma visão esperançosas, em meio ao maniqueísmo, ou ódio partidário, é de que se fortaleça a urgência (inadiável) de prosseguir com a punição dos demais responsáveis pelo desastre da corrupção. Restabelecer maior equilíbrio entre o poder da oligarquia econômica é a condição “sine qua non”, para que o país evolua. E tem mais, se não evoluir cairá no abismo. O poder, especialmente o executivo e legislativo, ainda está na mão de inescrupulosos. Se o Brasil colocar toda sua criminalidade ainda viva e implacável, debaixo do tapete, fica impossível a paz social.

 

Obliteração
Nesta hora é preciso recorrer à advertência de Jorge Salton, em seu livro O Maniqueísmo em nossas Vidas. O princípio de Mani, no antagonismo – bem absoluto e o mal absoluto, gera distorção. Nessa concepção há uma base de “reducionismo, revanchismo, a generalização, a dogmatização, forma de pensar que, a partir de uma suspeita qualquer já salta para uma conclusão, ausência de autocrítica, inexistência de empatia e a necessidade de inimigos”. Admitir a idéia de que a prisão de Lula resolve o descalabro da corrupção é irremediável erro. O maniqueísmo produz obliteração, fundamentalismo do ódio e deturpa eventuais razões.




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