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Colunistas


“Cultivar e guardar a criação”

Sábado, 25/03/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A Campanha da Fraternidade 2017 trata dos biomas brasileiros e convida para a sua defesa. O estudo dos biomas envolve várias ciências e deve ser abordado de diferentes pontos de vista. A presente reflexão tem como referência a Sagrada Escritura. Não encontramos nela uma reflexão direta sobre biomas. Contudo, ela oferece muitos elementos que iluminam a temática da ecologia.

 

A fé judaico-cristã sustenta que o mundo foi desejado e criado por Deus. Inclusive, a criação é apresentada em dois textos diferentes nos quais progressivamente vão se organizando os elementos constitutivos da natureza até a conclusão do cosmos. “Assim, a Bíblia afirma que nenhum ser existe isoladamente, todos estão relacionados como partes de um plano no qual, de certa forma, uns dependem dos outros e o ser humano possui o papel de ser o guarda desta obra criada” (Texto Base da Campanha da Fraternidade nº 228).

 

Esta compreensão da interdependência de todos os seres vivos, apresentada na Bíblia numa ótica de fé, hoje, por meio de outras ciências, afirma-se o mesmo. Não é possível isolar qualquer ser vivo ou destruir qualquer bioma que não resulte em desequilíbrios e morte. A parte está ligada ao todo e o todo à parte. É uma estrutura de vida.

 

Na teologia da criação está clara a existência de uma harmonia entre as criaturas. O ambiente é descrito como jardim por causa da sua beleza, das frutas e das criaturas. Harmonia que ocorre na relação do homem com Deus, com a obra criada e com as outras pessoas. O texto bíblico apresenta de forma poética a relação próxima da criatura com o criador, afirmando que o “Senhor Deus passeava pelo jardim à brisa da tarde” (Gênesis 3,8). Também, apresenta a expressão de alegria do homem ao se encontrar com alguém igual a ele: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (Gn 2, 23).

 

Diversas passagens bíblicas ressaltam que a criação está repleta de maravilhas que ultrapassam o conhecimento humano. Conhecemos muito mais agora, mas ainda não conhecemos tudo. Causa admiração tanto o que é conhecido, quanto aquilo que é desconhecido. Diante daquilo que é belo, o convite é para manifestar-se em forma de louvor a Deus.

 

A criação como tal se apresenta como a mensagem de Deus, como o primeiro livro de sua revelação. Sugestivo é o salmo 19, 2-5: “Os céus narram a glória Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos. O dia transmite ao dia a mensagem e a noite conta a notícia a outra noite. Não é uma fala, nem são palavras, não se escuta a sua voz. Por toda a terra difundiu-se a sua voz e aos confins do mundo chegou a sua palavra”.

 

A mensagem bíblica apresenta tanto o projeto ideal, quanto as marcas doloridas oriundas do pecado do homem. Vários textos refletem as consequências das rupturas nas relações com Deus, com o próximo e a criação.  A criação é o ambiente concreto onde o homem realiza sua vocação. Cuidar e cultivar se torna uma missão. As consequências da exploração indiscriminada dos recursos naturais estão visíveis aos olhos das pessoas atentas e solidárias. Mas também a esperança se concretiza, no crescimento da conscientização, em novas legislações e nas mudanças comportamentais. Tanto que, as últimas páginas bíblicas, os capítulos 21 e 22 do Apocalipse, são carregadas de novidades: “Vi então um novo céu e uma nova terra”; “um rio de água vivificante .... frutificando doze meses por ano”.

 




Nossos biomas gaúchos: Pampa e Mata Atlântica

Sábado, 18/03/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Um dos objetivos da Campanha da Fraternidade de 2017: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” é aprofundar o conhecimento de cada bioma. Pesquisar o bioma onde se reside, provoca a curiosidade para conhecer os outros. No Rio Grande do Sul temos o bioma Mata Atlântica que é compartilhado com outros 17 estados. No Brasil, o Pampa só existe do nosso Estado e depois se estende ao Uruguai e à Argentina.
A Mata Atlântica, devido a sua extensão de sul a norte do Brasil, representa uma das áreas mais ricas em biodiversidade do planeta. Vivem na Mata Atlântica mais de 20 mil espécies de plantas, sendo 8 mil endêmicas (que existe somente em determinada área ou região geográfica); 270 espécies conhecidas de mamíferos; 992 espécies de aves; 197 espécies de répteis; 372 espécies de anfíbios; 350 espécies de peixes.
Nesta área estão situadas a maioria das regiões metropolitanas do Brasil, portanto onde se concentra a absoluta maioria da população brasileira. Historicamente o Brasil se desenvolveu a partir do litoral. Hoje restam 8,5% de remanescentes florestais acima de 100 hectares do que existia orginalmente. Sendo um bioma dos mais ameaçados do planeta ele foi decretado como Reserva da Biosfera pela UNESCO e Patrimônio Nacional pela Constituição Federal de 1988. Uma das marcas do bioma Mata Atlântica é seu poder de regeneração. Os cuidados e as iniciativas de preservar o que resta e tentar regenerar o mínimo para não faltar água, regular o clima, proteger as espécies nativas ainda é uma esperança viva.
A Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, do RS, coordenou um trabalho com outros órgãos, sobre o Pampa. Disso resultou a publicação de uma bela obra intitulada: “Nosso Pampa Desconhecido”, são 210 páginas com informações e belas fotografias.
Esta obra descreve, assim, o Pampa: “Nossa noção de natureza preservada normalmente está associada à imagem de ambientes fartamente arborizados. Porém, ao sul das paisagens tropicais da América do Sul, aproximadamente a partir do paralelo 30º de latitude sul, há um vasto espaço geográfico onde as árvores limitam-se a formar uma moldura ao longo dos cursos d’água ou estão confinadas às áreas de relevo mais acidentado. Todo o resto constitui o domínio privativo das ervas: gramíneas e outras plantas rasteiras perfeitamente adaptadas às condições climáticas e aos solos da região, formando um complexo sistema de campos naturais”.
Quando falamos de bioma não podemos esquecer os povos que neles habitam. O ambiente natural influencia na formação sociocultural dos seus moradores. “É impossível pensar no Pampa sem que imediatamente venha à mente a figura do gaúcho, o habitante natural da região, completamente integrado ao seu meio e hoje conhecido muito além das fronteiras do Rio Grande. O Pampa é o berço do povo gaúcho, cuja a cultura e a tradição foram construídas sobre os campos nativos de um território de fronteira flutuante e em íntima associação com a atividade econômica mais antiga na região: a criação extensiva de gado”.




Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida

Sábado, 11/03/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber


Encontramos uma terra maravilhosa, é assim Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, se expressa ao Rei de Portugal, no dia 1º de maio de 1500. Descreve detalhadamente os indígenas, a flora, a fauna e as águas que tinha diante dos olhos. No final da carta diz: “águas são muitas; infinitas. Em tal maneira graciosa (a terra) que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” As posteriores descobertas, do imenso Brasil, confirmaram a impressão inicial. O sentimento de maravilhar-se da beleza e da diversidade da natureza sensibiliza para o cuidado.
O IBGE, em Mapa de Biomas e de Vegetação, define o bioma como “um conjunto de vida (animal e vegetal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta em uma diversidade biológica própria”.
Se cada bioma tem uma estrutura de vida tão rica, maior ainda se torna esta riqueza quando somamos os seis biomas brasileiros (Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa). Ainda temos que considerar que nem todas as espécies estão catalogadas. Se cada brasileiro fizer um pouco de esforço para conhecer melhor o bioma em que vive e algo dos outros biomas certamente ficará mais maravilhado que Pero Vaz de Caminha. Temos aí um dos objetivos específicos da Campanha da Fraternidade, isto conhecer os biomas.
Cada bioma, além da sua beleza, tem as suas fragilidades e as suas potencialidades. O lema da Campanha da Fraternidade “Cultivar e guardar a criação” (Gênesis 2,15) constitui-se um convite para usar adequadamente as potencialidades de cada bioma, como também respeitar as suas fragilidades.
O tema ambiental volta porque interessa a todas as pessoas e a todos os seres vivos. Vivemos numa casa comum. A Igreja católica propõe o tema aos seus fiéis e convida a todos os que quiserem se associar. No dia 24 de maio de 2015 o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica Laudato Sí: sobre o cuidado da casa comum. A Campanha da Fraternidade deste ano está inspirada nesta orientação papal procurando aproximá-lo da realidade brasileira.
Os desafios e os problemas ecológicos são muitos, a tal ponto de falar-se em crise ecológica. Existem muitas tensões, especialmente entre economia e ecologia. Constantemente os estudiosos tem chamado a atenção sobre o uso inadequado e exploratório dos recursos naturais e os consequentes desequilíbrios daí decorrentes. Ainda tem um longo caminho a ser percorrido para minimizar os impactos. Afirma o texto base da Campanha da Fraternidade que “é da sua equação harmônica que depende o futuro da humanidade e de todos os seres vivos que habitam a terra”. Isto é responsabilidade de cada um e de todos.
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
10 de março de 2017




40ª Romaria da Terra

Sábado, 25/02/2017 às 09:45, por Dom Rodolfo Luis Weber


No dia 28 de fevereiro de 2017 realizar-se-á a 40ª Romaria da Terra com o lema: “Terra de Deus, terra de irmãos”. O local escolhido é o Assentamento Nossa Senhora Aparecida, área 09 – Fazenda Annoni – RS 324, km 174, município de Pontão, RS. A romaria é preparada pela Comissão Pastoral da Terra e a Arquidiocese de Passo, em particular pela Paróquia Santo Antão de Pontão.
São quarenta anos de Romarias da Terra. Já é um longo caminho percorrido. É necessário olhar para trás com um olhar de gratidão para ver e colher os frutos. Mostrar esta caminhada é importante para toda sociedade. Quarenta anos de romarias também é uma provocação para olhar criticamente o caminho percorrido. Alegrar-se com os acertos, as causas defendidas e assumir a responsabilidade dos erros. Uma justa avaliação permite projetar com esperança o futuro.
A romaria como tal é expressão de uma realidade mais ampla, a questão agrária. A história da humanidade está marcada pela conquista de terras, pela ampliação de territórios, de projetos de ocupação dos territórios conquistados. Um rápido olhar sobre formação do território brasileiro comprova isso. A ocupação, a destinação e o uso das terras fazem parte dos projetos governamentais brasileiros, desde o modelo das sesmarias até a legislação atual. Nesta questão existem várias visões, algumas divergem a tal ponto de se contraporem. Geram conflitos, acalorados debates e, em algumas ocasiões, resultam em conflitos violentos com agressão física e mortes. A questão agrária está em pauta por ser polêmica e porque os encaminhamentos dados ainda não resolveram adequadamente o problema.
O local escolhido para a romaria foi a antiga Fazenda Annoni, hoje dividida em sete comunidades, com 423 famílias assentadas. Este local tem um valor simbólico. Pretende mostrar que os assentados, com muita luta e suor, adquiriram dignidade de vida. As conquistas de moradia, atendimento de saúde, educação e diversas formas de produção testemunham que “hoje, todo mundo tá vivendo bem”, emenda um assentado.
O lema da 40ª Romaria: “Terra de Deus, Terra de Irmãos” será o norte das reflexões, da Celebração Eucarística, das orações, dos cânticos. Afinal, a romaria nasce da fé e se inspira na história do Povo de Deus que foi escravizado e depois liberto. Em seu êxodo ruma a uma terra prometida onde corre lei e mel. A tradição bíblica nos ensina que a terra foi dada a todas as criaturas como dom de Deus. Um presente para o seu sustento, para a geração e a multiplicação da vida. Ninguém é capaz de criar do nada um palmo de terra, uma semente, um copo de água. O ser humano é capaz para cultivar, plantar e usar a terra. Pensando bem, só se consegue usar a terra porque existem todas as condições favoráveis para tal: o solo, o calor, a luz, a água, o ar, as sementes. Basta cultivar e corrigir o solo, plantar na época certa, escolher as melhores sementes, cuidar da plantação e fazer a colheita.
Com são Francisco de Assis cantamos o “Cântico das Criaturas”: “Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”.
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
24 de fevereiro de 2017




A destinação universal dos bens

Sábado, 18/02/2017 às 09:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A 40ª Romaria da Terra está se aproximando e este texto quer fornecer alguns elementos de reflexão sobre a destinação universal dos bens, a partir da doutrina social da Igreja. Os bens da sociedade não se restringem aos recursos naturais, como a terra, mas incluem aqueles que são frutos do conhecimento, da técnica e do saber.
Para a realização do bem comum, o princípio da destinação universal dos bens, assume uma importância central. Afirma a constituição conciliar Gaudium et Spes, no número 69: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e de todos os povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade”. Este princípio de baseia na convicção de que a origem de tudo, também do homem, está em Deus.
O princípio da destinação universal dos bens da terra está na base do direito universal ao uso dos bens. As criaturas necessitam de bens materiais para a satisfação das necessidades primárias e para o seu pleno desenvolvimento. O princípio do uso comum dos bens é o “primeiro princípio de toda a ordem ético-social” e “princípio típico da doutrina social cristã” (João Paulo II, Laborem Exercens, 19; Sollicitudo rei socialis, 42). Trata-se de um direito natural, inscrito na natureza do homem, um direito original. Não é fruto do direito positivo adquirido em um momento histórico, portanto contingente.
A concretização do princípio da destinação universal dos bens e o direito universal ao uso dos bens necessita ser regulamentado e ordenado pelas instâncias competentes. “Destinação universal e uso universal não significam que tudo esteja à disposição de cada um ou de todos, e nem mesmo que a mesma coisa sirva ou pertença a cada um ou a todos” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 173).
A propriedade privada constitui-se um direito fundamental para a realização da ordem social justa. “A propriedade privada e as outras formas de domínio privado dos bens conferem a cada um a extensão absolutamente necessária à autonomia pessoal e familiar e devem ser consideradas como um prolongamento da liberdade humana... Enfim, porque aumentam o estímulo no desempenho do trabalho e das responsabilidades, constituem uma das condições das liberdades civis’. A propriedade privada é elemento essencial de uma política econômica autenticamente social e democrática e é garantia de uma reta ordem social. A doutrina social requer que a propriedade de bens seja equitativamente acessível a todos”. (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 176).
Como harmonizar o direito à propriedade privada e a destinação universal dos bens? A tradição cristã e a Constituição brasileira não reconhecem o direito à propriedade como algo absoluto e intocável. “Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direto comum de todos a utilizarem os bens da criação inteira: o direto à propriedade privada está subordinado ao direito do uso comum, subordinado à destinação universal dos bens” (João Paulo II, Laborem Exercens, 14). A propriedade privada se torna um meio que regulamenta o uso e o acesso aos bens.
Ao mesmo tempo que, o ensinamento social da Igreja e a Constituição brasileira reconhecem o direito à propriedade privada, também exortam a reconhecer a função social de qualquer forma de posse privada. Diz o artigo 5º, incisos XXII – “é garantido o direito de propriedade; XXIII – a propriedade atenderá a sua função social”.
 
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
17 de fevereiro de 2017




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