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Colunistas


Ser cristão

Sábado, 07/04/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os oito dias que se seguem à Páscoa são chamados de “Oitava da Páscoa”. Cronologicamente são oito dias, mas para a liturgia católica são como se fossem um só. O fato pascal é tão importante que não cabe num só dia, pois ele dá origem ao cristianismo. O fato inusitado da ressurreição de Jesus Cristo abre uma nova visão sobre Deus e para os seguidores de Cristo, os cristãos.

 

O que significa ser cristão? Quais são os fundamentos desta opção religiosa? O “Símbolo Apostólico”, ou “Credo”, ou mais popularmente o “Creio” rezado pelos católicos nas missas dominicais e festivas apresenta as principais verdades, ou dogmas da fé cristã. O papa emérito Bento XVI, na obra “Introdução ao Cristianismo”, reflete profundamente sobre este tema e nos ajuda a compreender e dar as razões para optarmos pela fé cristã. Neste pequeno espaço, ressalto dois elementos essências da natureza do cristianismo.

 

Muitas pessoas veem no cristianismo apenas o aparato externo: a Igreja, as estruturas, os sacramentos, os dogmas, os pecados dos cristãos. Questionam se a instituição é necessária para crer em Deus e se o cristianismo é necessário. Não seria melhor que cada indivíduo se reportasse diretamente a Deus e Deus ao indivíduo?

 

A fé cristã não parte de indivíduos isolados, mas da convicção de que não existe ser humano isolado. O indivíduo só existe e se torna alguém integrado no todo, na humanidade, no cosmos. O nosso corpo nos separa e nos distingue dos outros, mas só temos corpo graças aos outros. No cristianismo tudo depende de um indivíduo: Jesus Cristo, o homem de Nazaré que sofreu a paixão, a morte e ressuscitou. Mas tudo isto foi feito para o bem da humanidade, dos outros, do todo. Por isso, só é possível ser cristão em comunidade. A comunidade não destrói a individualidade, pois o cristianismo vive a partir do indivíduo e para o indivíduo. Neste sentido, não somos cristãos porque é necessário ser cristão para salvar-se, mas como cristãos prestamos um serviço para o indivíduo e a história.

 

A lei fundamental do cristianismo pode ser expressa no termo “em prol de”. Ser cristão significa essencialmente passar a ser em prol de si mesmo para o ser em prol dos outros. Desse modo, a opção fundamental do cristão, ou seja, a aceitação da maneira cristã de ser, significa o abandono de uma atitude de centralização em si e adoção da existência de Jesus Cristo, voltada totalmente para o todo. Na história da humanidade tivemos muitas mudanças sociais, econômicas, formas de governo, etc. Uma marca destas mudanças mais profundas sempre foram “contra”. Muitas vezes, inclusive eliminando o outro. Fazendo uma analogia esportiva, parece que o mundo sempre está jogando eliminatórias e campeonatos, pois só se admite um vencedor. Os cristãos, por coerência à fé, são sal da terra e luz do mundo, estão prestando um serviço em prol do outro e do mundo e não contra.

 

“ Não é por professar o nosso credo que alguém é verdadeiramente cristão e sim porque se tornou verdadeiramente humano pela sua existência cristã. O verdadeiro cristão não é aquele que, pensando só em si, obedece como um escravo a um sistema de normas e sim aquele que chegou à liberdade da simples bondade humana. Claro que o princípio do amor, para ser verdadeiro, precisa incluir a fé” (Ratzinger, p.199). No princípio do amor está presente o princípio da esperança que supera o momentâneo e o individual e se lança à procura do todo.




“A paz esteja convosco”

Sexta-Feira, 30/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os evangelistas testemunham que uma das primeiras preocupações de Jesus Cristo ressuscitado, ao reencontrar-se com seus discípulos, foi libertá-los do medo. Várias vezes repete a saudação: “A paz esteja convosco!” (cf. Jo 20, 19-29; Lc 24, 36-49). O medo dos discípulos não era imaginário, pois eles tinham acompanhado toda violência que Nosso Senhor Jesus Cristo havia sofrido e, pelo fato de serem seus seguidores, temiam o mesmo para eles.

 

A Campanha da Fraternidade de 2018 colocou-nos o tema “Fraternidade e a superação da violência”. Além disso, na quarta-feira de cinzas foi-nos feito o convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Entre tantas conversões que todos nós precisamos fazer constantemente, a Campanha da Fraternidade nos propôs, em particular, a mudança de mentalidade sobre a violência. E o referencial para esta mudança, é crer no Evangelho, em outras palavras em Jesus Cristo.

 

O texto base da Campanha da Fraternidade, no número 164, diz: “À luz da palavra definitiva de Deus que nos é dada por Jesus é que toda a delicada temática da violência e da vingança na Bíblia recebem uma resposta definitiva. Os escritos do Novo Testamento nasceram à luz da Páscoa de Jesus e todos a refletem de alguma forma. O centro do Novo Testamento é Jesus que é por excelência uma pessoa não violenta. Por isso, não se encontra nenhum tipo de incentivo à violência em suas páginas”.

 

Crer em Jesus Cristo ressuscitado é crer na vida nova que nos propôs. É assimilar, com todas as nossas limitações, seu modo de pensar, de avaliar e de agir. É olhar o mundo com outros os olhos Dele. Diante da tentação de ver somente a violência externa e aquela praticada pelos outros, Jesus alerta a multidão que é dentro do coração humano que saem as más intenções.

 

Diante da mentalidade comum de “amar o próximo e odiar o inimigo”, os ouvintes recebem o ensinamento de amar e rezar pelos inimigos, assim como Deus faz a chuva cair e o sol nascer sobre todos. Alerta que a interpretação do mandamento “não matarás” inclui também não se encolerizar, não humilhar, não ridicularizar o próximo, na linguagem de hoje, não fazer bullying.

 

Mas os gestos supremos de não violência da parte de Jesus estão reservados para as horas em que ele sofre as maiores violências, no momento de condenação, da tortura e da morte de cruz. É massacrado na sua dignidade com falsas acusações; ridicularizado na realeza com uma coroa de espinhos e crucificado como um malfeitor de primeira linha. Tudo isto tem como resposta aquilo que já havia ensinado anteriormente: a violência não se resolve com violência; as mentiras são sanadas com a verdade e a transparência; a ofensa e a agressão se curam com perdão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”; aos assustados e medrosos por causa da violência, lhes devolve a paz e a serenidade.

 

Páscoa é a passagem da morte para vida. Cada cristão e todas as pessoas de boa vontade tem a grande tarefa de serem agentes para a passagem de uma cultura de violência para uma cultura de paz, de fraternidade, pois “todos somos irmãos”.

 

Cristo Ressuscitou! Feliz e abençoada Páscoa! Aleluia! Aleluia!




“Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Sábado, 24/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

As celebrações do Domingo de Ramos dão início a Semana Santa e a liturgia católica introduz os fiéis ao estudo, à meditação e à celebração do tríduo pascal: paixão, morte e ressurreição. Não é uma mera biografia de Jesus Cristo ou uma aula de história ou uma história dramática para suscitar comoção sentimental. É, sim, uma narração destinada aos fiéis sobre os primeiros e fundamentais artigos da fé cristã. Revela a identidade e a presença salvífica de Deus na história do mundo, tornando-a história da salvação. O oficial do exército romano, quando viu Jesus expirar na cruz disse: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Marcos 15,39).


A narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo é repleta de paradoxos. Temos palavras e atitudes de misericórdia, perdão, doação e por outro lado agressão, condenação, manipulação de pessoas, intolerância. Diante da variedade de temas, a presente reflexão pretende ressaltar elementos relacionados com o tema da Campanha da Fraternidade 2018: “Fraternidade e superação da violência”. Nunca é demais falar deste tema, pois o nosso referencial absoluto de superação da violência é Jesus Cristo. Se as narrações bíblicas lidas e meditadas na Semana Santa revelam a maior violência já feita contra um inocente, por outro lado a vítima ensina a superação da violência.


A Semana Santa começa com a narrativa da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Ela faz pensar, pois expõe um contraste entre a mentalidade humana e divina sobre autoridade e poder. Na história da humanidade, quanto mais poderoso foi e é um governante mais ostenta este poder com aparatos de ostentação. Em tempos de conflito, faz-se questão de mostrar a força bélica para justificar o poder de defesa e de destruição de um possível inimigo. Diz o evangelista Marcos que Jesus entra na cidade montado num jumentinho, com as pessoas próximas e elas fazendo um tapete com ramos verdes. Em vez de gritos de guerra, espadas em punho escutam-se gritos de aclamação: “Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito seja o reino que vem...” (Marcos 11,9-10). Não se questiona a necessidade de o país ter forças armadas e policiais, mas se questiona se confiar na força e no poder destruidor seja o melhor caminho de superação da violência.


O apóstolo São Paulo, escrevendo aos cristãos da cidade de Filipos, não narra, mas interpreta os acontecimentos pascais desta maneira. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus! Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como homem abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz” (Fl 2,5-8).


Se esta foi a opção de Jesus Cristo, os seus seguidores precisam cultivar os mesmos sentimentos e as mesmas atitudes. Certamente, a mentalidade corrente distanciava o mundo divino na sua perfeição do mundo humano imperfeito. São Paulo ressalta que este mundo imperfeito foi abraçado plenamente pelo divino, quando Cristo assume a condição humana, inclusive a morte humilhante de cruz. Esta metodologia divina revela que uma situação dramática de violência só pode ser mudada se for assumida, reconhecida e abraçada a tal ponto que, quem deseja a mudança, participe na carne do mesmo sofrimento de todas as vítimas.




Fraternidade e superação da violência V

Sábado, 17/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Estamos partilhando ações de superação da violência, enfoque principal da Campanha da Fraternidade 2018. Na semana passada refletíamos que “a paz começa em ti”. Sou o primeiro agente responsável e tenho uma contribuição insubstituível a fazer. Hoje ampliamos a reflexão para outros espaços.


O primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar é na família que é um “santuário de vida”, um lugar sagrado. O lugar primeiro onde aprendemos a amar a vida e a respeitar os outros, onde fazemos o primeiro exercício da fraternidade, “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Lugar onde se inicia a formação da consciência moral, a distinguir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. É uma missão nobre e intransferível dos pais que não pode ser terceirizada. Como ilustração, cito um fato acontecido num pequeno povoado onde havia um sério conflito entre famílias vizinhas. Um dia meus colegas foram visitar uma dessas famílias e a seguir foram passear acompanhados por uma criança de uns 07 anos. Na medida em que caminhavam o menino apontava o dedo para as casas e, espontaneamente, dizia: “amigos”, apontando para outra casa dizia: “inimigos”.... Aprendeu bem a lição para ser violento, vingativo, do mesmo modo, poderia ter aprendido a lição da superação da violência.


Outro espaço educativo para a superação da violência são as escolas, faculdades e universidades. Contando alunos, professores, servidores e outros profissionais chegamos a uma percentagem significativa da população envolvida diariamente em espaços formais educativos. Enquanto vão sendo ensinados os conteúdos, as ciências específicas de cada instituição de ensino, estabelecem-se relações entre os alunos, despertando amizades, paixões ou também agressões que desencadeiam em violências. Penso que todos os conflitos e as transgressões, por menores que sejam, devam ser objeto de reflexão, de estudo. Os ambientes da educação são espaços propícios para o desenvolvimento da cultura da paz. Uma análise crítica da cultura passada e presente revelam elementos que estimulam, legitimam e consolidam comportamentos violentos. Não é possível mudar o passado, mas é possível gestar uma nova cultura.


A sociedade civil, organizada em múltiplas formas, pode contribuir significativamente. Aqui incluo as Igrejas, religiões, associações, sindicatos, clubes, ONGs, entre outras, que agregam pessoas das mais diferentes classes e finalidades. São espaços para promover uma convivência fraterna, exercitarem o diálogo e transmitirem comportamentos promotores da igualdade e respeito diante de diferentes interesses.


Sem dúvida, cabe um papel importantíssimo aos poderes constituídos da sociedade para a superação da violência. Problemas estruturais são geradores de violência. Cabe a quem governa, ouvindo a sociedade, tomar as devidas medidas de acordo com a sua competência e os órgãos de que dispõem, pois, omissão do Estado abre espaços a grupos criminosos. Políticas de inclusão social que tornem todos iguais perante a lei, que favoreçam o bem comum e que tornem a sociedade mais igualitária e justa diminuem ambientes geradores de violência.




Fraternidade e superação da violência IV

Sábado, 10/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Até agora lançamos um olhar sobre a dramática realidade da violência e foram feitas algumas considerações a partir da perspectiva cristã católica, especialmente dos últimos papas. Mas nenhuma situação muda sem a tomada de medidas proporcionais ao problema. Devido à complexidade da violência, também não existem soluções simplórias e únicas. Nesta e nas próximas reflexões compartilho sugestões contidas no texto base da Campanha da Fraternidade.


A superação da violência começa pelo envolvimento pessoal de cada pessoa, pois todos são agentes de agressões e agentes de superação da violência. Sem dúvida muitas outras ações estruturais são necessárias, mas hoje fiquemos na responsabilidade individual. Partilho a letra da música “La paz comienza em ti” – A Paz começa em ti – de Blanca Myrna Garza Aburto, disponível no YouTube. Poeticamente, no espanhol, língua original da música, talvez soe melhor que em português.


A PAZ COMEÇA EM TI
1. Não são bons nem maus, seres humanos, sim
Com uma história que nos faz agir assim.
Por trás da violência uma carência há,
Quem não se sente amado, não sabe como amar.

 

2. Deixemos de gritar, ninguém nos vai ouvir,
Com uma palavra amável, mais portas vão se abrir!
Deixemos de odiar, chega de maldizer,
De levantar os muros, que vão dividir!

 

3. Se queres mudar o mundo, apenas criticando,
Se mudança queres ver, começa te mudar!
O que estás fazendo, irmão? Deixemos o fuzil,
Pensemos no plural e num mundo mais feliz!

 

4. Nosso planeta hoje, suplica pela paz,
Para os que aqui estão e para os que virão!
Deixa de acumular, vamos dividir,
Pois na hora da morte, nada vamos levar!

 

5. Dá-me tua mão e vem, juntos vamos buscar
Que todo ser humano viva com dignidade!
Dá-me tua mão e vem juntos vamos buscar
Que todo ser humano, viva com dignidade!






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