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Colunistas


Fraternidade e superação da violência III

Sábado, 03/03/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

É necessário destacar que o objetivo principal da Campanha da Fraternidade é a superação da violência e não a violência em si. O ponto de partida é a realidade atual com toda a sua dramaticidade. Depois de ver a realidade - segundo a metodologia ver-julgar-agir - é preciso julgar a realidade. Com qual ponto de vista interpreto e vejo a realidade da violência? Como Igreja, partimos do olhar de Deus, expresso nas Escrituras, e da moral cristã. Por excelência Jesus Cristo é uma pessoa não violenta e nele se supera toda violência. Mas, hoje recordo alguns ensinamentos da Igreja Católica, nas palavras dos últimos papas.


São João XXIII publicou, em 11/04/1963, a encíclica “Pacem in Terris” (Paz na terra) num período em que aumentavam as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, entre o bloco comunista e capitalista. Em 1945 tinha terminada oficialmente a 2ª Guerra Mundial e havia tensões suficientes para iniciar uma nova. Escreve o papa João XXIII: “A violência só e sempre destrói; só excita paixões, nunca as aplaca; só acumula ódio e ruínas e não a fraternidade e a reconciliação... A todos os homens de boa vontade incumbe a tarefa de restaurar as relações de convivência humana na base da verdade, justiça, amor e liberdade” (nº 161-162).


No dia 08 de dezembro de 1967, o papa Paulo VI propôs o “Dia Mundial da Paz”. “A proposta de dedicar à paz o primeiro dia do novo ano não tem a pretensão de ser qualificada como exclusivamente nossa, religiosa ou católica. Antes, seria para desejar que ela encontrasse a adesão de todos os verdadeiros amigos da paz”, dizia, em sua mensagem. Também destacava que a superação da violência precisa de um “espírito novo”, “um novo modo de pensar o homem e seus deveres e o seu destino”. Além disso manifesta a sua convicção: “do Evangelho pode brotar a paz, não para tornar os homens fracos e moles, mas para substituir nas suas almas os impulsos de violência, de prepotência, pelas virtudes viris da razão e do coração dum humanismo verdadeiro”.
A partir desta data todos os papas tem enviado uma mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz, no primeiro dia do ano, refletindo e destacando elementos essências da construção de novas relações. Nestas 51 mensagens são abordados diversos temas conclamando “os verdadeiros amigos da paz”.


São João Paulo II, em 1986, destaca a estreita relação entre paz e justiça: “Ainda que não haja conflito armado como tal, em ato, onde há injustiças existe realmente uma causa e um fator potencial de conflito. Em todo o caso, uma situação de paz, no pleno sentido do valor da expressão não pode coexistir com a injustiça”.


Bento XVI, em 2009, fala da dignidade humana e dos direitos humanos. “Somos todos convocados a fazer o possível para apartar da sociedade não só a tragédia da guerra, mas também qualquer violação dos direitos humanos, a começar do indiscutível direito à vida, de que a pessoa é depositária desde a sua concepção. Na violação do direito à vida de cada ser humano está contida também em germe a inaudita violência da guerra”.


O Papa Francisco, na mensagem de 2014, fala da importância da fraternidade, pois todos somos irmãos: “Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção de uma sociedade justa, duma paz firme e duradoura”.




Fraternidade e superação da violência II

Sábado, 24/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Durante o tempo litúrgico da quaresma, a Igreja Católica está realizando a Campanha da Fraternidade 2018: “Fraternidade e superação da violência”. Este e os próximos artigos vão refletir sobre o tema, tendo como referência o texto base elaborado pelos coordenadores da campanha. A metodologia usada para tratar do tema é ver, julgar e agir. O presente texto é focado no ver a realidade da violência. Um fenômeno que está aumentando, não é isolado, é complexo nas origens e nas suas manifestações, traz sérias consequências para as vítimas, para os agressores e para toda sociedade. Além disso, os atuais métodos para diminuir a violência não estão sendo efetivos.


O tema da violência é uma das principais pautas do cotidiano e não faltam razões para tal. O Brasil tem menos de 3% da população mundial, mas concentra 13% dos assassinatos do planeta, somando-se em torno de 60.000 mortes por ano. Lançando um olhar sobre o perfil das vítimas, constata-se que alguns grupos são mais vítimas que outros. Também, saltam aos olhos as vítimas do trânsito.


A complexidade do tema faz perguntar sobre as fontes geradoras do problema, sobre as dimensões da violência. A análise deve começar em cada pessoa: Eu também sou violento!? Quais são as violências que pratico!? Como me sinto depois de um ato violento!? Como são elaborados e curados os sentimentos de raiva, ciúmes, indignação e os desejos de vingança? Como disse Jesus Cristo, a origem de todos os males está no coração humano.


Existimos e sobrevivemos graças aos outros. Tornamo-nos pessoas e nos humanizamos no relacionamento interpessoal. A presença do outro, ao mesmo tempo em que me ajuda, também me desafia gerando confrontos, tensões que podem resultar em agressões verbais e físicas. É famosa a frase de Sartre: “O inferno são os outros” (Claro, uma interpretação mais correta e completa exige colocar a afirmação dentro do texto original).


Muitas estruturas sociais também são fontes originadoras de violência: a pobreza, o endeusamento dos bens materiais, a marginalização, o desemprego, a corrupção, privilégios legais, mas imorais, a falta de acesso a uma educação de qualidade e de políticas públicas de saúde impedem o desenvolvimento digno da pessoa. Um fator agravante da violência, nas últimas décadas, está relacionado com o tráfico de drogas e seu consumo, sejam as legais e as ilegais. O acesso à justiça é seletivo gerando injustiças. Teoricamente todos são iguais perante a lei, mas na prática isto não é verdade.


Não pode ser esquecida a dimensão cultural da violência. A “violência cultural” remete a ideia de cultivo. Ela é resultado dos próprios mecanismos que a formam e a reproduzem no dia a dia. A sociedade cultiva condições que resultam em violência, mas não reconhece isto como agressão; por exemplo: “não se leva desaforo para casa”. Produções culturais como filmes, novelas, músicas, desenhos animados, literaturas etc... que atraem a atenção, estimulam adrenalina e cultual a agressividade.


São alguns elementos para olhar a complexa realidade da violência. Ver as causas, além das aparências, é necessário para encontrar saídas adequadas.




Fraternidade e superação da violência I

Sábado, 17/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O tempo litúrgico da Quaresma inicia-se com um solene e grave convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Esta admoestação vem acompanhada com a imposição das cinzas na cabeça que simbolizam a nossa finitude humana. Desde 1964, o tempo quaresmal, no Brasil, vem enriquecido com a Campanha da Fraternidade que tem, neste ano, o tema: “Fraternidade e superação da violência” e o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

 

As estatísticas da violência apresentam números assustadores, porém elas só mostram aquelas situações extremas de mortes, guerras, agressões físicas com lesões e acidentes. É como se fosse um iceberg, isto é, um grande bloco de gelo que flutua no mar gelado, mas só se enxerga a parte que está fora da água. O que está submerso na água é muito maior. A Campanha da Fraternidade também considera violência todas estas atitudes, palavras que não vão acabar nas delegacias, não ficam visíveis, não entram nas estatísticas, mas existem e causam muito sofrimento.

 

A motivação da escolha deste tema é a triste constatação de que somos violentos e vivemos numa sociedade violenta. A Campanha da Fraternidade não quer simplesmente ficar falando de violência, apresentar mais estatísticas, procurar culpados. As informações que temos e os meios que divulgam a violência já são suficientes para nos sensibilizar para o grave problema. O sofrimento das vítimas grita por compaixão e atenção. Os agressores também necessitam de misericórdia e conversão.

 

Por isso, foi escolhido como objetivo geral da Campanha da Fraternidade de 2018: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

 

“Construir fraternidade” é o reconhecimento de que a mudança exige planejamento, investimento e muito trabalho. Posso constatar que a minha casa está caindo, está cheia de goteiras, rachaduras, está inadequada e desconfortável. Posso ficar somente na constatação, mesmo tendo recursos financeiros para investir, mão de obra qualificada e um sonho de casa melhor. Se não começar a construir, vou permanecer constatando, reclamando e vivendo no perigo. Assim também, temos um projeto de uma sociedade fraterna, temos recursos humanos e financeiros para fazer algo muito melhor do que temos. Por isso, é urgente começar.

 

“Promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus” indica que a mudança necessita ser fundamentada para ser durável. Gestos isolados são importantes, mas não suficientes. Leis adequadas, programas governamentais, ações pastorais precisam ter a sua luz de inspiração que é a Palavra de Deus. Jesus lembrou que somente a casa construída sobre a rocha, isto é, aquela com bom fundamento suporta as tempestades. Em outras palavras, não são quaisquer ações que vão mudar triste quadro da violência. É preciso rever os métodos atuais usados para resolver o problema. A promoção de uma cultura de paz, de reconciliação, de justiça social deve ocupar mais espaço do que falas e ações de repressão e condenação.

 

Na celebração eucarística o sacerdote reza: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade”. A assembleia responde com um solene “Amém”, confirmando e aceitando a paz doada por Cristo. A seguir, o sacerdote repete a saudação do Cristo ressuscitado: “A paz do Senhor esteja sempre convosco” e a assembleia responde: “O amor de Cristo nos uniu”. Se em todas as missas se faz este rito é porque todos os fiéis necessitam da paz, se reconhecem como agentes de violência; como também, se comprometem em construir, propagar e se tornar agentes da paz de Cristo.




Carnaval

Sábado, 10/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Vivemos dias de carnaval. Um feriado prolongado que permite as pessoas organizarem atividades fora da rotina. O que ganha destaque são as festas relacionadas com o carnaval: desfile de escolas de samba, os foliões se divertindo ao som dos trios elétricos, festas em clubes, entre outras modalidades. Outras pessoas se recolhem em retiros espirituais, visitam familiares, fazem turismo ou simplesmente ficam em casa. O carnaval mexe com os brasileiros, mesmo que o envolvimento individual seja diferente para cada um.

 

Creio que seja a maior festa popular do mundo e o carnaval brasileiro seja um dos mais famosos. Festa é reunião alegre para fim de divertimento, alegria, desconcentração, algo prazeroso que cria bem-estar. Porém, o carnaval vem acompanhado de excessos gerando graves preocupações com o trânsito, com a saúde, com o cuidado do corpo e com comportamentos morais questionáveis.

 

Os grandes desfiles das escolas de samba revelam uma criatividade ímpar. Desenvolver um tema através de uma letra, de uma melodia, de vestes, movimentos, cores, etc, exige intuição, inspiração, disciplina e harmonia. Toda esta criatividade revela a potencialidade do povo brasileiro. Revela que temos condições para encontrar saídas criativas para tantos outros problemas sérios que nos afligem cotidianamente.

 

O carnaval coloca milhões de brasileiros para viajar. É muito bom viajar e ampliar os horizontes. O simples fato de conhecer uma nova cidade, uma nova praia, novas pessoas enriquece o viajante. Temos informações suficientes sobre as nossas estradas, muitas delas limitadas que não suportam um fluxo extra, outras com pouca manutenção e sinalização. Mais grave do que as condições de trafegabilidade das estradas é o comportamento de alguns motoristas que desafiam as leis da física e o código de trânsito. Muito menos têm respeito e amor ao próximo que também está na estrada viajando. Os números de mortes nas estradas são um alerta contundente da necessidade de construir um comportamento de paz e fraternidade no trânsito.

 

Diversão é alegria e euforia, mas que continue na vida após a festa. Abusos de alimentos, bebidas, entorpecentes, comportamentos sexuais, podem causar euforia momentânea e depois resultar em doenças e sofrimento para a própria pessoa, a família e a sociedade. O apóstolo São Paulo sabiamente escreve aos cristãos de Corinto (1 Cor 6,19-20). “Acaso ignorais que vosso corpo é templo do Espírito Santo que mora em vós e que recebestes de Deus? Ignorais que não pertenceis a vós mesmos? De fato, fostes comprados por um preço muito alto! Então, glorificai a Deus no vosso corpo”.

 

A Igreja quer as pessoas e o povo feliz; por isso também promove festas nas comunidades. As festas de carnaval desejam alegrar o povo. Festejar não significa ignorar os problemas que a pessoa e o país têm, mas renovar as forças para alegremente enfrentá-los e criativamente encontrar soluções. Uma pessoa feliz, um povo feliz superam mais facilmente seus problemas.




Dia da Caridade

Sábado, 03/02/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

No dia 10 de maio de 2016, foi promulgada a lei Nº 5197 que institui o dia 11 de fevereiro como o Dia Municipal da Caridade na cidade de Passo Fundo. O projeto foi apresentado pelo Legislativo Municipal e a seguir foi sancionado e promulgado pelo Poder Executivo. A motivação de instituir o Dia Municipal da Caridade foi homenagear os 100 anos da fundação da primeira Conferência da Sociedade São Vicente de Paulo - fundada em 11 de fevereiro de 1916. Da caridade dos vicentinos nasceram obras como o Lar do Idoso Nossa Senhora da Luz, Casa de Apoio, Escola de educação infantil Notre Dame Santa Isabel e o Hospital São Vicente de Paula.


A caridade não é invejosa, não é interesseira, não é presunçosa, nem se incha de orgulho nos escreve São Paulo na primeira carta aos Coríntios 13, 1-13. Por isso é necessário e justo reconhecer todas as obras de caridade existentes na cidade de Passo Fundo, sejam aquelas ligadas às Igrejas ou à sociedade civil, aos órgãos públicos e aquelas incontáveis e invisíveis ações individuais. É bom parar, perceber e reconhecer que isto faz parte do cotidiano da cidade. Ignorar estas ações é fazer uma leitura parcial da realidade.
Uma data como o Dia Municipal da Caridade não delimita a ação caritativa. Jesus, em um ambiente conflitivo, pergunta aos legalistas: “Em dia de sábado, é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matar? (Mc 3,4). Para fazer o bem não existe dia, nem limitação moral, nem legal. Ter um dia da caridade é provocativo e faz refletir.


A caridade faz parte da história da humanidade e é ensinada e estimulada pelas grandes correntes religiosas e humanitárias. Ignorar a caridade na história da humanidade é fazer uma leitura superficial, pois, infelizmente, as páginas dos livros de história ressaltam em demasia violência e crueldade, que também existiram e continuam existindo.


A marca da caridade cristã está na sua referência a Jesus Cristo. É ele sua fonte, seu centro e seu fim. O cristão através da sua fé em Cristo e de sua comunhão viva com ele, está em condições de amar os homens como o próprio Cristo os amou e continua amando-os. Disso brotam algumas peculiaridades específicas da caridade cristã.


A caridade é uma virtude teologal, junto com a fé a esperança. Virtude é uma atitude firme, uma maneira habitual e constante de agir que regula os atos da pessoa. Não é um ato isolado, nem uma ação com segundas intenções. Ensina o catecismo que “pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem”. A fé, a esperança e a caridade formam um todo indissolúvel e mutuamente se chamam e se complementam.


Uma segunda característica é o caráter universal da caridade, por se dirigir a todos. Parte do princípio de que todos são irmãos (Mt 23,8), assim como Deus faz chover sobre os bons e maus (Mt 5,45). Outra marca da caridade cristã é que ela é um caminho de conhecimento de Deus e do ser humano. Conhecer em linguagem bíblica vai além do observar, memorizar, saber, mas atinge o plano das relações humanas.


Por fim, a caridade é uma realidade criadora e uma fonte fecunda de vida, ultrapassando os limites legais dos direitos e deveres. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica no nº 1829: “A caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia; exige a beneficência e a correção fraterna; é benevolência; suscita a reciprocidade; é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão”.






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