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Colunistas


Semana dos Povos Indígenas 2017

Sexta-Feira, 21/04/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Dentro do tema da Campanha da Fraternidade de 2017, “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, estava presente, em seu objetivo, “promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”. No bioma, como estrutura de vida, não podem ser esquecidos os povos que neles habitam, especialmente os povos originários.

Pero Vaz de Caminha, no primeiro relatório que escreveu ao rei de Portugal, descreveu detalhadamente o primeiro encontro com o povo que encontraram na Terra de Santa Cruz e de como se aproximaram daquelas pessoas. (Creio que seja importante ler a carta na íntegra.) Estima-se que, naquela época, existiam mais de 1.000 povos como aquele, somando entre dois e quatro milhões de pessoas.

Vivem hoje no Brasil, segundo dados do IBGE de 2010, 305 povos indígenas em milhares de aldeias, com uma população de 896.917 pessoas, falando mais de 274 línguas diferentes, além de 70 tribos vivendo em locais isolados e que ainda não foram contatadas. Destes, 324.834 vivem em cidades e os outros 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.

Desde 1680, temos uma atenção legislativa relativa aos territórios indígenas, até chegarmos a Constituição de 1988. Hoje, existem 1.116 áreas reconhecidas ou reivindicadas como terras indígenas, porém até dezembro de 2016, apenas 398 territórios tinham seus processos administrativos finalizados e as terras registradas pela União. No Rio Grande do Sul entre 1910 e 1918 foram demarcadas 11 áreas indígenas. Infelizmente, nas décadas de 1950 e 1960, parte destas terras demarcadas foram destinas para Reforma Agrária e para Reserva Florestal.

É preciso reconhecer que a questão indígena ainda está longe de ser resolvida. Cada região do Brasil os conflitos tem marcas próprias. No dia 21 de março de 2013, a Arquidiocese de Passo Fundo, em parceria com o Instituto Superior de Filosofia Berthier – IFIBE e com a Faculdade de Teologia e Ciências Humanas – ITEPA Faculdades, promoveu um debate sobre a demarcação de terras nas áreas de conflito no norte do Rio Grande do Sul. O objetivo era proporcionar uma oportunidade de aprofundamento e esclarecimento sobre o assunto, tão delicado e emergente no contexto atual.

Deste debate, retomo algumas colocações considerando a especificidade da região norte do Rio Grande do Sul. Grande parte dos conflitos atuais tem a sua origem no Estado que usou de uma política territorial indígena oscilante e contraditória. Uma vez demarcando áreas territoriais indígenas e em outra oportunidade vende as mesmas áreas para agricultores. Com isto, os dois lados, indígenas e agricultores, foram injustiçados. Além disso, a lentidão para encaminhar a solução do problema gera grande ansiedade em ambos os lados.

A grande conclusão do debate é que o conflito precisa ser mediado para não resultar em violência, agressão e ódio podendo terminar com destruição da vida.

Em 1940 aconteceu, no México, o 1º Congresso internacional de lideranças indígenas das Américas. Em 1943, o presidente Getúlio Vargas, através do decreto-lei 5540, fixou o dia 19 de abril como o “Dia do Índio”. A data é oportuna para reler a história passada, aprofundar os problemas atuais, desconstruir preconceitos e, juntos, construir relações fraternas e justas. 




Páscoa: Ele não está mais aqui!

Sexta-Feira, 14/04/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O grito crucial de Jesus na cruz, na sexta-feira da paixão: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27, 46) retoma todas as situações de aflição da humanidade. É expressão do medo existencial diante morte que ocupa o lugar da vida, expressa o fim de projetos e sonhos. A resposta a este grito vem no sábado santo, na madrugada do primeiro dia da semana: “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito”. “Alegrai-vos” (Mt 28,6.9)  É um grito de fé e de esperança. De fé, porque anuncia a ressurreição de Cristo, acontecida uma vez para sempre, a verdade fundamental da fé cristã; de esperança, porque anuncia aquilo que diz respeito a todos os homens e mulheres da terra quando irão vê-lo ressuscitado na eternidade.

As constantes notícias de mortes, injustiças, desonestidades, desilusões e tristezas fazem diminuir as esperanças. Isto talvez, por não termos uma ideia mais clara sobre a libertação trazida por Cristo Ressuscitado. A páscoa de Jesus Cristo inaugura a criação de uma nova humanidade. É um fato histórico e o início da transformação global do mundo. É um evento que transforma o sentido da história, indicando uma nova direção. Um evento único que revela uma espera escrita no coração humano. É único porque semelhante fato não foi documentado anteriormente.

É um acontecimento extraordinário, mas que manifesta um desejo universal da imortalidade. A ressurreição de Cristo responde as intuições, às esperanças de um destino humano aberto ao futuro, vem ao encontro do desejo humano de que a morte não seja a última palavra, que a colocação do corpo inanimado no túmulo não seja o último ato da nossa existência.

A explosiva notícia da ressurreição de Jesus mexeu profundamente com as frágeis esperanças humanas, permitindo ver Nele as primícias da nossa ressurreição, a certeza de uma vida que não acabará. A ressurreição de Cristo mostra o sentido da salvação definitiva da existência humana, por obra de Deus e diante dele.

A realidade cotidiana de sofrimento, de violência e de tantas aflições levanta o questionamento: onde está a mudança que Jesus ressuscitado operou? A Páscoa de Jesus não se transforma automaticamente no reino dos sonhos, atinge-nos no coração para nos fazer percorrer com alegria e esperança o caminho da purificação e da autenticidade, de verificação do nosso comportamento, que tem como meta a certeza de uma vida que não morre mais.

O Cardeal Martini (1927+2012) outrora arcebispo de Milão, Itália, fala que “a páscoa não nos faz passar para um mundo irreal, mas para uma existência autêntica, uma existência de fé, de esperança, de amor: uma fé que é fonte de alegria e de paz interior, uma esperança que é mais forte do que as desilusões, um amor que é mais forte do que qualquer egoísmo. O ressuscitado está conosco e, junto com ele, somos capazes de vencer o mal com o bem, de tirar do mal o maior bem. Essa é a força e a novidade da Páscoa”.

Viver a páscoa é viver a vida nova no cotidiano da existência.

Uma santa e abençoada Páscoa. O Senhor Jesus ressuscitou, aleluia!




Carne fraca e Semana Santa

Sábado, 08/04/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Faz algumas semanas que a expressão “carne fraca” tornou-se popular, a partir da investigação da Polícia Federal na indústria da carne. A partir da divulgação da operação, com suas múltiplas consequências, a expressão “carne fraca” passou a fazer parte do cotidiano dos brasileiros, além de ter repercussão mundial.

Quando ouvi a expressão pela primeira vez, fiquei em dúvida sobre o significado que os autores queriam dar à Operação Carne Fraca. Se tinham a intenção de falar de carne de má qualidade, produtos adulterados, adição de produtos químicos proibidos, etc. ou se “carne fraca” fazia referência às pessoas que cometeram os crimes, dando assim uma conotação moral, no sentido de corrupção, desvio de conduta, má fé, falsificação, conivência com o crime, etc. E a terceira hipótese poderia incluir os dois sentidos.

A Semana Santa nos coloca diante de atitudes contraditórias de pessoas, de grupos e das multidões. Ressalta a fragilidade do corpo humano nos personagens que são maltratados e terminam morrendo. Jesus, verdadeiro homem, sofre a dor física da tortura, vive a angústia diante da execução eminente e finalmente morre pendurado numa cruz; tendo por companheiros, de tortura e de morte, naquela hora, dois ladrões. É o retrato da carne fraca física que morre e se desfaz.

Outros fatos da Semana Santa se relacionam com a carne fraca, no sentido de fraqueza e de corrupção moral. Judas Iscariotes se deixa corromper por 30 moedas de prata. Pedro, quando interrogado, por três vezes negou que conhecia Jesus e que tivesse qualquer ligação com Ele. Os dois que tinham sido escolhidos, educados e orientados para darem continuidade à missão do mestre, sucumbem diante do dinheiro e da pressão. Além disso, temos um processo sumário de condenação: falsas testemunhas; manipuladores da opinião pública que induzem a multidão ao erro; tortura, desprezo, deboche; Pilatos, como juiz, estava consciente da inocência do acusado, mas lava as mãos e dá uma sentença injusta para agradar a um grupo que o pressionava.

A Semana Santa é uma referência para a compreensão da fragilidade ser humano, mostrando que é um ser de “carne fraca”. Cheio de boas intenções e de discursos bem elaborados, mas de espírito frágil para viver em meio as tentações da carne. Temos uma enorme quantidade de leis, normas, regulamentações e as suas respectivas punições para garantir um comportamento ético. Os fatos cotidianos revelam a distância entre o ideal e o real.

Porém, o mais importante da Semana Santa não é ressaltar a carne fraca humana, mas o espírito forte e de vitória da vida sobre a morte. Ao entrar em Jerusalém, Jesus é aclamado como rei, mas vem montado num jumento, numa atitude de serviço. O mestre lava os pés dos discípulos mostrando que o maior é aquele que serve. Depois de traído por Judas e preso, Pedro quer defendê-lo com a espada e a violência, mas recebe como resposta a não violência. Nas provocações durante os interrogatórios reafirma, em palavras e na postura, o que ensinara em público. Não volta atrás do seu projeto, não se deixa corromper. Não deseja o mal ou a morte daqueles que estão lhe maltratando, mas responde com perdão, pois não sabem o que estão fazendo, além de conceder o perdão ao ladrão arrependido. Morrendo na cruz, morre pela redenção dos pecadores. E por fim, realiza o que havia anunciado: ressuscita e deseja a paz.




Quaresma: tempo para sair da rotina

Terça-Feira, 04/04/2017 às 10:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

“Eu creio que um dia me tornarei um cristão de verdade, então deverei envergonhar-me, sobretudo, não por não me ter tornado cristão antes, mas por haver tentado primeiro todas as fugas” (Kierkegaard,Soren, Diário, 8/12/1837). Estas palavras do filósofo poeta cristão dinamarquês introduzem o sentido da quaresma. Agora é o tempo favorável em que ressoa o convite para tomar uma decisão séria, radical, operativa e pessoal para me tornar cristão de verdade.
Todos têm uma rotina diária que vai imprimindo uma forma quase mecânica e automática de viver. Não se trata apenas das atividades diárias para as quais a rotina organiza o dia e permite cumprir as obrigações. Mas a rotina também pode tomar conta da maneira como as pessoas se relacionam. O outro se torna peça de engrenagem que faz funcionar o meu dia. A rotina também invade a vida espiritual e o relacionamento com Deus. Enfim, a rotina acomoda, vai enfraquecendo as relações interpessoais, a empatia e o entusiasmo vai diminuindo. Como também pode passar a falsa impressão de que tudo está bem. Um dia o papa emérito Bento XVI disse que a nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”.
Viver bem a quaresma é uma oportunidade para se questionar e sacudir a rotina diária. Estou me tornando um cristão melhor? A minha presença, seja na família, no trabalho, na sociedade, é sal e luz? Além de constatar os problemas, faço algo além disso? Ao tentarmos responder estas perguntas ou outras, certamente, vamos perceber que em muitos aspectos podemos estar bem e em outros não.
Voltando à frase de Kierkegaard, citada anteriormente. Ele afirma que não se envergonhava das suas contradições da vivência cristã. Tinha a convicção de que o mundo só viu um cristão autêntico, isto é, coerente entre a proposta cristã e a sua plena vivência, que foi Jesus Cristo. Todos as outras pessoas denominadas cristãs vão se tornando cristãs, sem nunca chegarem a completude. É a interpretação que faz do seguimento proposto por Jesus Cristo. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” Mateus 16, 24).
Kierkegaard declara que se sentirá envergonhado “por haver tentado primeiro todas as fugas”. As formas de fuga podem ser várias: ignorar os problemas; desviar das responsabilidades; fechar-se sobre si mesmo; justificar a própria postura e a indiferença diante das inúmeras situações que se apresentam; acomodar-se com a rotina; não ter espaço para questionar os próprios valores; relativizar as exigências; responsabilizar sempre os outros.
A Campanha da Fraternidade, dentro da quaresma, é uma provocação, pois insere um tema novo na rotina. Este ano, a Igreja propõe o tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema é “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15) O objetivo é o cuidado da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, promovendo relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho. Novamente, aborda um tema relacionado com a ecologia. O tema volta porque os problemas nesta área são muitos e é preciso uma conversão pessoal e social, também nesta área.
Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo
24 de fevereiro de 2017




Conversão Ecológica

Sábado, 01/04/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Toda Campanha da Fraternidade, situada dentro do tempo quaresmal da liturgia católica, tem por objetivo conhecer e aprofundar um tema, denunciar problemas graves vinculados ele. Porém, o mais importante, é provocar uma mudança de mentalidade e uma mudança de atitudes, isto é, uma conversão.

Desde o pontificado do Papa Paulo VI (1963 -1978) até o de Francisco, o tema da ecologia é recorrente nos pronunciamentos papais. O Papa Francisco com a Carta Encíclica Laudato Sí: sobre o cuidado da casa comum (24/05/2015) disse claramente que o tema se insere na Doutrina Social da Igreja. Lamenta que “muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustradas não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas”. (LS 14).

O papa escrevendo aos católicos, mas também se dirige a todas as pessoas que quiserem se associar, lembra que o cuidado com a criação tem implicações com a fé e o modo de viver cristão. É uma questão de moral social que implica em responsabilidade, seja por atitudes destrutivas ou por omissões.

Muito importante é a reflexão desenvolvida por Francisco no capítulo VI, da Laudato Sí, que traz o título “Educação e espiritualidade ecológicas”. O foco é suscitar a conversão ecológica na certeza que não bastam somente soluções técnicas. Formar a consciência para desenvolver novas convicções, atitudes e estilos de vida.

Como ponto de partida aponta para um outro estilo de vida que não seja o consumista. “O consumismo obsessivo é o reflexo subjetivo do paradigma tecno-econômico” (LS 203). O consumismo compulsivo, além de gerar danos para a saúde, gera desperdício e necessita avançar sobre os recursos naturais. Um estilo de vida sóbrio manifesta a preocupação com as gerações futuras. É alegrar-se com o necessário. A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Trata-se da convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O papa Bento XVI disse que: “Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico”. Cada compra não é uma simples transação econômica, mas tem implicações de corresponsabilidade. Comprar de quem degrada o bioma é ajuda-lo a manter a sua prática destrutiva.

Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente. O desafio de educar é grande, ainda mais um educar que leve a mudar hábitos, e não apenas ofereça informações. Os seres humanos não vivem competindo com a natureza, mas são aliados. Recuperar a aliança consigo mesmo, a solidariedade com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus.  “A educação ambiental deveria predispor-nos a para dar este salto para o Mistério, do qual a ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo” (LS 210). É a valorização das pequenas atitudes que são o princípio das grandes mudanças. 




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