PUBLICIDADE

Colunistas


Bergman em Passo Fundo

Sábado, 11/08/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

A partir da próxima quarta, dia 14, começa no  SESC de Passo Fundo a mostra “O Lobo à Espreita – Uma Homenagem ao Centenário de Ingmar Bergman”. Serão nove filmes do gênio sueco exibidos na tela grande, gratuitamente, algo difícil de acontecer no interior. O horário pode ser um dificultador, mas ter a chance de ver algumas obras-primas do diretor é única.

“O Sétimo Selo” (quarta, dia 14, 9h) é, talvez, a mais famosa obra de Bergman, Não é meu preferido do diretor (tenho certa dificuldade com algumas tentativas de humor) mas essa sátira ao pensamento medieval encontra seus contrapontos a todo instante nas angústias de seus personagens. Foi um passo adiante do diretor na sua filmografia, ao sair dos seus “filmes de juventude” para começar a inserir na sua filmografia seus maiores conflitos internos. Um dos maiores deles – o silêncio de Deus e a angústia do homem – começa a ser visto aqui, na história de um cavaleiro que volta das cruzadas e questiona sua fé numa terra tomada pela peste e, pasmem, pelo homem e sua natureza. 

Já “Persona” (quarta, dia 14, 19:30h) é, para muitos, a sua grande obra-prima. Para o crítico John Simon, Persona “é o filme mais difícil de todos os tempos”. Ele é singular na obra do diretor, feito entre sua famosa trilogia do Silêncio e sua fase ao final dos anos 60 em que o questionamento do papel do artista entra forte em sua filmografia. Em “Persona”, Bergman transforma a ideia central do filme – a de que todos usam máscaras para serem “outros” em múltiplas personalidades – em um jogo audiovisual que a todo instante reforça essa ideia pela imagem, montagem e pela própria estrutura do filme, a partir da história de uma atriz que entra em colapso e silencia-se. Uma enfermeira a acompanha no seu tratamento em uma ilha e as duas passam a influenciarem-se mutuamente e a mesclarem suas personalidades.

No dia 16, sexta, é a vez de “Morangos Silvestres” (9h), outra obra-prima. Mais do que um olhar sobre o ato de envelhecer, um olhar sobre o ato de aceitar se redimir: a história de um idoso professor que resolve viajar de carro até outra cidade para receber uma homenagem por sua carreira. Na companhia da nora, a viagem se transforma em uma experiência nostálgica sobre o passado e suas relações com  as pessoas. É um trabalho maravilhoso de iluminação, com uma luz de preenchimento dura e contrastante e que ajuda a criar alguns dos mais bonitos enquadramentos da carreira do diretor, um lembrar carregado de autocrítica e nostalgia, às vezes assustadora, às vezes terna, como são, de forma contrastante, a morte e o amor, parceiros e opostos dessa história.

“Sonata de Outono” (sexta, dia 16, 19:30h) reúne um “duelo” de interpretações fabuloso entre Liv Ullman, ex-mulher e atriz preferida de Bergman, com a eterna Ingrid Bergman (de Casablanca), em sua única parceria (e em seu último filme também) com Ingmar. Outros temas preferidos de Bergman surgem: a família e o casamento. Trata da relação entre uma famosa pianista e sua filha. O roteiro é um presente para duas grandes atrizes em um filme dividido pelo próprio ritmo da relação entre ambas, se encontrando não apenas após sete anos de distância, mas após uma vida inteira de proximidade inócua. É um grande filme, que conquista a atenção do público gradualmente através dessas duas atrizes memoráveis, que expõem, pelo olhar, a frustração, o ressentimento e, ao mesmo tempo, a tentativa de amar.

Para finalizar a primeira semana, teremos “Vergonha” (terça, dia 21, 19:30h). Max Von Sydow e Liv Ullman interpretam um casal vivendo em um país nunca identificado, mas que é assolado pela incerteza de uma guerra civil que sai das cidades e chega ao campo. A guerra, aqui, é o pano de fundo da história de um casal  que não quer se envolver nas questões políticas e, como reflexo, tem seu casamento abalado. O filme tem relação com a inconformidade de Bergman com a posição de neutralidade assumida pela Suécia ao longo dos conflitos do século XX. A diminuição da arte e do papel do artista, e a nocividade disso, surge aqui como também surgira, antes, em "A Hora do Lobo". Bergman critica não a guerra em si mas o efeito dela nos homens, e faz isso com uma construção de personagens fabulosa.




Melhor, impossível

Sexta-Feira, 27/07/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

Missão Impossível, o filme de 1996, é um dos mais subestimados de Tom Cruise e do diretor Brian DePalma. Via de regra, muita gente fica no meio do caminho: não é a obra de ação incessante que muitos esperavam, e para muita gente também não tem cara de DePalma. Adoro o filme, porque ele representa, em 1996, uma mudança dos próprios conceitos que fizeram a série dos anos 60 se tornar um sucesso – e que fizeram a trilha sonora de Lalo Schifrin entrar no imaginário popular e ser conhecida até por quem nunca viu o seriado.

No tempo em que o seriado de TV estreou, o inimigo estava atrás da cortina de ferro, no auge da Guerra Fria. Já havia, na literatura, obras e autores marcantes abordando a espionagem e, nos cinemas, James Bond representava o estereótipo do agente secreto – no caso de Bond, enfrentando no segundo filme o inimigo de forma direta (“Moscou contra 007”, de 1963).

Quando a série ganhou as telonas, graças ao empenho de Tom  Cruise, a situação já havia mudado. Desde 1989, o inimigo vermelho já havia caído, e muitos filmes exploravam os resquícios da guerra fria, os agentes duplos ou os descontentes, remanescentes com sonhos grandiloquentes de manter viva a disputa com o ocidente. Mas o filme já havia entendido que um novo tempo estava prestes a começar – o tempo dos agentes da tecnologia, das guerras digitais, da venda de armas, do contrabando de informação, dos crackers e invasores de sistemas, dispostos a passar esses segredos a quem  pagasse mais. Enquanto Hollywood se  voltava, ainda, na busca por novos inimigos palpáveis – os árabes, os orientais, os coreanos, os cubanos – a série produzida e protagonizada por Cruise decidiu apostar que o pior inimigo pós-guerra fria não seria visível, não teria fidelidade a uma nação e não seria um mero estereótipo.

O bom de “Missão Impossível”, a série, é que o próprio Cruise corrigiu o rumo da franquia quando ela derrapou. Depois do estilo meticuloso de DePalma, baseado em closes, em uma montagem cuidadosa para gerar tensão e apoiado em um roteiro direcionado não a manter o espectador pelo movimento incessante, mas pela tensão, o segundo filme foi dirigido por John Woo, diretor estilista de Hong Kong que incute sua marca pessoal em tudo o que toca. Fez grandes filmes de ação, mas o que ele alcançou em “Missão Impossível II” é constrangedor. Cenas em câmera lenta, um Tom Cruise de cabelos mais longos e cenas de ação  coreografadas pelo que aparentam visualmente, não pela forma que funcionam. As críticas levaram Cruise a repensar os rumos da série, e a partir daí, tudo passou a funcionar. O terceiro filme introduz novos personagens, oferece a Ethan Hunt, o protagonista, uma vida fora do trabalho e passa a dar mais atenção ao  peso do antagonista e os estragos que ele pode causar no personagem principal. “Missão Impossível” passa a ser uma série em que seu protagonista é facilmente identificável e é graças ao personagem bem construído que os filmes seguintes vão evoluindo: o quarto é superior ao terceiro. O quinto, “Nação Secreta”, é superior ao quarto. As expectativas em cima do novo filme, “Fallout”, eram imensas – também por conta dos apuros passados por Tom Hanks nas filmagens. O ator, que gosta de dispensar dublês e CGI em muitas cenas, e até aprendeu a pilotar helicópteros e aviões para os filmes, quebrou o tornozelo durante um salto sobre um telhado e atrasou a produção quatro meses (o momento do filme em que ele pula um telhado e sai mancando é real). A adição de Henry Cavill (o “Superman” dos filmes da DC) como um agente da CIA só trouxe mais expectativa ao filme.
A boa notícia? “Missão  Impossível – Efeito Fallout”, que estreia nos cinemas de Passo Fundo neste final de semana, vale o ingresso, pelo desenvolvimento dos personagens, pela trama, pelas cenas de ação e o conjunto da obra. É o melhor filme da franquia até agora!

***

Aos ligados em série, a Netflix disponibilizou na sexta a nova temporada de Orange is the New Black. A dica, para quem gosta de documentários – e de Segunda Guerra Mundial, que no ano que vem completa 80 anos de seu início – são dois documentários: Five Came Back, que relembra a trajetória de cinco diretores norte-americanos, John Ford, George Stevens, John Huston, Frank Capra e William Wyler, que direcionaram seus talentos ao esforço de guerra. A série, em três episódios, recupera parte da história do cinema no período mostrando como Hollywood se engajou com o conflito. O outro é “A Segunda Guerra Mundial em Cores”, fruto do uso da tecnologia para mostrar, como o título diz, o conflito que moldou o século de uma forma nunca antes vista. 




Duro de Matar versão 2018

Sábado, 21/07/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

A história é famosa nas internas em Los Angeles: em 1987, uma secretária da Fox recebeu pelo correio um embrulho e, ao abrir, encontrou, antes de outro pacote, uma folha de papel com os dizeres “Isto é uma bomba”.  O tal pacote mexeu com a rotina de todos no prédio, até perceberem que o texto não era literal: era um roteiro, assinado por um cara chamado Jeb Stuart. Stuart não estava brincando: ele sabia que o que tinha em mãos era uma fórmula perfeita em um tempo que precisava de mudanças no cinema de ação hollywoodiano. Esse cinema estava tomado por marmanjos musculosos encarnando o exército de um homem só ou de lutadores em tramas policiais. Não que não houvesse bons exemplares de ação, mas a fórmula estipulada pelo roteiro de Stuart, que se chamaria “Die Hard” no lançamento nos cinemas, inventou um novo estilo: mudou uma das máximas do cinema de aventura (a de ampliar as locações para ampliar a sensação de movimento da narrativa) e inseriu, em apenas um lugar, um herói hesitante e falho (como Indiana Jones), trazendo ação incessante, carisma e humor. “Duro de Matar” custou 28 milhões e rendeu 140 milhões. Depois dele, a fórmula gerou inúmeros imitadores, e não raro a crítica resumia-os da mesma forma: “Duro de Matar em um avião” (A Força em Alerta, Momento Crítico), “Duro de Matar em um navio” (A Força em Alerta 2, Velocidade Máxima 2), “Duro de Matar num estádio de hóquei” (Morte Súbita), etc, etc, etc.

O filme, que tornou Bruce Willis um astro do cinema de ação (condição que ele usufrui até hoje, com bons e maus filmes) iniciou uma franquia que teve quatro continuações e comemora, em 2018, 30 anos.  Se a data não reserva o lançamento de um novo filme da franquia,  pelo menos traz um híbrido que tem sido elogiado por fazer o que se propõe: “Arranha Céu – Coragem sem Limite”, em exibição (apenas cópias dubladas, sorry) no Centerplex.  Até o ambiente é semelhante – um grande arranha-céus – e, já que o astro da vez é Dwayne Johnson, faz bem o roteiro em colocar no musculoso astro uma dificuldade a mais: seu personagem não tem uma perna. Johnson, como já escrevi uma vez, alterna bons e maus momentos (se o novo “Jumanji” é divertido e surpreende, “Rampage” é uma bomba constrangedora) e, aqui, pelo menos na homenagem ao espírito do filme de 1988, presta uma bela homenagem: tem clichês, situações inverossímeis e muita ação. No somatório de tudo, um filme para consumir com bastante pipoca e refrigerante.

***

O SESC Passo Fundo anuncia, para a segunda metade de agosto, uma mostra especial para comemorar os 100 anos de Ingmar Bergman (assunto das últimas duas colunas).  Serão exibidos, gratuitamente ao público, nove filmes do mestre sueco, nos dias 14, 16, 21, 22, 28, 29 e 30 do mês que vem. “O Sétimo Selo”, “Persona”, “Morangos Silvestres”, “Sonata de Outono”, “Vergonha”, “Na presença de um palhaço”, “Face a Face”, “Fanny & Alexander” e “A hora do Lobo”. Não vi apenas um deles,  “Na Presença de um Palhaço” e posso garantir que a seleção é ótima. Lamento, apenas, a ausência de pelo menos um filme da trilogia do silêncio, dos anos 60, um dos momentos mais marcantes da carreira de Bergman, mas falo mais de cada filme na coluna anterior a cada exibição.  O horário de quase todas as exibições é ótimo, 19:30, com exceção, infelizmente, de dois dos mais representativos trabalhos de Bergman, “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres”, que serão exibidos ás 9:00h.

É raro poder ver um filme de Bergman na tela grande – e a projeção no SESC é formidável – e mais lamentável é o fato de as mostras em Passo Fundo terem pouquíssimos interessados. Em uma mostra dedicada a Welles, há três anos, havia 5 almas assistindo à exibição de “A Marca da Maldade”. Enquanto aqui essas chances surgem e ninguém aproveita, temos uma mostra de Bergman acontecendo com casa cheia em São Paulo e um curso, acompanhado de uma mostra e uma exposição, sobre Hitchcock acontecendo no Rio de Janeiro, também com grande público. Não dá pra reclamar da falta de oportunidades no interior se, quando elas surgem, ninguém dá as caras. 




100 anos de Bergman - 2

Sábado, 14/07/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

O cineasta Cacá Diegues é um dos muitos diretores, críticos e pensadores que, no último mês, vêm publicando textos alusivos aos cem anos do nascimento de Ingmar Bergman. Na semana que passou, ele escreveu para o Estado de São Paulo um belo texto onde aborda a melancolia que perpassa toda a filmografia do diretor, resumindo de forma magistral sua obra: enquanto alguns diretores buscam no cinema um elixir para dar vazão aos sonhos de felicidade, para Bergman a mola propulsora de sua obra é o oposto, porque para ele a infelicidade do ser humano é uma condição humana natural. 

O diretor não atravessa vias cruzadas à maioria apenas nesse aspecto. Bergman, aliás, é um dos poucos diretores cuja presença na linha do tempo da história do cinema se justifica por si próprio, e não por uma filmografia nacional ou movimento estético. Muitos diretores se encaixam em períodos únicos da história, mas alguns marcam, ao longo de décadas, a sua própria história independente disto. Neo-realismo, Nouvelle Vague, new wave britânica, nouvelle vague tcheca, o novo cinema alemão, o cinema novo brasileiro (aliás, todos tendo a palavra "novo" no título, o que é irônico em termos de resgate histórico do passado). Bergman não faz parte de nenhum movimento - assim como Fellini, por exemplo - e ainda assim, fez o suficiente para (também como Fellini) se transformar em adjetivo.

É a partir do início dos anos 60 que a obra de Bergman atinge um novo patamar, independente do reconhecimento que sua obra já havia tido até o lançamento de "A Fonte da Donzela", de 1960. Durante uma das décadas mais importantes social, histórica e culturalmente no século XX, Bergman lança o equivalente a duas séries temáticas e um dos maiores filmes de todos os tempos. Todos seus filmes espelham, também, a evolução de seus traumas, ideias e fantasmas particulares.

Com "Através do Silêncio" (1961), "Luz de Inverno" (1963) e "O Silêncio" (1963) Bergman extravasou uma de suas maiores angústias: a ausência de sinais divinos. "Deus está silencioso", diz o padre de "Luz de Inverno", dos três filmes o que mais diretamente trata do tema. Chamada de "Trilogia do Silêncio de Deus", é também um ensaio formal e temático a passagens que seriam desenvolvidas ao extremo em "Persona" (1966), talvez sua obra mais difícil, enigmática e idolatrada. Para muitos, é uma trilogia de filmes que poderia até rivalizar com a "Trilogia da Incomunicabilidade" de Antonioni, porque também as pessoas nesses filmes sofrem em silêncio e pelo silêncio entre elas. Após “Persona”, um marco de suas aproximações formais a temas da alma – humana e feminina – se estabelece uma outra série de filmes com aproximações temáticas, focada na maneira como a arte e o artista são relegados a um plano inferior na sociedade contemporânea (da época, mas com uma interpretação ainda muito atual). “A Hora do Lobo” e “Vergonha” tratam da humilhação, resiliência e sobrevivência do artista em um tempo em que a arte é desvalorizada. A partir de “A Paixão de Ana”, e nos anos 70 em diante, Bergman adiciona a cor à constante reconstrução dos mesmos temas, revistos a partir do tempo em que ele vivia e de como se encontrava.

O mais interessante é que Bergman gostava de permitir múltiplas leituras às suas obras. Do trabalho de câmera sempre significativo, com ajuda de profissionais como Sven Nykvist (na metade final da carreira) ou Gunnar Fischer (na metade inicial), o diretor também transformava seus roteiros em uma arena de si próprio. Quando não havia um só personagem que se pudesse apontar como seu alter-ego, percebe-se que a coletividade dos personagens se tornava o próprio diretor (como em “Através do Espelho”, em que os quatro personagens tinham, cada, um aspecto dos medos e aspirações do próprio Bergman). Para Ingmar, bastava um pequeno grupo de atores e um cenário para construir obras que marcaram a história do cinema, porque a grande arena de batalha de seus roteiros não estava propriamente no mundo, mas dentro da alma de cada personagem e espectador. E na alma do diretor.




100 anos de Bergman

Sábado, 07/07/2018 às 09:00, por Fábio Rockenbach

No próximo final de semana, dia 14 de julho, cinéfilos do mundo inteiro estarão relembrando a carreira de Ingmar Bergman, um dos maiores diretores da história do cinema. Bergman estaria completando 100 anos (nasceu em 1918). O diretor sueco é um extra-classe por diferentes motivos. A começar pelo fato de que, ainda que o cinema se anuncie como seu território máximo de expressão, foi um emanador de saberes que transitou entre as telas do cinema, o teatro (escreveu dezenas de peças), a tela pequena da TV (para onde filmou depois sua última obra para o cinema, em 1982) e as páginas dos livros, já que também assina dezenas de obras. É, portanto, um personagem que parece pertencer a outra realidade em comparação com os realizadores de hoje.

A distância de Bergman para o público de hoje vai, porém, além de suas qualidades e de sua produção cultural ampla. Os filmes de Bergman parecem cada vez mais distante do que a geração Avengers parece aceitar consumir – até porque, para o consumo, é preciso antes sentir do que refletir, e o ritmo para um tempo em que é normal fazer muitas coisas ao mesmo tempo precisa ser incessante. Bergman foi o diretor que mais profundamente explorou a alma humana e suas contradições, seja em dramas ou em comédias, que ele, inesperadamente, descobriu ter vocação para filmar, mas nunca de forma gratuita: até nelas havia algo nas entrelinhas que justificasse os habituais 90 minutos de dedicação que seus filmes pediam.

Comecei, há uma semana, uma maratona em homenagem ao autor, vendo pela primeira vez obras que não conhecia e revendo outras que já havia visto. Ao visitar a carreira do diretor, é possível perceber como os temas vão se formando,  as abordagens vão amadurecendo e o artista vai  tomando forma. Em seus primeiros filmes, no final dos anos 40, Bergman era profundamente influenciado pelo neo-realismo italiano, as chagas do pós-guerra refletidas no ambiente e, sobretudo, na condição humana. Personagens desprezados pela sociedade, sobreviventes enfrentando o pior do homem e de sua classe. Seus filmes, até o ano de 1950, alternam esses temas ao mesmo tempo que alternava-se a recepção dos estúdios, público e crítica ao seu trabalho. É a partir de 1950 que inicia uma nova fase, deixando para trás o tom pessimista para investir nas relações humanas, principalmente a partir do seu olhar sobre os relacionamentos jovens nos chamados “filmes de verão”. Inevitavelmente, teremos personagens que olham para seus passados de forma nostálgica, e haverá o contraponto  entre o campo, idílico e feliz, e a cidade, claustrofóbica e triste.  Filmes como “Juventude” (1950) e “Mônica e o Desejo” (1953) fazem  parte dessa fase.

Junto com  ela, Bergman vai desenvolver um olhar carinhoso à alma feminina. Como poucos, ele soube dar voz às aspirações, aos desejos reprimidos e aos segredos da alma feminina, através de personagens fortes manifestando-se em um tempo absurdamente masculino. “Quando as mulheres esperam” (1951) e “Sonhos de Mulheres” (1955) representam o início dessa característica tão marcante de Bergman, que seguirá presente em muitos de seus filmes nos 20 anos posteriores.

Além da juventude, dos relacionamentos amorosos e da alma feminina, outro tema caro ao diretor surge também com força nessas primeira década de carreira: a religião, e todas as constestações que podem surgir vindas de um homem educado a partir do olhar severo de um pai extremamente rígido, luterano fervoroso. Bergman exprime em sua carreira, normalmente, dualidades. A fé cega e a contestação, o paganismo e a religiosidade extrema, o amor e a punição, a devoção a Deus e a raiva a ele. Seus dramas medievais são os que com maior força trazem esses temas. “O Sétimo Selo”, um filme que é irônico, crítico e até cômico,  é lembrado pela imagem icônica do cavaleiro que volta das cruzadas e joga xadrez com a morte. É uma ideia que resume a contestação sempre presente à Deus, ao sentido da vida e ao comportamento dos homens – essa contestação assume ares ligeiramente diferentes, mas igualmente críticos, em outra obra-prima, “A Fonte da Donzela”, de 1960, em um tempo em que se percebem influências de Kurosawa, um cineasta cuja obra ele conheceu nos anos 50.  É o filme que marca o fim de uma nova etapa da carreira do diretor – antes, uma de suas obras-primas, “Morangos Silvestres” já reservava um olhar maravilhoso em sua forma e conteúdo ao ato de envelhecer e entender a construção do seu próprio “eu”. Depois de “A Fonte da Donzela”, Bergman dará início á sua famosa trilogia do silêncio e assinará nos anos 70 obras impactantes sobre relacionamentos. Sobre isso, a gente fala no próximo final de semana... 




PUBLICIDADE


PUBLICIDADE