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Colunistas


Uma assombração para o Halloween

Sábado, 20/10/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

Histórias de casas assombradas são parte do folclore popular norte-americano.  A mais famosa provavelmente seja a história da casa de Amityville, em um condado próximo a Nova York. A história das assombrações na casa se tornaram um livro famoso nos anos 70 que originou um filme – que originou continuações, que originou refilmagens, que continua dando o que falar.  Uma casa assombrada em Harrisville foi a inspiração para o filme Invocação do Mal, enquanto um sobrado tornou-se famoso em Connecticut, dando origem a outras histórias que o cinema aproveitou. A casa da família Winchester, do criador do rifle, com todas as suas peculiaridades e sua planta incomum, também tem fama de ser assombrada pelas vítimas da arma criada por seu construtor, e deu origem a um filme ruim nesse ano. 

Curiosamente, as duas histórias de casas assombradas mais idolatradas da literatura americana não bebe da fonte das supostas casas reais. Uma delas é a mansão assombrada do livro A Volta do Parafuso, que deu origem ao filme Os Inocentes, nos anos 60, um dos melhores do gênero, dirigido por Jack Clayton. A outra tem sobrenome: é a casa (ou residência) Hill, do livro The Haunting of Hill House, considerado a melhor história de fantasmas da literatura norte-americana no século XX. A obra de Shirley Jackson – que eu não li – foi adaptada num clássico de 1963, The Haunting, batizado no Brasil como Desafio do Além. Foi refilmada com liberdades em 1999 por Jan de Bont como A Casa Amaldiçoada, com um elenco que contava com Liam Neeson e Catherine Zeta-Jones.

A Netflix bebeu na fonte da obra de Jackson e tomou suas liberdades, aproveitando a base do romance de Jackson, para criar uma das melhores coisas do serviço nesse ano, a minisérie “A Maldição da Casa Hill”, disponível desde a semana passada em 10 episódios.

Quem espera por uma típica história baseada em jump scares, aqueles sustos baseados em aparições bruscas e sons altos, pode se decepcionar – apesar de a série obviamente reserevar um espaço a elas. A história segue uma família que, 26 anos atrás, saiu bruscamente de uma antiga casa em que morava. Os cinco filhos do casal, cada um com alguma peculiaridade – uma menina sensitiva, dois gêmeos com sensibilidade para ver estranhas aparições – fogem apenas na companhia do pai. A mãe, misteriosamente, fica para trás, e o que aconteceu com ela é um mistério que o pai nunca esclarece completamente, até o tempo presente. Os fantasmas do passado assombram a vida de todos, confundindo aparições com problemas mentais e psicológicos e dependência em drogas. Cada um carrega um trauma que interfere nas suas vidas.  Um acontecimento chocante, porém, irá reunir a família novamente, que precisa curar suas feridas e enfrentar seus demônios.

O grande mérito da série da Netflix é trabalhar com paciência o contexto do horror que assombra a casa e ligar as lembranças do passado com os traumas do presente. As peças de cada um dos personagens – cada um ganha um capítulo para falar da sua experiência na casa – vão se encaixando, frases vão ganhando vida no desenrolar da narrativa, acontecimentos vão se completando, e em meio a tudo isso, um belo trabalho de câmera e uma montagem inteligente aproveitam os espaços e a iluminação do cenário  para instigar e perturbar. Entre episódios mais lentos, há aqueles que surpreendem demais. O sexto episódio, por exemplo, é composto por uma série de longos planos sem corte que mostram uma encenação dos atores no espaço que é brilhante – e devem ter sido um trabalho infernal para filmar. Mas também mostram como a série aproveita para inserir elementos aterrorizantes não na nossa frente, mas de relance na imagem, ao fundo, junto do cenário, sem aviso.

Dica, portanto, para ir se preparando para o Halloween.




Filmes para o Dia das Crianças

Sexta-Feira, 12/10/2018 às 10:00, por Fábio Rockenbach

Muitos bons filmes e animações lançados nos últimos meses ainda não chegaram ou ao mercado de Bluray ou aos serviços de streaming (Viva - A Vida é uma Festa, O Touro Ferdinando, Os Incríveis 2). Isso não quer dizer que não seja possível garimpar a Netflix ou a Amazon Prime em busca de uma diversão para a garotada no dia das crianças. Segue quatro dicas que valem a pena:

Zathura 
Filme lançado em 2005, Zathura foi logo comparado com a aventura infantil Jumanji pela sua premissa. Pudera, é baseado na obra de Chris Van Allsburg, mesmo autor de Jumanji e de O Expresso Polar, que também virou filme. No filme, dois garotos descobrem um jogo no porão que os leva a uma aventura no espaço. Quem estrela o filme é uma muito jovem Kristen Stewart (de Crepúsculo).

Nanny McPhee
Adaptado do livro "Nurse Matilda" da autora britânica Christianna Brand, o filme estrelado e escrito por Emma Thompson já completa 13 anos de seu lançamento, mas continua cativante par crianças. É quase uma variação de Mary Poppins com tons um pouco mais sombrios: McPhee é uma babá muito estranha que tem seu próprio jeito de "domar" os indomáveis filhos do viúvo Cedric Brown. À medida que as crianças vão melhorando, a feiosa McPhee começa a mudar sua aparência também.

Os Minions
Caso típico do coadjuvante que se torna maior do que o protagonista. Os minions brilharam em "Meu Malvado Favorito" e se tornaram febre, a ponto de a série - que teve uma continuação bem sucedida - ser mais conhecida por eles do que pelo malvado (nem tanto) protagonista. O resultado foi um filme solo que narra a busca deles por um mestre malvadão ideal. A sequência inicial narrando a busca deles através da história já é melhor do que boa parte das animações infantis dos últimos anos.

Detona Ralph
Feito sob medida para a geração que aprende a manipular objetos com as mãos usando o controle do PlayStation, Detona Ralph é um sucesso nos serviços de streaming por lidar bem com a garotada que curte games e, também, com o saudosismo dos pais, que vêem na tela os gráficos e personagens dos tempos do Atari. Ralph é um vilão de jogos para computador - do estilo dos jogos arcado anos 80 - que se sente discriminado por não ser aquele ser monstruoso que precisa aparentar durante os jogos. O resto, deixe que a garotada se divirta descobrindo.

 




Mundo paralelo

Sexta-Feira, 12/10/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

Um mundo paralelo, bem distante de nós. Saiu a programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa no próximo dia 18 sua 42ª edição. O público acostumado aos blockbusters da Marvel não deve reconhecer muitos dos nomes do evento, mas o circuito alternativo e a crítica está enlouquecendo com o que está vindo aí. Serão exibidos os novos filmes de Paul Vecchiali ("Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique"), Jean-Luc Godard ("Imagem e Palavra"), Eugène Green ("Como Fernando Pessoa Salvou Portugal"), Olivier Assayas ("Doubles Vies"), Hong Sang-soo ("Grass" e "O Hotel às Margens do Rio"), Carlos Reygadas ("Nuestro Tiempo"), Nuri Bilge Ceylan (“A Árvore dos Frutos Selvagens”), Pawel Pawlikowski (“Guerra Fria”), Mia Hansen-Love ("Maya"), Amos Gitai ("Trem para Jerusalém" e "Uma Carta para um Amigo em Gaza"), Yorgos Lanthimos ("The Favourite), a minissérie "Oito Horas Não São um Dia", de Rainer Werner Fassbinder. No dia 27 de outubro, a tradicional sessão ao ar livro exibirá o clássico mudo “A Caixa de Pandora”, de G. W. Pabst. O concorrente do Brasil ao Oscar, “O Grande Circo Místico” de Cacá Diegues, bem como “Roma”, aguardado novo filme do oscarizado Alfonso Cuarón (de “Gravidade”) também fazem parte do evento, além de filmes de anoel de Oliveira, Rogério Sganzerla, G. W. Pabst, Wim Wenders e Ermanno Olmi.
A nós resta esperar a chegada em bluray desses filmes – alguns, no Brasil, podem demorar até dois anos para chegarem, outros nunca chegarão. No cinema, dificilmente alguém aqui no norte gaúcho conseguirá ver qualquer um deles. As salas de cinema pertencem a outro mundo. 

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Há quem tenha gostado, então, fica a dica: a segunda temporada das séries “Punho de Ferro” e “Raio Negro” estão disponíveis na Netflix. Já “Demolidor” (que teve uma surpreendente primeira temporada e caiu na segunda) estreia sua terceira temporada na plataforma na próxima sexta, dia 19. No mesmo dia estreia a segunda parte de “Making a Murderer”, documentário que deu o que falar quando foi lançado há dois anos. 

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Cowboy ou veterano do Vietnam? Saíram as primeiras imagens da quinta aventura de John Rambo no cinema. O icônico personagem que, ao lado de Rocky Balboa, construiu a carreira de Stallone, foi o personagem símbolo da era Reagan. Tem um primeiro filme muito bom, e depois tornou-se ferramenta de propaganda intervencionista, tendo retornado ao Vietnam para ganhar a guerra que os EUA perderam (Rambo II) e ajudando os afegãos a venceram a URSS (Rambo 3, filme extremamente irônico depois do 11 de setembro de 2001). O quarto filme abusa da violência em torno de um personagem abatido pelo tempo. No quinto filme,  o veterano vive uma vida de isolamento até se envolver com traficantes mexicanos (que novidade) de drogas. O filme estreia ano que vem.




Fácil, porém falho...

Sábado, 06/10/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

Um levantamento da Google apontou, no início do ano, que o brasileiro, que até 2015 passava 8 horas por semana assistindo vídeos por streaming , hoje assiste quase 16 horas por semana. É praticamente dois episódios de série ou um filme por dia - um número que nivela aqueles que só assistem esporadicamente daqueles que, todos os dias, passam horas em frente à plataformas como Netflix, Hulu, Amazon Prime, Google Play e outros.

A Netflix lucra no Brasil mais de 1,2 bilhões de reais. Segundo matéria da revista Exame, são mais assinantes do que tem a TV paga Sky e um faturamento 30% maior que o do SBT, por exemplo. Nosso país é o quarto maior consumidor do serviço no mundo, entre streamings de vídeo e de música.

Entro de novo nesse assunto a partir da crescente constatação das inversões que o serviço oferece. Quanto maior a quantidade oferecida, menor espaço oferece para os acervos e mais o passado se distancia. Streaming no conforto do lar é ótimo, mas ele escolhe o que vamos ver e, assim como nas redes sociais, nos coloca em uma bolha formada por algoritmos e interesses comerciais. E nas quase extintas locadoras, as sessões de filmes essenciais do cinema acumulam poeira.

Prova do investimento massivo que veio com a ampliação das redes de alta velocidade é o constante investimento das plataformas. A Amazon Prime, um serviço ainda bem mais barato do que a Netflix e pouco conhecido,  está lançando novas séries. “The Romanoffs” e “Homecoming”, conduzido por ninguém menos que Julia Roberts. A grande aposta da Amazon ainda é a futura série O Senhor dos Anéis, prevista para durar cinco temporadas e estrear em 2021, naquele que deve ser a maior produção da história para uma série de TV.

Já a NETFLIX, líder mundial do setor, tenta dar a resposta numa moeda parecida: anunciou na última semana a adaptação – sem data ainda para lançamento – de “As Crônicas de Nárnia”, de CS Lewis, para sua plataforma. A Netflix ainda tem mais propriedade na produção de filmes originais, algo que a Amazon ainda está longe de acompanhar. Ambas, com certeza,  já pensam no futuro, quando perderão os direitos a vários filmes por conta do investimento de estúdios como Paramount e Disney em seus próprios serviços de streaming.

O serviço, em si, não é algo que não se tenha pensado anos atrás – a possibilidade de escolher o que ver a qualquer momento, em qualquer lugar. Só continuo me questionando do espaço para qualquer coisa feita antes dos últimos dez anos. Há um serviço chamado OLDFLIX que reúne clássicos e séries “antigas”, mas ele é uma exceção.

 

PERSONA EM DEBATE 

O assunto das plataformas me surgiu quando pensei na ação que vamos realizar na próxima terça no Auditório da Biblioteca Central da UPF, Campus I. Estarei na companhia dos professores Gerson Trombetta e Francisco Santos para exibir e debater PERSONA, de Ingmar Bergman. Não é um filme fácil –na verdade, é um dos mais complexos filmes do cinema. Por isso – e por sua qualidade narrativa e audiovisual – está constantemente listado entre os maiores filmes da história do cinema. Na terça, iremos lançar sobre ele três olhares: o audiovisual (ampliando um pouco para falar sobre o cinema de Bergman), a filosofia e a psicanálise. Estou ansioso para ouvir os colegas sobre aspectos filosóficos e psicanalísticos no filme, que eu adoro. O questionamento veio a partir da constatação que, longe da programação da TV e das plataformas, é ainda menor a chance de qualquer um das novas gerações ter contato com a filme a menos que, propositalmente, empreenda uma busca por ele.
Todos à UPF na terça à noite, então, a partir das 19h20min. 




UPF promove discussão sobre a desigualdade

Sábado, 29/09/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

A partir de segunda a UPF começa sua Semana do Conhecimento, que já se tornou tradição no segundo semestre (é a quinta edição) todos os anos, reunindo centenas de apresentações, oficinas, rodas de conversa, lançamentos de obras, trocas de ideias e discussões que promovem uma interação fluida entre tudo o que constitui a própria Universidade: graduação, pós-graduação, pesquisa e extensão. Alunos, professores e funcionários envolvem-se, durante três turnos e cinco dias, no que o próprio nome já antecipa: conhecimento. É padrão que Semana do Conhecimento use o cinema para servir de “gatilho” (muito cuidado com essa palavra nos dias de hoje) para discussões multidisciplinares, e a quinta edição não é diferente. A terça à noite prevê um CineDebate em torno do tema das desigualdades sociais. O ponto inicial das discussões é o ótimo “Que horas ela volta?” de Anna Muylaert, que muita gente já viu, mas que talvez possa rever a partir de diferentes olhares. Faço parte da mesa de discussões pós-exibição e vou tentar mostrar as estratégias audiovisuais usadas para tecer comentários sobre desigualdades sociais e a luta de classes no Brasil. O filme de Muylaert faz uso de movimentos de câmera, enquadramentos, encenação, repetições e padrões para constantemente expor sua visão sobre o tema. Quem parte dessa interpretação para deslanchar seu conhecimento sobre esses temas, então, serão os professores Glauco Ludwig Araújo e Clenir Maria Moretto. O CineDebate começa às19h20min da terça, no Centro de Eventos do Campus I. Todos convidados.

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Rezando para que o final de semana seja de sol, porque a Semana Passo Fundo de Cinema encerra, sábado e domingo, com atrações ao ar livre. Sábado, se tudo der certo, o Ginásio de Esportes do Bairro Záchia recebe a estrutura itinerante do SESC para exibições e terá como atração o filme O Menino da Porteira, a partir das 19h. No domingo, o SESC leva sua tela para exibir o ótimo “O Palhaço” (que baita filme) para o anfiteatro do Parque da Gare, a partir das 19h. Se o tempo permitir, chance de unir o útil ao agradável.
E um dos grandes momentos da semana reservado para o sábado à noite, no Rito Espaço Coletivo (rua Aníbal Bilhar, 900), é o bate papo com convidados virtuais sobre o panorama atual do cinema gaúcho e brasileiro.  Os convidados são Paulo Mendonça, roteirista, compositor, diretor-geral do Canal Brasil e diretor vice-presidente da Academia Brasileira de Cinema e Beto Rodrigues, produtor e realizador de cinema, presidente da Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul, que participam a partir do esforço da produtora Rafaela Pavin, que já trouxe para a Semana o filme “Esteros”, exibido no Cinematógrafo CineClube na última quarta-feira. Após o bate-papo, show Trilha de Filmes com a Big Band UPF.

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Está chegando aos cinemas “A Primeira Noite de Crime”, derivado de um filme lançado em 2013, “The Purge – Uma Noite de Crime” (que teve duas continuações e deu origem a uma série lançada no embalo do filme – ou o filme veio no embalo da série - há três semanas na Amazon Prime.) O filme é ruim, principalmente em comparação ao primeiro, que tem Ethan Hawke e trabalha um conceito bem diferente, em torno de uma família entrincheirada em casa contextualizando como sub-trama o quanto fingimos em nossas relações cotidianas. Lembro do filme porque o tema é atual: num tempo assumidamente próximo do nosso, o governo dos EUA institui uma noite de “expurgo” em que serviços policiais e de saúde não funcionam e tudo se torna legalizado, inclusive o assassinato, para que os cidadãos possam “expurgar” sua raiva e tornar o país melhor nos 364 dias restantes do ano. Obviamente milhares de cidadãos saem ás ruas fantasiados e armados para saciar sua sede de violência. A rima dessa série de filmes com os tempos que vivemos é assustadora, mas é uma pena que a opção dos produtores seja a de explorar a violência gráfica deixando as discussões morais em segundo plano, que poderiam render uma aproximação que justificasse mais a premissa mórbida, principalmente dos três filmes que se seguiram. 




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