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Colunistas


Finados

Sexta-Feira, 02/11/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O dia de Finados não passa despercebido por trazer em pauta o tema da morte, também o tema da eternidade. São muitas as compreensões de morte: porque se morre? Como se deve conviver com ela? Como se portar diante dela? Ela tem algum sentido? Existe vida após? Enfim, perguntas não faltam. Ela “mexe” com quem encontrou respostas e com aqueles que a veem simplesmente um absurdo.


Finados estimula a fazer memória e a recordação dos falecidos. Mas quem provoca mesmo são as pessoas que foram próximas e bem conhecidas. Entre os inumeráveis falecidos da história da humanidade, somente alguns vem à nossa memória. Num cemitério grande se passa apressadamente diante de centenas de túmulos e se vai ao encontro daquele que nos levou lá. O falecido tem nome, tem história, tem afeto com o visitante. Não é um anônimo e não se quer que se torne anônimo. Grava-se o nome não só para identificar a sepultura. Enfeita-se o túmulo de forma personalizada porque o falecido foi diferente de todos os outros.


A morte não rompeu a comunhão do falecido com o vivo. Sim, a forma da relação mudou radicalmente, mas não foi impedida e nem interrompida. O que se passa em cada pessoa quando se aproxima da sepultura também é único. Pequenos fatos, gestos, palavras têm um valor existencial incalculável. Para quem olha de fora, certamente, grande parte daquelas recordações são sem significado. A forte dor inicial da ruptura vai se transformando em saudade, num imenso desejo de se reencontrar.


A visita ao cemitério faz lembrar que no fundo todos somos iguais. A aparência das sepulturas revela a diferença, o que está dentro contém a igualdade. Se durante a vida vivemos em classes sociais, diferentes profissões, desigualdade de oportunidade etc no morrer nos igualamos. A morte grita por uma maior igualdade entre os vivos, por maior humildade e ocupação com as coisas essenciais. Como diz o livro de Jó 1,21: “Nu, saí do ventre de minha mãe e nu, voltarei para lá”.


A morte nos ensina a fazer o bem e levar a vida a sério. Ela estimula e provoca a viver bem. O que permanece de eterno no mundo e que merece ser lembrado pelos vivos é o bem feito. Tempos, situações e oportunidades a vida proporciona constantemente para eternizar os vivos.


Finados remete à virtude teologal da esperança. A fé dos cristãos professa a ressurreição dos mortos. Aqueles que em Jesus Cristo viveram e morreram, Nele ressuscitarão. A certeza da morte entristece, mas a fé na ressurreição abre para a esperança da vida eterna, da imortalidade, de contemplar Deus face a face.


O dia de Finados foi estabelecido pela Igreja para não deixar no esquecimento os falecidos. Eles também são rapidamente esquecidos, tão brevemente lembrados quanto é breve a vida neste mundo de cada ser humano.


Pedimos a Deus pelos falecidos três coisas: o descanso, a luz e a paz. Descanso é o prêmio para quem trabalhou. O reino da luz é o Céu. E a paz é a recompensa para quem ajudou a construir um mundo melhor. Que nossos falecidos descansem em paz e a luz perpétua brilhe para eles. Amém.




“Mestre, que eu veja!”

Sábado, 27/10/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A liturgia da Igreja católica, neste último domingo de outubro, reflete e reza a partir do fato, narrado pelo evangelista São Marcos 10, 46-52, do encontro de Jesus com Bartimeu, cego e mendigo, em Jericó. Este homem, sentado à beira do caminho, grita e faz um pedido a Jesus: “Mestre, que eu veja!”. Queria ter a oportunidade de ver como todos os que não tinham esta deficiência física. Não queria mais ficar sentado à beira do caminho, pois desejava caminhar com os outros e seguir o mestre. Este fato provoca uma reflexão sobre a maravilha dos olhos, sobre o dom de ver. Ver quem? Ver como? Ver o quê?


Mestre, que eu veja de forma tão ampla e global como o universo. Mesmo com os mais modernos instrumentos de ampliação da visão, somente enxergamos parte deste universo repleto de galáxias, estrelas, planetas. Permanecendo somente no Planeta Terra, que eu possa ver de forma integral todos os seus elementos e seres, sem as barreiras das fronteiras de países, de raças, credos e línguas.


Mestre, que eu veja de forma tão pontual e minuciosa como se visse através de um microscópio para ver os mínimos detalhes, deste modo valorizando cada individualidade e cada pequeno detalhe localizado dentro do todo, num espaço, no tempo, na sua forma e cor. Admirar-se daquilo que é pequeno, mas é único e irrepetível.


Mestre que eu veja os sofrimentos da mãe natureza da qual sou parte. Que eu saiba cuidar dela com a mesma generosidade como ela me cuida, alimenta, acalenta e sustenta. Que eu empreste a minha voz e assim ressoe aos ouvidos de quem não despertou para ouvir o teu grito de socorro; e os meus olhos para quem não viu tua beleza e harmonia.


Mestre, que eu veja os sofrimentos registrados no rosto e no corpo das pessoas marginalizadas. Dai-me a graça de não me acostumar e nem conformar com a situação daqueles que foram colocados ao lado da estrada seja pelo motivo que for. Pois, a eles, só resta o grito apelando por misericórdia. Dai-me a graça de fazer-me próximo, como Jesus se aproximou do cego Bartimeu e nunca conformar-me com esta realidade.


Mestre, que eu veja além das aparências e das primeiras impressões para não incorrer em juízos precipitados, injustos e, por causa disso, desenvolver preconceitos. Ver além das aparências para chegar à verdade e a capacidade de ver a beleza interior das pessoas que só se revela progressivamente.


Mestre, que eu veja de forma contemplativa. Estando diante de uma árvore que não venham imediatamente pensamentos interesseiros, utilitários, econômicos, mas vê-la simplesmente como uma árvore. Admirar-me com a sua forma, sua cor. De modo ainda mais contemplativo, possa contemplar cada pessoa sem fixar-me nos atributos físicos, na profissão que exerce, naquilo ela me possa ser útil, mas simplesmente considerá-la como ela é em si mesma. Ela vale por aquilo que é e não por aquilo que faz. Ainda mais, que eu possa contemplar o Senhor meu Deus. Dizer como São Tomé disse: “Meu Senhor e meu Deus”.


Mestre, que eu veja para amar, com aquele amor descrito por São Paulo em 1 Coríntios 13, 4-7: “O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo”.




Nossa Senhora Aparecida, clamamos por paz!

Sexta-Feira, 12/10/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, coloca uma multidão a caminhar. Ficam mais visíveis os grandes santuários e romarias, porém, mesmo em números, os que se reúnem nas centenas de igrejas dedicadas a Nossa Senhora Aparecida no Brasil e pelo mundo afora, são muito mais numerosos. As motivações que movimentam os devotos são as mais variadas revelando as múltiplas facetas da existência humana. A seguinte música cantada no Brasil e em muitos lugares do mundo ajuda a compreender o Povo de Deus em movimento.


1. Pelas estradas da vida, nunca sozinho estás. Contigo pelo caminho, Santa Maria vai. /: Ó vem conosco vem caminhar, Santa Maria vem:/ 2. Se pelo mundo dos homens, sem conhecer-se vão. Não negues nunca tua mão, a quem te encontrar. 3. Mesmo que digam os homens, tu nada podes mudar. Lutas por um mundo novo, de unidade e paz. 4. Se parecer tua vida, inútil caminhar. Lembra que abres caminho, outros te seguirão.


O ensinamento da Igreja sobre a devoção mariana sempre foi muito claro. A dignidade e a grandeza de Maria provêm da sua fé. “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!” (Lucas 1, 45). Da fé de Maria nasce a obediência à vontade de Deus, a aceitação da Palavra e das ações de Jesus, fazendo dela a discípula mais perfeita do Senhor. Maria se torna toda de Deus e personifica aqueles que se põem no seguimento tornando-se uma referência.


Maria é também toda do povo por sua origem pobre e simples. Os textos bíblicos no Novo Testamento viram nela a personificação do povo de Deus que caminhava nas promessas e na esperança de novos tempos. Deste modo, ela carrega em si as aspirações e desejos de vida em plenitude num mundo de contradições e sofrimentos.


Voltando ao canto, as duas primeiras estrofes expressam que não se faz o caminho de forma isolada, egoísta e nem sendo indiferente com quem está ao lado. Temos um ensinamento de geração de comunhão. Os devotos ao serem conduzidos a Jesus Cristo por Maria encontram nela uma ação de mãe que reúne e une. Faz as pessoas saírem da sua casa e colocarem-se a caminhar lado a lado gerando ocasiões para estender a mão e contemplar o rosto do outro.


A terceira estrofe injeta esperança e provoca a ajudar a construir um mundo de unidade e paz. Gera grande preocupação a divulgação de uma pesquisa relacionada com as eleições sobre o que se pensa do Brasil, entre os 3.240 entrevistados, mais de três quartos se manifestaram que estão inseguros, tristes, desanimados, com medo e raiva. Respostas, que à primeira vista, podem indicar que nada pode mudar. Para transformar algo é preciso, em primeiro lugar, alimentar a esperança. Esperança não é um sentimento vago, uma utopia ou algo irrealizável. Para sonhar com algo melhor é preciso ter os pés bem no chão, na dura realidade. A esperança não é fuga da realidade, mas atitude consciente de modificar a realidade por vislumbrar uma direção segura. O pessimismo não leva a nada.
A 38ª Romaria de Nossa Senhora Aparecida da Arquidiocese de Passo Fundo tem como lema “Aparecida, clamamos por paz”, seguindo a reflexão proposta pela Campanha da Fraternidade de 2018 da superação de todas as formas de violência através da oração, da fraternidade e da unidade. Sem dúvida a dura realidade da violência é fonte de tristeza. É urgente invocar o dom da paz. Maria possibilitou que Jesus “nossa paz” aquele que “derrubando o muro da inimizade que os separava” (Efésios 2,14) formasse um só povo. Jesus anunciou uma boa notícia para um mundo desanimado e Maria abraçou este ensinamento e, hoje, ajuda e alimenta os devotos a seguirem criativamente o mesmo Cristo que ela seguiu.




O poder é serviço

Sábado, 06/10/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Nos próximos dias serão eleitos no Brasil pessoas para os poderes executivo e legislativo. Transcorridos os trâmites da legalidade das candidaturas, a eleição entre os candidatos para os respectivos cargos e, por fim, a posse para exercício da devida função, os eleitos serão empossados e revestidos de poder para cumprirem as obrigações inerentes ao cargo. A Justiça Eleitoral chancela a sua legalidade.


O que é poder? Por que autoridade? O dicionário Aurélio apresenta múltiplos significados de poder: ter faculdade de; ter possibilidade de, ou autorização para; arriscar-se, expor-se a; ter ocasião, ter oportunidade, meio de; ter ocasião ou oportunidade de; dispor de força ou autoridade; ter força física ou moral; ter influência, entre outros. Percebe-se nestas poucas palavras que o poder e a autoridade não têm nada de pejorativo, mas abrem espaço para inúmeras possibilidades de realizar o bem comum. O problema não está no poder, mas no seu exercício, no abuso ou na omissão.


O Evangelho registra uma disputa de poder entre os apóstolos causando um conflito entre eles. Jesus aproveita a oportunidade para ensinar o que é poder e como ele deve ser exercido. Acompanhados pela mãe, dois discípulos pedem os dois cargos mais importantes e recebem como resposta que estes lugares não se conquistam deste modo e para chegarem lá precisarão mostrar serviço e não será pela pressão. “Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso escravo” (Mateus 23, 25-27). É direta e límpida a resposta de Jesus que poder é serviço e assim deve ser exercido.


O poder exercido como dominação contrapõe-se ao poder como serviço. O poder como dominação é exercido sobre pessoas, grupos, se impõe pela força, pelo engano e não objetiva os interesses comuns, mas próprios. Temos um noticiário farto destes abusos e suas respectivas consequências. O poder-serviço tem como foco quem conferiu o poder, isto é, os cidadãos. O modo de exercer o poder legitima quem o exerce e lhe confere autoridade moral. Se alguém ocupa a função legalmente, mas a exerce de forma abusiva ou desleixada perde a credibilidade, a autoridade moral e questiona-se até a sua legalidade.


A nação brasileira tem múltiplas necessidades, muitas delas são urgentes e necessitam de medidas eficazes. Quanto maiores são os problemas, as soluções paliativas não são suficientes e nem é possível resolvê-los em pouco tempo. Da sintonia entre a efetiva participação da sociedade e os eleitos, os quais receberão um grande poder de servir os Estados e a Nação, deverão surgir os meios para promover o desenvolvimento de todas as dimensões da sociedade. Diz o ditado que “não se pode tapar o sol com a peneira”. Espera-se de quem for revestido de poder não use deste artifício para tapar os problemas.


“Há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o serviço aos povos, solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados, que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático, que conjugam a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação” (Papa Francisco, aos políticos latino-americanos em dezembro 2017).




Prisões e violência

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 02 de outubro de 1992 aconteceu o massacre no Carandiru onde foram mortos 111 apenados. É um fato emblemático e uma ferida aberta que não pode ser esquecida. Este fato, entre outros do passado e dos recentes, revelam os múltiplos desafios relacionados com o sistema prisional. É certo que não existem soluções simplórias, mas também é verdade que a gravidade do assunto merece uma atenção bem maior da sociedade e, principalmente, das autoridades competentes. 

 

Um dos objetivos do sistema prisional é reduzir e interromper o ciclo da violência. Os estudos e o senso comum mostram que é alto o índice de condenados que reincidem no crime após o cumprimento da pena. Portanto, os presídios estão produzindo efeitos contrários aos desejados, isto é, fomentam, potencializam e mantêm o ciclo vicioso da violência e da criminalidade. O grande e real medo dos brasileiros de se tornarem, a qualquer hora, vítimas, não sofrerá significativas alterações sem uma efetiva mudança no sistema prisional. Os fatos e as estatísticas são suficientes para chegar a esta conclusão.


Em tempos de campanha eleitoral o tema da segurança pública está em pauta e não poderia ser diferente, talvez devesse ocupar mais espaço. Não se pode exigir dos candidatos respostas bem elaboradas e projetos prontos em curtas entrevistas. Além disso, as medidas a serem adotadas passam pelos três poderes constituídos. Porém, pode-se perceber nas respostas, mesmo resumidas, o ponto de vista sobre a violência e os caminhos essenciais da superação da mesma. É um tema a ser dialogado com franqueza com os candidatos, pois serão os representantes da sociedade e terão a possibilidade de implementar mudanças.


Uma das medidas da redução da violência é cumprir o que a legislação prevê para a recuperação dos apenados. Cumprindo o que está previsto já seria um passo significativo. Tratar com dignidade os apenados não é conceder privilégios. Investir na sua qualidade de vida, na educação, na saúde e em outras medidas de recuperação não são recursos mal investidos. Se o apenado volta a reincidir, o gasto que a sociedade teve durante a sua permanência na prisão foi inútil. Além disso, exige mais investimento em aparatos de controle, de maior efetivo policial e prender novamente.


A Igreja através da Pastoral Carcerária está presente nos presídios. São poucas pessoas ativas nesta pastoral, mas de uma grande dedicação. Disse Jesus: “Estava na prisão, e fostes visitar-me” (Mateus 25,36). É a motivação de fé que leva os voluntários da pastoral carcerária visitar os presos para estarem junto a estas pessoas privadas de liberdade. Convivem, estabelecem laços fraternos e escutam os presos. Procuram olhar o preso na sua totalidade que tem uma família, tem sonhos, torce por um time, tem religião, etc. Enfim, buscam ser uma presença de Cristo e da Igreja atendendo religiosamente aos presos anunciando o Evangelho e promovendo a sua dignidade. O desejo é ajudar aqueles que são justamente condenados a se recuperarem para que vivam e não reincidam no caminho que os levou para a prisão. A Pastoral Carcerária é desenvolvida por pessoas que tem este dom e se preparam para realizar bem o trabalho. É preciso reconhecer que se faz pouco e é preciso fazer muito mais.




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