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Colunistas


Teve compaixão

Sábado, 21/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A passagem do Evangelho da liturgia católica, deste final de semana, tirada do evangelista São Marcos 6,30-34, ressalta que Jesus teve compaixão da multidão. A sua compaixão é decorrente da constatação de que “eram como ovelhas sem pastor”. E toma como atitude para aliviar a multidão “ensinar-lhes muitas coisas”.


O dicionário Aurélio define a compaixão como: “Pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem; piedade, pena, dó, condolência”. Etimologicamente a palavra compaixão significa “sofrer junto com” alguém. É a virtude de compartilhar o sofrimento do outro gerando proximidade. A dor do outro desacomoda, tira da indiferença e desafia a tomar uma atitude, a encontrar uma resposta para aliviar o sofrimento.


O ser humano, devido as suas limitações, necessita viver de forma coletiva, em sociedade. Desta forma as suas necessidades são satisfeitas mais facilmente. Neste modelo de viver, a liderança ocupa um espaço muito importante. Na linguagem bíblica, as lideranças, tanto civis como religiosas, muitas vezes, eram denominadas de “pastores”. Hoje o nosso modelo de organização da sociedade, reconhece como legítimas as lideranças que ocupam os poderes executivo, legislativo e judiciário, mas também todas as instituições e forças vivas que influenciam nos rumos da humanidade. A palavra pastor ficou mais restrita ao ambiente religioso.
Jesus viu que a multidão que corria atrás dele “eram como ovelhas sem pastor”. Olhando a realidade presente, pode-se dizer que a multidão vive uma situação semelhante. Vivemos “uma mudança de época”, com profundas mudanças nas mais diferentes áreas: nas ciências, na técnica, na cultura, nos critérios de compreensão da vida, nos valores. São grandes mudanças acompanhadas de grandes incertezas. Acrescenta-se a isto, uma grave crise de confiabilidade nos poderes constituídos. A pergunta que se escuta com tanta frequência: “Votar em quem”? “Confiar em quem”?


A atitude de Jesus Cristo, como Bom Pastor, foi ensinar a multidão. Em outras passagens, as pessoas reconhecem que Ele ensinava com autoridade, que era verdadeiro, que dizia o que as multidões precisavam ouvir e não simplesmente o que queriam ouvir, enfim que não ludibriava ninguém. Em tempos de insegurança, de falta de rumo as multidões estão fragilizadas e confusas. É frequente, neste contexto, que lideranças adotem “ensinamentos” revestidos de falsidade gerando expectativas impossíveis de serem concretizadas. São as famosas “promessas” irrealizáveis, ou por não dependerem de quem as faz ou mesmo por falta de recursos.
Toda fuga da verdade em tempos “ovelhas sem pastor” é extremamente prejudicial. “Os homens estão obrigados de modo particular a tender continuamente à verdade, a respeitá-la e a testemunhá-la. Viver na verdade tem um significado especial nas relações sociais: a convivência entre os seres humanos em sua comunidade é efetivamente ordenada, fecunda e condizente com a sua dignidade de pessoas quando se funda na verdade. Quanto mais as pessoas e os grupos sociais se esforçam por resolver os problemas sociais segundo a verdade, tanto mais se afastam do arbítrio e se conformam às exigências objetivas da moralidade” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja n. 198).




Copa do Mundo

Sábado, 14/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Devido às dimensões que a Copa do Mundo tem, ela recebe e merece tanta atenção e gera tantos desafios. Mesmo quem não tem afinidade com o futebol não pôde ignorar a da Copa do Mundo de 2018, que começou com as eliminatórias e classificou 32 países para competirem na Rússia. É um evento mundial que envolve diretamente milhares de atletas, organizações, profissionais das mais diferentes áreas até milhares de voluntários.


A Igreja Católica, através do “Dicastério para os leigos, a família e a vida”, publicou no dia 01 de junho de 2018, um documento designado “Dar o melhor de si”. Não trata diretamente da Copa do Mundo, mas da perspectiva cristã do esporte e da pessoa humana. É uma reflexão que pretende contribuir para a construção de um esporte autêntico e orientado para a promoção humana.
Para alcançar o objetivo de ganhar a copa ou de conseguir o melhor resultado possível são empenhados os melhores esforços. Trata-se de selecionar os jogadores, da melhor organização, do melhor condicionamento físico, do equilíbrio emocional, do melhor planejamento estratégico, entre outros empenhos necessários. A alegria, a satisfação e a realização profissional são decorrência do empenho e da dedicação dispensada.


A competição que envolve o mundo inteiro é possível pelo respeito às regras do esporte. Elas possibilitam trabalhar em equipe e realizar a competição jogando contra a seleção de outro país. As regras permitem criar um ambiente de confraternização, de convivência e de paz entre povos diferentes. As diferenças de línguas, costumes, credos religiosos não impedem de realizar o espetáculo esportivo quando suas regras são respeitadas. Elas colocam todos em situação de igualdade. Neste sentido, uma Copa do Mundo é uma oportunidade de pensar o mundo e criar condições de respeito entre todos os povos. Se no futebol temos regras iguais para todos os países, o mesmo não acontece nas relações de poder, de economia, de desenvolvimento e nas condições sociais.


É da natureza do futebol ser um jogo e uma competição. No final somente uma equipe pode ser campeã. A vencedora e seus torcedores experimentam a alegria, o triunfo, a euforia pela conquista. Os progressivamente eliminados voltam para casa tristes e sofredores por não terem alcançado o objetivo e esperam a próxima oportunidade. Quando isto fica no âmbito esportivo, esta metodologia eliminatória é compreensível e até necessária. Porém isto não pode valer para as outras realidades humanas e o cotidiano da vida. Considerando o princípio social do bem comum faz-se necessário que todos sejam premiados tendo acesso as condições necessárias de uma vida digna.


É significativa a fala do papa Francisco feita a um grupo de atletas num centro esportivo italiano em 2014. “É importante, queridos jovens, que o desporto permaneça um jogo! Só se permanecer um jogo faz bem ao corpo e ao espírito. E precisamente porque sois desportivos, convido-vos não só a jogar, como já fazeis, mas a algo mais: a pôr-vos em jogo na vida como no desporto. Pôr-vos em jogo na busca do bem, na Igreja e na sociedade, sem medo, com coragem e entusiasmo. Pôr-vos em jogo com os outros e com Deus; não se contentar de um «empate» medíocre, dar o melhor de si mesmos, usando a vida para o que vale a sério e dura para sempre. Não se contentar destas vidas tíbias, vidas «mediocremente empatadas»: não, não! Ir em frente, procurando sempre a vitória!”




Falta de fé

Sábado, 07/07/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Jesus “admirou-se com a falta de fé deles” (Mc 6,6). Esta constatação o evangelista Marcos (6, 1-6) registra quando Jesus foi a Nazaré, terra onde se havia criado. Os conterrâneos, quando escutam a pregação de Jesus e veem os seus milagres, reagem de várias maneiras: uns ficam admirados, outros escandalizados e outros ainda o rejeitam. Isto demonstra que crer ou não crer é uma questão inquietante e provocativa.


O filósofo cristão dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) contou uma parábola do palhaço e da aldeia em chamas. A história conta que houve um incêndio num circo ambulante na Dinamarca. O diretor mandou o palhaço para aldeia, já vestido para entrar em cena, para alertar a aldeia que o fogo poderia se alastrar e queimar também a aldeia. Vestido a rigor, quanto mais o palhaço alertava para o perigo, mais os aldeões riam e se divertiam e se admiravam da sua performance. Como não conseguiu convencer ninguém, as chamas se alastraram até a aldeia. Esta imagem pode ser usada para ilustrar o desafio de falar de fé hoje. Ainda nos é permitido ter fé? Ainda somos capazes de ter fé? A linguagem usada é insuficiente e inadequada? A fé é tradição, portanto é assunto de outra época como as vestes do palhaço? As ciências respondem melhor as perguntas que a religião? Os assuntos da fé não estão ao alcance das provas científicas e da racionalidade? São alguns dos questionamentos que podem ser levantados.
A situação do homem diante da questão de Deus gera dúvidas e fé. Para aquele que crê e anuncia a fé, se fizer uma autocrítica, perceberá que o problema não está só na maneira de transmitir e de fazer-se entender, mas também na insegurança da própria fé e do poder aflitivo da incredulidade presente em sua própria vontade de crer. A situação daquele que crê não é muito diferente de quem não crê, pois também é assolado por dúvidas, claro se manifestando de maneira diferente. Ilustrativas são as dúvidas de grandes santos místicos como Santa Teresinha no Menino Jesus, São João da Cruz e outros.


Mesmo para quem se declara sem fé não vive na certeza e na segurança daquilo que está ao seu alcance. O filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872), ateu convicto, ocupou-se a vida inteira com temas relacionados com a religião. Como ele mesmo afirmou só tratou deste tema. A dúvida persiste, será que Deus mesmo não existe? O problema persiste, pois, é um dilema da existência humana. Não se consegue fugir totalmente da dúvida e da fé.


A dúvida é positiva por impedir que crentes e não crentes se fechem completamente sobre si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé. A dúvida estimula a fazer perguntas e buscar respostas.


O que seria a essência da fé? São Paulo fala que “caminhamos pela fé, não pela visão”. A fé não considera como irreal aquilo que não pode estar ao alcance da visão, mas aquilo que é invisível se torna o sustento do visível como algo indispensável para a existência. A fé cristã não fala de algo localizado fora do humano, do mundo e do tempo. Ela tem a ver com o Deus que está dentro da história. Este Deus revelado por Jesus, tão próximo que pôde ser contemplado pela visão, ser tocado, ouvido e até ser morto.
Nesta perspectiva, fé cristã é confiar-se ao Deus revelado por Jesus Cristo. É um ato humano de firmar-se, apoiar-se e encontrar em quem se confia o sentido para a vida e para o mundo. É o encontro com o TU que sustenta na dúvida e na fragilidade da condição humana.




O papa

Sábado, 30/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

São Pedro e São Paulo, celebrados solenemente no dia 29 de junho pela Igreja, são dois personagens fundamentais do início do cristianismo. Escolhidos para a missão evangelizadora, passaram por um processo de conversão. Eram tementes a Deus e observantes dos mandamentos da primeira Aliança. O encontro com Jesus Cristo exigiu que se convertessem ao seu modo de pensar e agir. Foi um processo lento, progressivo e, às vezes, difícil e conflitivo. Criaram uma intimidade com Cristo ao ponto de Pedro poder dizer: “Senhor tu sabes que te amo” e Paulo: “Para mim o viver é Cristo”. Diante deste amor incondicional Pedro recebe de Cristo o primado sobre o Colégio dos Apóstolos. Ambos, Pedro pela cruz e Paulo pela espada, sofreram o martírio na cidade de Roma.
São duas colunas que fundamentam e projetam luz para a missão da Igreja no tempo presente e, em especial, sobre a missão do papa. A Igreja Católica tem uma legislação universal que está contida no Código de Direito Canônico. O código tem por finalidade criar uma ordem na vida eclesial e facilitar o desenvolvimento orgânico da Igreja, portanto não abafa e nem substitui a fé, a graça, os carismas e nem a caridade dos fiéis. A missão do papa é apresentada nos cânones 330 a 335, que na lei civil chamamos de artigos. O papa também é chamado de Romano Pontífice, Sumo Pontífice, Santidade, Santo Padre, Vigário de Cristo.


A missão e o poder do papa vêm da “eleição legítima por ele aceita”. Os cardeais eleitores começam o processo eletivo do papa com um discernimento da realidade mundial e da Igreja. Não existem candidaturas de quem almeja o papado. Por isso, ninguém se torna papa porque quer, mas por ser eleito. Como nenhuma missão pode ser atribuída contra a vontade, o eleito deve aceitá-la livremente. O papa eleito pode dizer sim ou não.


O eleito, em primeiro lugar, torna-se o bispo da Igreja de Roma assim como São Pedro foi escolhido para ser o primeiro entre os apóstolos. Por ser o bispo de Roma, o papa também torna-se a cabeça do Colégio dos Bispos e aqui pastor da Igreja exercendo deste modo o liderança sobre toda a Igreja Católica. Também exerce a função de chefe do Estado da Cidade do Vaticano.


O Romano Pontífice realiza sua missão em comunhão com Colégio dos Bispos, que é formado pelo papa junto com os bispos do mundo inteiro. O modo mais solene se dá no Concílio Ecumênico no qual participam todos os bispos. De maneira mais comum o papa é auxiliado pelo Sínodo dos Bispos, pelos Cardeais, pela Cúria Romana e pelos legados Pontifícios ou Núncios Apostólicos. A legislação da Igreja sobre o exercício do pontificado parte do princípio da colegialidade e da comunhão fazendo do papa o vínculo da unidade, da caridade e da paz.


A missão do papa é muito superior às qualidades humanas dos eleitos. Eles são cientes disso e não é por nada que o papa Francisco repete insistentemente que rezem por ele. São João Paulo II, numa entrevista disse: “Pensando bem, o significado de cristão é muito mais rico que o de bispo, mesmo que seja o Bispo de Roma”. Bento XVI, na entrevista publicada no livro ‘Luz do Mundo’, tem várias afirmações nesta direção: “O Papa é, por um lado, um homem totalmente impotente. Por outro, detém enorme responsabilidade... Ainda tenho muito mais motivos para rezar e para me entregar totalmente a Deus, porque vejo como quase tudo o que tenho de fazer é algo que eu próprio não sei fazer”.




“João é seu nome”

Sábado, 23/06/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Dia 24 de junho festeja-se o nascimento de São João Batista, o precursor de Jesus Cristo. Muitas festas populares existem inspiradas nesta data. O evangelista São Lucas 1,57-66 relata divergências na escolha do nome para a criança recém-nascida. Os vizinhos e parentes querem um nome já consagrado na família, mas seus pais não. Por fim, Zacarias escreveu: “João é o seu nome”. É o desafio dos pais quando precisam discernir o nome do filho. O que é um nome? Por que ter nome?


O nome proporciona uma identidade para a pessoa. Ela sai do anonimato ou da quantidade tornando-se única. Lembremo-nos dos campos de concentração nazistas onde os prisioneiros ao ingressarem perdiam a identidade e era-lhes impresso, com ferro incandescente, na pele um número. Era a primeira medida de tortura para desonrar o prisioneiro e torná-lo anônimo.


O nome faz com que a pessoa seja nominável ou invocável de modo que se possa estabelecer relações. Por meio do nome, o outro entra na estrutura das minhas relações humanas, a ponto de eu poder chamá-lo. O nome significa e cria, portanto, entrosamento e inclusão na estrutura das relações sociais. Poder ser chamado permite estabelecer a coexistência com aquele que o chama pelo nome.


Revelar o próprio nome é dar-se a conhecer aos outros. É entregar-se a si mesmo tornando-se acessível, capaz de ser conhecido mais intimamente e de ser chamado pessoalmente. A essência da pessoa revela-se, pois no encontro com o outro me conheço e me torno conhecido.


O segundo mandamento manda respeitar o nome de Deus. Na história da salvação, para se relacionar com os humanos, Deus se apresentou com um nome para não ficar um mero “Ser Supremo”. O dom do nome pertence a ordem da confiança e da intimidade, por isso só deve ser usado para bendizê-lo, louvá-lo e glorificá-lo. Os homens conhecendo o nome Deus fez com que Ele começasse a coexistir com a humanidade.


O Catecismo da Igreja Católica ensina: “O nome de todo homem é sagrado. O nome é o ícone da pessoa. Exige respeito, em sinal da dignidade de quem o leva” (n.2158). Assim como o nome de Deus deve ser respeitado, da mesma forma o nome de todo ser humano merece reverência. De muitas maneiras o nome das pessoas pode ser profanado. Apelidos pejorativos que substituem o nome e a identidade; invocar o nome de alguém como garantia de veracidade de uma mentira, falsificação de assinaturas.
Os pais têm uma grande e nobre responsabilidade na escolha do nome dos filhos, pois eles serão chamados por toda vida pelo nome recebido. Por isso recomenda-se aos pais cristãos que se inspirem em nomes de santos, bíblicos, ou que exprimam virtudes cristãs. É um ato de amor dar um nome com o qual seu portador sinta-se feliz e confortável.






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