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Colunistas


Doar-se e partilhar

Sábado, 26/05/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Na próxima quinta-feira, dia 31 de maio, a Igreja Católica celebra a solenidade litúrgica do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, mais conhecida como Corpus Christi. Ela abre espaço para uma infinidade de reflexões, entre elas, concentro-me na narrativa da instituição da Eucaristia, segundo o evangelista São Marcos 14, 22-24: “Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a benção, partiu-o e lhes deu, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. Depois, pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: “Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos”. O evangelista São Lucas acrescenta: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19).

 

Cada vez que a Igreja realiza esta memória está trazendo para o presente a vida, a morte, a ressurreição de Jesus Cristo, tornando-o presente no mundo. Não se trata, porém, de uma simples recordação histórica, informativa para satisfazer a curiosidade. Fazendo a memória dos acontecimentos relacionados a Cristo educa-se o fiel a realizar aquilo que está celebrando desafiando-o a pensar e agir daquela maneira.

 

Da fala e da atitude de Cristo, no acontecimento da instituição da Eucaristia, evidenciam-se a doação e a partilha. Para os cristãos católicos e todos os que desejarem, poderíamos lançar um olhar sobre o mundo sob estes pontos de vista: doação e partilha. Nunca é demais lembrar que cada um é mundo, é corresponsável por ele. Os ensinamentos de Cristo raramente eram dirigidos a destinatários específicos, por isso são ensinamentos válidos para todos.

 

O dicionário tentando definir o verbo doar fala em transmitir gratuitamente, consagrar-se, dedicar-se, devotar-se, dar-se. Na definição aparece claramente um duplo sentido: dar algo externo, ou seja, um bem, uma coisa e o outro sentido é dar-se. Jesus falou claramente que estava se dando: isto é o meu corpo, isto é o meu sangue. É a oferta de sua vida para dar vida aos favorecidos.

 

Conseguir com o suor do rosto os meios necessários para ter condições de vida digna para si e dependentes é uma obrigação de cada um. Porém, para consegui-los precisamos dos outros e estabelecemos relações profissionais, comerciais, etc. É preciso estar atento para não transformar todas as relações em comerciais, isto é, tudo deve ser concluído com pagamentos.

 

Os apelos que constantemente nos vem para doar coisas e doar-se são um santo remédio. As pessoas e a sociedade curadas têm mais vitalidade e alegria. Apelos de trabalhos voluntários em instituições já existentes e em novas que podem ser criadas; doação de sangue e órgãos para quem se enquadra nas condições exigidas; doação de alimentos e roupas não nos deixam indiferentes.

 

A segunda palavra é partilha, isto é, dividir, repartir. Na Ceia Pascal Jesus tomou o pão, o partiu e distribuiu, e o mesmo fez com o cálice partilhando o vinho. Um gesto que aponta para quem está ao lado e estimula a repartir para manter a unidade.

Matematicamente aquele que divide fica com menos, porém considerando outras dimensões da existência humana, a partilha é soma, é mais, é comunhão, é inclusão social, é dignidade de vida.




Oração ao Espírito Santo

Sábado, 19/05/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os cristãos celebram, neste domingo, a Festa de Pentecostes - relatada no livro dos Atos dos Apóstolos no capítulo 2. Passados 50 dias da morte e ressurreição de Jesus Cristo, os simpatizantes, os discípulos deste Cristo, ainda não estavam convictos da força transformadora e salvadora dos atos e ensinamentos do mestre, além de terem dúvidas se eram capazes de levar à frente o Evangelho. O texto relata o efeito do Espírito Santo nos discípulos: unidade, compreensão, alegria, coragem, anúncio da verdade.

 

O mundo em que vivemos nos deixa perplexos e para muitos problemas não sabemos o que fazer, o que pensar, como agir. Um dos desafios do mundo é a convivência fraterna e respeitosa entre os cristãos e as diferentes religiões. Há muitas atitudes de fanatismo. Um dia, os discípulos se queixaram com Jesus que não conseguiam resolver um problema e recebem como resposta que lhes faltava fé e oração (cf Mc 9,29; Mt 17, 20-21). O CONIC - Conselho Nacional de Igreja Cristãs – há muitos anos promove neste período a Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos. Partilho esta Oração ao Espírito Santo de um autor desconhecido.

 

Vem, ESPÍRITO DE LUZ, ilumina, esclarece, conscientiza. Faze-nos penetrar no interior das coisas, por trás das aparências. Sem a tua presença, tudo é sem sentido e a história sem rumo. Que em tua Luz, vejamos a luz.

Vem, ESPÍRITO TRANSFORMADOR, desperta, dinamiza, multiplica as energias escondidas do teu povo. Sem a tua força, tudo está parado, estagnante, desintegrado. Vem, transforma a face da terra.

Vem, ESPÍRITO CRIADOR, renova, constrói, reinventa o futuro do qual nós somos responsáveis. Sem a tua coragem, somos velhos e incapazes de atos novos, de ação libertadora. Vem, cria o homem novo aberto ao Espírito.

Vem, ESPÍRITO UNIFICADOR, arranca-nos da nossa solidão. Ensina-nos a partilhar, a dividir, a solidarizar, a não desistir. Sem a tua ajuda, somos egoístas e orgulhosos. Ensina-nos a sabedoria na intimidade.

Vem, ESPÍRITO CONSOLADOR, sara, consola os corações aflitos, as chagas escondidas. Sem o teu apoio, tudo é triste, sem vida. Na tua presença, júbilo sem fim.

Vem, ESPÍRITO PACIFICADOR, une os povos, as raças, as comunidades, as famílias divididas. Dá-nos teu perdão. Sem teu amor, somente há luta e briga. Vem, Espírito de paz.

Vem, ESPÍRITO DE URGÊNCIA, apressa os tempos, queima as etapas. O Cristo está à porta e bate. Vem, encaminha a história para o Reino.

Vem, ESPÍRITO ESCONDIDO, Espírito Prometido, Espírito dos Profetas, de Jesus, de Maria, da Igreja Nascente. Revela-te a teu povo reunido, à tua Igreja em oração. Espírito misterioso, Espírito de Deus, derrama o teu Amor. Amém. Aleluia.




Oração pelas mães

Sábado, 12/05/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Louvado sois Deus criador pela mãe terra lugar de geração, acolhida e desenvolvimento de todos novos os seres vivos. Cada dia experimentamos uma irrupção de novidades e renovação por todos os lados. Ensinai-nos a respeitar e a cuidar da mãe terra.


Louvado sois Deus Pai que para realizar a obra da redenção escolhestes precisar de uma mãe. Jesus foi acolhido no ventre da mãe Maria, sentiu o cuidado e o calor do colo humano. Foi educado pela sabedoria de sua mãe. E, com esta escolha, ressaltais a dignidade inviolável e a santidade da maternidade.


Louvado sois Senhor pela minha mãe. Como filho não é preciso qualifica-la. Ela é simplesmente minha mãe. Ela presenteou-me com o dom da vida, cercou-me de cuidado e deu-me alimento. Ensinou-me que devo amar a Deus.


Louvado sois Deus providente por todas as mães que vivem alegremente o dom da maternidade. Graças a elas a vida se renova, se multiplica e a criação vai se perpetuando.


Suplicamos, ó Senhor Deus forte, por todas as mães que estão inseguras na missão materna diante de um futuro incerto. Concedei a elas a confiança de que cuidando bem agora dos filhos estão educando-os para o amanhã.


Suplicamos, ó Senhor Deus da vida, pelas mães que tem o desejo de abortar. Iluminai as suas consciências para que tomem uma decisão em favor da vida.


Suplicamos, ó Senhor Deus presente, pelas mães que na medida em que os filhos cresceram, também se distanciaram até o quase total esquecimento. Os filhos talvez esqueçam as mães, mas as mães certamente não esquecem os filhos.


Suplicamos, ó Senhor Deus libertador, pelas mães dos encarcerados. Fizeram de tudo para afastá-los de caminhos tortuosos, mas não conseguiram e agora ainda sofrem de vê-los nessa condição, mas mesmo assim, não os deixam abandonados.


Suplicamos, ó Senhor Deus da partilha, pelas mães que veem os filhos crescerem sem poder dar o mínimo necessário para um desenvolvimento digno. Marginalizadas não poupam esforços para incluí-los na sociedade e a partilhar o pouco que tem.


Suplicamos, ó Senhor Deus da cura, pelas mães que têm filhos com doenças crônicas e incuráveis. Pela necessidade de cuidado desdobram-se para darem conta das tarefas diárias e mais o atendimento aos filhos enfraquecidos pelas doenças. Quanta doação e quanta esperança que um dia uma boa notícia de cura ouvirão. Dai-lhes Senhor a serenidade no sofrimento, pois é um sofrer por amor.


Suplicamos, ó Senhor Deus fonte da vida, por todas as mulheres que desejam ser mães. Alimentai nelas um amor incondicional pelos filhos que vão gerar; dai-lhes a sabedoria e a fortaleza necessárias para a missão que estão se preparando.


Suplicamos, ó Senhor Deus compassivo, por todas as outras situações de sofrimento, que são muito mais amplas do que as citadas. Perdão se alguma situação importante deveria ser lembrada, mas vós conheceis as necessidades de todas as mães.


Suplicamos Senhor da vida que as mães ensinem a todos os homens a amar a vida. Pela intercessão da Mãe Maria, Deus abençoe as mães.




O sagrado direito ao descanso

Sábado, 05/05/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Na tradição judaico-cristã o repouso semanal é tão importante que adquire valor sagrado, pois sua origem não é humana, mas divina. São João Paulo II na carta apostólica Dies Domini – O Dia do Senhor - de 31 de maio de 1998 reaviva para os cristãos católicos o sentido e a importância do domingo. Partilho alguns ensinamentos desta carta para enriquecer a reflexão.


Na primeira página da Bíblia, Deus aparece como exemplo de “trabalho” e também de “repouso” para o homem. Lançou “um olhar contemplativo, que visa a novas realizações, mas sobretudo a apreciar a beleza de quanto foi feito; um olhar lançado sobre todas as coisas, mas especialmente sobre homem, ponto culminante da criação” (nº 11). A contemplação gera admiração e ajuda a libertar de interesses utilitários.


Ligado a este “descanso” divino da criação está o preceito do descanso no sábado como recordação de uma época que não deveria voltar. “Lembra-te de que foste escravo no Egito, mas o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão forte e braço estendido” (Dt 5,15). No pentateuco desenvolve-se uma legislação religiosa-civil sobre o descanso para proteger os mais fracos e colocar limites na ganância. ”Seis dias trabalharás e no sétimo descansarás, para que descansem também o boi e o jumento, e possam tomar fôlego o filho de tua escrava e o estrangeiro” (Ex 23, 12).


Na tradição cristã acontece a passagem do sábado ao domingo. O governador romano da Bitínia, Plínio o Jovem, no início do segundo século, escrevia ao imperador dizendo que os cristãos “se reúnem num fixo, antes da aurora, para entoarem juntos um hino a Cristo, como a um deus”. No século V escrevia o papa Inocêncio I: “Nós celebramos o domingo, devido à venerável ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo”. Testemunha um costume já consolidado originado pela Páscoa cristã que unânime testemunha que foi neste dia, o “primeiro dia depois do sábado”, que Jesus ressuscitou.


Durante séculos os cristãos viveram o domingo apenas como um dia de culto, um dia de celebração, em especial da celebração da Eucaristia. O imperador Constantino decreta no ano 321: “Que todos os juízes, e todos os habitantes da cidade, e todos os mercadores e artífices descansem no venerável dia do Sol”. Desde o ano 312 ele estava se aproximando do cristianismo certamente por influência da mãe Santa Helena e por razões políticas e religiosas, mas só recebeu o batismo em 337 no leito de morte. Por isso, são discutíveis as reais motivações de Constantino para estabelecer um dia de descanso no Império Romano, independente das razões o fato é que introduziu um dia de descanso semanal. O dia escolhido para o descanso foi o dia do “Sol” que coincidia com o dia que os cristãos se reuniam, depois denominado de domingo. Aos poucos, o dia de descanso foi se expandido pelo mundo.
O papa Francisco na carta encíclica Laudato Sí, numa perspectiva de ecologia integral e cuidado da criação, inclui o tema do direito ao descanso. “Este dia, à semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo.” O domingo por ser dia da ressurreição, é o primeiro da nova criação, integra na espiritualidade cristã o valor do repouso e da festa; a ação humana é preservada do ativismo e da ganância desenfreada e da busca apenas do benefício pessoal. “O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros” (LS 237).




O direito ao trabalho

Sábado, 28/04/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Em 15 de maio de 1891, o papa Leão XIII, publicou a carta encíclica “Rerum Novarum” (Das coisas novas) sobre a condição dos operários e o mundo do trabalho. A carta é fruto das profundas mudanças que a Revolução Industrial havia provocado. Novas possibilidades de trabalho foram criadas como também novas relações entre trabalhadores e empregadores se estabeleceram. Caminhos se abriram e sérios problemas apareceram. As mudanças continuam acontecendo velozmente. Surgem novas modalidades de trabalhos, novas profissões, outras diminuem de valor e até desaparecem. Se é importante aquilo que é produzido, porém o mais importe são as pessoas que trabalham. 

 

A Doutrina Social da Igreja tem colaborado com seus ensinamentos para orientar os cristãos sobre o trabalho humano e seus múltiplos aspectos. Um deles é o direito ao trabalho, como ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (DSI) no nº 287: “O trabalho é um direito fundamental e é um bem para o homem: um bem útil, digno dele porque apto a exprimir e a acrescer a dignidade humana. A Igreja ensina o valor do trabalho não só porque este é sempre pessoal, mas também pelo caráter de necessidade. O trabalho é necessário para formar e manter uma família, para ter direito à propriedade, para contribuir para o bem comum da família humana. A consideração das implicações morais que a questão do trabalho comporta na vida social induz a Igreja a qualificar o desemprego como uma “verdadeira calamidade social”, sobretudo em relação às jovens gerações”.


Sendo o trabalho um direito de todos, a garantia deste direito envolve os indivíduos, a sociedade civil e o Estado. “Os problemas do emprego chamam em causa as responsabilidades do Estado, ao qual compete o dever de promover políticas ativas do trabalho ... incentivando para tal fim o mundo produtivo. O dever do Estado não consiste tanto em assegurar diretamente o direito ao trabalho de todos os cidadãos .... “quanto em secundar a atividade das empresas, criando as condições que garantam ocasiões de trabalho, estimulando-a onde for insuficiente e apoiando-a nos momentos de crise” (DSI, 291). Em época de globalização, a cooperação e a colaboração entre os Estados e instituições internacionais é fundamental para a promoção da justiça e da paz civil.


A garantia do direito ao trabalho também passa pela a sociedade civil com as suas diferentes organizações empresariais e sociais. “Eles se oferecem ao mercado como um variegado setor de atividades trabalhistas que se distinguem por uma atenção particular à componente relacional dos bens produzidos e dos serviços dispensados em múltiplos âmbitos: instrução, tutela da saúde, serviços de base, cultura” (DSI 293).


A cada direito corresponde um dever, neste sentido se a pessoa tem direito ao trabalho, também tem o dever de trabalhar. Vários textos bíblicos exortam que não é justo viver à custa dos outros. O cristão é chamado a trabalhar não só para conseguir o seu pão, mas também “suscita aquelas energias sociais e comunitárias que alimentam o bem comum, a favor, sobretudo, dos mais necessitados” (DSI 266).




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