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Colunistas


Os magos

Sábado, 06/01/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

“A Visita dos Magos” ao rei recém-nascido, narrada pelo evangelista São Mateus (2,1-12), desperta a curiosidade e a imaginação. Várias perguntas ficam abertas, pois as respostas multiplicam-se em hipóteses. Quem eram os magos? E a estrela? Perguntas importantes que estimulam pesquisas. Mas a narrativa, mais do que se preocupar com estas questões, acentua quem está sendo procurado e visitado e a reação dos visitantes.


O termo “magos”, na antiguidade, tem várias significações que vão desde um sentido muito positivo até um sentido negativo. Nos textos do Novo Testamento, esta ambiguidade também está presente. O papa emérito Bento XVI, no livro “A Infância de Jesus”, refletindo sobre a passagem bíblica da visita dos magos diz que “os homens de que fala Mateus não eram apenas astrólogos; eram “sábios”: representam a dinâmica de ir além de si próprio; que é intrínseca à religião; uma dinâmica que é busca da verdade, busca do verdadeiro Deus e, consequentemente, também filosofia no sentido originário da palavra. Desse modo, a sabedoria sana também a mensagem da “ciência”: a racionalidade dessa mensagem não se detinha meramente no saber, mas procurava a compreensão do todo, levando assim a razão à suas possibilidades mais elevadas” (p. 82).


Os magos representam a humanidade e os indivíduos que caminham na história em busca de respostas. Os magos não tinham as mesmas convicções e tradições religiosas dos judeus e nem comungavam das promessas a respeito do messias. Visitando o rei recém-nascido dão ao acontecimento uma marca de universalismo. Um acontecimento que direciona para o diálogo e os valores disseminados nas várias culturas e diferentes procuras religiosas e humanas.


A narrativa evangélica da visita está marcada pela luz e alegria. A estrela que guia dá rumo à busca. A luz atingiu o coração dos magos e podem ver a sua esperança realizada, pois encontraram quem estavam buscando. A luz natural da estrela aponta para Jesus Cristo luz do mundo. Quando encontraram o menino se prostraram. Era a maneira cultural para apresentar-se diante do rei e a oferta de presentes completa a homenagem. Ouro, incenso e mira são dons que exprimem um reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos.


Contrasta na narrativa a figura de Herodes. A busca dos magos faz com que ele fique alarmado, mande fazer buscas secretas, queira falsamente “homenagear o menino”. Da parte dos magos temos a busca aberta, pública e sincera. De um lado acolhida e de outro a rejeição. É o mistério da liberdade humana que pode acolher ou rejeitar. Situação que não deve escandalizar e nem provocar ódios ou atitudes de rejeição. Pelo contrário convida a uma atitude de tolerância, de inteligência e de diálogo com os vários posicionamentos possíveis diante da presença do Deus menino.


Ao final, a narrativa evangélica ressalta que os magos retornaram para a sua terra seguindo outro caminho. Não faltam reclamações e lamentações sobre os caminhos que o mundo tem tomado: caminhos de violência explícita, da valorização da força bruta, da exclusão social de grande parcela da população para sustentar privilégios de alguns, das maquinações nos subterrâneos dos que detêm os poderes. Os magos, por serem sábios, encontraram Deus na fragilidade de uma criança que os fez optarem por um novo caminho, pois viram algo surpreendente. A atitude dos magos desafia a todos nós.




Abençoado 2018

Sábado, 30/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Conclui-se um ano e começa outro. É o ritmo permanente da vida. Viver bem cada dia e cada ano e, além disso, iniciar com disposição cada novo dia e cada novo ano é sabedoria. Objetivamente, muda pouca coisa no início de um ano novo, mas esta passagem é muito importante por aquilo que representa, pois é um rito de passagem. Permite uma revisão de vida e estimula a projeção do futuro.
É muito significativa a bênção solene do início de ano proposta pela liturgia católica. Ela fala de dimensões fundamentais da vida e nos indica um rumo de convivência fraterna e de relação com Deus. A primeira invocação reza: “Que Deus todo-poderoso, fonte e origem de toda bênção, vos conceda a sua graça, derrame sobre vós as suas bênçãos e vos guarde sãos e salvos todos os dias deste ano”.
O primeiro desejo é a graça de Deus. “A graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder ao seu convite: tornar-nos filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina, da Vida Eterna” (CIC - Catecismo da Igreja Católica, nº 1996). A graça permite participar da vida divina e ser olhado e tocado pelo amor de Deus.
A mesma invocação pede de Deus as suas bênçãos, a guarda e a saúde cotidiana. “A bênção é ação divina que dá vida e da qual o Pai é a fonte” (CIC – nº 1078). A bênção é o bem que vem de Deus, é uma atitude divina que guarda a vida. A vida saudável é bênção que deve despertar constante agradecimento e compromisso de um cultivo diário da saúde através da alimentação, hábitos, descanso. Ter saúde permite realizar as tarefas diárias, trabalhar, praticar a caridade e cuidar dos mais necessitados.
A segunda invocação pede: “Que ele vos conserve íntegros na fé, pacientes na esperança e perseverantes até o fim na caridade”. Pede-se virtudes, isto é, uma disposição habitual e firme de fazer o bem. Não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Ocupar-se daquilo que é bom e correto.
As virtudes teologais são a fé, a esperança e a caridade. Ter fé é crermos em Deus e em tudo que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe crer. Pela fé a pessoa se entrega livremente a Deus. A virtude da esperança corresponde ao desejo de felicidade que vem da construção de uma vida plena, de uma qualidade de vida e o desejo da vida eterna. A esperança não permite a acomodação e nem o uso de meios inadequados para resolver os problemas. E a virtude da caridade é a manifestação do amor a Deus e ao próximo. É a vivência dos mandamentos.
A terceira invocação pede a paz. “Que ele disponha em sua paz vossos atos e vossos dias, atenda sempre as vossas preces e vos conduza à vida eterna”. O mundo em que vivemos é marcado por guerras, violências, conflitos e agressões que geram morte, sofrimento, tristeza e insegurança. A paz é consequência da justiça e o sinal do amor realizado. É a convivência humana marcada pela solidariedade. Mahatma Ghandi disse: “Não há caminho para a paz. A paz é o caminho”. Na carta aos Efésios 2, 14 escreve São Paulo: “Cristo é a nossa paz”. Também pedimos que atenda sempre as nossas preces, sejam elas agradecimento, adoração, súplica, intercessão, ação de graças ou louvor. E como somos passageiros por este mundo, queremos que Ele nos conduza à vida eterna.
Desejo a todos que 2018 seja um ano muito abençoado.




É Natal

Sábado, 23/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Natal é um acontecimento festivo, alegre, com troca de presentes e muitas luzes. Tudo isto para ressaltar o anúncio do anjo: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lucas 2,10-11). Todas as manifestações externas, por mais grandiosas e belas que sejam, ainda são insuficientes para celebrar o mistério do Natal, isto é, Deus veio habitar entre nós e o sinal é “um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12).

Outra atitude fundamental para celebrar o Natal é o silêncio. Os textos bíblicos não falam de silêncio, mas fazem silêncio. A sobriedade e a brevidade dos relatos bíblicos impressionam. São breves dados e quase nada de falas, tudo reduzido a uma extrema simplicidade. Como dizemos com frequência: “não tem palavras para explicar”.

Pode-se caracterizar duas espécies fundamentais de silêncio: um que podemos chamar de ascético ou natural e o outro podemos chamar de sobrenatural. O silêncio ascético ou natural é realizado de muitas formas. Uma forma é a que busca o silêncio exterior em lugares e ambientes com menos ruídos, menos pessoas. Lugares privilegiados são aqueles que proporcionam o contato com a natureza. Também há o silêncio ascético interior que busca serenar o coração, a mente e o corpo. A espiritualidade da quietação do coração busca diminuir a influência da razão para dar lugar à oração. Encontramos esta busca em muitas religiões. O homem se impõe conscientemente o silêncio.

Vivemos imersos, as vinte quatro horas do dia, em barulhos e numa vida desenfreada. O período que antecede o Natal, também por coincidir com o final do ano, acelera ainda mais o ritmo. Toda esta agitação pode desviar o foco e impedir de viver o essencial. Desafiador é tomar a atitude de fazer silêncio. Romper com a lógica e a onda da maioria e aquietar-se. Fazer silêncio para provocar um encontro com Deus e com as pessoas.

A outra modalidade de silêncio é que podemos chamar de sobrenatural. Ela é provocada pelo contato com Deus. Um silêncio originado da manifestação ou da teofania de Deus. Aqui a iniciativa é de Deus e não do homem. O primeiro silêncio é do homem que quer conquistar Deus; o segundo é do homem que foi conquistado por Deus. A presença Dele faz calar o homem. Um silêncio marcado pelo assombro, adoração, alegria, e às vezes, até de temor.

No Natal fazemos silêncio sobrenatural diante misteriosa maneira escolhida por Deus para chegar a nós rompendo toda lógica humana. A grandeza de Deus é manifestada na fragilidade de uma criança, num presépio, num lugar singelo. Deus se revela sob o seu contrário. Escondendo a grandeza na pequenez, a força na fraqueza, a majestade na humildade. O homem moderno se lamenta com frequência do silêncio de Deus, mas não se dá conta de que Deus cala exatamente por que ele fala, porque não é suficientemente humilde para escutá-lo. Deus fala ao homem também com o seu silêncio; com isso o reconduz à verdade.

Acolhamos este grito que se eleva do Natal: Deus se despojou da sua tremenda majestade; não apavora mais, não quer apavorar; agora é Emanuel - Deus-conosco. Cale-se toda a terra, ajoelhe-se e O adore.




A alegria cristã

Sábado, 16/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A proximidade do Natal cria um clima de alegria, de felicidade, de satisfação. São desejos fundamentais que movem a existência humana e é uma busca que marca a vida toda. Têm-se em comum este desejo, porém a sua busca dá-se em muitas direções. Nem todos os meios conduzem a meta e por isso necessitam ser avaliados e verificados.
Razões para desencanto e desilusão, entre jovens e adultos, diante da sociedade atual não faltam. Isto gera tristeza, depressão, ansiedade, desencanto. A busca da felicidade centralizou-se no triunfar da felicidade egoísta, no ter, no gastar, no consumo, nos entorpecentes.
O terceiro domingo do advento, através de seus textos bíblicos e litúrgicos, estimula os cristãos e a comunidade eclesial ao seguimento, anúncio e testemunho alegres de Cristo. A razão desta convocação está no fato de saber que Jesus já está no meio nós, embora não o conheçamos nem o testemunhemos suficientemente. O advento cristão acontece na presença do Cristo.
A alegria favorece a abertura aos outros, a Deus e ao infinito. O contrário da alegria não é a dor, que está dentro da existência humana, na sua finitude, mas o egoísmo. O egoísmo se apresenta de muitas maneiras, daquelas declaradas explicitamente e daquelas mascaradas de boas razões. O egoísmo concentra todas as atenções sobre si mesmo, que provoca o individualismo, que rejeita a atenção ao outro, que não sabe partilhar. A alegria cristã é uma virtude. Não é feita para ser consumida, mas para ser doada, como é dito em Atos dos Apóstolos 20,35. “Há mais felicidade em dar do que receber”. O mundo recebeu gratuitamente Jesus, um verdadeiro presente para encher de alegria a humanidade.
Como resposta ao Cristo, que virá, que já veio e que vem, o fiel cristão é convidado a dar o seu testemunho. Trata-se de um testemunho que deve possuir as características daquelas de João Batista. Questionado se era o messias esperado, responde: “Eu sou a voz que grita no deserto” (Jo 1,23). “Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” (Jo 1, 27). Não chama a atenção sobre ele, mas dá testemunho Daquele que está presente e não é reconhecido. João Batista quer que as pessoas não se concentrem nele. Tem consciência da sua tarefa e não aproveita da oportunidade para se promover. O testemunho cristão hoje consiste em apontar para Jesus como fonte de esperança, alegria. Uma boa notícia que é eterna entre as coisas que passam. Testemunhas não falam de si mesmas, mas falam de alguém.
São Paulo exorta a comunidade de Tessalônica (5,16-24) sobre as atitudes que não podem faltar na convivência diária. Estar sempre alegre, rezar constantemente, agradecer em todas as circunstâncias, não apagar o espírito, não desprezar as profecias, examinar tudo e guardar o que for bom, afastar-se de toda espécie de maldade. Deixa-se santificar pelo Deus da paz que envolve toda a pessoa – espírito, alma e corpo.
O fundamento da alegria cristã está na presença de Jesus Cristo no mundo. A melhor maneira de ser testemunhas de esperança, fraternidade e alegria é vivê-las pessoalmente pela fé. Crer em Deus e nas pessoas, amar a Deus e servir o próximo, em particular os mais fracos e marginalizados, pois foi assim que Jesus se revelou em Belém.




A esperança se renova

Sábado, 09/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Em tempos de grandes dificuldades as pessoas se comportam de maneiras diferentes. Entre outras reações, constatamos que algumas se dão por vencidas e se acomodam. Outras esperam que apareça alguém que possa mudar a situação de fora, de forma heroica e triunfal. Alimentam o desejo de que alguém vá mudar a situação por mim. Também existe a reação daqueles que cientes da gravidade da situação, procuram construir de forma criativa e corajosa soluções para as realidades a serem mudadas. São conscientes de que a mudança exige a própria participação.
O tempo litúrgico do advento, celebrado na liturgia católica para a celebração digna do Natal, é repleto de ensinamentos para alimentar a esperança nos cristãos. Lendo, meditando e rezando os textos que anunciam Jesus, os cristãos de hoje entram em comunhão com os sofrimentos e as expectativas daquela época. Com plena consciência de que não se volta no tempo, mas o passado ajuda a animar e fortalecer a vivência do tempo presente.
O tempo presente desafia a todos. É tempo propício para renovar a esperança. “É na esperança que fomos salvos”, diz São Paulo aos Romanos (Rm 8,24). Graças a ela podemos enfrentar o tempo presente, por mais custoso que seja. Mas qual esperança estamos falando? Onde se fundamenta. A esperança cristã se fundamenta em Deus e na sua proximidade com mundo. Natal é a presença viva de Deus, em Jesus Cristo. É a nossa grande esperança, afirma o papa emérito Bento XVI, diante das esperanças passageiras.
Aproximando-se o Natal é preciso lembrar que não se trata apenas de uma notícia informativa, mas é um acontecimento histórico que gera fatos e muda a vida. Provoca a reação as pessoas, gera um encontro com o Deus vivo e transforma de dentro a vida e o mundo.
A esperança coloca a pessoa em movimento, pois “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria”, lê-se na segunda carta a Timóteo (1,7). Toda ação séria e reta do homem é esperança em ato. Todo nosso agir não é indiferente diante de Deus e nem diante o desenrolar da história. Resolver este ou aquele assunto que é importante para prosseguir a caminhada da vida, com o nosso empenho contribuir a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram as portas do futuro.
O sofrimento faz parte da existência humana. Ele deriva da nossa finitude e, por outro lado, do volume de culpa que se acumula ao longo da história. Na luta contra a dor física se conseguiu grandes progressos, mas nunca vamos conseguir eliminar o sofrimento, simplesmente porque não conseguimos desfazer-nos da nossa finitude. Como também não conseguimos eliminar o poder do mal, da culpa que é fonte contínua de sofrimento, devido a fragilidade humana.
Fazer todo esforço possível para diminuir o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Todos estes são deveres tanto da justiça como da caridade, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de cada vida verdadeiramente humana.
“A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade. (nº 38). Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade, o seu abandono destruiria o mesmo homem”, (nº39), afirma Bento XVI na carta encíclica Spe Salvi.
A vinda de Jesus ao mundo manifesta o seu desejo de estar próximo da humanidade, mas acima de tudo, veio fazer brilhar a dignidade humana e reacender a esperança.




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