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Colunistas


Fraternidade e superação da violência V

Sábado, 17/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Estamos partilhando ações de superação da violência, enfoque principal da Campanha da Fraternidade 2018. Na semana passada refletíamos que “a paz começa em ti”. Sou o primeiro agente responsável e tenho uma contribuição insubstituível a fazer. Hoje ampliamos a reflexão para outros espaços.


O primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar é na família que é um “santuário de vida”, um lugar sagrado. O lugar primeiro onde aprendemos a amar a vida e a respeitar os outros, onde fazemos o primeiro exercício da fraternidade, “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Lugar onde se inicia a formação da consciência moral, a distinguir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. É uma missão nobre e intransferível dos pais que não pode ser terceirizada. Como ilustração, cito um fato acontecido num pequeno povoado onde havia um sério conflito entre famílias vizinhas. Um dia meus colegas foram visitar uma dessas famílias e a seguir foram passear acompanhados por uma criança de uns 07 anos. Na medida em que caminhavam o menino apontava o dedo para as casas e, espontaneamente, dizia: “amigos”, apontando para outra casa dizia: “inimigos”.... Aprendeu bem a lição para ser violento, vingativo, do mesmo modo, poderia ter aprendido a lição da superação da violência.


Outro espaço educativo para a superação da violência são as escolas, faculdades e universidades. Contando alunos, professores, servidores e outros profissionais chegamos a uma percentagem significativa da população envolvida diariamente em espaços formais educativos. Enquanto vão sendo ensinados os conteúdos, as ciências específicas de cada instituição de ensino, estabelecem-se relações entre os alunos, despertando amizades, paixões ou também agressões que desencadeiam em violências. Penso que todos os conflitos e as transgressões, por menores que sejam, devam ser objeto de reflexão, de estudo. Os ambientes da educação são espaços propícios para o desenvolvimento da cultura da paz. Uma análise crítica da cultura passada e presente revelam elementos que estimulam, legitimam e consolidam comportamentos violentos. Não é possível mudar o passado, mas é possível gestar uma nova cultura.


A sociedade civil, organizada em múltiplas formas, pode contribuir significativamente. Aqui incluo as Igrejas, religiões, associações, sindicatos, clubes, ONGs, entre outras, que agregam pessoas das mais diferentes classes e finalidades. São espaços para promover uma convivência fraterna, exercitarem o diálogo e transmitirem comportamentos promotores da igualdade e respeito diante de diferentes interesses.


Sem dúvida, cabe um papel importantíssimo aos poderes constituídos da sociedade para a superação da violência. Problemas estruturais são geradores de violência. Cabe a quem governa, ouvindo a sociedade, tomar as devidas medidas de acordo com a sua competência e os órgãos de que dispõem, pois, omissão do Estado abre espaços a grupos criminosos. Políticas de inclusão social que tornem todos iguais perante a lei, que favoreçam o bem comum e que tornem a sociedade mais igualitária e justa diminuem ambientes geradores de violência.




Fraternidade e superação da violência IV

Sábado, 10/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Até agora lançamos um olhar sobre a dramática realidade da violência e foram feitas algumas considerações a partir da perspectiva cristã católica, especialmente dos últimos papas. Mas nenhuma situação muda sem a tomada de medidas proporcionais ao problema. Devido à complexidade da violência, também não existem soluções simplórias e únicas. Nesta e nas próximas reflexões compartilho sugestões contidas no texto base da Campanha da Fraternidade.


A superação da violência começa pelo envolvimento pessoal de cada pessoa, pois todos são agentes de agressões e agentes de superação da violência. Sem dúvida muitas outras ações estruturais são necessárias, mas hoje fiquemos na responsabilidade individual. Partilho a letra da música “La paz comienza em ti” – A Paz começa em ti – de Blanca Myrna Garza Aburto, disponível no YouTube. Poeticamente, no espanhol, língua original da música, talvez soe melhor que em português.


A PAZ COMEÇA EM TI
1. Não são bons nem maus, seres humanos, sim
Com uma história que nos faz agir assim.
Por trás da violência uma carência há,
Quem não se sente amado, não sabe como amar.

 

2. Deixemos de gritar, ninguém nos vai ouvir,
Com uma palavra amável, mais portas vão se abrir!
Deixemos de odiar, chega de maldizer,
De levantar os muros, que vão dividir!

 

3. Se queres mudar o mundo, apenas criticando,
Se mudança queres ver, começa te mudar!
O que estás fazendo, irmão? Deixemos o fuzil,
Pensemos no plural e num mundo mais feliz!

 

4. Nosso planeta hoje, suplica pela paz,
Para os que aqui estão e para os que virão!
Deixa de acumular, vamos dividir,
Pois na hora da morte, nada vamos levar!

 

5. Dá-me tua mão e vem, juntos vamos buscar
Que todo ser humano viva com dignidade!
Dá-me tua mão e vem juntos vamos buscar
Que todo ser humano, viva com dignidade!




Fraternidade e superação da violência III

Sábado, 03/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

É necessário destacar que o objetivo principal da Campanha da Fraternidade é a superação da violência e não a violência em si. O ponto de partida é a realidade atual com toda a sua dramaticidade. Depois de ver a realidade - segundo a metodologia ver-julgar-agir - é preciso julgar a realidade. Com qual ponto de vista interpreto e vejo a realidade da violência? Como Igreja, partimos do olhar de Deus, expresso nas Escrituras, e da moral cristã. Por excelência Jesus Cristo é uma pessoa não violenta e nele se supera toda violência. Mas, hoje recordo alguns ensinamentos da Igreja Católica, nas palavras dos últimos papas.


São João XXIII publicou, em 11/04/1963, a encíclica “Pacem in Terris” (Paz na terra) num período em que aumentavam as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, entre o bloco comunista e capitalista. Em 1945 tinha terminada oficialmente a 2ª Guerra Mundial e havia tensões suficientes para iniciar uma nova. Escreve o papa João XXIII: “A violência só e sempre destrói; só excita paixões, nunca as aplaca; só acumula ódio e ruínas e não a fraternidade e a reconciliação... A todos os homens de boa vontade incumbe a tarefa de restaurar as relações de convivência humana na base da verdade, justiça, amor e liberdade” (nº 161-162).


No dia 08 de dezembro de 1967, o papa Paulo VI propôs o “Dia Mundial da Paz”. “A proposta de dedicar à paz o primeiro dia do novo ano não tem a pretensão de ser qualificada como exclusivamente nossa, religiosa ou católica. Antes, seria para desejar que ela encontrasse a adesão de todos os verdadeiros amigos da paz”, dizia, em sua mensagem. Também destacava que a superação da violência precisa de um “espírito novo”, “um novo modo de pensar o homem e seus deveres e o seu destino”. Além disso manifesta a sua convicção: “do Evangelho pode brotar a paz, não para tornar os homens fracos e moles, mas para substituir nas suas almas os impulsos de violência, de prepotência, pelas virtudes viris da razão e do coração dum humanismo verdadeiro”.
A partir desta data todos os papas tem enviado uma mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz, no primeiro dia do ano, refletindo e destacando elementos essências da construção de novas relações. Nestas 51 mensagens são abordados diversos temas conclamando “os verdadeiros amigos da paz”.


São João Paulo II, em 1986, destaca a estreita relação entre paz e justiça: “Ainda que não haja conflito armado como tal, em ato, onde há injustiças existe realmente uma causa e um fator potencial de conflito. Em todo o caso, uma situação de paz, no pleno sentido do valor da expressão não pode coexistir com a injustiça”.


Bento XVI, em 2009, fala da dignidade humana e dos direitos humanos. “Somos todos convocados a fazer o possível para apartar da sociedade não só a tragédia da guerra, mas também qualquer violação dos direitos humanos, a começar do indiscutível direito à vida, de que a pessoa é depositária desde a sua concepção. Na violação do direito à vida de cada ser humano está contida também em germe a inaudita violência da guerra”.


O Papa Francisco, na mensagem de 2014, fala da importância da fraternidade, pois todos somos irmãos: “Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção de uma sociedade justa, duma paz firme e duradoura”.




Fraternidade e superação da violência II

Sábado, 24/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Durante o tempo litúrgico da quaresma, a Igreja Católica está realizando a Campanha da Fraternidade 2018: “Fraternidade e superação da violência”. Este e os próximos artigos vão refletir sobre o tema, tendo como referência o texto base elaborado pelos coordenadores da campanha. A metodologia usada para tratar do tema é ver, julgar e agir. O presente texto é focado no ver a realidade da violência. Um fenômeno que está aumentando, não é isolado, é complexo nas origens e nas suas manifestações, traz sérias consequências para as vítimas, para os agressores e para toda sociedade. Além disso, os atuais métodos para diminuir a violência não estão sendo efetivos.


O tema da violência é uma das principais pautas do cotidiano e não faltam razões para tal. O Brasil tem menos de 3% da população mundial, mas concentra 13% dos assassinatos do planeta, somando-se em torno de 60.000 mortes por ano. Lançando um olhar sobre o perfil das vítimas, constata-se que alguns grupos são mais vítimas que outros. Também, saltam aos olhos as vítimas do trânsito.


A complexidade do tema faz perguntar sobre as fontes geradoras do problema, sobre as dimensões da violência. A análise deve começar em cada pessoa: Eu também sou violento!? Quais são as violências que pratico!? Como me sinto depois de um ato violento!? Como são elaborados e curados os sentimentos de raiva, ciúmes, indignação e os desejos de vingança? Como disse Jesus Cristo, a origem de todos os males está no coração humano.


Existimos e sobrevivemos graças aos outros. Tornamo-nos pessoas e nos humanizamos no relacionamento interpessoal. A presença do outro, ao mesmo tempo em que me ajuda, também me desafia gerando confrontos, tensões que podem resultar em agressões verbais e físicas. É famosa a frase de Sartre: “O inferno são os outros” (Claro, uma interpretação mais correta e completa exige colocar a afirmação dentro do texto original).


Muitas estruturas sociais também são fontes originadoras de violência: a pobreza, o endeusamento dos bens materiais, a marginalização, o desemprego, a corrupção, privilégios legais, mas imorais, a falta de acesso a uma educação de qualidade e de políticas públicas de saúde impedem o desenvolvimento digno da pessoa. Um fator agravante da violência, nas últimas décadas, está relacionado com o tráfico de drogas e seu consumo, sejam as legais e as ilegais. O acesso à justiça é seletivo gerando injustiças. Teoricamente todos são iguais perante a lei, mas na prática isto não é verdade.


Não pode ser esquecida a dimensão cultural da violência. A “violência cultural” remete a ideia de cultivo. Ela é resultado dos próprios mecanismos que a formam e a reproduzem no dia a dia. A sociedade cultiva condições que resultam em violência, mas não reconhece isto como agressão; por exemplo: “não se leva desaforo para casa”. Produções culturais como filmes, novelas, músicas, desenhos animados, literaturas etc... que atraem a atenção, estimulam adrenalina e cultual a agressividade.


São alguns elementos para olhar a complexa realidade da violência. Ver as causas, além das aparências, é necessário para encontrar saídas adequadas.




Fraternidade e superação da violência I

Sábado, 17/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O tempo litúrgico da Quaresma inicia-se com um solene e grave convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Esta admoestação vem acompanhada com a imposição das cinzas na cabeça que simbolizam a nossa finitude humana. Desde 1964, o tempo quaresmal, no Brasil, vem enriquecido com a Campanha da Fraternidade que tem, neste ano, o tema: “Fraternidade e superação da violência” e o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

 

As estatísticas da violência apresentam números assustadores, porém elas só mostram aquelas situações extremas de mortes, guerras, agressões físicas com lesões e acidentes. É como se fosse um iceberg, isto é, um grande bloco de gelo que flutua no mar gelado, mas só se enxerga a parte que está fora da água. O que está submerso na água é muito maior. A Campanha da Fraternidade também considera violência todas estas atitudes, palavras que não vão acabar nas delegacias, não ficam visíveis, não entram nas estatísticas, mas existem e causam muito sofrimento.

 

A motivação da escolha deste tema é a triste constatação de que somos violentos e vivemos numa sociedade violenta. A Campanha da Fraternidade não quer simplesmente ficar falando de violência, apresentar mais estatísticas, procurar culpados. As informações que temos e os meios que divulgam a violência já são suficientes para nos sensibilizar para o grave problema. O sofrimento das vítimas grita por compaixão e atenção. Os agressores também necessitam de misericórdia e conversão.

 

Por isso, foi escolhido como objetivo geral da Campanha da Fraternidade de 2018: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

 

“Construir fraternidade” é o reconhecimento de que a mudança exige planejamento, investimento e muito trabalho. Posso constatar que a minha casa está caindo, está cheia de goteiras, rachaduras, está inadequada e desconfortável. Posso ficar somente na constatação, mesmo tendo recursos financeiros para investir, mão de obra qualificada e um sonho de casa melhor. Se não começar a construir, vou permanecer constatando, reclamando e vivendo no perigo. Assim também, temos um projeto de uma sociedade fraterna, temos recursos humanos e financeiros para fazer algo muito melhor do que temos. Por isso, é urgente começar.

 

“Promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus” indica que a mudança necessita ser fundamentada para ser durável. Gestos isolados são importantes, mas não suficientes. Leis adequadas, programas governamentais, ações pastorais precisam ter a sua luz de inspiração que é a Palavra de Deus. Jesus lembrou que somente a casa construída sobre a rocha, isto é, aquela com bom fundamento suporta as tempestades. Em outras palavras, não são quaisquer ações que vão mudar triste quadro da violência. É preciso rever os métodos atuais usados para resolver o problema. A promoção de uma cultura de paz, de reconciliação, de justiça social deve ocupar mais espaço do que falas e ações de repressão e condenação.

 

Na celebração eucarística o sacerdote reza: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade”. A assembleia responde com um solene “Amém”, confirmando e aceitando a paz doada por Cristo. A seguir, o sacerdote repete a saudação do Cristo ressuscitado: “A paz do Senhor esteja sempre convosco” e a assembleia responde: “O amor de Cristo nos uniu”. Se em todas as missas se faz este rito é porque todos os fiéis necessitam da paz, se reconhecem como agentes de violência; como também, se comprometem em construir, propagar e se tornar agentes da paz de Cristo.




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