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Colunistas


Prisões e violência

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 02 de outubro de 1992 aconteceu o massacre no Carandiru onde foram mortos 111 apenados. É um fato emblemático e uma ferida aberta que não pode ser esquecida. Este fato, entre outros do passado e dos recentes, revelam os múltiplos desafios relacionados com o sistema prisional. É certo que não existem soluções simplórias, mas também é verdade que a gravidade do assunto merece uma atenção bem maior da sociedade e, principalmente, das autoridades competentes. 

 

Um dos objetivos do sistema prisional é reduzir e interromper o ciclo da violência. Os estudos e o senso comum mostram que é alto o índice de condenados que reincidem no crime após o cumprimento da pena. Portanto, os presídios estão produzindo efeitos contrários aos desejados, isto é, fomentam, potencializam e mantêm o ciclo vicioso da violência e da criminalidade. O grande e real medo dos brasileiros de se tornarem, a qualquer hora, vítimas, não sofrerá significativas alterações sem uma efetiva mudança no sistema prisional. Os fatos e as estatísticas são suficientes para chegar a esta conclusão.


Em tempos de campanha eleitoral o tema da segurança pública está em pauta e não poderia ser diferente, talvez devesse ocupar mais espaço. Não se pode exigir dos candidatos respostas bem elaboradas e projetos prontos em curtas entrevistas. Além disso, as medidas a serem adotadas passam pelos três poderes constituídos. Porém, pode-se perceber nas respostas, mesmo resumidas, o ponto de vista sobre a violência e os caminhos essenciais da superação da mesma. É um tema a ser dialogado com franqueza com os candidatos, pois serão os representantes da sociedade e terão a possibilidade de implementar mudanças.


Uma das medidas da redução da violência é cumprir o que a legislação prevê para a recuperação dos apenados. Cumprindo o que está previsto já seria um passo significativo. Tratar com dignidade os apenados não é conceder privilégios. Investir na sua qualidade de vida, na educação, na saúde e em outras medidas de recuperação não são recursos mal investidos. Se o apenado volta a reincidir, o gasto que a sociedade teve durante a sua permanência na prisão foi inútil. Além disso, exige mais investimento em aparatos de controle, de maior efetivo policial e prender novamente.


A Igreja através da Pastoral Carcerária está presente nos presídios. São poucas pessoas ativas nesta pastoral, mas de uma grande dedicação. Disse Jesus: “Estava na prisão, e fostes visitar-me” (Mateus 25,36). É a motivação de fé que leva os voluntários da pastoral carcerária visitar os presos para estarem junto a estas pessoas privadas de liberdade. Convivem, estabelecem laços fraternos e escutam os presos. Procuram olhar o preso na sua totalidade que tem uma família, tem sonhos, torce por um time, tem religião, etc. Enfim, buscam ser uma presença de Cristo e da Igreja atendendo religiosamente aos presos anunciando o Evangelho e promovendo a sua dignidade. O desejo é ajudar aqueles que são justamente condenados a se recuperarem para que vivam e não reincidam no caminho que os levou para a prisão. A Pastoral Carcerária é desenvolvida por pessoas que tem este dom e se preparam para realizar bem o trabalho. É preciso reconhecer que se faz pouco e é preciso fazer muito mais.




Sabedoria

Sábado, 22/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Existem muitas lendas, parábolas, ensinamentos que falam de sabedoria. Quem tem este dom é denominado sábio. Em geral estas pessoas são caracterizadas como idosos, serenos, introspectivos, moderados e sóbrios no falar, afastados da agitação do cotidiano e ao mesmo tempo muito cientes dos dramas existenciais e sociais, respondem de forma indireta obrigando a pessoa a colaborar na busca da resposta. 

 

Na Bíblia, existe um livro denominado “Sabedoria” que neste mês de setembro é objeto de estudo na Igreja. Além deste livro existem muitos outros textos bíblicos redigidos em linguagem sapiencial abrindo espaço um amplo estudo, pesquisa e múltiplas orientações vivenciais. Também não aparece uma definição unívoca, uma vez que fala de decisões para a vida e o cotidiano não se apresenta monocromático e nem rotineiro.


“A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). A característica fundamental e primeira da sabedoria é ela ser a “arte do discernimento para fazer aparecer o que favorece a vida ou, ao contrário, o que leva a morte”. Neste sentido, na arte da sabedoria conta a experiência pessoal, a comunhão com as pessoas do passado, a interpretação dos fatos ocorridos e a partir daí nascem lições para orientar as escolhas e o comportamento.


A sabedoria bíblica também tem outros aspectos. Reflete a sabedoria real necessária para quem governa. Governar exige discernimento para escolher o bem comum e executá-lo depois. O rei e seus conselheiros necessitam estar em harmonia com a sabedoria divina não podendo centra-se sobre si próprios, mas no bem de quem governam. Ser sábio é ter o “temor de Deus”. A fonte da vida e do sucesso deveria ser procurada na fidelidade aos mandamentos de Deus que são sábios caminho de vida. A sabedoria reflete os temas existenciais da vida: a morte, a imortalidade, o sofrimento e o sentido da vida. A sabedoria é um dom de Deus que transforma o coração do homem, e ao mesmo tempo, uma qualidade humana adquirida por meio do aprendizado.


A sabedoria se desenvolve com o trabalho da razão, da inteligência e dos dados das ciências. Reexamina ideias aceitas, slogans, provérbios e máximas do senso comum relacionando-os com as mudanças históricas. Ao fazer este processo ajuda a corrigir visões de mundo e análises de comportamento. Por outro lado, a sabedoria também faz ver os limites do saber humano e previne contra o perigo de confiar unicamente na inteligência e na racionalidade.


Sim, a sabedoria é um dom individual recebido gratuitamente e amadurecido com a vivência, o estudo e o esforço. Também é um desafio comunitário, isto é, formar uma comunidade ou um povo sábio. Não pode ser tratado como um privilégio de alguns, mas uma responsabilidade de cada um. Começa com a educação dos pais, a seguir agrega-se a escola que ensina a viver bem e feliz, além de outros meios coletivos. Uma comunidade é rica de sabedoria quando o bem do próximo está em primeiro lugar nas suas escolhas e relações, isto é, não exclui ninguém, não rejeita ninguém e não julga e nem mede somente pelas aparências, mas pela verdade. Uma comunidade sábia contagia vida.


E para concluir, um texto do livro dos Provérbios 6, 16-19: “Seis coisas detesta o Senhor e uma sétima sua alma abomina: olhos empinados, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos perversos, pés velozes para correrem ao mal, testemunha falsa, proferindo mentiras, e quem semeia discórdia entre irmãos”.




“Felizes os que promovem a PAZ, porque serão chamados FILHOS DE DEUS” (Mt 5,9)

Sábado, 15/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A história da humanidade não pode ser contada sem considerar as múltiplas formas de violência, oriundas das mais variadas pessoas, instituições e justificadas pelos mais diferentes argumentos. Sem desconsiderar o passado, o tempo presente, em particular o Brasil, tem fatos de violência, física ou verbal, suficientes para deixar a todos muito preocupados e desafiados a superar todas as formas de violência.


Escandalizar-se, repudiar, comentar e noticiar amplamente qualquer atentado contra a vida de qualquer pessoa, condição social, idade é muito importante, porém insuficiente. O remédio que Jesus propôs foi promover a paz. Apostou na metodologia de ensinar confiando na capacidade humana de aprender, de assimilar valores e de um estilo de vida pacífico. Olhando a história da humanidade percebe-se muitos avanços desde o tempo de Jesus em relação ao tema da violência. A geração presente é desafiada a dar mais passos.


O evangelista Mateus, após registrar a máxima de que promover a paz traz felicidade, bem-aventurança, qualidade de vida, registra que Jesus comenta leis importantes bem conhecidas dos ouvintes. “Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não cometerás homicídio! Quem cometer homicídio deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal; quem disser ao seu irmão ‘imbecil’ deverá responder perante o sinédrio; quem chamar seu irmão de ‘louco’ poderá ser condenado ao fogo do inferno”. (Mt 5,21-22).


Neste ensinamento, Jesus afirma que a origem de muitas violências está na palavra. Ela tem uma força que não pode ser subestimada, pois tem um incrível poder criador ou destruidor. Antes da violência física, normalmente, vem a agressão verbal. Chamar alguém de imbecil ou louco, ou qualquer outro adjetivo pejorativo é matar moralmente, é desqualificar, é tirar a dignidade, é provocar reações violentas. É muito interessante que Jesus trata o homicida físico e o homicida verbal da mesma maneira. Ambos devem ser apresentados ao tribunal e a condenação deve ser equiparada.


Até o advento dos atuais meios de comunicação e das redes sociais as palavras ditas, normalmente, ficavam num ambiente muito restrito. Agora, palavras ditas ao pé do ouvido são possíveis de serem ouvidas, em poucos minutos, no mundo inteiro. É um ambiente maravilhoso e macabro. O seu incalculável e incontrolável potencial fascina e assusta podendo gerar alegria, solidariedade ou alimentando ódio, raiva. Se já era grande a influência dos líderes, dos comunicadores, dos donos dos meios de comunicação, com o advento das novas tecnologias a responsabilidade aumentou ainda mais. Tudo o que for insistentemente repetido direcionará os pensamentos e as ações. Normalmente, a notícia de um fato de violência vem acompanhado de comentários, interpretações que vai direcionar o posicionamento dos receptores.


Os filhos de Deus são os promotores da vida e da paz e não os violentos. O critério para dirimir qualquer dúvida sobre a vontade de Deus a este respeito é observar atentamente as ações e palavras de Jesus Cristo. No séc. II o bispo Santo Irineu escrevia: “O esplendor de Deus dá a vida. Consequentemente, os que veem a Deus recebem vida ..., Participar de Deus consiste em vê-lo e gozar da sua bondade. Por conseguinte, os homens hão de ver a Deus para poderem viver. Por esta visão tornam-se imortais e se elevam até ele... Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.




O Brasil que ajudo a construir

Sábado, 08/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Passada a Semana da Pátria aproxima-se, no Rio Grande do Sul, a Semana Farroupilha. Os líderes e outras pessoas envolvidas naqueles acontecimentos, certamente, sonharam e tinham perspectivas de profundas mudanças para melhorar vida da população. Ainda mais que se tratava de implantar um novo modelo de governo. Claro, não se vive só do passado recordando e cantando aqueles feitos, porém eles não podem ser esquecidos, perdidos e nem relativizados. Também, o desenvolvimento histórico não é só ascendente e nem isento de crises. Chegamos ao momento presente no qual os atuais cidadãos assumem a responsabilidade de construírem o Brasil e o Estado. Tarefa que não pode ser simplesmente delegada para alguns.


A Doutrina Social da Igreja tem entre seus ensinamentos o princípio da subsidiariedade. “É impossível promover a dignidade da pessoa sem que se cuide da família, dos grupos, das associações, das realidades territoriais locais, em outras palavras, daquelas expressões agregativas de tipo econômico, social, cultural, desportivo, recreativo, profissional, político, às quais as pessoas dão vida espontaneamente e que lhes tornam possível em efetivo crescimento social” (Compêndio da DSI, nº 185). Do Estado se espera uma atitude em sentido positivo que se expressa em ajuda econômica, institucional, legislativa oferecida às entidades sociais menores e outra de implicações negativas, que impõem ao Estado abster-se de tudo o que venha a restringir o espaço vital das células menores e essenciais da sociedade.


Outra forma fundamental de ajudar a construir a pátria é a participação do cidadão para contribuir na vida cultural, econômica, política e social da comunidade a que pertence. A participação pode ser individual ou de forma associativa. A participação é um dever a ser conscientemente exercido por todos, de modo responsável em vista do bem comum. Deve ser favorecida a participação das pessoas mais marginalizadas e com menos poder de influência. A alternância dos representantes das formas associativas evita que se instaurem privilégios para estes representantes.


Uma forma muito importante de participação é o voto que exige dos votantes um grande processo de discernimento para fazer a melhor escolha possível. As próximas eleições desafiam os cidadãos a dedicarem um bom tempo para escolher em quem e como votar para Presidente, Senador, Deputado Federal, Governador e Deputado Estadual. É indispensável fazer uma leitura da realidade; saber distinguir as funções e competências de cada função; fazer o discernimento sobre os candidatos: postura ética, propostas, a competência.


“Voto não tem preço, mas tem consequências” é um ditado que vai se afirmando. Cada eleitor ao votar em alguém, ou votar em branco ou anular o voto está revelando o que pensa, como está colaborando com o país, quais as mudanças que aponta como necessárias. Qualquer alternativa diante da urna é uma tomada de posição que cada cidadão deve assumir responsavelmente diante do país. Nos regimes democráticos a participação é a garantia da permanência da própria democracia, pois o povo atribui aos representantes poderes e funções a serem exercidos em seu nome, por sua conta e em seu favor. O poder dos cidadãos é delegado e, por isso, a legitimidade legal e moral do exercício de quem exerce o poder requer a presença, a escuta e o envolvimento de quem o delegou.




Semana da Pátria

Sábado, 01/09/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A Semana da Pátria é uma oportunidade para olhar para o passado. É necessário recordar, estudar e aprofundar a história para compreender o presente e para projetar o futuro. Os cidadãos brasileiros são fruto de uma multiplicidade de origens étnicas e culturais, de nativos e imigrantes. Isto gerou um país de múltiplas faces, com elementos positivos e também muitos conflitos, muitos deles ainda não resolvidos. Este processo de formação da pátria brasileira foi relativamente rápido e continua acontecendo com a chegada diária de imigrantes.


A história de um país não se resume a alguns personagens e a alguns fatos coletados nos livros. É verdade que alguns acontecimentos são mais decisivos e envolvem pessoas que exerciam funções de liderança, mas não podem ser esquecidos os cidadãos anônimos e as comunidades locais ou municipais que contribuíram decisivamente. A valorização do local situa o cidadão dentro do país. Aquela parte faz parte do todo e o todo só existe por causa das partes. Valorizar o local é colocar os pés no chão.
Qual é a situação da nossa pátria no presente? Por que o Brasil está assim? De quem é a responsabilidade? Vive-se neste contexto real. Fazer uma análise de conjuntura que seja verdadeira e objetiva é uma tarefa extremamente desafiadora. Cada cidadão tem seu ponto de vista a partir do qual olha, julga e projeta o país. Mas, permanecer no próprio ponto de vista e não se abrir a outros pontos de vista fixa a pessoa numa visão restrita da realidade.


Temos que admitir que a situação do Brasil poderia e deveria ser muito melhor considerando a nossa história, os recursos culturais, naturais, econômicos, etc. Entre os maiores problemas existentes podem ser citados: a marginalização de uma multidão de brasileiros; a injusta desigualdade social; as diversas formas de violência; um deficiente sistema educacional; o limitado acesso à saúde; a manutenção legal de um pequeno grupo de privilegiados; a falta de reformas em estruturas que há muito tempo necessitam ser revistas.


Uma leitura adequada da realidade presente permite projetar o melhor possível para o amanhã. A quantidade de problemas a serem enfrentados não tem solução fácil, imediata, como também os recursos existentes são limitados. O ensinamento social da Igreja tem alguns princípios para a construção da sociedade. O primeiro e fundamental princípio que agrega todos os outros é “a dignidade da pessoa humana”. A pessoa humana é o centro e a finalidade de toda estrutura estatal, da política e da economia. Nenhuma pessoa pode ser instrumentalizada e nem ser diminuída em sua dignidade.


Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas derivam os outros princípios: bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, participação, solidariedade, caridade e os valores fundamentais da vida social: verdade, liberdade e justiça. Como existem diferentes leituras da realidade, assim também existem diferentes propostas de construção do país. Os princípios servem de norte para os planos a serem definidos, como também critério de avaliação da qualidade das propostas.


Informações verdadeiras sobre o país, como valor fundamental da vida social, é um direito de todos os cidadãos, mesmo que não sejam agradáveis de serem admitidas, porém são o começo da construção do futuro. Foi decepcionante ler a manchete numa coluna de jornal: “Candidato que falar toda verdade não se elege”. Tomara que não seja verdade.






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