PUBLICIDADE

Colunistas


“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34) | parte III

Sexta-Feira, 13/03/2020 às 17:29, por Dom Rodolfo Luis Weber

O lema da Campanha da Fraternidade é fundamentado na parábola do “Bom Samaritano”. Ela é uma resposta de Jesus a uma pergunta teórica: “E quem é o meu próximo?” A conclusão da parábola leva a uma resposta e a uma experiência existencial de comporta-se como próximo. O ponto de partida do fazer-se próximo começa com o olhar. O samaritano viu, sentiu compaixão e cuidou. Os outros personagens da parábola que passaram pelo mesmo caminho também viram, mas não desenvolveram a compaixão e por isso também não se envolveram.
As reflexões do filósofo Jean-Paul Sartre (1905+1980) sobre o olhar, presentes na obra “O ser e o nada”, ajudam a compreender a profundidade da parábola. Na análise da existência humana ele reflete sobre o olhar. Com as coisas o ser humano tem uma relação, mas com os outros sujeitos a relação é diferente.
Sartre parte da constatação que o outro, o próximo é uma presença. Não é preciso ter outro argumento para ter certeza da existência do outro. O ponto de partida é a simples presença. Quando se percebe a presença de alguém, num primeiro momento ele se apresenta como um objeto em meio a outros objetos, mas logo se percebe que este alguém se relaciona com o que existe ao seu redor. Enquanto estiver na condição de objeto o outro não causa nenhuma crise.
O pensador continua argumentando que a descoberta mais dramática vem quando o outro levanta os olhos e me olha. De um momento para outro me sinto observado e transformado de sujeito em objeto. O olhar do outro não é neutro, mas causa uma reação imediata. Assim como havia olhado o outro e o tinha visto como objeto entre outros, assim o olhar do outro também me torna objeto. Independentemente de qualquer julgamento, uma coisa é certa: só deste modo que se determina a descoberta do outro como sujeito, senão pela relação eu e outro.
Quando o outro entra subitamente no mundo da minha consciência, a minha experiência se modifica: não tem mais o seu centro em mim e eu me vejo como elemento de um projeto que não é meu e não me pertence. Eu não estou só. O olhar do outro provoca uma reação que pode ser de vergonha, desprezo, socorro. É o encontro de dois sujeitos.
Na parábola do samaritano percebemos diferentes tipos de olhares. Jesus inicia a parábola contanto que um homem descia de Jerusalém a Jericó. Ele é visto pelos assaltantes. O que veem nele? Um objeto que tem objetos, por isso o roubam, inclusive o que vestia, e ainda o espancam. Não o tratam como sujeito, mas como objeto a ser explorado e jogado fora.
Passam também o sacerdote e o levita que veem o homem assaltado; a situação dele é descrita como se estivesse “quase morto”. Viram e tomaram como medida preventiva para não serem vistos, passando “pelo outro lado”. Nesta perspectiva, mantêm o homem “quase morto” como um objeto jogado à margem da estrada. Não permitiram que se estabelecesse uma relação de sujeitos ou de aproximação.
O outro viajante é um samaritano que viu e, certamente, deixou-se ver. O “quase morto” entrou na vida dele e ele percebeu que não estava só. Agora o caído o conhecia e começou a fazer parte da vida dele, não podia mais ignorar a presença dele. Não estava diante de um objeto, mas de um sujeito que lhe fazia um apelo de socorro. Diz Sartre: “Com o olhar do outro (...) não sou mais senhor da situação”. A partir daí, desencadeia-se a compaixão e o cuidado.

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
13 de março de 2020




Transferências dos padres

Sexta-Feira, 07/02/2020 às 18:28, por Dom Rodolfo Luis Weber

As transferências dos padres é um tema complexo, pois envolve pessoas e a instituição Igreja. Misturam-se sentimentos do padre e dos paroquianos. Levantam-se dúvidas, aparecem medos, pois toda mudança gera insegurança. Também toda mudança é oportunidade de crescimento. Quem não se desafia ou é desafiado também não cresce. Nas transferências têm as necessidades e os projetos da Igreja, isto é o lado institucional. O ritual da Igreja para a “Tomada de posse do novo pároco” mostra claramente o que são as transferências e a missão do pároco.
Num primeiro momento o padre faz a Profissão de Fé e Juramento de Fidelidade. O processo formativo do padre prepara-o para compreender e aderir à fé professada pela Igreja. A adequada preparação permite que o candidato aceite e adira livremente ao que a Igreja professa e ensina, como também, o padre coloca-se à disposição da Igreja e da evangelização.
A posse se dá com a presença do bispo ou seu delegado. É feita uma Provisão através da qual o padre é enviado àquela paróquia. Ele não vai por conta própria, mas vai como enviado pela Igreja. A missão evangelizadora lhe é dada.
O novo pároco, na missa de posse, proclama do Evangelho. A tarefa primeira e prioritária do padre é anunciar o Evangelho. É ensinar o que a Igreja ensina, pois a fé é fruto do ensinamento.
Após a homilia na qual o bispo ou seu delegado reflete sobre a missão do pároco é feita a Renovação das promessas sacerdotais. Antes da ordenação sacerdotal foram feitas várias perguntas ao candidato e através delas fez várias promessas para realizar bem a sua missão. Um SIM dado um dia, somente se mantém como SIM, se for reafirmado frequentemente. Neste contexto o novo pároco renova diante da comunidade o que prometeu na ordenação.
Ao novo pároco é entregue a chave da Igreja. Colocado à frente de uma comunidade ele tem a missão de governar. Uma paróquia é composta de muitas pessoas, com dons e carismas diferentes. Agregar os fiéis em torno de projetos e causas comuns se torna uma tarefa diária. A Igreja para realizar sua missão tem bens materiais, administra recursos financeiros, emprega. A administração paroquial lhe é confiada.
O pároco administra os sacramentos, por isso na posse se destaca alguns. Indo até a Capela do Santíssimo ou até o Sacrário ressalta-se a centralidade do Sacramento da Eucaristia, fonte e ápice da vida cristã e de toda pastoral. Presidindo o Sacramento da Eucaristia, seja diariamente ou nas solenidades, o pároco estará alimentado com a Palavra de Deus e o Pão Eucarístico os fiéis a ele confiados.
O pároco é conduzido até o Batistério ou recebe símbolos batismais. É sua tarefa iniciar novas pessoas na vida cristã e administrar o Sacramento do Batismo que integra novos membros na Igreja.
Outra tarefa fundamental do padre é exercitar a misericórdia. Todos os membros da Igreja são pessoas frágeis, inconstantes, pecadores, experimentarão a doença e a morte. A Igreja, através dos Sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos, cuida da fragilidade humana, além de estar junto aos doentes e celebrar as Exéquias. A cor litúrgica da misericórdia é a estola roxa.




“Segui-me...”

Sábado, 25/01/2020 às 07:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Cotidianamente ouvimos que tal pessoa tem tantos “seguidores”. Os números variam de alguns para milhões. Encontramos milhares “digital influencer” atuantes nas mais diversas redes sociais e em todas as áreas da sociedade. Em toda a história da humanidade sempre houve influenciadores que geraram seguidores. A era digital potencializou a possibilidade de contatos e acessos.


A liturgia católica está no início do Tempo Comum. É o período litúrgico onde se lê, reflete e reza o início das pregações de Jesus até a sua paixão, morte e ressurreição. O texto deste domingo (Mateus 4,12-23) relata Jesus convidando pessoas, chamando-as pelo nome e convidando-as para o seguimento. “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”.


O que é seguimento? Onde pretende levar? Qual a relação entre o “influenciador” e o “seguidor”? Seguir alguém tira a liberdade e a autonomia? É possível cada um ter um caminho totalmente autônomo? Abre-se um espaço para inúmeras perguntas.
O cristianismo inicia com um convite de Jesus Cristo: “Segui-me”, “vinde a mim”. É uma proposta que é pessoal e direta. Dizer “sim”, significa “converter-se”, voltar-se a quem está convidando, colocar-se no caminho proposto. Segue-se ele para se tornar como ele é, vive, pensa e age. Assume-se as consequências da opção.


A fé cristã não é antes de tudo uma doutrina ou uma prática: é relação pessoal com Jesus, uma relação de amor. É permanecer com, ficar ao lado. Silvano Fausti, comentador do Evangelho de Mateus diz: “O amor se exprime em ouvidos que escutam, olhos que veem, pés que seguem, mãos que tocam, faro que cheira, boca que saboreia, coração que canta, é o centro do cristianismo”.
No convite para o seguimento está embutido a proposta de um “caminho” que leva a produzir frutos. Eles são a última prova se escolha foi certa ou não. Cristo propõe-se como o caminho e convida os seus seguidores a fazerem as mesmas vivências.
A chamada dos apóstolos começa em duplas até formar um grupo, que vai crescendo, até constituir uma multidão. Esta metodologia aponta para a fraternidade, para viver e conviver com os outros nas mais diversas situações. Nos últimos séculos tivemos uma valorização do indivíduo, com seus direitos e liberdade, mas que, em muitas situações gerou virou um individualismo. Viver de forma individualista é matar a terra.


Isto também acontece com os seguidores de Jesus Cristo que foram convidados para viverem em comunhão e união, mas agem de forma individualista. Na 1ª Carta aos Coríntios 1,10-17, São Paulo reclama das divisões internas da comunidade geradas pelo seguimento das pessoas erradas. Isto é, os fiéis seguem os pregadores e não seguem Jesus Cristo. Ele é a causa e a fonte da unidade.


Jesus que transformar os seus seguidores em “pescadores de homens”. O pescar um peixe é matá-lo e utilizá-lo em proveito do pescador. O “pescador de homens” faz o movimento inverso, a tarefa é salvar o homem, doar-se por ele ou até morrer por ele, como fez Jesus.


Não faltam influenciadores digitais e outros convidando para o seguimento. Também Jesus nos chama pelo nome e convida a segui-lo. A escolha é minha, é tua.

 

 

 

  




70 anos da Catedral

Sábado, 18/01/2020 às 07:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 20 de janeiro de 1950 foi criada a Paróquia Nossa Senhora Aparecida. No ano seguinte, em 22 de julho de 1951 foi instalada a Diocese de Passo Fundo e a igreja Nossa Senhora Aparecida tornou-se a Catedral da nova diocese. A partir desta data, a história da Paróquia da Catedral passa a confundir-se com a história da diocese. O que é uma Catedral?
O cerimonial dos Bispos define assim a igreja catedral: “É aquela em que está a cátedra do Bispo, sinal do magistério e do poder do pastor da Igreja particular, bem como sinal da unidade dos crentes naquela fé que o Bispo anuncia como pastor do rebanho. (...) Depois, deve considerar-se como imagem figurativa da Igreja visível de Cristo (...). Neste sentido, a igreja catedral deve ser considerada como o centro da vida litúrgica da diocese”. 


A palavra catedral deriva da palavra latina cathedra, isto é cadeira. Neste sentido a catedral é a sede, o centro da diocese a partir do qual o bispo exerce seu ministério. O primeiro ministério do bispo é o magistério, é a pregação da Palavra de Deus. Recorda o que Jesus Cristo fazia prioritariamente que era de ensinar. As pessoas aderem a Jesus Cristo, são despertadas e amadurecidas na fé e depois se vinculam à Igreja porque foram ensinadas. Uma fé autêntica fundamenta-se no uso da razão e na compreensão do que se crê. Diante desta responsabilidade que o bispo tem de ensinar, explicar e aprofundar a fé existe uma tradição antiga na Igreja que só o bispo pode sentar-se na cátedra da catedral. Ficando evidente, deste modo, a missão de presidir a diocese.
A catedral também é o lugar a partir da qual o bispo exerce a missão de santificar o Povo de Deus através das celebrações litúrgicas, especialmente da Sagrada Eucaristia. Numa única celebração eucarística presidida pelo bispo, ao redor do único altar, o bispo, os presbíteros e os fiéis se reúnem para prestar culto e glória a Deus, como também santificarem-se com as graças sacramentais.


Uma liturgia anual que destaca esta dimensão é a Missa Crismal celebrada na quinta-feira santa que é “uma das principais manifestações da plenitude do sacerdócio do Bispo e um sinal da íntima união dos presbíteros com ele. Ao longo desta celebração, juntamente com o óleo dos enfermos e o óleo dos catecúmenos, é consagrado o santo crisma, sinal sacramental de salvação e vida perfeita para todos os que renascem pela água e pelo Espírito Santo”.


A catedral se “constitui de certo modo a Igreja-mãe e o centro de convergência da Igreja particular”. A Arquidiocese de Passo Fundo abrange uma área de 47 municípios, nos quais temos a presença de 53 paróquias e cada uma delas é subdividida em comunidades que somam 865. Para todos os católicos que residem nesta área e nestas paróquias o centro de convergência é a catedral.
A catedral se torna um símbolo visível da unidade da Igreja que é uma das características fundamentais da Igreja Católica. A unidade faz parte da identidade católica e nasce da fé no Deus uno e trino. Portanto, não se trata de uma questão organizativa, mas a organização é decorrente de um fundamento de fé. Numa Igreja com uma grande variedade de dons, carismas e organizações a unidade não acontece automaticamente, mas ela deve ser desejada, estimulada e construída. A catedral é um lugar que convida para a unidade, por isso, os fiéis são convidados a terem uma grande estima e consideração por ela.


Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
17 de janeiro de 2020




Gratidão

Sábado, 28/12/2019 às 07:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No final do ano se concentram, em poucos dias, muitas datas significativas gerando muitos eventos. Os cristãos são convidados a viverem o mistério do Natal intensificando a vivência litúrgica e religiosa. Celebrarem, de forma simples e solene, o nascimento de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador e direcionarem as atenções a este acontecimento histórico que dá sentido as outras tradições dele decorrentes.
Também é o final do ano escolar, civil, contábil .... gerando formaturas, festas, amigos secretos, balanços, planejamentos, férias, viagens .... Cada um chega neste período conforme foi o ano: mais cansado, estressado, outros aliviados, outros decepcionados, outros tristes, outros com energia para fazer festas... Temos que admitir que é preciso muita sabedoria para administrar e vivenciar bem este período.
Terminando o ano quantas vezes se escuta dizer que “mais um ano se passou e como passou rápido”. Esta simples constatação é salutar e provocativa. Desencadeia um processo e alerta que os dias não podem ser vividos de forma rotineira, automatizada. Este modo de viver pode passar uma falsa sensação que tudo vai muito bem, tudo está sólido, tudo está sob controle, mas, talvez, não seja esta a realidade.
Chama atenção que nos evangelhos Jesus, muitas vezes, alerta sobre a vigilância, estar prevenido, rever o dia a dia, enfim que a pessoa viva conscientemente e se dando conta do onde está e do que está acontecendo com ela. É uma atitude sábia e necessária avaliar o ano que passou. Tomar coragem de recolher-se num ambiente favorável, com tempo suficientemente longo para permitir a recordação da vida. É um exercício a ser feito de modo individual, mas também com a família, com os colegas de trabalho, com os amigos e outros.
Olhar com gratidão o ano que passou. Reconhecer os benefícios recebidos e alegrar-se com o que aconteceu. Vivemos e realizamos as nossas atividades com os outros e para os outros. Para vivermos precisamos dos outros com suas qualidades e capacidades humanas e profissionais. Estas pessoas merecem o reconhecimento e a gratidão, a começar pela simples presença passando pela colaboração nos trabalhos.
Reconhecer e agradecer as bênçãos de Deus que se manifestam de múltiplas formas. Em primeiro lugar, a mãe terra que nos acolheu que nos encanta com sua beleza de seres, cores e oferece todos os meios para conservar a vida. Agradecer aos sábios ensinamentos dos textos sagrados que constantemente educam, iluminam o caminho e consolam. Agradecer a Igreja ou comunidade religiosa que se reúne para cultivar laços de fé e obras de caridade.
Na avaliação certamente aparecerão fatos, pensamentos, palavras e ações realizadas que fizeram mal a nós próprios, ao próximo, à sociedade e à natureza. Assumir e confessar os erros e pecados revela maturidade e desejo de aperfeiçoamento, como também é um apelo de compreensão e de perdão das pessoas ofendidas.
É um tempo favorável para projetar o ano, rever ou propor novas prioridades, sejam elas pessoais ou familiares. Penso que também não pode faltar espaço para sonhar com toda a humanidade. Quais são as grandes mudanças que devem ocorrer e como efetivamente vou colaborar para que elas se tornem realidade? Tirar tempo para fazer serviços voluntários como sinal de doação, desprendimento e que permitem estabelecer novos laços de solidariedade.
Um abençoado ano de 2020!

 






PUBLICIDADE