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Colunistas


Não matarás

Sábado, 27/05/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O dia 22 de maio de 2017 lembra os dois anos do assassinato do Pe. Eduardo Pegoraro, fato acontecido na casa paroquial da cidade de Tapera – RS. O trágico acontecimento mobilizou a comunidade local, sob a liderança do atual pároco Pe. Oswaldo Baptista Ferreira Junior, que promoveu a IIª Caminhada pela Paz. A manifestação pública pela paz tem como fato desencadear o assassinato do Pe. Eduardo, mas o seu objetivo é mais amplo. É promover uma cultura de paz.

É necessário lembrar que desde o assassinato do Pe. Eduardo até hoje foram cometidos, aproximadamente, mais 118.000 homicídios no território brasileiro. As estatísticas mostram um aumento no número de mortes violentas. Não é possível ficar indiferente diante de todas as vítimas e seus familiares. Não é possível calar diante deste massacre.

Não matarás é um mandamento bíblico. Também é um princípio aceito universalmente em todas as civilizações. Por que não matar? Porque a vida é sagrada e na ótica religiosa é um delito contra Deus, Senhor e autor da vida. Toda morte violenta é um atentado à paz, pois gera um desequilíbrio, abre um vazio e provoca sofrimento.

A paz é fruto da justiça.  Num assassinato é cometida uma grave injustiça. Faz-se necessário e urgente que seja feita justiça. Uma sociedade desigual e injusta, onde os cidadãos não têm os mesmos direitos e deveres, não se conseguirá estabelecer uma paz duradoura. A sociedade tem os meios constitucionais e legais de fazer justiça. Não cabe aos indivíduos fazerem justiça, pois isto se caracteriza como vingança, gerando uma maior onda de violência. Infelizmente, a demora em fazer justiça, pelos meios legais, desenvolveu nos cidadãos um sentimento que a justiça tarda demais.

A paz é sinal do amor realizado. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Se lamentamos, com toda razão, tanta violência, isto ainda não é suficiente. O cultivo de pessoas pacíficas começa no cuidado e na vigilância de tudo que pode desencadear atos mais agressivos. Jesus comentando o mandamento não matar, alerta para os sentimentos e atitudes anteriores: raiva, palavras ofensivas e destrutivas, conflitos. Enfim, não se pode matar fisicamente e nem matar moralmente.

As pessoas assassinadas não conseguimos trazer de volta para o convívio terreno. Trabalhar para reverter, ou ao menos minimizar, o trágico quadro da criminalidade é possível. O cristão tem o Evangelho como referência de educação para a paz. “Cristo é a nossa paz” (Efésios 2,14). Criar um ambiente de paz, onde as pessoas podem viver seguras e em boa ordem. Na paz, são respeitadas a dignidade e o direito à autodeterminação do indivíduo e dos povos. Na paz, a comum existência humana é marcada pela solidariedade fraternal.

“Não há caminho para a paz. A paz é o caminho”. (Mahatma Ghandi)




“A verdade vos tornará livres” (Jo 8,32)

Sábado, 20/05/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 04 de maio de 2017, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, assim se manifestava: “O que está acontecendo com o Brasil? Um país perplexo diante de agentes públicos e privados que ignoram a ética e abrem mão dos princípios morais, base indispensável de uma nação que se queira justa e fraterna. O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção. Urge, portanto, retomar o caminho da ética como condição indispensável para que o Brasil reconstrua seu tecido social. Só assim a sociedade terá condições de lutar contra seus males mais evidentes”.

A cada dia que passa, os brasileiros tomam conhecimento de novos fatos até o momento escondidos, gerando mais escândalos. Seu impacto na sociedade sempre é muito grande, principalmente quando envolve pessoas revestidas de autoridade. E as consequências sociais, especialmente para os mais pobres e fracos, são imediatas.

Viver na verdade é o desafio da convivência entre os seres humanos em sua comunidade. Em tempos de crise, quando crimes escondidos vem à tona, viver na verdade se torna uma condição para restabelecer a confiança.

O catecismo da Igreja Católica, quando trata do oitavo mandamento, reflete sobre a verdade. “O homem tende naturalmente para a verdade. É obrigado a honrá-la e testemunhá-la. É postulado da própria dignidade que os homens todos, por serem pessoas, se sintam por natureza impelidos e moralmente obrigados a procurar a verdade ... São obrigados também a aderir à verdade conhecida e a ordenar toda a vida segundo as exigências da verdade. A verdade como retidão do agir e da palavra humana tem o nome de veracidade, sinceridade ou franqueza. A verdade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia. A virtude da verdade devolve ao outro o que lhe é devido”. A mentira, o falso testemunho, a calúnia, a maledicência, a bajulação se tornam ofensas à verdade.

O acesso a informações e notícias verdadeiras sobre os fatos é um direito dos cidadãos. Informações manipuladas ou seletivas impedem a formação de própria opinião e de uma postura consciente. Num ambiente de denúncias e de negação das denúncias; de comentários sobre as denúncias e as suas negações, a maioria das pessoas fica confusa. Tarefa indispensável têm as autoridades competentes e as respectivas instituições para discernir, entre o falso e o verdadeiro, entre o fato e o boato, ente o fato e a versão do fato.

A nação brasileira é maior que seus atuais dirigentes. O problema não é o Brasil. Todas as soluções devem ter por objetivo o bem comum do país. Buscar a verdade é uma necessidade urgente e a consequente punição dos envolvidos. Faz-se necessário um empenho, por parte de todos - pessoas individuais, grupos sociais, poderes constituídos - para que a investigação da verdade seja promovida em todos os âmbitos para resolver os problemas segundo a verdade e às exigências objetivas da moralidade.

“O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada” (CNBB).




“Mulher, eis o teu filho! Filho “Eis a tua mãe” (Jo 19, 26-27)

Sábado, 13/05/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A significativa data do Dia das Mães abre um amplo espaço de reflexão. Parto de um fato bíblico. Jesus, pregado na cruz, vê diante dele sua mãe Maria, o discípulo João e outras pessoas. Nesta cena horrorosa, o olhar amoroso de Jesus recai sobre a mãe Maria. É a última manifestação de carinho e cuidado confiando-a aos cuidados do apóstolo João. Também, Maria vê Jesus, seu filho amado, que passou pelo mundo só fazendo bem, sendo executado inocentemente. Sofre diante daquela situação, sem poder fazer nada.

Este fato bíblico traz elementos para a reflexão sobre a relação mãe e filho, filho e mãe. As realidades destas relações existenciais são múltiplas e únicas, portanto, é impossível generalizar.

O filho desejado, planejado e esperado pela mãe, a faz criar um universo de sonhos e expectativas. Acontece uma idealização para a vida daquele que está vindo. Espera-se sempre o ideal, o perfeito, sem nada de dor, de conflito ou imprevistos trágicos. Como é próprio da natureza humana, projetos são idealizados e vai-se tomando medidas para a sua realização. É a virtude da esperança que não se conforma com uma visão pequena da vida. Inúmeras histórias felizes podem ser contadas e cantadas. Mãe, eis o teu filho.

Entre tantos sonhos e idealizações existe o outro lado da moeda, que é a presença da dor, do sofrimento e da amargura. É sonho que se esvai paulatina ou repentinamente. É a mãe que recebe, em seu colo, o filho morto inocentemente na tragédia da violência, seja do trânsito, do latrocínio, da bala perdida, da guerra promovida por loucos, etc. Outras mães choram os filhos vendo-os tomando rumos de degradação física ou moral. O filho sonhado e desejado transforma-se em contínua dor. Mãe, eis o teu filho.

Filho, eis a tua mãe. É o olhar do filho em relação à mãe. O início da vida do filho é marcado pela total dependência biológica da mãe e com o passar dos anos chega à progressiva independência. Não é raro que a mãe vá se tornando dependente do filho. A convivência e os sentimentos vão passando por diversas situações na medida em que passam os anos. De um lado cresce o amor, a admiração, o carinho, a amizade, o respeito e o cuidado. Como também, em outros casos se desenvolvem sentimentos de desencanto, indiferença, até de abandono em situações extremas.

No Dia das Mães celebramos situações ideais e felizes. Somos solidários com as mães que tem poucas razões para sorrir e se alegrar. A imagem emblemática do calvário revela que o amor e o cuidado são possíveis em qualquer situação.

Um abraço às mães e que Deus as abençoe.




CNBB

Sábado, 06/05/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Entre os dias 26 de abril a 05 de maio de 2017, realizou-se a 55ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Quem é a CNBB? Qual a sua missão? Como é organizada?

No artigo 1º do estatuto da CNBB está descrita a sua natureza e a finalidade: “É a instituição permanente que congrega os Bispos da Igreja Católica no País, (...) eles exercem algumas funções pastorais em favor de seus fiéis e procuram dinamizar a própria missão evangelizadora, para melhor promover a vida eclesial, responder mais eficazmente aos desafios contemporâneos, por formas de apostolado adequadas às circunstâncias, e realizar evangelicamente seu serviço de amor, na edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária, a caminho do Reino definitivo”.

É uma conferência e não uma confederação, como algumas vezes de escuta. Segundo os dicionários uma confederação é a reunião de diferentes Estados que reconhecem um governo comum, mas conservam relativa autonomia. Uma conferência tem a marca da conversação sobre interesses comuns, ser um espaço de consulta e deliberação. Portanto, a CNBB não é uma confederação das dioceses brasileiras.

A CNBB congrega os bispos do país para dinamizar a missão evangelizadora. Cada bispo é responsável pela sua diocese, na qual se encontram desafios próprios, mas muitos outros são comuns. Ter um espaço comum de consulta e deliberação é um auxílio indispensável para o bispo exercer o pastoreio na sua diocese. A conferência também tem a missão de ser um espaço de colegialidade dos bispos e troca de experiências pastorais.

Com frequência, a CNBB se manifesta e se posiciona sobre acontecimentos da realidade social, política e econômica. É a visão e a contribuição da Igreja “para realizar evangelicamente seu serviço de amor, na edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária, a caminho do Reino definitivo”. Afinal, os cristãos católicos são membros da sociedade e a fé tem implicações éticas.

A Assembleia Geral é o órgão supremo da CNBB. Espaço onde são tomadas as decisões mais importantes, entre elas eleger a presidência, composta por um presidente, vice-presidente e secretário, por um período de quatro anos, sendo permitido apenas uma reeleição. A presidência é assessorada pelo Secretariado Geral.

Sendo que Assembleia Geral acontece uma vez por ano faz-se necessário ter um Conselho Permanente. É o órgão de orientação e acompanhamento para que se executem as decisões da Assembleia Geral.

Como a finalidade fundamental da CNBB é a evangelização existe na sua organização o Conselho Episcopal Pastoral, composto por doze comissões. Ele é o órgão executivo das decisões pastorais da Assembleia Geral e do Conselho Permanente.

Considerando as dimensões continentais do Brasil, a CNBB se divide, atualmente, em 18 regionais. Os regionais são denominados pela localização geográfica e numerados pela ordem de criação na região, muitos deles coincidindo com um Estado brasileiro. Por exemplo, o Regional Sul 3 da CNBB reúne os bispos do Estado do Rio Grande do Sul. 




Trabalho: chave da questão social

Sábado, 29/04/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Em 14 de setembro de 1981, São João Paulo II publicava a carta encíclica Laborem Exercens – sobre o trabalho humano. Afirmava “que o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda questão social, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem do homem” (nº 3).

O Dia do Trabalhador ou Dia do Trabalho, neste ano, está dentro de um momento histórico muito problemático: grande desemprego, Reforma das Leis Trabalhistas, Reforma da Previdência, corrupções e outros problemas mais. Grandes problemas que exigem grandes esforços, estudos, debates e aprofundamentos para que se encontrem soluções que gerem o bem comum. Considerando que bem comum é o conjunto daquelas condições da vida social que permitem a cada um e aos grupos atingirem mais completamente a perfeição. O privilégio de um grupo é uma injustiça institucionalizada contra os outros cidadãos, especialmente os mais pobres, pois deste modo se mantêm a desigualdade ou ainda a torna pior.

O ensinamento social contido na Laborem Exercens enriquece o debate atual. O trabalho humano é abordado em quatro dimensões: antropológica, ética, histórica e teológica. As dimensões não podem ser tratadas de modo independente, pois se entrelaçam. Uma antropologia do trabalho é, ao mesmo tempo, filosófica e teológica, mas também quer descobrir as exigências éticas que daí derivam, sem excluir o momento histórico da realidade do trabalho.

O trabalho se constitui uma dimensão fundamental da existência humana na terra através do qual o homem satisfaz as suas necessidades e se realiza como ser humano e criatura feita à imagem de Deus. O trabalho não se constitui como uma atividade isolada. Para falar de trabalho é preciso falar de quem trabalha. O trabalho está ‘em função do homem’ e não o homem ‘em função do trabalho’. A dignidade do trabalho está no homem que o realiza, e não no produto resultante. Ao mesmo tempo, o homem no trabalho realiza-se a si mesmo como pessoa humana, possibilita a vida familiar e colabora na construção da sociedade.

Da dignidade do trabalhador e do seu trabalho derivam exigências éticas, com uma série direitos e deveres. O trabalho humano não se limita à atividade produtiva, mas se estende a toda atividade na qual o homem age enquanto ser livre e inteligente. O trabalho tem um caráter coletivo, é uma atividade de toda a humanidade, cujos os frutos se acumulam formando um “patrimônio histórico do trabalho humano” (nº 12). Toda tecnologia desenvolvida, com seus instrumentos, torna-se um verdadeiro patrimônio para a geração seguinte.

No trabalho ressaltam-se essencialmente as relações entre as pessoas. Competência profissional se mistura com sentimentos e emoções, revelando que o trabalhador e o seu trabalho não se reduzem a uma mercadoria comprada que gera outro bem. A primazia está na pessoa e não na matéria.

Em tempos de desemprego, vale lembrar que o trabalho é um direito que não depende somente do sujeito que trabalha, nem somente do empregador. Depende de uma ação da sociedade, em escala nacional e internacional, mas boa parte é responsabilidade do Estado criando condições ao trabalho.




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