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Colunistas


Nossa Senhora Aparecida, clamamos por paz!

Sexta-Feira, 12/10/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, coloca uma multidão a caminhar. Ficam mais visíveis os grandes santuários e romarias, porém, mesmo em números, os que se reúnem nas centenas de igrejas dedicadas a Nossa Senhora Aparecida no Brasil e pelo mundo afora, são muito mais numerosos. As motivações que movimentam os devotos são as mais variadas revelando as múltiplas facetas da existência humana. A seguinte música cantada no Brasil e em muitos lugares do mundo ajuda a compreender o Povo de Deus em movimento.


1. Pelas estradas da vida, nunca sozinho estás. Contigo pelo caminho, Santa Maria vai. /: Ó vem conosco vem caminhar, Santa Maria vem:/ 2. Se pelo mundo dos homens, sem conhecer-se vão. Não negues nunca tua mão, a quem te encontrar. 3. Mesmo que digam os homens, tu nada podes mudar. Lutas por um mundo novo, de unidade e paz. 4. Se parecer tua vida, inútil caminhar. Lembra que abres caminho, outros te seguirão.


O ensinamento da Igreja sobre a devoção mariana sempre foi muito claro. A dignidade e a grandeza de Maria provêm da sua fé. “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!” (Lucas 1, 45). Da fé de Maria nasce a obediência à vontade de Deus, a aceitação da Palavra e das ações de Jesus, fazendo dela a discípula mais perfeita do Senhor. Maria se torna toda de Deus e personifica aqueles que se põem no seguimento tornando-se uma referência.


Maria é também toda do povo por sua origem pobre e simples. Os textos bíblicos no Novo Testamento viram nela a personificação do povo de Deus que caminhava nas promessas e na esperança de novos tempos. Deste modo, ela carrega em si as aspirações e desejos de vida em plenitude num mundo de contradições e sofrimentos.


Voltando ao canto, as duas primeiras estrofes expressam que não se faz o caminho de forma isolada, egoísta e nem sendo indiferente com quem está ao lado. Temos um ensinamento de geração de comunhão. Os devotos ao serem conduzidos a Jesus Cristo por Maria encontram nela uma ação de mãe que reúne e une. Faz as pessoas saírem da sua casa e colocarem-se a caminhar lado a lado gerando ocasiões para estender a mão e contemplar o rosto do outro.


A terceira estrofe injeta esperança e provoca a ajudar a construir um mundo de unidade e paz. Gera grande preocupação a divulgação de uma pesquisa relacionada com as eleições sobre o que se pensa do Brasil, entre os 3.240 entrevistados, mais de três quartos se manifestaram que estão inseguros, tristes, desanimados, com medo e raiva. Respostas, que à primeira vista, podem indicar que nada pode mudar. Para transformar algo é preciso, em primeiro lugar, alimentar a esperança. Esperança não é um sentimento vago, uma utopia ou algo irrealizável. Para sonhar com algo melhor é preciso ter os pés bem no chão, na dura realidade. A esperança não é fuga da realidade, mas atitude consciente de modificar a realidade por vislumbrar uma direção segura. O pessimismo não leva a nada.
A 38ª Romaria de Nossa Senhora Aparecida da Arquidiocese de Passo Fundo tem como lema “Aparecida, clamamos por paz”, seguindo a reflexão proposta pela Campanha da Fraternidade de 2018 da superação de todas as formas de violência através da oração, da fraternidade e da unidade. Sem dúvida a dura realidade da violência é fonte de tristeza. É urgente invocar o dom da paz. Maria possibilitou que Jesus “nossa paz” aquele que “derrubando o muro da inimizade que os separava” (Efésios 2,14) formasse um só povo. Jesus anunciou uma boa notícia para um mundo desanimado e Maria abraçou este ensinamento e, hoje, ajuda e alimenta os devotos a seguirem criativamente o mesmo Cristo que ela seguiu.




O poder é serviço

Sábado, 06/10/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Nos próximos dias serão eleitos no Brasil pessoas para os poderes executivo e legislativo. Transcorridos os trâmites da legalidade das candidaturas, a eleição entre os candidatos para os respectivos cargos e, por fim, a posse para exercício da devida função, os eleitos serão empossados e revestidos de poder para cumprirem as obrigações inerentes ao cargo. A Justiça Eleitoral chancela a sua legalidade.


O que é poder? Por que autoridade? O dicionário Aurélio apresenta múltiplos significados de poder: ter faculdade de; ter possibilidade de, ou autorização para; arriscar-se, expor-se a; ter ocasião, ter oportunidade, meio de; ter ocasião ou oportunidade de; dispor de força ou autoridade; ter força física ou moral; ter influência, entre outros. Percebe-se nestas poucas palavras que o poder e a autoridade não têm nada de pejorativo, mas abrem espaço para inúmeras possibilidades de realizar o bem comum. O problema não está no poder, mas no seu exercício, no abuso ou na omissão.


O Evangelho registra uma disputa de poder entre os apóstolos causando um conflito entre eles. Jesus aproveita a oportunidade para ensinar o que é poder e como ele deve ser exercido. Acompanhados pela mãe, dois discípulos pedem os dois cargos mais importantes e recebem como resposta que estes lugares não se conquistam deste modo e para chegarem lá precisarão mostrar serviço e não será pela pressão. “Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso escravo” (Mateus 23, 25-27). É direta e límpida a resposta de Jesus que poder é serviço e assim deve ser exercido.


O poder exercido como dominação contrapõe-se ao poder como serviço. O poder como dominação é exercido sobre pessoas, grupos, se impõe pela força, pelo engano e não objetiva os interesses comuns, mas próprios. Temos um noticiário farto destes abusos e suas respectivas consequências. O poder-serviço tem como foco quem conferiu o poder, isto é, os cidadãos. O modo de exercer o poder legitima quem o exerce e lhe confere autoridade moral. Se alguém ocupa a função legalmente, mas a exerce de forma abusiva ou desleixada perde a credibilidade, a autoridade moral e questiona-se até a sua legalidade.


A nação brasileira tem múltiplas necessidades, muitas delas são urgentes e necessitam de medidas eficazes. Quanto maiores são os problemas, as soluções paliativas não são suficientes e nem é possível resolvê-los em pouco tempo. Da sintonia entre a efetiva participação da sociedade e os eleitos, os quais receberão um grande poder de servir os Estados e a Nação, deverão surgir os meios para promover o desenvolvimento de todas as dimensões da sociedade. Diz o ditado que “não se pode tapar o sol com a peneira”. Espera-se de quem for revestido de poder não use deste artifício para tapar os problemas.


“Há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o serviço aos povos, solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados, que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático, que conjugam a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação” (Papa Francisco, aos políticos latino-americanos em dezembro 2017).




Prisões e violência

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 02 de outubro de 1992 aconteceu o massacre no Carandiru onde foram mortos 111 apenados. É um fato emblemático e uma ferida aberta que não pode ser esquecida. Este fato, entre outros do passado e dos recentes, revelam os múltiplos desafios relacionados com o sistema prisional. É certo que não existem soluções simplórias, mas também é verdade que a gravidade do assunto merece uma atenção bem maior da sociedade e, principalmente, das autoridades competentes. 

 

Um dos objetivos do sistema prisional é reduzir e interromper o ciclo da violência. Os estudos e o senso comum mostram que é alto o índice de condenados que reincidem no crime após o cumprimento da pena. Portanto, os presídios estão produzindo efeitos contrários aos desejados, isto é, fomentam, potencializam e mantêm o ciclo vicioso da violência e da criminalidade. O grande e real medo dos brasileiros de se tornarem, a qualquer hora, vítimas, não sofrerá significativas alterações sem uma efetiva mudança no sistema prisional. Os fatos e as estatísticas são suficientes para chegar a esta conclusão.


Em tempos de campanha eleitoral o tema da segurança pública está em pauta e não poderia ser diferente, talvez devesse ocupar mais espaço. Não se pode exigir dos candidatos respostas bem elaboradas e projetos prontos em curtas entrevistas. Além disso, as medidas a serem adotadas passam pelos três poderes constituídos. Porém, pode-se perceber nas respostas, mesmo resumidas, o ponto de vista sobre a violência e os caminhos essenciais da superação da mesma. É um tema a ser dialogado com franqueza com os candidatos, pois serão os representantes da sociedade e terão a possibilidade de implementar mudanças.


Uma das medidas da redução da violência é cumprir o que a legislação prevê para a recuperação dos apenados. Cumprindo o que está previsto já seria um passo significativo. Tratar com dignidade os apenados não é conceder privilégios. Investir na sua qualidade de vida, na educação, na saúde e em outras medidas de recuperação não são recursos mal investidos. Se o apenado volta a reincidir, o gasto que a sociedade teve durante a sua permanência na prisão foi inútil. Além disso, exige mais investimento em aparatos de controle, de maior efetivo policial e prender novamente.


A Igreja através da Pastoral Carcerária está presente nos presídios. São poucas pessoas ativas nesta pastoral, mas de uma grande dedicação. Disse Jesus: “Estava na prisão, e fostes visitar-me” (Mateus 25,36). É a motivação de fé que leva os voluntários da pastoral carcerária visitar os presos para estarem junto a estas pessoas privadas de liberdade. Convivem, estabelecem laços fraternos e escutam os presos. Procuram olhar o preso na sua totalidade que tem uma família, tem sonhos, torce por um time, tem religião, etc. Enfim, buscam ser uma presença de Cristo e da Igreja atendendo religiosamente aos presos anunciando o Evangelho e promovendo a sua dignidade. O desejo é ajudar aqueles que são justamente condenados a se recuperarem para que vivam e não reincidam no caminho que os levou para a prisão. A Pastoral Carcerária é desenvolvida por pessoas que tem este dom e se preparam para realizar bem o trabalho. É preciso reconhecer que se faz pouco e é preciso fazer muito mais.




Sabedoria

Sábado, 22/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Existem muitas lendas, parábolas, ensinamentos que falam de sabedoria. Quem tem este dom é denominado sábio. Em geral estas pessoas são caracterizadas como idosos, serenos, introspectivos, moderados e sóbrios no falar, afastados da agitação do cotidiano e ao mesmo tempo muito cientes dos dramas existenciais e sociais, respondem de forma indireta obrigando a pessoa a colaborar na busca da resposta. 

 

Na Bíblia, existe um livro denominado “Sabedoria” que neste mês de setembro é objeto de estudo na Igreja. Além deste livro existem muitos outros textos bíblicos redigidos em linguagem sapiencial abrindo espaço um amplo estudo, pesquisa e múltiplas orientações vivenciais. Também não aparece uma definição unívoca, uma vez que fala de decisões para a vida e o cotidiano não se apresenta monocromático e nem rotineiro.


“A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). A característica fundamental e primeira da sabedoria é ela ser a “arte do discernimento para fazer aparecer o que favorece a vida ou, ao contrário, o que leva a morte”. Neste sentido, na arte da sabedoria conta a experiência pessoal, a comunhão com as pessoas do passado, a interpretação dos fatos ocorridos e a partir daí nascem lições para orientar as escolhas e o comportamento.


A sabedoria bíblica também tem outros aspectos. Reflete a sabedoria real necessária para quem governa. Governar exige discernimento para escolher o bem comum e executá-lo depois. O rei e seus conselheiros necessitam estar em harmonia com a sabedoria divina não podendo centra-se sobre si próprios, mas no bem de quem governam. Ser sábio é ter o “temor de Deus”. A fonte da vida e do sucesso deveria ser procurada na fidelidade aos mandamentos de Deus que são sábios caminho de vida. A sabedoria reflete os temas existenciais da vida: a morte, a imortalidade, o sofrimento e o sentido da vida. A sabedoria é um dom de Deus que transforma o coração do homem, e ao mesmo tempo, uma qualidade humana adquirida por meio do aprendizado.


A sabedoria se desenvolve com o trabalho da razão, da inteligência e dos dados das ciências. Reexamina ideias aceitas, slogans, provérbios e máximas do senso comum relacionando-os com as mudanças históricas. Ao fazer este processo ajuda a corrigir visões de mundo e análises de comportamento. Por outro lado, a sabedoria também faz ver os limites do saber humano e previne contra o perigo de confiar unicamente na inteligência e na racionalidade.


Sim, a sabedoria é um dom individual recebido gratuitamente e amadurecido com a vivência, o estudo e o esforço. Também é um desafio comunitário, isto é, formar uma comunidade ou um povo sábio. Não pode ser tratado como um privilégio de alguns, mas uma responsabilidade de cada um. Começa com a educação dos pais, a seguir agrega-se a escola que ensina a viver bem e feliz, além de outros meios coletivos. Uma comunidade é rica de sabedoria quando o bem do próximo está em primeiro lugar nas suas escolhas e relações, isto é, não exclui ninguém, não rejeita ninguém e não julga e nem mede somente pelas aparências, mas pela verdade. Uma comunidade sábia contagia vida.


E para concluir, um texto do livro dos Provérbios 6, 16-19: “Seis coisas detesta o Senhor e uma sétima sua alma abomina: olhos empinados, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos perversos, pés velozes para correrem ao mal, testemunha falsa, proferindo mentiras, e quem semeia discórdia entre irmãos”.




“Felizes os que promovem a PAZ, porque serão chamados FILHOS DE DEUS” (Mt 5,9)

Sábado, 15/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A história da humanidade não pode ser contada sem considerar as múltiplas formas de violência, oriundas das mais variadas pessoas, instituições e justificadas pelos mais diferentes argumentos. Sem desconsiderar o passado, o tempo presente, em particular o Brasil, tem fatos de violência, física ou verbal, suficientes para deixar a todos muito preocupados e desafiados a superar todas as formas de violência.


Escandalizar-se, repudiar, comentar e noticiar amplamente qualquer atentado contra a vida de qualquer pessoa, condição social, idade é muito importante, porém insuficiente. O remédio que Jesus propôs foi promover a paz. Apostou na metodologia de ensinar confiando na capacidade humana de aprender, de assimilar valores e de um estilo de vida pacífico. Olhando a história da humanidade percebe-se muitos avanços desde o tempo de Jesus em relação ao tema da violência. A geração presente é desafiada a dar mais passos.


O evangelista Mateus, após registrar a máxima de que promover a paz traz felicidade, bem-aventurança, qualidade de vida, registra que Jesus comenta leis importantes bem conhecidas dos ouvintes. “Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não cometerás homicídio! Quem cometer homicídio deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal; quem disser ao seu irmão ‘imbecil’ deverá responder perante o sinédrio; quem chamar seu irmão de ‘louco’ poderá ser condenado ao fogo do inferno”. (Mt 5,21-22).


Neste ensinamento, Jesus afirma que a origem de muitas violências está na palavra. Ela tem uma força que não pode ser subestimada, pois tem um incrível poder criador ou destruidor. Antes da violência física, normalmente, vem a agressão verbal. Chamar alguém de imbecil ou louco, ou qualquer outro adjetivo pejorativo é matar moralmente, é desqualificar, é tirar a dignidade, é provocar reações violentas. É muito interessante que Jesus trata o homicida físico e o homicida verbal da mesma maneira. Ambos devem ser apresentados ao tribunal e a condenação deve ser equiparada.


Até o advento dos atuais meios de comunicação e das redes sociais as palavras ditas, normalmente, ficavam num ambiente muito restrito. Agora, palavras ditas ao pé do ouvido são possíveis de serem ouvidas, em poucos minutos, no mundo inteiro. É um ambiente maravilhoso e macabro. O seu incalculável e incontrolável potencial fascina e assusta podendo gerar alegria, solidariedade ou alimentando ódio, raiva. Se já era grande a influência dos líderes, dos comunicadores, dos donos dos meios de comunicação, com o advento das novas tecnologias a responsabilidade aumentou ainda mais. Tudo o que for insistentemente repetido direcionará os pensamentos e as ações. Normalmente, a notícia de um fato de violência vem acompanhado de comentários, interpretações que vai direcionar o posicionamento dos receptores.


Os filhos de Deus são os promotores da vida e da paz e não os violentos. O critério para dirimir qualquer dúvida sobre a vontade de Deus a este respeito é observar atentamente as ações e palavras de Jesus Cristo. No séc. II o bispo Santo Irineu escrevia: “O esplendor de Deus dá a vida. Consequentemente, os que veem a Deus recebem vida ..., Participar de Deus consiste em vê-lo e gozar da sua bondade. Por conseguinte, os homens hão de ver a Deus para poderem viver. Por esta visão tornam-se imortais e se elevam até ele... Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.




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