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Colunistas


Obrigado, padre!

Sábado, 04/08/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 04 de agosto é celebrado o “Dia do Padre”, tendo como referência a celebração de São João Maria Vianney, falecido em 04 de agosto de 1859. Ele foi canonizado pelo papa Pio XI em 1925 e proclamado patrono dos párocos em 1929. Vianney nasceu em 1786 e foi ordenado padre em 1815 e partir de 1819, até a sua morte, foi pároco na aldeia de Ars, na França. A história nos conta que a implantação dos ideais da Revolução Francesa foi extremamente conflitiva gerando muita violência, perseguição e pobreza. Além disso, houve recuos e uma alternância de modelos de governo. Foi neste contexto que se desenvolveu a missão pastoral do Pe. João Maria. A sua dedicação incansável revolucionou a vida espiritual, os costumes e o atendimento aos pobres na aldeia de Ars. Sua fama se espalhou pelo mundo e os peregrinos iam lá para ouvi-lo, confessar-se e vê-lo.

 

Olhando para a história das nossas cidades, em sua maioria, a atuação do padre foi importante para o seu desenvolvimento. Gostaria de citar mais três exemplos que fazem parte do nosso cotidiano. O Pe. Theodor Amstad, padre jesuíta, originário da Suíça, chegou ao Brasil em 1885: atuou em várias paróquias das colônias alemãs. Trouxe consigo as reflexões que se desenvolviam na Europa sobre o cooperativismo. Visitando as colônias incentivava este modelo de cooperação entre os colonos. Várias cooperativas foram se criando que continuam vivas. Há poucos dias festejamos os 100 anos do Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo. Não podemos esquecer que na sua origem está o pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pe. Raphael Jop que, junto com os Vicentinos, impulsionou o atendimento dos doentes. Ainda cito o Mons. João Benvegnú pároco de São Domingos do Sul, de 1935 a 1986. Morreu com fama de santidade, já declarado Servo de Deus, sendo que seu túmulo é muito visitado e, no começo de janeiro, se realiza uma grande romaria vocacional.

 

Através destes exemplos, quero homenagear todos os padres. Eles estão presentes nas grandes cidades e nas pequenas. Realizam a sua missão de múltiplas maneiras: algumas vezes tem maior visibilidade e reconhecimento público; mas a maioria das ações são silenciosas e quase invisíveis e o reconhecimento vem de pessoas individuais sem publicidade. Visitam e confortam, com a Palavra de Deus e os sacramentos, os doentes. Acolhem, ouvem e orientam indivíduos e famílias; ouvem confissões e administram a graça do sacramento do perdão. Quantas horas dedicadas para confortar famílias enlutadas e lhes anunciando a esperança da ressurreição.

 

Os padres acolheram o chamado de Deus para serem e viverem como padres, com suas virtudes, qualidades, limitações e fraquezas. Para fazer a escolha abriram mão de outras opções. Uma escolha feita com liberdade e plena consciência para colocarem-se nos passos do mestre Jesus Cristo e partilhar da Sua vida. É um ato de fé e de comunhão com o projeto de Jesus Cristo, denominado de Reino de Deus.

 

O seguimento gera responsabilidades para o padre que são sintetizadas em três grandes áreas. A primeira e a fundamental é anunciar o Evangelho, despertando a fé e o seguimento de Jesus Cristo e a formação da Igreja. A segunda é santificar o Povo de Deus. O padre é um homem ligado ao sagrado. Munido pelo poder recebido no sacramento da Ordem, ele torna-se ministro e servidor das coisas que se referem a Deus para o bem das pessoas. E a terceira missão do padre é conduzir e orientar a comunidade eclesial. Agregar as pessoas, fortalecendo-as e animando-as na vivência cristã. A realização vocacional do padre ocorre na abertura para os outros, no exercício daquilo que lhe é próprio.

 

Parabéns a todos os padres e Deus os abençoe.




Pôr a prova

Sábado, 28/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

É muito conhecida a passagem do Evangelho da multiplicação dos pães (João cap. 06), também relatada pelos outros evangelistas. Numa leitura rápida, e talvez superficial, destaca-se somente o sinal da multiplicação de cinco pães e dos dois peixes que foram capazes de alimentar uma multidão. É uma parte do conjunto dos ensinamentos, além disso os desdobramentos do fato provocam a sociedade.


O pão é símbolo do alimento que mata a fome, seja ela física, interior, emocional, de paz, de unidade, etc. O ser humano tem, por primeira necessidade, matar a fome de cada dia. Saciar-se cotidianamente é possível porque existe a colaboração mútua, e ela é indispensável. Basta lembrar as necessidades não satisfeitas, algumas delas inclusive vitais, durante a greve dos caminhoneiros.
O evangelista conta que uma multidão avança e Jesus provoca o discípulo Filipe. Como resolver o problema da fome daquelas pessoas? O texto bíblico afirma que a pergunta era “para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer” (Jo 6,6). Resolver o problema da fome e das outras necessidades humanas é responsabilidade de quem? Ao envolver os discípulos que vão a campo para encontrar uma saída, fica explícito que a preocupação e a busca de soluções para os problemas da humanidade não podem ficar restritos a algumas pessoas, ou instituições, ou governos. Na verdade, cada um é responsável por todos e todos por cada um.


A primeira proposta que Filipe apresenta é, simplesmente, uma quantidade de dinheiro que seria necessária para matar a fome naquele momento. Porém este dinheiro não estava disponível, não estava em suas mãos. Deu a entender que tendo dinheiro se resolve o problema da fome da humanidade.


Outro discípulo, de nome André, vai busca de alguém que tivesse comida consigo e encontra um menino com cinco pães e dois peixes. Já é uma outra atitude, pois vai ao encontro das pessoas famintas e procura entre elas alguma saída. Vale o famoso adágio: “Ninguém é tão pobre que nada possa dar e ninguém é tão rico que não precise receber”.


Foi a colaboração e o envolvimento dos necessitados que abriu o caminho a solução da fome. O menino, talvez ainda não contaminado pela ganância, abriu mão da sua refeição. Correu o risco de não se fartar e da incerteza do que viria pela frente. A atitude dele permitiu que fosse realizada uma grande partilha. Uma partilha, não voluntariosa, mas organizada. Jesus pediu as pessoas que se sentassem e se organizassem e somente depois o alimento fosse distribuído de forma organizada. O que foi feito indica a necessidade de planejamento. Uma nação com planejamento consegue incluir e repartir, e sem planejamento, somente os primeiros vão se fartar.


É provocativa a seguinte ordem: “recolhei os pedaços que sobraram”. O que é desperdiçado fará falta para alguém. Não faltam estudos indicando a quantidade de alimentos que vão para o lixo. Para quem fica um pouco atento percebe facilmente que em qualquer festa, mesmo aquelas promovidas pelas nossas comunidades, ao final, uma boa parte do sagrado alimento é jogado fora. O que vai fora não me pertence, mas é de quem passa necessidade.


Aquele que envolveu os discípulos, a multidão faminta, ensinou a repartir e a não desperdiçar é reconhecido, somente por alguns, como “aquele que deve vir ao mundo”. Outros não aprenderam esta lição e preferiram ver em Jesus um mágico, por isso Ele foge deles.




Teve compaixão

Sábado, 21/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A passagem do Evangelho da liturgia católica, deste final de semana, tirada do evangelista São Marcos 6,30-34, ressalta que Jesus teve compaixão da multidão. A sua compaixão é decorrente da constatação de que “eram como ovelhas sem pastor”. E toma como atitude para aliviar a multidão “ensinar-lhes muitas coisas”.


O dicionário Aurélio define a compaixão como: “Pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem; piedade, pena, dó, condolência”. Etimologicamente a palavra compaixão significa “sofrer junto com” alguém. É a virtude de compartilhar o sofrimento do outro gerando proximidade. A dor do outro desacomoda, tira da indiferença e desafia a tomar uma atitude, a encontrar uma resposta para aliviar o sofrimento.


O ser humano, devido as suas limitações, necessita viver de forma coletiva, em sociedade. Desta forma as suas necessidades são satisfeitas mais facilmente. Neste modelo de viver, a liderança ocupa um espaço muito importante. Na linguagem bíblica, as lideranças, tanto civis como religiosas, muitas vezes, eram denominadas de “pastores”. Hoje o nosso modelo de organização da sociedade, reconhece como legítimas as lideranças que ocupam os poderes executivo, legislativo e judiciário, mas também todas as instituições e forças vivas que influenciam nos rumos da humanidade. A palavra pastor ficou mais restrita ao ambiente religioso.
Jesus viu que a multidão que corria atrás dele “eram como ovelhas sem pastor”. Olhando a realidade presente, pode-se dizer que a multidão vive uma situação semelhante. Vivemos “uma mudança de época”, com profundas mudanças nas mais diferentes áreas: nas ciências, na técnica, na cultura, nos critérios de compreensão da vida, nos valores. São grandes mudanças acompanhadas de grandes incertezas. Acrescenta-se a isto, uma grave crise de confiabilidade nos poderes constituídos. A pergunta que se escuta com tanta frequência: “Votar em quem”? “Confiar em quem”?


A atitude de Jesus Cristo, como Bom Pastor, foi ensinar a multidão. Em outras passagens, as pessoas reconhecem que Ele ensinava com autoridade, que era verdadeiro, que dizia o que as multidões precisavam ouvir e não simplesmente o que queriam ouvir, enfim que não ludibriava ninguém. Em tempos de insegurança, de falta de rumo as multidões estão fragilizadas e confusas. É frequente, neste contexto, que lideranças adotem “ensinamentos” revestidos de falsidade gerando expectativas impossíveis de serem concretizadas. São as famosas “promessas” irrealizáveis, ou por não dependerem de quem as faz ou mesmo por falta de recursos.
Toda fuga da verdade em tempos “ovelhas sem pastor” é extremamente prejudicial. “Os homens estão obrigados de modo particular a tender continuamente à verdade, a respeitá-la e a testemunhá-la. Viver na verdade tem um significado especial nas relações sociais: a convivência entre os seres humanos em sua comunidade é efetivamente ordenada, fecunda e condizente com a sua dignidade de pessoas quando se funda na verdade. Quanto mais as pessoas e os grupos sociais se esforçam por resolver os problemas sociais segundo a verdade, tanto mais se afastam do arbítrio e se conformam às exigências objetivas da moralidade” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja n. 198).




Copa do Mundo

Sábado, 14/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Devido às dimensões que a Copa do Mundo tem, ela recebe e merece tanta atenção e gera tantos desafios. Mesmo quem não tem afinidade com o futebol não pôde ignorar a da Copa do Mundo de 2018, que começou com as eliminatórias e classificou 32 países para competirem na Rússia. É um evento mundial que envolve diretamente milhares de atletas, organizações, profissionais das mais diferentes áreas até milhares de voluntários.


A Igreja Católica, através do “Dicastério para os leigos, a família e a vida”, publicou no dia 01 de junho de 2018, um documento designado “Dar o melhor de si”. Não trata diretamente da Copa do Mundo, mas da perspectiva cristã do esporte e da pessoa humana. É uma reflexão que pretende contribuir para a construção de um esporte autêntico e orientado para a promoção humana.
Para alcançar o objetivo de ganhar a copa ou de conseguir o melhor resultado possível são empenhados os melhores esforços. Trata-se de selecionar os jogadores, da melhor organização, do melhor condicionamento físico, do equilíbrio emocional, do melhor planejamento estratégico, entre outros empenhos necessários. A alegria, a satisfação e a realização profissional são decorrência do empenho e da dedicação dispensada.


A competição que envolve o mundo inteiro é possível pelo respeito às regras do esporte. Elas possibilitam trabalhar em equipe e realizar a competição jogando contra a seleção de outro país. As regras permitem criar um ambiente de confraternização, de convivência e de paz entre povos diferentes. As diferenças de línguas, costumes, credos religiosos não impedem de realizar o espetáculo esportivo quando suas regras são respeitadas. Elas colocam todos em situação de igualdade. Neste sentido, uma Copa do Mundo é uma oportunidade de pensar o mundo e criar condições de respeito entre todos os povos. Se no futebol temos regras iguais para todos os países, o mesmo não acontece nas relações de poder, de economia, de desenvolvimento e nas condições sociais.


É da natureza do futebol ser um jogo e uma competição. No final somente uma equipe pode ser campeã. A vencedora e seus torcedores experimentam a alegria, o triunfo, a euforia pela conquista. Os progressivamente eliminados voltam para casa tristes e sofredores por não terem alcançado o objetivo e esperam a próxima oportunidade. Quando isto fica no âmbito esportivo, esta metodologia eliminatória é compreensível e até necessária. Porém isto não pode valer para as outras realidades humanas e o cotidiano da vida. Considerando o princípio social do bem comum faz-se necessário que todos sejam premiados tendo acesso as condições necessárias de uma vida digna.


É significativa a fala do papa Francisco feita a um grupo de atletas num centro esportivo italiano em 2014. “É importante, queridos jovens, que o desporto permaneça um jogo! Só se permanecer um jogo faz bem ao corpo e ao espírito. E precisamente porque sois desportivos, convido-vos não só a jogar, como já fazeis, mas a algo mais: a pôr-vos em jogo na vida como no desporto. Pôr-vos em jogo na busca do bem, na Igreja e na sociedade, sem medo, com coragem e entusiasmo. Pôr-vos em jogo com os outros e com Deus; não se contentar de um «empate» medíocre, dar o melhor de si mesmos, usando a vida para o que vale a sério e dura para sempre. Não se contentar destas vidas tíbias, vidas «mediocremente empatadas»: não, não! Ir em frente, procurando sempre a vitória!”




Falta de fé

Sábado, 07/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Jesus “admirou-se com a falta de fé deles” (Mc 6,6). Esta constatação o evangelista Marcos (6, 1-6) registra quando Jesus foi a Nazaré, terra onde se havia criado. Os conterrâneos, quando escutam a pregação de Jesus e veem os seus milagres, reagem de várias maneiras: uns ficam admirados, outros escandalizados e outros ainda o rejeitam. Isto demonstra que crer ou não crer é uma questão inquietante e provocativa.


O filósofo cristão dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) contou uma parábola do palhaço e da aldeia em chamas. A história conta que houve um incêndio num circo ambulante na Dinamarca. O diretor mandou o palhaço para aldeia, já vestido para entrar em cena, para alertar a aldeia que o fogo poderia se alastrar e queimar também a aldeia. Vestido a rigor, quanto mais o palhaço alertava para o perigo, mais os aldeões riam e se divertiam e se admiravam da sua performance. Como não conseguiu convencer ninguém, as chamas se alastraram até a aldeia. Esta imagem pode ser usada para ilustrar o desafio de falar de fé hoje. Ainda nos é permitido ter fé? Ainda somos capazes de ter fé? A linguagem usada é insuficiente e inadequada? A fé é tradição, portanto é assunto de outra época como as vestes do palhaço? As ciências respondem melhor as perguntas que a religião? Os assuntos da fé não estão ao alcance das provas científicas e da racionalidade? São alguns dos questionamentos que podem ser levantados.
A situação do homem diante da questão de Deus gera dúvidas e fé. Para aquele que crê e anuncia a fé, se fizer uma autocrítica, perceberá que o problema não está só na maneira de transmitir e de fazer-se entender, mas também na insegurança da própria fé e do poder aflitivo da incredulidade presente em sua própria vontade de crer. A situação daquele que crê não é muito diferente de quem não crê, pois também é assolado por dúvidas, claro se manifestando de maneira diferente. Ilustrativas são as dúvidas de grandes santos místicos como Santa Teresinha no Menino Jesus, São João da Cruz e outros.


Mesmo para quem se declara sem fé não vive na certeza e na segurança daquilo que está ao seu alcance. O filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872), ateu convicto, ocupou-se a vida inteira com temas relacionados com a religião. Como ele mesmo afirmou só tratou deste tema. A dúvida persiste, será que Deus mesmo não existe? O problema persiste, pois, é um dilema da existência humana. Não se consegue fugir totalmente da dúvida e da fé.


A dúvida é positiva por impedir que crentes e não crentes se fechem completamente sobre si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé. A dúvida estimula a fazer perguntas e buscar respostas.


O que seria a essência da fé? São Paulo fala que “caminhamos pela fé, não pela visão”. A fé não considera como irreal aquilo que não pode estar ao alcance da visão, mas aquilo que é invisível se torna o sustento do visível como algo indispensável para a existência. A fé cristã não fala de algo localizado fora do humano, do mundo e do tempo. Ela tem a ver com o Deus que está dentro da história. Este Deus revelado por Jesus, tão próximo que pôde ser contemplado pela visão, ser tocado, ouvido e até ser morto.
Nesta perspectiva, fé cristã é confiar-se ao Deus revelado por Jesus Cristo. É um ato humano de firmar-se, apoiar-se e encontrar em quem se confia o sentido para a vida e para o mundo. É o encontro com o TU que sustenta na dúvida e na fragilidade da condição humana.




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