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Colunistas


40ª Romaria da Terra

Sábado, 25/02/2017 às 09:45, por Dom Rodolfo Luis Weber


No dia 28 de fevereiro de 2017 realizar-se-á a 40ª Romaria da Terra com o lema: “Terra de Deus, terra de irmãos”. O local escolhido é o Assentamento Nossa Senhora Aparecida, área 09 – Fazenda Annoni – RS 324, km 174, município de Pontão, RS. A romaria é preparada pela Comissão Pastoral da Terra e a Arquidiocese de Passo, em particular pela Paróquia Santo Antão de Pontão.
São quarenta anos de Romarias da Terra. Já é um longo caminho percorrido. É necessário olhar para trás com um olhar de gratidão para ver e colher os frutos. Mostrar esta caminhada é importante para toda sociedade. Quarenta anos de romarias também é uma provocação para olhar criticamente o caminho percorrido. Alegrar-se com os acertos, as causas defendidas e assumir a responsabilidade dos erros. Uma justa avaliação permite projetar com esperança o futuro.
A romaria como tal é expressão de uma realidade mais ampla, a questão agrária. A história da humanidade está marcada pela conquista de terras, pela ampliação de territórios, de projetos de ocupação dos territórios conquistados. Um rápido olhar sobre formação do território brasileiro comprova isso. A ocupação, a destinação e o uso das terras fazem parte dos projetos governamentais brasileiros, desde o modelo das sesmarias até a legislação atual. Nesta questão existem várias visões, algumas divergem a tal ponto de se contraporem. Geram conflitos, acalorados debates e, em algumas ocasiões, resultam em conflitos violentos com agressão física e mortes. A questão agrária está em pauta por ser polêmica e porque os encaminhamentos dados ainda não resolveram adequadamente o problema.
O local escolhido para a romaria foi a antiga Fazenda Annoni, hoje dividida em sete comunidades, com 423 famílias assentadas. Este local tem um valor simbólico. Pretende mostrar que os assentados, com muita luta e suor, adquiriram dignidade de vida. As conquistas de moradia, atendimento de saúde, educação e diversas formas de produção testemunham que “hoje, todo mundo tá vivendo bem”, emenda um assentado.
O lema da 40ª Romaria: “Terra de Deus, Terra de Irmãos” será o norte das reflexões, da Celebração Eucarística, das orações, dos cânticos. Afinal, a romaria nasce da fé e se inspira na história do Povo de Deus que foi escravizado e depois liberto. Em seu êxodo ruma a uma terra prometida onde corre lei e mel. A tradição bíblica nos ensina que a terra foi dada a todas as criaturas como dom de Deus. Um presente para o seu sustento, para a geração e a multiplicação da vida. Ninguém é capaz de criar do nada um palmo de terra, uma semente, um copo de água. O ser humano é capaz para cultivar, plantar e usar a terra. Pensando bem, só se consegue usar a terra porque existem todas as condições favoráveis para tal: o solo, o calor, a luz, a água, o ar, as sementes. Basta cultivar e corrigir o solo, plantar na época certa, escolher as melhores sementes, cuidar da plantação e fazer a colheita.
Com são Francisco de Assis cantamos o “Cântico das Criaturas”: “Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”.
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
24 de fevereiro de 2017




A destinação universal dos bens

Sábado, 18/02/2017 às 09:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A 40ª Romaria da Terra está se aproximando e este texto quer fornecer alguns elementos de reflexão sobre a destinação universal dos bens, a partir da doutrina social da Igreja. Os bens da sociedade não se restringem aos recursos naturais, como a terra, mas incluem aqueles que são frutos do conhecimento, da técnica e do saber.
Para a realização do bem comum, o princípio da destinação universal dos bens, assume uma importância central. Afirma a constituição conciliar Gaudium et Spes, no número 69: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e de todos os povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade”. Este princípio de baseia na convicção de que a origem de tudo, também do homem, está em Deus.
O princípio da destinação universal dos bens da terra está na base do direito universal ao uso dos bens. As criaturas necessitam de bens materiais para a satisfação das necessidades primárias e para o seu pleno desenvolvimento. O princípio do uso comum dos bens é o “primeiro princípio de toda a ordem ético-social” e “princípio típico da doutrina social cristã” (João Paulo II, Laborem Exercens, 19; Sollicitudo rei socialis, 42). Trata-se de um direito natural, inscrito na natureza do homem, um direito original. Não é fruto do direito positivo adquirido em um momento histórico, portanto contingente.
A concretização do princípio da destinação universal dos bens e o direito universal ao uso dos bens necessita ser regulamentado e ordenado pelas instâncias competentes. “Destinação universal e uso universal não significam que tudo esteja à disposição de cada um ou de todos, e nem mesmo que a mesma coisa sirva ou pertença a cada um ou a todos” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 173).
A propriedade privada constitui-se um direito fundamental para a realização da ordem social justa. “A propriedade privada e as outras formas de domínio privado dos bens conferem a cada um a extensão absolutamente necessária à autonomia pessoal e familiar e devem ser consideradas como um prolongamento da liberdade humana... Enfim, porque aumentam o estímulo no desempenho do trabalho e das responsabilidades, constituem uma das condições das liberdades civis’. A propriedade privada é elemento essencial de uma política econômica autenticamente social e democrática e é garantia de uma reta ordem social. A doutrina social requer que a propriedade de bens seja equitativamente acessível a todos”. (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 176).
Como harmonizar o direito à propriedade privada e a destinação universal dos bens? A tradição cristã e a Constituição brasileira não reconhecem o direito à propriedade como algo absoluto e intocável. “Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direto comum de todos a utilizarem os bens da criação inteira: o direto à propriedade privada está subordinado ao direito do uso comum, subordinado à destinação universal dos bens” (João Paulo II, Laborem Exercens, 14). A propriedade privada se torna um meio que regulamenta o uso e o acesso aos bens.
Ao mesmo tempo que, o ensinamento social da Igreja e a Constituição brasileira reconhecem o direito à propriedade privada, também exortam a reconhecer a função social de qualquer forma de posse privada. Diz o artigo 5º, incisos XXII – “é garantido o direito de propriedade; XXIII – a propriedade atenderá a sua função social”.
 
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
17 de fevereiro de 2017




Ter o valor de ser justo

Sábado, 11/02/2017 às 09:15, por Dom Rodolfo Luis Weber


Alguns minutos de reflexão e observação são suficientes para perceber a importância e a necessidade de ser justo. O poder judiciário faz parte da organização da sociedade que envolve milhares de pessoas e imensas estruturas. O curso de Direito é um dos mais procurados e as vagas existentes são muitas. Cada dia são julgados processos e novos são iniciados com o objetivo de restabelecer a justiça. Tudo isto revela a importância do valor de ser justo, da justiça. Ao mesmo tempo, a quantidade de processos revela a ausência de justiça nas relações entre as pessoas, entre pessoas e instituições e vice-versa.
Ser justo é um valor. É uma virtude cardeal. Diz o Catecismo da Igreja Católica que “a virtude é uma disposição habitual e firme de fazer bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si”. São Paulo recomenda aos filipenses: “Quanto ao mais, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, digno de respeito ou justo, puro, amável ou honroso, com tudo o que é virtude ou louvável” (Filipenses 4,8).
Ser justo faz parte da identidade humana. Conforme a antropologia cristã, a justiça não é uma simples convenção humana, porque o que é “justo” não é originalmente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano. Podemos dizer que as leis são um desdobramento da lei natural.
O homem justo se distingue pela correção habitual de seus pensamentos e pela retidão de sua conduta para com o próximo. Age dentro da medida, em conformidade com a norma, na ordem justa. Realiza a justiça que consiste na vontade constante e firme de dar aos outros o que lhe é devido. Respeita os direitos de cada um e estabelece nas relações humanas a harmonia que promove a equidade em prol das pessoas e do bem comum.
O homem justo não se preocupa apenas que os direitos entre as pessoas sejam respeitados, mas que a justiça chegue a todas as pessoas para satisfazerem as suas necessidades. Ajuda a criar uma ordem justa entre todos os membros da sociedade. A mentalidade contemporânea, em geral, é mais propensa a reivindicar direitos do que promover a ordem justa.
O homem justo deseja a justiça social para a realização do bem comum, onde cada membro da sociedade e as instituições possam realizar a sua missão conforme sua vocação. Se é verdade que as pessoas são diferentes e únicas, também é verdade que todas são iguais, pois tem a mesma dignidade e os mesmos direitos e deveres.
A sentença de Jesus é bem incisiva: “Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas será injusto também nas grandes” (Lc 16, 10). Diariamente, vêm à tona denúncias de grandes injustiças, de desvios, de propinas que a maioria da população não consegue dimensionar. Não podemos esquecer as pequenas injustiças e as pequenas falcatruas que vão adormecendo a consciência da pessoa justa. Tantas vezes, as pequenas injustiças são a porta de entrada para as grandes injustiças.  
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
10 de fevereiro de 2017

 

 




Ter o valor de calar e de falar

Sábado, 04/02/2017 às 09:10, por Dom Rodolfo Luis Weber

Calar ou falar? Há circunstâncias em que o calar é um ato de covardia, de ignorância ou medo para expressar a própria opinião. Em outros momentos, é uma atitude sensata, um ato de coragem, um sinal de controle dos instintos. Falar em local e na hora inoportuna revela superficialidade, falta de sensibilidade ou desejo de esconder a verdade. Conjugar a fala com o silêncio é sabedoria, é um valor na convivência.
“Só pode exercer o valor de calar aquele que consegue falar, que é capaz de se expor, mas escolhe livremente fechar os lábios. O silêncio é um valor quando vem de dentro, quando o indivíduo, podendo falar, decide se calar”. (Torralba, Francesc. O valor de ter valores). O silêncio imposto e violento não é valor, mas somente o é quando nasce de uma decisão livre, de um ato de vontade.
É valoroso calar para escutar o outro. Para escutar é preciso calar. É a atitude de discípulo que reconhece que o outro sabe mais e que tem algo importante para dizer e que posso aprender dele ampliando assim o meu horizonte e o conhecimento. Em outras circunstâncias, talvez o outro não tenha nada a me ensinar, mas ele precisa falar do que se passa na sua vida. Neste caso, ouvir calado é uma fala extremamente loquaz.
Há circunstâncias na vida em que é preciso calar para não ferir o outro. Há situações que convidam para retribuir uma ofensa, uma agressão ou traição sofrida, com a mesma medida. Nestas horas, controlar as emoções, o desejo de vingança com o silêncio é sinal de domínio das próprias paixões. É um ato voluntário, um exercício de reflexão de não retribuir o mal com o mal. De não retribuir ofensa com ofensa, pois ofender não faz desaparecer a ofensa. É calar nesta hora, para oportunamente falar.
É preciso manter-se calado diante segredo confiado. Quem confia um segredo é uma pessoa concreta e que revela algo que está guardando com sete chaves. Por outro lado, revela o segredo a um confidente que escolheu. O confidente não tem tarefa fácil, precisa ter as virtudes da escuta e da discrição. O segredo tem algo de sedutor, de irresistível que desperta a curiosidade humana. A tendência é tornar público o segredo. O confidente para ser merecedor de confiança deve guardar na penumbra o segredo, mesmo podendo falar, não diz nada. É um valor guardar um segredo, pois o inimigo não é externo, mas está dentro de nós.
Assim como é valoroso calar, do mesmo modo, é sabedoria e virtude saber falar. Tomar a palavra e quebrar o silêncio para revelar o está dentro é um ato de coragem e liberdade. A palavra, como um poderoso instrumento de comunicação, sai como um projétil de dentro de uma pessoa e penetra na consciência do outro gerando uma reação. O que foi lançado pode edificar, mas igualmente pode disseminar o mal.
Há situações de silêncio onde se esconde a verdade de forma mentirosa. Todos sabem dos fatos, mas ninguém se manifesta. Falar neste ambiente é um ato de coragem. Dizer a verdade para quem não quer ouvir é superar as amarradas da falsidade. Falar a verdade, neste contexto, causa dor, mas é libertador e traz frutos e ganhos emocionais.
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
03 de fevereiro de 2017




Quais são meus valores?

Sexta-Feira, 27/01/2017 às 10:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os valores podem ser definidos como horizontes de referência. O horizonte é como uma linha imaginária que nunca se toca e que se afasta na medida em que nos aproximamos dela. Tem momentos que a linha do horizonte é nítida e próxima; em outros momentos parece embaçada, fora de foco. O mesmo ocorre com os valores que em determinados momentos intuímos com clareza e em outros momentos não ficam tão nítidos. Não são uma ilusão por influenciarem diretamente no cotidiano.
Um exercício interessante a ser feito é tentar hierarquizar nossos valores. Tentar fazer a nossa pirâmide de valores dando a eles um ordenamento, do menos significativo ao mais importante. Talvez este exercício possa trazer surpresas. O ordenamento feito, através do exercício de discernimento, talvez revele uma realidade diferente daquela que achamos que era. Porém, torna-se um momento de tomada de consciência.
Os valores pessoais, muitas vezes, não correspondem e nem vão ao encontro dos valores sociais em se vive. O medo de sermos marginalizados ou excluídos faz com que frequentemente nossas prioridades não estejam tão claras. Outras vezes, não se vive de acordo com as convicções, gerando tensão e incoerência na vida pessoal.
Os valores não são objetos a serem possuídos, mas fazem parte da natureza mais íntima da pessoa, fazem parte da essência. O nosso estilo de vida é uma manifestação externa das convicções interiores. É sinal de autodeterminação agir segundo os próprios valores e tê-los presente ao tomarmos decisões, principalmente num ambiente externo desfavorável.
O indivíduo e seus valores formam uma unidade tão compacta que quando se vê obrigado a negá-los ou até mesmo a traí-los sente-se profundamente agredido, se sente mal, como se negasse a si mesmo. Os valores gritam, são como vozes que nos impelem a viver de determinada maneira, a sermos coerentes com uma filosofia de vida.
As necessidades vitais, como a fome, a sede, o agasalho, são motores de ação humana para a sobrevivência. Os valores, quando arraigados se transformam em necessidades, não de ordem física, mas de ordem espiritual e transcendente. Vão fazer parte da essência. São como que tatuados na alma. Não serão acessórios usados de acordo com a conveniência ou a necessidade. Vão impulsionar o agir humano, como a fome ou a sede.
O valor da solidariedade nos permite ir além de uma necessidade física para dar resposta às necessidade primárias do outro. Quando um valor nos impele intensamente, as necessidades primárias ficam em segundo plano. Nesses momentos percebemos que o ser humano é capaz de superar sua natureza instintiva e transcendê-la.
O encontro com o outro é a ocasião para os valores tornarem-se visíveis. É a circunstância propícia que permite o pleno desvelamento dos valores e contrastá-los com os dos outros. É a oportunidade de apropriarmos de nossos valores. A riqueza imaterial de uma pessoa, de uma instituição ou de um país é o conjunto de seus valores, suas crenças e ideais. É o chamado capital espiritual. São eles que dão credibilidade, estabelecem laços e relações afetuosas e fraternas.

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
27 de janeiro de 2017




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