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Colunistas


O papa

Sábado, 30/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

São Pedro e São Paulo, celebrados solenemente no dia 29 de junho pela Igreja, são dois personagens fundamentais do início do cristianismo. Escolhidos para a missão evangelizadora, passaram por um processo de conversão. Eram tementes a Deus e observantes dos mandamentos da primeira Aliança. O encontro com Jesus Cristo exigiu que se convertessem ao seu modo de pensar e agir. Foi um processo lento, progressivo e, às vezes, difícil e conflitivo. Criaram uma intimidade com Cristo ao ponto de Pedro poder dizer: “Senhor tu sabes que te amo” e Paulo: “Para mim o viver é Cristo”. Diante deste amor incondicional Pedro recebe de Cristo o primado sobre o Colégio dos Apóstolos. Ambos, Pedro pela cruz e Paulo pela espada, sofreram o martírio na cidade de Roma.
São duas colunas que fundamentam e projetam luz para a missão da Igreja no tempo presente e, em especial, sobre a missão do papa. A Igreja Católica tem uma legislação universal que está contida no Código de Direito Canônico. O código tem por finalidade criar uma ordem na vida eclesial e facilitar o desenvolvimento orgânico da Igreja, portanto não abafa e nem substitui a fé, a graça, os carismas e nem a caridade dos fiéis. A missão do papa é apresentada nos cânones 330 a 335, que na lei civil chamamos de artigos. O papa também é chamado de Romano Pontífice, Sumo Pontífice, Santidade, Santo Padre, Vigário de Cristo.


A missão e o poder do papa vêm da “eleição legítima por ele aceita”. Os cardeais eleitores começam o processo eletivo do papa com um discernimento da realidade mundial e da Igreja. Não existem candidaturas de quem almeja o papado. Por isso, ninguém se torna papa porque quer, mas por ser eleito. Como nenhuma missão pode ser atribuída contra a vontade, o eleito deve aceitá-la livremente. O papa eleito pode dizer sim ou não.


O eleito, em primeiro lugar, torna-se o bispo da Igreja de Roma assim como São Pedro foi escolhido para ser o primeiro entre os apóstolos. Por ser o bispo de Roma, o papa também torna-se a cabeça do Colégio dos Bispos e aqui pastor da Igreja exercendo deste modo o liderança sobre toda a Igreja Católica. Também exerce a função de chefe do Estado da Cidade do Vaticano.


O Romano Pontífice realiza sua missão em comunhão com Colégio dos Bispos, que é formado pelo papa junto com os bispos do mundo inteiro. O modo mais solene se dá no Concílio Ecumênico no qual participam todos os bispos. De maneira mais comum o papa é auxiliado pelo Sínodo dos Bispos, pelos Cardeais, pela Cúria Romana e pelos legados Pontifícios ou Núncios Apostólicos. A legislação da Igreja sobre o exercício do pontificado parte do princípio da colegialidade e da comunhão fazendo do papa o vínculo da unidade, da caridade e da paz.


A missão do papa é muito superior às qualidades humanas dos eleitos. Eles são cientes disso e não é por nada que o papa Francisco repete insistentemente que rezem por ele. São João Paulo II, numa entrevista disse: “Pensando bem, o significado de cristão é muito mais rico que o de bispo, mesmo que seja o Bispo de Roma”. Bento XVI, na entrevista publicada no livro ‘Luz do Mundo’, tem várias afirmações nesta direção: “O Papa é, por um lado, um homem totalmente impotente. Por outro, detém enorme responsabilidade... Ainda tenho muito mais motivos para rezar e para me entregar totalmente a Deus, porque vejo como quase tudo o que tenho de fazer é algo que eu próprio não sei fazer”.




“João é seu nome”

Sábado, 23/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Dia 24 de junho festeja-se o nascimento de São João Batista, o precursor de Jesus Cristo. Muitas festas populares existem inspiradas nesta data. O evangelista São Lucas 1,57-66 relata divergências na escolha do nome para a criança recém-nascida. Os vizinhos e parentes querem um nome já consagrado na família, mas seus pais não. Por fim, Zacarias escreveu: “João é o seu nome”. É o desafio dos pais quando precisam discernir o nome do filho. O que é um nome? Por que ter nome?


O nome proporciona uma identidade para a pessoa. Ela sai do anonimato ou da quantidade tornando-se única. Lembremo-nos dos campos de concentração nazistas onde os prisioneiros ao ingressarem perdiam a identidade e era-lhes impresso, com ferro incandescente, na pele um número. Era a primeira medida de tortura para desonrar o prisioneiro e torná-lo anônimo.


O nome faz com que a pessoa seja nominável ou invocável de modo que se possa estabelecer relações. Por meio do nome, o outro entra na estrutura das minhas relações humanas, a ponto de eu poder chamá-lo. O nome significa e cria, portanto, entrosamento e inclusão na estrutura das relações sociais. Poder ser chamado permite estabelecer a coexistência com aquele que o chama pelo nome.


Revelar o próprio nome é dar-se a conhecer aos outros. É entregar-se a si mesmo tornando-se acessível, capaz de ser conhecido mais intimamente e de ser chamado pessoalmente. A essência da pessoa revela-se, pois no encontro com o outro me conheço e me torno conhecido.


O segundo mandamento manda respeitar o nome de Deus. Na história da salvação, para se relacionar com os humanos, Deus se apresentou com um nome para não ficar um mero “Ser Supremo”. O dom do nome pertence a ordem da confiança e da intimidade, por isso só deve ser usado para bendizê-lo, louvá-lo e glorificá-lo. Os homens conhecendo o nome Deus fez com que Ele começasse a coexistir com a humanidade.


O Catecismo da Igreja Católica ensina: “O nome de todo homem é sagrado. O nome é o ícone da pessoa. Exige respeito, em sinal da dignidade de quem o leva” (n.2158). Assim como o nome de Deus deve ser respeitado, da mesma forma o nome de todo ser humano merece reverência. De muitas maneiras o nome das pessoas pode ser profanado. Apelidos pejorativos que substituem o nome e a identidade; invocar o nome de alguém como garantia de veracidade de uma mentira, falsificação de assinaturas.
Os pais têm uma grande e nobre responsabilidade na escolha do nome dos filhos, pois eles serão chamados por toda vida pelo nome recebido. Por isso recomenda-se aos pais cristãos que se inspirem em nomes de santos, bíblicos, ou que exprimam virtudes cristãs. É um ato de amor dar um nome com o qual seu portador sinta-se feliz e confortável.




As pequenas ações

Sábado, 16/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O desenvolvimento tecnológico nos permite ter, em tempo real, informações do mundo inteiro, tanto dos fatos bons quanto dos desastres que causam mais comoção e recebem ampla divulgação. Mesmo que geograficamente sejam acontecimentos distantes, estamos cientes que vivemos num mundo pequeno e tudo tem efeito global. A quantidade e a grandiosidade dos problemas podem conduzir as pessoas ao desespero e esperar sempre soluções grandiosas e impactantes. Soluções que os outros devem propor e realizar.


É muito provocativa a maneira como Jesus Cristo aborda as ações humanas e sua influência no mundo. A liturgia católica deste domingo lê e medita duas parábolas tiradas do mundo vegetal e que trazem uma mensagem muito clara. O evangelista Marcos 4, 26-34 escreve: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo ... O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra... cresce e se torna a maior do que todas as hortaliças...”.


Impressiona, em muitos ensinamentos de Jesus, a insistência na realização de pequenas ações: dar um copo de água, um alimento, uma roupa, uma visita, uma palavra... O modo como Jesus Cristo viveu a maior parte da sua vida, mesmo sendo Deus, foi de participar efetivamente da vida rotineira de uma família. Na vida pública foram poucos os sinais grandiosos, mas dedicou bom tempo para realizar gestos pequenos e ao atendimento individual de pessoas.


Nas parábolas Jesus ressalta a força intrínseca da semente e das condições da terra para fazê-la germinar e se desenvolver. Como também a semente pequena manifesta a sua grandiosidade na planta. A primeira vista, pode parecer que as coisas de Deus sempre devem ser marcadas pela grandiosidade e a excepcionalidade. Esta parábola oferece outra visão, justamente passando a ideia da pequenez e da discrição, mas simultaneamente ressaltando um grande potencial daquilo que é discreto.


Se somente grande ações fossem válidas elas ficariam restritas a poucas pessoas e instituições. Pequenas ações estão ao alcance de todas as pessoas, de todas as condições sociais, econômicas e culturais. É uma forma de permitir que todos sejam protagonistas na construção da sociedade e na solução de seus problemas. Provoca a pessoa a sair da condição de expectador para tornar-se ator ou de torcedor para jogador.


Na vida não faltam oportunidades que solicitam a nossa contribuição efetiva. O temporal acontecido nesta semana, em poucos minutos, colocou muitas pessoas em situação de emergência, com danos materiais além dos emocionais. Não temos condições de impedir o temporal e nem controlar o sofrimento oriundo do desastre. Mas temos condições de sermos solidários para amenizar a dor e restabelecer a esperança.


“Toda ação reta e séria do homem é esperança em ato... Desse modo se contribui a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram também as portas para o futuro... O nosso agir não é indiferente diante de Deus e, portanto, também não o é para o desenrolar da história. Podemos abrir-nos a nós mesmos e ao mundo ao ingresso de Deus: da verdade, do amor e do bem”. (Bento XVI, Spe Salvi, n. 35)




Dia dos Namorados

Sábado, 09/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Faz alguns anos, uma jovem me perguntou se ela deviria casar com seu namorado. Se era a pessoa certa? Se estavam preparados depois de vários anos de namoro? Ainda me lembro desta conversa, pois se tratava de uma jovem sincera, queria ajuda e desejava ir ao sacramento do matrimônio mais segura. Daquele diálogo retomo três convicções que transpareceram na jovem: o namoro tem um tempo; precisava de critérios para fazer o discernimento e ela queria fazer uma opção duradoura.


Uma vez lançados do mundo, todas as pessoas precisam fazer escolhas para construir a própria história. Algumas escolhas são mais simples e com pouca repercussão na vida; outras são determinantes e que marcarão toda a vida. São opções existências das quais não se pode fugir. É possível até protelar, encontrar novos argumentos para fugir, mas chega uma hora que a falta de escolha cria um vazio, uma angústia e uma falta de sentido na vida. Mesmo que, aparentemente, seja é um estilo de vida agradável e confortável. Gosto da reflexão que o filósofo e poeta cristão Soren Kierkegaard faz sobre este modo de viver. Diz o pensador: Se tu não fizeres a escolha, a vida decide por ti. Se isto acontecer, é bem provável que a tua vida vá tomar um rumo que não desejavas. É o que aquela jovem estava constando que o tempo de namoro já era suficiente e estava na hora de se definir. Não podiam simplesmente continuar namorando, pois, o tempo do namoro é provisório e limitado. É um tempo importante para permitir escolher um modo de viver.


No diálogo a jovem procurava critérios para orientar o discernimento. Já se havia dado conta das qualidades e das fragilidades de seu namorado. Já não era mais alguém idealizado, mas alguém real. Diante disto ficava a dúvida se era sobre o namorado ideal ou sobre aquele real que deveria projetar o futuro. No ritual do sacramento do matrimônio católico, a primeira pergunta que é feita para o casal é a seguinte: “É de livre e espontânea vontade que o fazeis”? Um dos elementos de um ato livre é o conhecimento. Neste caso, parte-se do princípio que o casal se conheça e saiba dos compromissos inerentes o casamento.


Percebi na jovem o drama entre o idealizado e a realidade. Havia uma excessiva idealização. Os sonhos são necessários para não se acomodar com a situação atual e a mediocridade. Mas eles necessitam ser conjugados com a possibilidade de serem concretizados. Tanto ela quanto o namorado eram limitados. Ao se casarem estavam assumindo as limitações de ambos. As expectativas para a vida futura no matrimônio não podiam ser colocadas num horizonte tão distante que gerasse cada dia frustrações, tristeza e um sentimento de não conseguir realizar um belo projeto de vida.


A jovem tinha consciência que a formação de uma família era uma opção duradoura. Vivendo num contexto de “cultura do provisório”, onde tanta coisa é descartável, inclusive as pessoas e as relações afetivas passam a ser descartáveis. Ela acreditava na unidade, na fidelidade e no sim dado por toda vida, mas também tinha medo de arriscar. Sendo uma jovem com vivência religiosa, queria formar uma família cristã e via na família um dom, isto é, um presente de Deus, um santuário de vida, uma comunidade de vida e de amor conjugal, um lugar destinado para o bem dos esposos, um lugar para gerar filhos. Um projeto que exigia entusiasmo, heroísmo e coragem, porém somente as forças humanas não seriam suficientes, por isso precisam da bênção divina.




Ser santo

Sábado, 02/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O Dia dos Namorados e as Festas Juninas têm sua origem nas celebrações religiosas de Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa e de São João Batista. A partir da vida destes santos, surgiram estas datas e eles nos provocam pelo seu testemunho, pela retidão moral, pela causa defendida e dedicação ao próximo.

Pessoas de grande competência profissional, de quaisquer áreas, têm uma grande admiração da sociedade. Ganham visibilidade, ocupam lugares públicos, formam opinião e parte delas enriquece. Tornam-se competentes pelos dons naturais, pelas oportunidades e pelo esforço consciente de progredirem no conhecimento e nas habilidades. Estas pessoas estimulam outras a alcançar os mesmos níveis.


Para alcançar a santidade, isto é, a competência ética e moral, parece que não há tanto empenho e nem encantamento. Reclama-se da ausência de profissionais em algumas áreas específicas, mas também temos a carência pessoas exemplares para convivência fraterna, na fidelidade familiar, no trato das coisas públicas, nas instituições, na superação das injustiças e da violência, no serviço ao próximo.


Com o desejo de ajudar os cristãos católicos e a todos os que se interessarem, o papa Francisco escreveu uma exortação apostólica: “Alegrai-vos e exultai” (Mt 5,12): sobre o chamado à santidade no mundo atual”. Com a carta o papa objetiva atualizar o chamado à santidade encarnando-o no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades. A busca por uma vida santa desacomoda, livre de uma vida medíocre, superficial e indecisa.


Em cinco breves capítulos, o papa desenvolve o tema conduzindo o leitor a dar-se conta que a santidade não é assunto impossível e nem é projeto de vida para os outros, mas é desafio para cada pessoa. Citando o filósofo espanhol Xavier Zubiri recorda: “Não que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão” (nº 27). Ela se realiza em todas as atividades cotidianas, no empenho de se entregar de corpo e alma na realização de cada compromisso. É realizar as ações ordinárias de maneira extraordinária.


Quando se fala de santidade, a referência são sempre os ensinamentos e as atitudes de Jesus Cristo. Todos os santos reconhecidos foram pessoas extraordinárias, mas limitadas e pecadoras, como também os profissionais competentes nem sempre acertam. Diz o papa: “Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; assim o fez quando nos deixou as bem-aventuranças (Mt 5,3-12; Lc 6,20-23)” (nº 63). É um modo de viver “bem-aventurado”, isto é, “feliz”.” O papa, refletindo sobre estes ensinamentos do mestre Jesus Cristo, aponta para as seguintes orientações de vida: ser pobre no coração; reagir com humilde mansidão; saber chorar com os outros; buscar a justiça com fome e sede; olhar e agir com misericórdia; semear a paz ao nosso redor; abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas.


Olhando mais de perto a cultura de hoje, o papa ressalta mais algumas atitudes a serem cultivadas que contribuirão para qualificar a vida. Aponta a mansidão e a paciência como remédio para curar o ambiente hostil e agressivo. Citando os ensinamentos do capítulo 12 da Carta aos romanos relembra que não se deve pagar o mal a ninguém com o mal, nem fazer justiça por conta própria, nem deixar-se vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem. Recorda que é preciso viver a vida com alegria e senso de humor, claro sem perder o realismo. Também lembra que a santidade é ousadia, é impulso, é coragem, é risco que supera a acomodação e o medo curando o que cheira a mofo e o ambiente doentio.




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