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Colunistas


Escatologia

Sexta-Feira, 15/11/2019 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Como o calendário litúrgico está chegando ao seu final, a liturgia propõe aos fiéis textos bíblicos, orações, cânticos que refletem finitude, morte, julgamento, céu, purgatório e inferno. Estes temas são conhecidos como novíssimos que são refletidos e estudos na teologia numa área chamada de escatologia.
O dicionário teológico define assim a escatologia. “É a referência permanente a um futuro absoluto e transcendente, que é Deus e que emerge em toda reflexão antropológica-teológica ao tratar do sentido e da finalidade do homem, da história e do cosmo”. O ser humano tem consciência da sua finitude e convive com ela cotidianamente. Ao ver a morte dos outros sabe que um dia também chegará a sua hora, mesmo não a desejando e fazendo de tudo para distanciá-la o máximo possível. Diante deste destino certo surgem perguntas fundamentais sobre o destino e a finalidade da vida, da história e de toda criação.


Portanto, a dimensão escatológica coexiste e acompanha a própria condição humana. A pergunta sobre o futuro eterno após a morte está envolta em mistério, em incerteza e o homem, por si só, é incapaz de encontrar uma resposta sobre seu destino final. Na perspectiva cristã, estas perguntas são respondidas a partir da revelação de Deus em Jesus Cristo e na reflexão teológica. São temas que envolvem fé, como ensina a Carta aos Hebreus 11,1: “A fé é fundamento daquilo que ainda se espera e a prova de realidades que não se veem”. A escatologia trata das realidades últimas, do definitivo, do totalmente outro, da ressurreição final, do encontro definitivo ou não com Deus no seu reino.


O apóstolo São Paulo falando do Reino de Deus dá a estas realidades várias cores e atribuições: instaurar todas as coisas em Cristo; reconciliação de todos os homens e de todas as coisas em Cristo; nova criação e nova humanidade; libertação escatológica da criação da vaidade, da injustiça e da morte e ressurreição final dos mortos em Cristo. Para chegar a estas novas realidades estão envolvidas a morte, juízo, inferno e a glória.
A morte coloca cada pessoa diante da verdade. Nessa altura, nada mais pode ser alterado da sua trajetória, fecham-se as possibilidades de novas decisões, nada mais pode ser ocultado. É esta pessoa e nestas condições que ela termina a sua trajetória neste mundo e se apresenta para o juízo último e definitivo. A humanidade tem os seus critérios de julgamento das pessoas e quando entramos na seara da eternidade entram os critérios divinos. O místico São João da Cruz dizia que “no ocaso da nossa vida, seremos julgados quanto ao amor”.


Os textos bíblicos quando falam de céu, de glória eterna, ressaltam que não se trata de um espaço, mas de presença junto a Deus: “ver tal como Ele é”; “viver com Cristo”. Em 1 Coríntios 2,9 escreve: “O que os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem entrou no coração do ser humano, é o que Deus preparou para os que o amam”. O purgatório, ensina a Igreja, é a purificação final, após sua morte, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. Neste contexto está a oração pelos falecidos.


O inferno consiste no afastamento definitivo de Deus. Dostoieski, escritor russo, escreveu: “Pergunto-me: o que significa o inferno? Afirmo: a incapacidade para amar”. Mas se Deus é amor como pode ter o inferno? Trata-se de liberdade humana. Ninguém está predestinado, mas são as escolhas livres e conscientes que dão rumo à vida, seja neste mundo, seja na eternidade. Ninguém pode ser conduzido a estar na presença de Deus se optou se afastar Dele livremente.




Todos os santos

Sexta-Feira, 08/11/2019 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A canonização da Ir. Dulce, realizada no dia 13 de outubro de 2019, colocou em pauta o tema da santidade. Santa Dulce dos Pobres, assim passou a ser denominada, soma-se a outros santos recentes, tais como, São João Paulo II, Santa Teresa de Calcutá, Óscar Romero, São Paulo VI, São João XXIII. A maioria da população mundial conheceu estas pessoas em vida, muitas tiveram contatos pessoais ou conviveram ou trabalharam com estes novos santos. Isto é salutar, pois ajuda a compreender o que a Igreja entende por santidade e, consequentemente, quem são os santos.

A Igreja celebra no dia primeiro de novembro, quando domingo ou no domingo seguinte, a solenidade de “Todos os Santos” e no dia dois a “Comemoração de todos os fiéis defuntos” ou finados. Duas liturgias que se encontram e ajudam a responder uma pergunta formulada pelo filósofo Maurice Blondel, em 1893, em sua obra A Ação: “Sim ou não, a vida humana tem um sentido e o homem um destino”? Uma pergunta dirigida a toda humanidade, mas que necessita ser respondida individualmente.

A vida destes santos é uma resposta a esta pergunta existencial. Cada um a seu modo e com as responsabilidades foi dando um sentido e um destino para sua vida. Se o fato da morte é inerente a vida, isto não significa que a vida não tenha um sentido ou o sentido da vida seja o morrer. O modo cristão de pensar é que o sentido da vida é a busca constante da santidade e o destino é a glória eterna.

O Papa Francisco publicou em 19 de março de 2018 a exortação apostólica “Gaudete et Exsultate”, isto é, “Alegrai-vos e exultai” (Mateus 5, 12): sobre o chamado à santidade no mundo atual. É um texto muito provocativo para os cristãos e para todos os que amam a vida. Já no primeiro parágrafo lembra que Deus “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

Quando se analisa a vida dos santos percebe-se claramente que a sua vida não foi medíocre, superficial e indecisa. Por exemplo, Santa Dulce dos Pobres tinha uma saúde frágil, por outro lado teve uma vida de heroína salvando a vida de muitas pessoas. Diante de cada desafio que ia aparecendo teve que tomar medidas. Se o cuidado dos doentes não podia ser embaixo do viaduto, teve que tomar a decisão de transformar o galinheiro em lugar de atendimento. Só quem tem muita determinação e criatividade consegue encontrar estas soluções.

As santas e os santos têm um imenso amor pelo próximo, especialmente os mais pobres e marginalizados. Neste quesito Santa Teresa de Calcutá e Santa Dulce dos Pobres são testemunhas incontestáveis. Não é um amor teórico ou de discurso, mas efetivo. Conseguem com seu testemunho contagiar e envolver outras pessoas. Nascem instituições que vão se firmando e crescendo amplificando o cuidado aos marginalizados. Trabalham além das forças humanas e morrem pobres como os pobres que cuidaram. “As pessoas que espalham amor, não tem tempo, nem disposição para jogar pedras”, dizia Santa Dulce.

Toda dedicação ao próximo se alimentava no amor a Deus e, o mandamento de bíblico de “amar a Deus sobre todas as coisas”, era visível nos atos. O tempo dedicado à oração pessoal e comunitária não podia ser dispensado. Conta-se que um dia foram dizer a Madre Teresa que cada dia vinha mais gente para ser cuidada e que não davam mais conta, ao que respondeu “então vamos tirar mais tempo para rezar”.

Sim, a vida tem um sentido e tem um objetivo que vai ser alcançado, nos atestam os santos.




Celebração das Exéquias

Sábado, 02/11/2019 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O Dia de Finados nos faz recordar todas as pessoas que já morreram. Aquelas que foram mais próximas de nós nos fazem reviver muitos momentos de convivência, de festa, de amizade, de trabalho. Também revivemos os fatos que levaram esta pessoa à morte, o velório e a celebração dos funerais ou das exéquias. São fatos que fazem parte da nossa vida mesmo que sejam duros para reviver. A morte faz parte da vida e é um excelente motivo para se buscar viver bem.


Nos funerais a Igreja celebra o que o cristão confessa na fé e na esperança: “espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”. Este artigo da Profissão de Fé se fundamenta nos ensinamentos de Cristo e na sua morte e ressurreição, em outras palavras no mistério pascal. As exéquias, portanto, tem em vista exprimir o caráter pascal da morte cristã. É anunciada à comunidade reunida a vida eterna, ao mesmo tempo em que é realçado o caráter provisório da vida terrena.


A certeza da ressurreição não arranca do cristão o lado trágico da morte. O próprio Cristo diante do túmulo do amigo Lázaro estremece por dentro, fica agitado e chora. Na véspera de ser crucificado manifesta toda a sua angústia e medo. No alto da cruz sente-se abandonado. Para o cristão a realidade da morte é vencida pela esperança (Romanos 8,18-24). Nas exéquias celebra-se esta ambiguidade do “já e ainda não” da morte de um cristão. Santo Agostinho (354-420) ensinando sobre esta realidade diz que “os corações piedosos podem entristecer-se com uma dor salutar pela morte de seus entes queridos e, por sua condição mortal, podem derramar lágrimas que serão consoladas e diminuídas pela fé (...). São também consolados pelas atenções fraternas que lhes são apresentadas (...).


A celebração das exéquias cristãs tem por finalidade ser presença consoladora e fraterna junto aos familiares dos falecidos e anúncio pascal da ressurreição, sendo que elas são mais úteis aos vivos do que aos mortos. A dor dos familiares enlutados desperta compaixão. Dor que não é possível quantificar, pois tantas vezes é proporcional às circunstâncias que provocaram a morte.
O ritual das exéquias cristãs, além das orações, propõe o uso de símbolos e ritos muito significativos e eficazes para consolar e evangelizar. Por exemplo: a cor roxa dos paramentos litúrgicos expressa a misericórdia; a posição do corpo na igreja: se leigo com o rosto voltado para o altar, se padre ou bispo com o rosto voltado para o povo, pois foi esta a posição durante as celebrações dos sacramentos.


Além de outros símbolos cristãos: O “círio pascal” lembrando o Cristo ressuscitado. A cruz recorda que a morte de Cristo é paradigma da morte do cristão. A bíblia mostra que a Palavra de Deus foi luz para os pés daquele que acaba de chegar no fim de sua peregrinação terrena. A Palavra de Deus, está acima das orações e outros ritos, pois assegura a dimensão pascal. As flores falam dos sentimentos dos familiares, das pessoas amigas do defunto e de todos os enlutados. Expressam participação na dor e no luto e, ao mesmo tempo, indicam esperança de vida. A água benta e sua aspersão lembra o batismo que nos faz entrar na dinâmica pascal e participar da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Assim como no batismo os familiares traçaram o sinal da cruz na fronte da criança, agora todos são convidados a fazer a mesma coisa sobre o corpo do que morreu, enquanto o aspergem. As procissões recordam que todos vivemos como peregrinos nesta terra e que a morte é também uma viagem para a eternidade.

 

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
01 de novembro de 2019




Autorreferente

Sábado, 26/10/2019 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A liturgia católica deste domingo parte do texto bíblico de Lucas 18,9-14. É uma parábola contada por Jesus para “alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Dois homens vão rezar no Templo, sendo que o primeiro reza, de pé, assim: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda”. O segundo, à distância, de cabeça baixa e batendo no peito, dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador”.


O primeiro personagem revela uma autossuficiência impressionante. Não pede nada, não lhe falta nada, não tem pecado e não é como os outros homens nos quais encontra inúmeros falhas. Agradece a Deus pela sua perfeição e não encontra qualquer sombra de erro nas suas atitudes que o possam incomodar, pois já é um “santo”, um “justo”. Sente-se seguro para emitir juízos e condenar os outros, mesmo partindo do senso comum, do ouvir dizer.


Os verbos todos são conjugados na primeira pessoa: “eu te agradeço ... não sou como os outros... eu jejuo... eu pago”. Sempre é o sujeito. É tão perfeito que Deus, diante dele, é reduzido a um simples complemento. Todas as outras pessoas são simplesmente desprezadas e condenadas, pois elas só existem e entram em cena para falar de si mesmo. É autorreferente.
O outro personagem vai ao Templo para confessar-se e seu comportamento e mesmo as posições do corpo confirmam o seu intento. “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” É uma súplica dirigida a Deus, um diálogo que tem Deus como sujeito. As outras pessoas estão incluídas na sua oração, pois reconhece que as machucou com as suas atitudes. Solicita piedade.


A conclusão de Jesus é que o “último voltou para a casa justificado, o outro não”. O primeiro personagem se rege pela “própria justiça e despreza os outros”. Ele é o dono da verdade e determina o que é justo e injusto tendo como parâmetro unicamente a sua vontade, seus caprichos, seus gostos, enfim seu egoísmo. O segundo volta justificado por submeter-se ao julgamento dos outros e do bem comum.


A parábola traz elementos importantes para a convivência fraterna e social. Não é possível classificar facilmente as pessoas em boas e más. A condição humana está muito mais próxima do segundo personagem do que do primeiro. O ser humano é frágil, imperfeito e frequentemente erra por pensamentos, palavras e ações. É um ser de virtudes e defeitos.


Neste contexto fazer julgamentos precipitados e superficiais gera uma enormidade de injustiças. Na atualidade a facilidade da transmissão das notícias expõe as pessoas. Quantas vezes são iniciadas investigações, mas as pessoas ou as instituições investigadas já são sumariamente julgadas, mesmo que sejam inocentadas depois no processo.


A incapacidade de reconhecer os próprios erros, principalmente quando é uma atitude consciente, gera conflitos, injustiças e violência. Ambientes familiares e institucionais são corroídos e destruídos diante da resistência de reconhecer e admitir a inconsistência dos próprios argumentos e atitudes. O mesmo vale no debate sobre os grandes problemas da sociedade. À semelhança do personagem da parábola os argumentos, às vezes, soam como “não somos como os outros...” e o bem comum não se torna o sujeito do diálogo.


Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
25 de outubro de 2019




Romaria

Sábado, 12/10/2019 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 13 de outubro de 2019 acontece a 39º Romaria de Nossa Senhora Aparecida em Passo Fundo. Será um dia de procissão, de celebração da Eucaristia, de oração e de encontro de milhares de romeiras e romeiros oriundos de várias cidades. É o dia em que a Romaria fica mais visível, mas na verdade ela começou bem antes. Concluída a romaria de 2018, a equipe central foi pensando e encaminhando a de 2019. Centenas de voluntários foram mobilizados e encaminhando o que fosse necessário para acolher bem os romeiros. E cada romeiro e romeira foi planejando e alimentando o desejo de vivenciar a 39ª Romaria.


A romaria não é um evento isolado ou paralelo em relação aos grandes temas e preocupações da ação evangelizadora da Igreja. Na verdade, se constitui um evento muito favorável para conscientizar os fiéis e colocá-los em comunhão com a Igreja, particularmente da Arquidiocese de Passo Fundo.


“Aparecida nos chama para a missão” é o lema que norteia a 39ª romaria. O mandato de Jesus Cristo aos discípulos de irem pelo mundo anunciando o Evangelho está claramente expresso no nosso 17º Plano arquidiocesano da ação evangelizadora 2016-2019. O Papa Francisco também convocou todos os batizados para realizar no mês de outubro o Mês Missionário Extraordinário. Para ele “a missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente uma paixão pelo seu povo”.


Em primeiro lugar, só faz missão quem tem fé, amor a Deus e uma paixão por Jesus Cristo. Fé é adesão a Deus e aos seus ensinamentos. É deixar-se conduzir por Ele sabendo que nos conduz por caminhos de vida, seguros, ao encontro do próximo e rumo ao céu. O encontro pessoal com Jesus Cristo é de tal modo envolvente que desperta o desejo de apresentá-lo aos outros.
Em segundo lugar, faz missão quem tem uma grande paixão pelo mundo. Com frequência acentuamos as coisas erradas e os problemas do mundo. Sem dúvida, é preciso ver com os olhos de Deus todos os pecados existentes em nós e nos outros, para ter a atitude divina: “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna, pois Deus enviou o seu filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele” (João 3, 16-17). 

Um tema sempre presente na romaria é a vocação, pois ela nasceu no Seminário. Lugar onde a arquidiocese de Passo Fundo acolhe jovens vocacionados que desejam ser padres. Lugar onde eles fazem o discernimento vocacional e são preparados para assumirem livremente o ministério presbiteral. Jesus pediu explicitamente que se rezasse nesta intenção, pois a “messe é grande e os operários são poucos”.


Outro tema que a romaria retoma é a Campanha da Fraternidade de 2019: “Fraternidade e Políticas Públicas”. A sociedade e a estrutura do Estado são olhadas e analisadas à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja. A partir deste olhar chama os cristãos para assumirem a sua responsabilidade como cidadãos e promoverem o bem comum.


Cada romeira e romeiro tem as suas motivações particulares, mas quando se coloca em romaria partilha com outros o que tem em particular, como também assume para si as motivações da pessoa que caminha a seu lado. A coordenação da 39ª romaria convida para acolher as três grandes intenções da Igreja, sob o lema “Aparecida nos chama para a missão”.

 

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
11 de outubro de 2019




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