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Colunistas


Paz na Terra

Sábado, 02/12/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

“Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele” (Lc 4,20). Foi esta a reação das pessoas diante da pregação de Jesus, em Nazaré da Galileia. O tempo litúrgico do advento, que inicia neste domingo, direciona o olhar dos cristãos para o Natal, isto é, para mistério da encarnação. Fixar o olhar no Natal direciona nossas preocupações, escolhas e ações para o mais importante, pois não faltam convites e tentações que afastam do acontecimento central. A liturgia da Igreja ajuda a manter o foco no central.
O salvador nosso, Jesus Cristo, se encarnou para todas as gerações. Neste sentido preparar o Natal é dispor-se a acolher, no tempo presente, no hoje, aquele que vem. Surpreender-se sempre de novo com o modo que Deus escolheu para aproximar-se dos humanos. Aproximar-se do menino Deus e colocar-se no seu caminho. É tempo de alegre espera. Quem vem vindo é o Salvador. A espera já é a antecipação. A vigilância é movimento que tira da indiferença e desafia a aprofundar o mistério a ser celebrado.
A liturgia no tempo do advento e depois do tempo do natal celebra uma riqueza de fatos e ressalta várias qualidades do menino Deus que vem. Na noite de Natal recordamos o anúncio dos anjos aos pastores. “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado! ” (Lc2, 14). Diante dos índices alarmantes de violência no país e no mundo, a Igreja Católica está convidando seus fiéis e todas as pessoas de boa vontade para serem construtores da paz. Em sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade de 2018, o regional Sul 3 da CNBB, em seus encontros de preparação para o Natal propõe o tema: “Paz na terra”.
É tempo de construir a paz. Para quem já acompanhou a construção de uma casa, sabe muito bem que construir é um processo complexo. A paz é construção. Como se diz popularmente, “não cai pronta do céu” e nem é feita por um herói e, muito menos, com a força bruta das armas e da repressão. A “paz depende da comunhão com Deus, consigo mesmo e com o próximo”, escreveu Santo Agostinho (354+430) no seu livro “Cidade de Deus”. As pessoas de fé cultivam constantemente a comunhão com Deus. Um Deus de ternura e de paz que se aproxima da humanidade na fragilidade de uma criança. Os anjos anunciam a paz aos homens, porque eles agradam a Deus, mesmo com seus pecados.
Como a paz é comunhão com o próximo, os mais próximos, são as pessoas da casa. Cotidianamente apresentam-se novas situações e muitos problemas são imprevisíveis como os temporais. Durante o temporal, não há condições para construir, apenas há tempo para se proteger e evitar uma tragédia maior. É construir a “casa sobre a rocha” (Mt 7, 24) em tempos de calmaria. Os pequenos gestos de cordialidade, o olhar carinhoso, o cumprimento, o sorriso, o beijo, o abraço qualificam as relações. A preparação para o Natal é tempo oportuno para colocar a minha família diante de Deus, agradecer por tudo que edifica a paz e, ao mesmo tempo, assumir e corrigir o que for necessário.
Todos vivemos em ambientes para além da casa, seja no trabalho, no grupo de amigos, na Igreja, na vizinhança, no bairro, no país e no mundo todo. É preciso estar atento ao individualismo que faz pensar demais em si mesmo e de menos nos outros. Pensar nos outros, é assumir corresponsavelmente a construção da paz, isto envolve atitudes éticas da promoção da justiça, da verdade, da tolerância, da fraternidade e da caridade.
“Vem, Senhor Jesus, o mundo precisa de ti!”, canta uma bela canção de advento, pois ao mundo falta paz, amor e vida.




Ano Nacional do Laicato

Sábado, 25/11/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A solenidade de Cristo Rei conclui o ano litúrgico. A mensagem do Reino de Deus ocupa lugar central no Evangelho e nos ensinamentos de Cristo. A expressão “Reino de Deus” ocorre no conjunto do Novo Testamento 122 vezes.
Falar de Cristo Rei significa afirmar o senhorio de Deus sobre o universo, em três situações conexas: a transcendência absoluta de Deus, por causa disso, ele não pode ser reduzido a um objeto manipulado pelas pessoas; a sua presença na natureza e na história, gerando uma realidade salvífica. Enfim, o sentido que a realidade não é confiada apenas ao homem ou ao destino, mas na mente de Deus há um projeto. É uma solenidade litúrgica que acentua a importância de Deus, do homem, da história e do cosmos. Ressalta a soberania de Deus não na distância, mas na proximidade ao homem.
Diante de Cristo Rei e da sua proximidade nasce a provocação e espera-se uma resposta ao seu projeto de amor. Proporciona um balanço da existência, convida para um envolvimento no projeto para que se torne acontecimento na história presente, pois Ele está no meio de nós. Ele nos faz abraçar o tempo presente da história com todas as suas contradições.
O significado da solenidade litúrgica de Cristo Rei ilumina o “Ano Nacional do Laicato” que a Igreja Católica no Brasil realiza de 26 de novembro de 2017 a 25 de novembro de 2018. O tema que agrega as diferentes atividades está expresso assim: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino”. Sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Foi definido como objetivo geral do ano laicato:  “Como Igreja, Povo de Deus: Celebrar a presença e a organização dos cristãos leigos e leigas no Brasil; aprofundar a sua identidade, vocação, espiritualidade e missão; testemunhar Jesus Cristo e seu Reino na sociedade”.
A Igreja é feita de batizados que receberam o mesmo Espírito Santo, aderiram a Jesus Cristo que os fez professarem a mesma de fé e assumirem o mesmo projeto do Reino de Deus. O batismo conferiu a todos a mesma dignidade, diante de Deus e das pessoas. Os que tem a mesma dignidade exercem diferentes funções e ministérios na Igreja. Neste sentido, os leigos não substituem o clero e os religiosos, nem o clero e os religiosos substituem os leigos naquilo que lhes compete por vocação e missão.
A missão dos leigos na Igreja é insubstituível, pois são discípulos e missionários nos mais diferentes ambientes eclesiais. Participam ativamente na ação pastoral da Igreja, desde a organização das comunidades, na catequese, na liturgia, nas celebrações, nas pastorais, grupos e serviços, entre outros. Levam as pessoas a Cristo e Cristo às pessoas, aprofundando a fé a adesão Ele.
Se a missão dos leigos na Igreja é insubstituível o mesmo vale para a sua missão no mundo. A sua missão no mundo é administrar e ordenar as coisas temporais. No exercício da profissão, no trabalho, na vida familiar e social são chamados por Deus, como leigos, a viver segundo o espírito do Evangelho, como fermento de santificação do mundo, brilhando em sua própria vida pelo testemunho da fé, da esperança e do amor, de maneira a manifestar Cristo a todos os homens. Em outras palavras, é ter uma postura de cristão. É agir conforme a ética cristã. É não ficar indiferente diante das situações de sofrimentos, de injustiças e da degradação social e moral da social. É propor leis e meios de promover o bem comum.




Os talentos

Sábado, 18/11/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O final do ano está se aproximando e constata-se que o tempo passou rápido. E a rapidez com que a vida passa convida-nos a vivê-la conscientemente. A liturgia da Igreja também está encerrando o Ano Litúrgico. Os textos bíblicos propõem temas provocando a avaliação do vivido e uma “prestação de contas”. Neste domingo, é refletida a parábola dos talentos, conforme o evangelista São Mateus 25, 14-30.

A cena se abre com a entrega dos bens do Senhor para os empregados.  Uma quantidade grande de bens é distribuída conforme a capacidade de cada um. A primeira marca desta atitude é a da confiança, do amor e do desejo de aliar-se. Reconhece nas pessoas, a quem foram confiados os bens, companheiras da mesma causa e não simples executoras de ordens. Confia na sua iniciativa e na sua criatividade.

Confiar os bens a alguém também comporta riscos. Tratando-se de pessoas, todas as relações e alianças comportam riscos. Mas também, diz o ditado popular que “quem não arrisca não petisca”. Ele faz parte da natureza humana, estimula a curiosidade, propõe a aventura, alimentando o gosto pela descoberta. Não arriscar equivale a viver de forma estática. Deus ao confiar nos humanos também está arrincando perder.

Na sequência, a parábola apresenta a prestação de contas. É um momento necessário para quem recebe o cuidado de algo que não lhe é próprio. É a hora em que se revela a confiabilidade e a capacidade do administrador. O julgamento revela os verdadeiros valores, o empenho autêntico e descarta toda realidade inútil.

Dos três personagens que recebem os talentos dois dobraram o que lhes foi confiado e o terceiro mantém o talento intacto. É o diálogo sobre atitude do terceiro personagem que a parábola ocupa mais espaço. Incialmente, o personagem começa atacando a quem lhe confiou os talentos afirmando que é um homem severo, que colhe o que não planta. Uma falsa acusação, pois o senhor lhe passou os bens, confiou nele e deu espaço e tempo. Ataca para não assumir a responsabilidade da sua acomodação e da indiferença. O senhor o qualifica como “mau, preguiçoso e inútil”.

A parábola usa uma linguagem ligada a uma ética comercial e capitalista que pode resultar em conclusões erradas. Não é este o foco, pois ela termina com um convite. “Vem participar da minha alegria” (Mt 25,23). O tema central é a acolhida ativa do reino de Deus. É o empenho concreto e inteligente do homem com a multiplicidade de dons e bens que recebeu. A parábola alerta que não se pode fazer uma avaliação da pessoa, do seu empenho e da sua fidelidade pela ótica material. Pode-se terminar o ano com menos bens materiais e ter produzido muitos frutos. Um ano riquíssimo pelo bem realizado, na construção de um mundo melhor. 




15 de novembro

Sábado, 11/11/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber


Durante o ano, temos vários feriados que são fundamentados em razões patrióticas ou civis ou religiosas, entre outras. Eles permitem que as pessoas se ocupem, de alguma maneira, com as razões que os motivaram. Por exemplo, o feriado de finados proporciona a reflexão sobre a morte, reverenciar os antepassados, visitar aos cemitérios, rezar, celebrar missas, realizar cultos.

O feriado facilita para que uma multidão de pessoas tenha tempo de recordar saudosamente os falecidos. O feriado de 07 de setembro é marcado por manifestações patrióticas, desfiles, protestos para ressaltar o significado da independência do país.
Dia 15 de novembro é feriado da Proclamação da República. Sem entrar no debate das diferentes causas e das motivações dos líderes que idealizaram e conduziram o processo para um novo modelo de organizar e administrar o país, é preciso ressaltar que foi uma profunda reforma. Um acontecimento histórico que marca o fim da monarquia e dá início à era republicana.

De todos os feriados nacionais que temos o Dia da Proclamação da República parece ser aquele que tem a menor repercussão. Não acontece nada de significativo relacionado com o fato histórico que deu origem ao feriado. É feriado pelo feriado.
Certamente, os líderes republicanos idealizavam que a mudança do modelo imperial para o republicano traria muitos benefícios para os brasileiros. Porém, a história da humanidade é marcada por crescimentos e recuos. O desenvolvimento tecnológico, econômico e organizativo da sociedade não garante, por si só, um desenvolvimento somente ascendente. Com frequência, ouve-se alguém exclamar escandalizado: “em pleno século XXI, isto ainda acontece, são coisas da Idade Média”. É uma leitura de quem pensa que a simples passagem dos séculos é garantia de qualidade de vida melhor para todas as pessoas e povos dos séculos seguintes.

O feriado de 15 de novembro é uma oportunidade para pensar e desencadear uma Reforma do Estado brasileiro. Passados 128 anos, temos hoje razões suficientes para questionar duramente o sistema atual. É um modelo marcado por privilégios de indivíduos e grupos que sacrificam e marginalizam uma multidão de brasileiros. É voz corrente que a cobrança de impostos é desproporcional aos serviços prestados para a sociedade. Os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos. Os serviços públicos, em geral, são demorados e de uma burocracia questionável, testando a paciência dos cidadãos. Além disso, as crises vão aparecendo em todos os poderes.
Um dia Jesus disse: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. Do mesmo modo o Estado é para os cidadãos e não os cidadãos para o Estado. Ele “existe para obter um fim comum, inatingível de outra forma: o crescimento em plenitude de cada um de seus membros chamados a colaborar de modo estável para a realização do bem comum, sob o impulso da sua tensão natural para a verdade e para o bem” (DSI - Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 384).

O processo de pensar o Estado precisa ter participação. "O povo não é uma multidão amorfa, uma massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada, mas sim um conjunto de pessoas, cada uma das quais – no próprio lugar e a seu modo – tem a possibilidade de formar a própria opinião a respeito da coisa pública e a liberdade de exprimir a própria sensibilidade política e de fazê-la valer em maneira consoante com o bem comum” (DSI nº 385).

 

 

 




Eu creio na vida eterna

Sábado, 04/11/2017 às 06:00, por Dom Rodolfo Luis Weber


Diante da finitude dos seres vivos, as notícias de morte serão permanentes. Podemos e devemos diminuir aquelas que se originam da falta de cuidado, de desprezo da própria vida e a dos outros. As estatísticas de crimes contra a vida assustam. Sonhamos em ouvir somente notícias de morte natural, nem estas gostaríamos de ouvir, pois ninguém se conforma com a quantidade de tempo de vida neste mundo.
Levar à sério a morte é sinal da valorização da vida. É importante falar sobre ela. A morte é uma realidade que não se conforma com a superficialidade, pois influencia sobre todo o ser humano. Não pode ser ignorado o fato existencial do medo de morrer e a sua imprevisibilidade. O medo vem acompanhado com a angústia que questiona o modo e o sentido da vida.
O livro bíblico do Eclesiastes, escrito por volta de 250 aC., influenciado pela filosofia popular grega, faz a proclamação geral da “vaidade” na roda da vida. A agitação humana é mera ilusão: fascinante, mas passageira onde “não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1,9). Porém, um dia aconteceu algo jamais anunciado. “Vós não precisais ter medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” (Mateus 28, 5-6).
A ressurreição de Jesus Cristo lançou sobre os nebulosos desejos humanos de imortalidade, uma nova e grande luz. A limitada condição humana, marcada pela morte, pode ser vista sob nova perspectiva. Os seguidores de Cristo podem professar: eu creio na vida eterna! Esta convicção influencia a compreensão da vida e da morte.
O desejo da vida eterna desperta para a vigilância. Não se vive para a morte e sim para a vida. Viver é também conviver com a ideia de que tudo, agora ou mais tarde, acabará. A morte se faz presente em cada instante da vida. O comportamento evangélico da vigilância fundamenta assim uma ética do discernimento: quem espera o Senhor sabe que é chamado a viver responsavelmente cada ato na presença de seu Deus.
A fé na vida eterna faz o cristão viver na esperança. A esperança não é somente a espera de um bem futuro árduo, mas possível ser conseguido; mas é antecipação das coisas futuras prometidas e já doadas pelo Senhor. “Na esperança, o hoje se abre para o horizonte da eternidade e a eternidade vem colocar as suas tendas no hoje; graças à esperança, o tempo quantificado (que nunca nos é suficiente, que é sempre muito pouco) torna-se tempo qualificado, hora da graça, tempo favorável, hoje da salvação, momento degustado na paz”, escreve o Cardeal Martini.
A esperança é a condição filial. “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1João 3,2).
O dia de finados proporciona refletir sobre a vida e a morte, a nossa e a dos já falecidos. As preces em favor deles são apelo para a misericórdia de Deus. As flores ressaltam a beleza da vida temporal e eterna. As velas apontam para a luz e a fé na eternidade. Cuidar e valorizar os cemitérios é sinal de respeito pelos que nos antecederam, na fé e na construção da sociedade. Que nossos falecidos descansem em paz.




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