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Colunistas


Ensinava com autoridade

Sábado, 27/01/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Os evangelistas testemunham que Jesus ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei. As pessoas ficavam admiradas com seus ensinamentos. Também em outras ocasiões reconheciam a autoridade de Jesus. Em que consistia esta autoridade? O que causava admiração? Comparavam Jesus com seus mestres e constataram nele algo muito diferente.


A sociedade e as instituições para funcionarem constituem autoridades e as revestem de poder. O modo como a autoridade é exercida tem profundas repercussões. O exemplo de um jogo de futebol ajuda a compreender a afirmação acima. Há jogos que acontecem num clima de alta tensão, como finais de campeonato, e não acontecem incidentes maiores pela atuação do juiz. Em outros, sem a mesma importância, o juiz, com sua a autoridade, cria situações conflitivas. Se a autoridade é imprescindível para o funcionamento social, do mesmo modo a maneira como é exercida também o é. Não basta ter legitimidade legal, precisa estar acompanhada de legitimidade moral.


O que dava autoridade a Jesus Cristo e aos seus ensinamentos? Creio que em primeiro lugar esteja o conteúdo que as palavras transmitiam. Ensinamentos que proporcionavam uma revisão no modo de ver a vida, o destaque dado aos elementos essências do relacionamento com Deus e as pessoas e a proposta de um novo modo de viver.


A coerência de vida entre o que ensinava e a sua maneira de viver. Ensinava a fraternidade e, consequentemente, se relacionava respeitosamente com todas as pessoas, de todas as classes. Mantinha o nível de convivência com quem concordava com Ele e quem era contrário. Ensinou a perdoar e quando foi crucificado e maltratado pede que Deus Pai perdoe os malfeitores.


Outra marca dos ensinamentos de Jesus é que falava o que as pessoas precisavam ouvir e não simplesmente aquilo que desejavam ouvir. Frequentemente, para justificar os próprios pecados e erros, desejamos que as pessoas concordem conosco. Porém confirmar o erro e se acomodar nele, fecha a possibilidade de mudanças necessárias.


Os ensinamentos de Jesus Cristo têm a marca da universalidade e de serviço aos ouvintes. Os ensinamentos essenciais têm validade para todos os seres humanos. Envolve todos os ouvintes pois todos tem a necessidade e a possibilidade de serem melhores e fazerem mais. Não cria o grupo dos puros e impuros, nem dos privilegiados.


O modo de ensinar de Cristo era transparente, não tinha “segundas intenções”. São Pedro exclama que as palavras de Cristo são vida e vida eterna. Todos usam abundantemente palavras. São falas que transmitem os mais diversos assuntos e com os mais diversos objetivos. Muitas são agradáveis, cheias de verdade, construtivas e outras são superficiais, vazias, ofensivas. Torna-se um verdadeiro desafio distinguir as palavras falsas das verdadeiras. Notícias falsas são criadas e divulgadas gerando situações constrangedoras.Falar de forma transparente para não perder a credibilidade é desafio permanente da comunicação interpessoal e do exercício do poder.


Jesus permanece como exemplo e modelo de uma palavra boa e potente. Os seus ensinamentos se impõe por si, porque são capazes de iluminar a inteligência, aquecer o coração, dar vigor à vida.




“A verdade vos libertará” (João 8, 32)

Sábado, 20/01/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O momento que vivemos no país está deixando os brasileiros, em particular os mais pobres, atordoados. As investigações revelaram gigantescos esquemas de corrupção. E cada dia novos fatos surgem. É uma verdadeira praga. Há uma longa lista de acusados, com uma enxurrada de acusações, prisões, condenações, absolvições, recursos, liminares, interpretações, etc, etc. Fica a pergunta onde está a verdade? Quem está falando a verdade? O que é fato? O que é versão do fato?

 

Depois de ser preso, Jesus foi conduzido a Pilatos para ser interrogado. No interrogatório Pilatos faz uma pergunta a Jesus: “O que é a verdade?” (Jo 18,38). Certamente fez esta pergunta porque tinha informações de que Jesus era verdadeiro, falava a verdade, testemunhava a verdade, educava as pessoas à verdade e se tinha apresentado como a Verdade. A pergunta é feita durante um processo no qual Jesus era réu e havia a necessidade de fazer um julgamento e proferir uma sentença.

 

Para que uma sentença de absolvição ou condenação seja justa precisa revelar a verdade. Cada dia juízes, revestidos pelo Poder Judiciário, emitem sentenças. Somente os julgamentos e as sentenças de alguns personagens públicos despertam um interesse maior da sociedade. Torna-se um debate público, indo além dos tribunais. Isto é salutar para a sociedade e para o poder judiciário. A publicidade permite que a sociedade compreenda melhor o sistema judiciário, seus trâmites, seus limites e o serviço que presta.

 

Os processos revelam como é difícil chegar à verdade. Os recursos revelam que as partes não ficaram satisfeitas com a sentença, ou porque foram injustiças ou porque não querem admitir a acusação, reconhecendo a culpa. O recurso a instâncias superiores é um meio para um julgamento mais justo, pois um colegiado pode errar menos do que um único juiz.

 

E a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? Não se encontra uma definição unívoca. O dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano distingue cinco conceitos fundamentais de verdade: 1º A verdade como correspondência, é a definição mais importante e a mais difundida. Santo Tomás de Aquino a formulou assim: “correspondência entre o intelecto e a realidade”. 2º A verdade como revelação ou manifestação, tendo como formas fundamentais: uma empirista – ligada aos sentidos – e outra metafísica ou teológica. A ênfase está na evidência. 3º A verdade como conformidade com uma regra ou conceito. 4º A verdade como coerência e o 5º a verdade como utilidade, isto é, verdadeiro o que me é útil.

 

O Catecismo da Igreja Católica, nº 2468 ensina: “A verdade como retidão do agir e da palavra tem o nome de veracidade, sinceridade ou franqueza. A verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia”.

 

A verdade não pode ser refém de visões subjetivas e da arbitrariedade dos interesses pessoais ou de grupos para manter o poder. Tornaria a justiça impossível. As ditaduras na história se construíram e se mantiveram sobre mentiras. O ensinamento de Jesus que a verdade nos torna livres, é condição para restabelecer um clima de confiança para enfrentar os múltiplos problemas sérios que o país enfrenta em vista da construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. O amor incondicional pela verdade poderia ser simplificado nas palavras de Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mateus 5,37).




Férias

Sábado, 13/01/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Muitas pessoas, nesta época do ano, têm a oportunidade de fazer as suas merecidas férias. Interromper a rotina de trabalho, de estudos e de outras atividades é salutar. Porém, férias não significa fazer nada, mas fazer coisas diferentes que o cotidiano nos obriga a fazer apressadamente. Planejar e vivenciar estes breves dias é necessário para alcançar os objetivos. O que fazer nas férias? Não existe um caminho único, pelo simples fato das pessoas exerceram atividades diferentes, terem habilidades e gostos diferentes.


Talvez a primeira descoberta a ser feita é o que me faz descansar? Do que devo abrir mão para distanciar-me daquilo que faço cotidianamente? Pois, mesmo mudando de ritmo ou indo em outros lugares, posso levar o trabalho comigo.


As férias são uma oportunidade para vivenciar o silêncio. Em certas circunstâncias, principalmente para recordar falecidos, se faz o minuto de silêncio. Não se diz nada, não se faz nada, mas pode constituir-se um momento forte. Não se trata de um silêncio vivido somente como um vazio, como uma ausência de rumores e de palavras. O que vale é a qualidade de silêncio, nesse caso qualidade de presença de escuta, grande concentração. Ouvir-se a si mesmo. Propor o silêncio é uma arte que pede muito cuidado e necessita ser preparado para não tornar-se insignificante e cansativo ou reduzir-se a um vazio e a uma ausência momentânea de rumor. O silêncio é, antes de tudo, uma qualidade de presença, de encontro consigo mesmo.


As férias também possibilitam uma convivência mais prolongada com a família e os amigos. Estar presente, ser presença é a prioridade. É uma escolha consciente. Administrar a presença onipresente dos diferentes meios de comunicação virtuais na convivência exige bom senso e sabedoria. A qualquer momento alguém de fora pode invadir e interferir a intimidade familiar gerando distanciamento ou indiferença.


É uma oportunidade de melhorar a capacidade de comunicação e de amar as pessoas próximas. Relações se constroem e melhoram com uma comunicação mais sincera, profunda e confiante. A falta dela rompe amizades, separa famílias e impede de resolver conflitos. A palavra se torna um instrumento para a realização do encontro das pessoas gerando a unidade, pois a palavra é criadora.


Para quem gosta de ler, lembro-me de uma recomendação dada por um professor quando iniciei a faculdade de filosofia. Recomendava-nos que não lêssemos somente livros de filosofia, mas das mais diferentes áreas. Ler algo diferente da área profissional amplia o horizonte daquele mundo que nos ocupa todo ano.


Tempo de férias é tempo propício para cultivar a espiritualidade. Para o cristão a espiritualidade é aproximar-se de Deus. Comungar com o Seu modo de pensar o mundo e as pessoas. É compartilhar os mesmos sentimentos de misericórdia, de solidariedade, de justiça e fraternidade. É ter compaixão com a dor alheia. É colocar-se em oração e diálogo de amor. É abrir-se ao espírito divino. É tomar consciência que somos mais que matéria finita. É dar tempo para estar com Deus.




Os magos

Sábado, 06/01/2018 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

“A Visita dos Magos” ao rei recém-nascido, narrada pelo evangelista São Mateus (2,1-12), desperta a curiosidade e a imaginação. Várias perguntas ficam abertas, pois as respostas multiplicam-se em hipóteses. Quem eram os magos? E a estrela? Perguntas importantes que estimulam pesquisas. Mas a narrativa, mais do que se preocupar com estas questões, acentua quem está sendo procurado e visitado e a reação dos visitantes.


O termo “magos”, na antiguidade, tem várias significações que vão desde um sentido muito positivo até um sentido negativo. Nos textos do Novo Testamento, esta ambiguidade também está presente. O papa emérito Bento XVI, no livro “A Infância de Jesus”, refletindo sobre a passagem bíblica da visita dos magos diz que “os homens de que fala Mateus não eram apenas astrólogos; eram “sábios”: representam a dinâmica de ir além de si próprio; que é intrínseca à religião; uma dinâmica que é busca da verdade, busca do verdadeiro Deus e, consequentemente, também filosofia no sentido originário da palavra. Desse modo, a sabedoria sana também a mensagem da “ciência”: a racionalidade dessa mensagem não se detinha meramente no saber, mas procurava a compreensão do todo, levando assim a razão à suas possibilidades mais elevadas” (p. 82).


Os magos representam a humanidade e os indivíduos que caminham na história em busca de respostas. Os magos não tinham as mesmas convicções e tradições religiosas dos judeus e nem comungavam das promessas a respeito do messias. Visitando o rei recém-nascido dão ao acontecimento uma marca de universalismo. Um acontecimento que direciona para o diálogo e os valores disseminados nas várias culturas e diferentes procuras religiosas e humanas.


A narrativa evangélica da visita está marcada pela luz e alegria. A estrela que guia dá rumo à busca. A luz atingiu o coração dos magos e podem ver a sua esperança realizada, pois encontraram quem estavam buscando. A luz natural da estrela aponta para Jesus Cristo luz do mundo. Quando encontraram o menino se prostraram. Era a maneira cultural para apresentar-se diante do rei e a oferta de presentes completa a homenagem. Ouro, incenso e mira são dons que exprimem um reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos.


Contrasta na narrativa a figura de Herodes. A busca dos magos faz com que ele fique alarmado, mande fazer buscas secretas, queira falsamente “homenagear o menino”. Da parte dos magos temos a busca aberta, pública e sincera. De um lado acolhida e de outro a rejeição. É o mistério da liberdade humana que pode acolher ou rejeitar. Situação que não deve escandalizar e nem provocar ódios ou atitudes de rejeição. Pelo contrário convida a uma atitude de tolerância, de inteligência e de diálogo com os vários posicionamentos possíveis diante da presença do Deus menino.


Ao final, a narrativa evangélica ressalta que os magos retornaram para a sua terra seguindo outro caminho. Não faltam reclamações e lamentações sobre os caminhos que o mundo tem tomado: caminhos de violência explícita, da valorização da força bruta, da exclusão social de grande parcela da população para sustentar privilégios de alguns, das maquinações nos subterrâneos dos que detêm os poderes. Os magos, por serem sábios, encontraram Deus na fragilidade de uma criança que os fez optarem por um novo caminho, pois viram algo surpreendente. A atitude dos magos desafia a todos nós.




Abençoado 2018

Sábado, 30/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Conclui-se um ano e começa outro. É o ritmo permanente da vida. Viver bem cada dia e cada ano e, além disso, iniciar com disposição cada novo dia e cada novo ano é sabedoria. Objetivamente, muda pouca coisa no início de um ano novo, mas esta passagem é muito importante por aquilo que representa, pois é um rito de passagem. Permite uma revisão de vida e estimula a projeção do futuro.
É muito significativa a bênção solene do início de ano proposta pela liturgia católica. Ela fala de dimensões fundamentais da vida e nos indica um rumo de convivência fraterna e de relação com Deus. A primeira invocação reza: “Que Deus todo-poderoso, fonte e origem de toda bênção, vos conceda a sua graça, derrame sobre vós as suas bênçãos e vos guarde sãos e salvos todos os dias deste ano”.
O primeiro desejo é a graça de Deus. “A graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder ao seu convite: tornar-nos filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina, da Vida Eterna” (CIC - Catecismo da Igreja Católica, nº 1996). A graça permite participar da vida divina e ser olhado e tocado pelo amor de Deus.
A mesma invocação pede de Deus as suas bênçãos, a guarda e a saúde cotidiana. “A bênção é ação divina que dá vida e da qual o Pai é a fonte” (CIC – nº 1078). A bênção é o bem que vem de Deus, é uma atitude divina que guarda a vida. A vida saudável é bênção que deve despertar constante agradecimento e compromisso de um cultivo diário da saúde através da alimentação, hábitos, descanso. Ter saúde permite realizar as tarefas diárias, trabalhar, praticar a caridade e cuidar dos mais necessitados.
A segunda invocação pede: “Que ele vos conserve íntegros na fé, pacientes na esperança e perseverantes até o fim na caridade”. Pede-se virtudes, isto é, uma disposição habitual e firme de fazer o bem. Não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Ocupar-se daquilo que é bom e correto.
As virtudes teologais são a fé, a esperança e a caridade. Ter fé é crermos em Deus e em tudo que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe crer. Pela fé a pessoa se entrega livremente a Deus. A virtude da esperança corresponde ao desejo de felicidade que vem da construção de uma vida plena, de uma qualidade de vida e o desejo da vida eterna. A esperança não permite a acomodação e nem o uso de meios inadequados para resolver os problemas. E a virtude da caridade é a manifestação do amor a Deus e ao próximo. É a vivência dos mandamentos.
A terceira invocação pede a paz. “Que ele disponha em sua paz vossos atos e vossos dias, atenda sempre as vossas preces e vos conduza à vida eterna”. O mundo em que vivemos é marcado por guerras, violências, conflitos e agressões que geram morte, sofrimento, tristeza e insegurança. A paz é consequência da justiça e o sinal do amor realizado. É a convivência humana marcada pela solidariedade. Mahatma Ghandi disse: “Não há caminho para a paz. A paz é o caminho”. Na carta aos Efésios 2, 14 escreve São Paulo: “Cristo é a nossa paz”. Também pedimos que atenda sempre as nossas preces, sejam elas agradecimento, adoração, súplica, intercessão, ação de graças ou louvor. E como somos passageiros por este mundo, queremos que Ele nos conduza à vida eterna.
Desejo a todos que 2018 seja um ano muito abençoado.






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