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Colunistas


Unidade no essencial

Sábado, 21/04/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 20 de abril terminou a 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB - que teve como tema central a aprovação de “Diretrizes para a formação dos presbíteros na Igreja do Brasil”. São diretrizes que foram aprovadas, isto é, direcionamentos essenciais que devem ser seguidos em todos os Seminários e Casas de Formação de padres no Brasil para manter a unidade da Igreja. As diretrizes aprovadas aplicam para o Brasil a “Ratio Fundamentalis Institutiones Sacerdotalis (O Dom da Vocação Presbiteral), de 08 de dezembro de 2016, da Congregação para o Clero do Vaticano, que traça diretrizes universais da formação de presbíteros.


É dessa maneira que a Igreja Católica vive a unidade. Cada diocese deve seguir as orientações gerais e maiores, mas isto não impede de tomar iniciativas locais. Uma diretriz maior não diminui a criatividade local, pois o esforço de aplicar a norma geral cabe a cada diocese. Desse modo se mantém a unidade nas coisas essenciais. Ter diretrizes gerais para a formação é uma necessidade, pois o padre atua em nome da Igreja e a repercussão do seu trabalho pastoral ultrapassa os limites locais.


O objetivo das diretrizes é formar presbíteros. O referencial absoluto é Jesus Cristo, mestre, sacerdote e pastor. O processo formativo procura levar progressivamente o candidato a configurar-se a Cristo no modo de pensar, de agir e abraçar a missão de anunciar do Evangelho.


As Diretrizes aprovadas oferecem elementos progressivos da formação presbiteral. O ponto de partida é o contexto atual do mundo, com seus desafios e possibilidades. É dentro deste contexto que nasce, cresce e se desenvolve a opção vocacional dos jovens. O primeiro desafio para o jovem é se conhecer, dar-se conta de suas habilidades, seus gostos, seus dons. Em linguagem religiosa falamos fazer o discernimento e a opção vocacional a partir da fé. Cremos que no plano amoroso de Deus há um chamado para cada batizado. É no diálogo de fé que vai acontecendo o primeiro discernimento vocacional. Escolher bem permite viver uma vida mais realizada e feliz.


Dados os primeiros passos, o processo formativo presbiteral vai direcionando os candidatos para a formação mais específica que acontece no seminário maior. Numa visão de conjunto são trabalhadas cinco dimensões. Em primeiro lugar, vem a dimensão humana que é o fundamento de toda formação presbiteral. É promover o crescimento integral do formando para atingir a maturidade necessária para o futuro exercício do ministério ordenado. Uma segunda dimensão é a comunitária capacitando para a convivência fraterna e ser líder de uma comunidade. A dimensão espiritual leva a cultivar uma profunda comunhão com Deus e o seguimento de Jesus Cristo. Alimentar-se de Deus para ser dispensador das graças divinas aos fiéis. A quarta dimensão é a pastoral-missionária, pois os chamados foram escolhidos e são enviados para conduzirem o povo de Deus, a exemplo de Jesus Cristo o Bom Pastor. A quinta dimensão é a formação intelectual que se desenvolve normalmente através das faculdades de filosofia e de teologia. As dimensões são desenvolvidas simultânea e harmonicamente.


A unidade da Igreja não é feita só de boas intenções, mas é feita através de instrumentos de trabalho, de ajuda mútua. A CNBB, ao elaborar conjuntamente as diretrizes, faz este exercício de comunhão, de partilha e unidade no essencial.




56ª Assembleia da CNBB

Sábado, 14/04/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – está realizando, entre os dias 10 a 20 de abril, a 56ª Assembleia Geral ordinária, na cidade Aparecida, SP. A CNBB foi fundada em 14 de outubro de 1952, no Rio de Janeiro, onde também funcionou a primeira sede, que depois foi transferida para Brasília – DF - em 1977. Desde a fundação as assembleias acontecem regularmente.

A origem e a finalidade da Igreja Católica não são iguais a outras organizações da sociedade. A sua origem remonta à vontade de Deus Pai, ela se configura com as ações de Jesus Cristo e continua no mundo sob a ação do Espírito Santo. A finalidade da sua existência é anunciar o Evangelho a todas as criaturas. Tendo presente isto, os 10 dias da assembleia, iniciam com a celebração da Santa Eucaristia com a oração das Laudes e durante o dia acontecem outros dois momentos de oração comunitária, Hora Média e Vésperas, da Liturgia das Horas que é o livro oficial de orações da Igreja. Além disso, o final de semana é dedicado a um retiro espiritual.Mesmo que a origem da Igreja seja divina, mas é destinada a pessoas humanas com suas fragilidades. A Igreja sabe que é santa pela sua origem, mas é pecadora por causa dos seus membros. A condução da Igreja é feita por pessoas humanas limitas, por isso os humanos que a dirigem devem deixar-se conduzir pelo Espírito Santo.

A Igreja realiza a sua missão evangelizadora no mundo. Ser Igreja hoje é ser Igreja neste Brasil real que vivemos. Não é possível amar a Deus e ao próximo de forma abstrata e atemporal. Quando lemos o Evangelho percebemos que os ensinamentos de Jesus Cristo estão envoltos nos fatos históricos. Jesus mostra a todos os ouvintes qual é a vontade de Deus nestes acontecimentos e o que deveria mudar para que as pessoas e a sociedade tivessem vida em abundância. É neste mundo que acontece a Assembleia da CNBB que faz refletir, rezar, opinar e discernir a vontade de Deus no tempo presente.

Todos os pronunciamentos oficiais emanados na Assembleia são fruto de muito diálogo, debate, estudo. Há espaço e liberdade para cada bispo manifestar o próprio ponto de vista. Os assuntos passam por pronunciamentos individuais, estudos de grupos até chegarem ao debate no grande plenário. E quando um assunto ainda não chegou à maturidade suficiente não é aprovado e não é assumido como orientação do episcopado brasileiro.

Por sua natureza a Igreja procura construir a unidade, pois todos somos irmãos. Buscar a unidade na diversidade é sinal de quem quer construir. Submeter a visão pessoal sobre um assunto à verificação de uma assembleia é um sinal visível de quem quer edificar,  de quem busca o bem comum. Bem no início do Cristianismo, lemos no livro dos Atos dos Apóstolos 15, 1-35, que apareceu uma questão que estava dividindo a Igreja. Os apóstolos se reúnem, falam abertamente, restabelecem a unidade e a alegria volta a reinar na Igreja.  Terminam a reunião dizendo: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós... “ (15, 28).

A CNBB congrega os bispos do Brasil para que cada bispo realize da melhor maneira a sua missão em sua diocese. Os bispos são servidores da Igreja e por isso não podem agir isoladamente, mas a sua missão precisa estar em comunhão com o Papa Francisco e com os irmãos bispos. Temos o desafio de sermos bons pastores a exemplo de Jesus Cristo O Bom Pastor.




Ser cristão

Sábado, 07/04/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os oito dias que se seguem à Páscoa são chamados de “Oitava da Páscoa”. Cronologicamente são oito dias, mas para a liturgia católica são como se fossem um só. O fato pascal é tão importante que não cabe num só dia, pois ele dá origem ao cristianismo. O fato inusitado da ressurreição de Jesus Cristo abre uma nova visão sobre Deus e para os seguidores de Cristo, os cristãos.

 

O que significa ser cristão? Quais são os fundamentos desta opção religiosa? O “Símbolo Apostólico”, ou “Credo”, ou mais popularmente o “Creio” rezado pelos católicos nas missas dominicais e festivas apresenta as principais verdades, ou dogmas da fé cristã. O papa emérito Bento XVI, na obra “Introdução ao Cristianismo”, reflete profundamente sobre este tema e nos ajuda a compreender e dar as razões para optarmos pela fé cristã. Neste pequeno espaço, ressalto dois elementos essências da natureza do cristianismo.

 

Muitas pessoas veem no cristianismo apenas o aparato externo: a Igreja, as estruturas, os sacramentos, os dogmas, os pecados dos cristãos. Questionam se a instituição é necessária para crer em Deus e se o cristianismo é necessário. Não seria melhor que cada indivíduo se reportasse diretamente a Deus e Deus ao indivíduo?

 

A fé cristã não parte de indivíduos isolados, mas da convicção de que não existe ser humano isolado. O indivíduo só existe e se torna alguém integrado no todo, na humanidade, no cosmos. O nosso corpo nos separa e nos distingue dos outros, mas só temos corpo graças aos outros. No cristianismo tudo depende de um indivíduo: Jesus Cristo, o homem de Nazaré que sofreu a paixão, a morte e ressuscitou. Mas tudo isto foi feito para o bem da humanidade, dos outros, do todo. Por isso, só é possível ser cristão em comunidade. A comunidade não destrói a individualidade, pois o cristianismo vive a partir do indivíduo e para o indivíduo. Neste sentido, não somos cristãos porque é necessário ser cristão para salvar-se, mas como cristãos prestamos um serviço para o indivíduo e a história.

 

A lei fundamental do cristianismo pode ser expressa no termo “em prol de”. Ser cristão significa essencialmente passar a ser em prol de si mesmo para o ser em prol dos outros. Desse modo, a opção fundamental do cristão, ou seja, a aceitação da maneira cristã de ser, significa o abandono de uma atitude de centralização em si e adoção da existência de Jesus Cristo, voltada totalmente para o todo. Na história da humanidade tivemos muitas mudanças sociais, econômicas, formas de governo, etc. Uma marca destas mudanças mais profundas sempre foram “contra”. Muitas vezes, inclusive eliminando o outro. Fazendo uma analogia esportiva, parece que o mundo sempre está jogando eliminatórias e campeonatos, pois só se admite um vencedor. Os cristãos, por coerência à fé, são sal da terra e luz do mundo, estão prestando um serviço em prol do outro e do mundo e não contra.

 

“ Não é por professar o nosso credo que alguém é verdadeiramente cristão e sim porque se tornou verdadeiramente humano pela sua existência cristã. O verdadeiro cristão não é aquele que, pensando só em si, obedece como um escravo a um sistema de normas e sim aquele que chegou à liberdade da simples bondade humana. Claro que o princípio do amor, para ser verdadeiro, precisa incluir a fé” (Ratzinger, p.199). No princípio do amor está presente o princípio da esperança que supera o momentâneo e o individual e se lança à procura do todo.




“A paz esteja convosco”

Sexta-Feira, 30/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os evangelistas testemunham que uma das primeiras preocupações de Jesus Cristo ressuscitado, ao reencontrar-se com seus discípulos, foi libertá-los do medo. Várias vezes repete a saudação: “A paz esteja convosco!” (cf. Jo 20, 19-29; Lc 24, 36-49). O medo dos discípulos não era imaginário, pois eles tinham acompanhado toda violência que Nosso Senhor Jesus Cristo havia sofrido e, pelo fato de serem seus seguidores, temiam o mesmo para eles.

 

A Campanha da Fraternidade de 2018 colocou-nos o tema “Fraternidade e a superação da violência”. Além disso, na quarta-feira de cinzas foi-nos feito o convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Entre tantas conversões que todos nós precisamos fazer constantemente, a Campanha da Fraternidade nos propôs, em particular, a mudança de mentalidade sobre a violência. E o referencial para esta mudança, é crer no Evangelho, em outras palavras em Jesus Cristo.

 

O texto base da Campanha da Fraternidade, no número 164, diz: “À luz da palavra definitiva de Deus que nos é dada por Jesus é que toda a delicada temática da violência e da vingança na Bíblia recebem uma resposta definitiva. Os escritos do Novo Testamento nasceram à luz da Páscoa de Jesus e todos a refletem de alguma forma. O centro do Novo Testamento é Jesus que é por excelência uma pessoa não violenta. Por isso, não se encontra nenhum tipo de incentivo à violência em suas páginas”.

 

Crer em Jesus Cristo ressuscitado é crer na vida nova que nos propôs. É assimilar, com todas as nossas limitações, seu modo de pensar, de avaliar e de agir. É olhar o mundo com outros os olhos Dele. Diante da tentação de ver somente a violência externa e aquela praticada pelos outros, Jesus alerta a multidão que é dentro do coração humano que saem as más intenções.

 

Diante da mentalidade comum de “amar o próximo e odiar o inimigo”, os ouvintes recebem o ensinamento de amar e rezar pelos inimigos, assim como Deus faz a chuva cair e o sol nascer sobre todos. Alerta que a interpretação do mandamento “não matarás” inclui também não se encolerizar, não humilhar, não ridicularizar o próximo, na linguagem de hoje, não fazer bullying.

 

Mas os gestos supremos de não violência da parte de Jesus estão reservados para as horas em que ele sofre as maiores violências, no momento de condenação, da tortura e da morte de cruz. É massacrado na sua dignidade com falsas acusações; ridicularizado na realeza com uma coroa de espinhos e crucificado como um malfeitor de primeira linha. Tudo isto tem como resposta aquilo que já havia ensinado anteriormente: a violência não se resolve com violência; as mentiras são sanadas com a verdade e a transparência; a ofensa e a agressão se curam com perdão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”; aos assustados e medrosos por causa da violência, lhes devolve a paz e a serenidade.

 

Páscoa é a passagem da morte para vida. Cada cristão e todas as pessoas de boa vontade tem a grande tarefa de serem agentes para a passagem de uma cultura de violência para uma cultura de paz, de fraternidade, pois “todos somos irmãos”.

 

Cristo Ressuscitou! Feliz e abençoada Páscoa! Aleluia! Aleluia!




“Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Sábado, 24/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

As celebrações do Domingo de Ramos dão início a Semana Santa e a liturgia católica introduz os fiéis ao estudo, à meditação e à celebração do tríduo pascal: paixão, morte e ressurreição. Não é uma mera biografia de Jesus Cristo ou uma aula de história ou uma história dramática para suscitar comoção sentimental. É, sim, uma narração destinada aos fiéis sobre os primeiros e fundamentais artigos da fé cristã. Revela a identidade e a presença salvífica de Deus na história do mundo, tornando-a história da salvação. O oficial do exército romano, quando viu Jesus expirar na cruz disse: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Marcos 15,39).


A narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo é repleta de paradoxos. Temos palavras e atitudes de misericórdia, perdão, doação e por outro lado agressão, condenação, manipulação de pessoas, intolerância. Diante da variedade de temas, a presente reflexão pretende ressaltar elementos relacionados com o tema da Campanha da Fraternidade 2018: “Fraternidade e superação da violência”. Nunca é demais falar deste tema, pois o nosso referencial absoluto de superação da violência é Jesus Cristo. Se as narrações bíblicas lidas e meditadas na Semana Santa revelam a maior violência já feita contra um inocente, por outro lado a vítima ensina a superação da violência.


A Semana Santa começa com a narrativa da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Ela faz pensar, pois expõe um contraste entre a mentalidade humana e divina sobre autoridade e poder. Na história da humanidade, quanto mais poderoso foi e é um governante mais ostenta este poder com aparatos de ostentação. Em tempos de conflito, faz-se questão de mostrar a força bélica para justificar o poder de defesa e de destruição de um possível inimigo. Diz o evangelista Marcos que Jesus entra na cidade montado num jumentinho, com as pessoas próximas e elas fazendo um tapete com ramos verdes. Em vez de gritos de guerra, espadas em punho escutam-se gritos de aclamação: “Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito seja o reino que vem...” (Marcos 11,9-10). Não se questiona a necessidade de o país ter forças armadas e policiais, mas se questiona se confiar na força e no poder destruidor seja o melhor caminho de superação da violência.


O apóstolo São Paulo, escrevendo aos cristãos da cidade de Filipos, não narra, mas interpreta os acontecimentos pascais desta maneira. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus! Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como homem abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz” (Fl 2,5-8).


Se esta foi a opção de Jesus Cristo, os seus seguidores precisam cultivar os mesmos sentimentos e as mesmas atitudes. Certamente, a mentalidade corrente distanciava o mundo divino na sua perfeição do mundo humano imperfeito. São Paulo ressalta que este mundo imperfeito foi abraçado plenamente pelo divino, quando Cristo assume a condição humana, inclusive a morte humilhante de cruz. Esta metodologia divina revela que uma situação dramática de violência só pode ser mudada se for assumida, reconhecida e abraçada a tal ponto que, quem deseja a mudança, participe na carne do mesmo sofrimento de todas as vítimas.




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