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Colunistas


Um retrato do nosso cinema

Sábado, 22/09/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

O brasileiro ignora seus méritos – não sei se por coitadismo, ou se por realmente achar que o que é feito aqui é inferior. O cinema brasileiro sofre com  isso desde os tempos do cinema da boca do lixo, da ascensão das pornochanchadas, do esculacho do governo federal da era Collor. Para boa parte dos brasileiros, o cinema brasileiro é apenas pornografia, piada ruim, som com problemas, atores da Globo e pobreza. Num resumo, apenas cinema ruim.

Uma pena, porque o cinema brasileiro é um dos melhores do mundo. O problema não está na qualidade da nossa produção,  mas no quanto dessa  produção chega ao público quando bons filmes enfrentam dois inimigos insuperáveis: os blockbusters americanos e a fortuna despejada por eles para tomarem as salas de cinema e, no espaço que sobra, a primazia da Globo Filmes e suas comédias – a maioria esdrúxulas, uma versão em longa metragem de um programa de comédia da TV aberta – sobre o mercado distribuidor.  Como não vê os bons filmes e o que vê em cartaz se resume às tais comédias – sem falar aquelas  em que brilham estrelas como Kéfera – não é de assustar que o lugar comum para o brasileiro seja o de que “o cinema brasileiro é muito ruim”.

Menciono o assunto porque, na semana que passou, foi entregue o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, que consagrou, neste ano, merecidamente, o filme do Bozo (como todos passaram a conhecer a obra). “Bingo” venceu oito dos quinze prêmios a que estava indicado, e é lamentável que alguns, sem sequer ver o filme, o desvalorizem pela sua temática ou pelo seu nome. O filme de Daniel Rezende – montador de Cidade de Deus e um diretor de mão cheia – é um estudo de personagem com uma linguagem visual e sonora riquíssimas, repletas de metáforas visuais, um trabalho de iluminação e cor significativa e uma atuação impecável de Vladimir Brichta, não por acaso vencedor do prêmio de melhor ator do ano. Claro que, como toda premiação, há questionamentos: jamais daria à ótima Laiz Bodansky o prêmio de direção – Rezende em diferentes graus mereceria o prêmio – por “Como nossos pais”, tampouco o sofrível “Real – O plano por trás da história” merece o prêmio de roteiro adaptado, mas o prêmio também é político e, de certa forma, pensa na distribuição de reconhecimentos para valorizar a produção nacional. 

Melhor, mesmo, foram as manifestações. Primeiro a de Brichta, que ao receber seu prêmio não conseguiu separar a política da arte ao bradar um jogo de palavras com o personagem real que inspirou a obra. “Bingo, sim. Bozo, sim. "Bozonaro", não” afirmou, entre gritos de apoio da  platéia. Num segundo  momento, a emocionante homenagem a Fernanda Montenegro, que trouxe ao  palco Cacá Diegues, Zelito Vianna e Luiz Carlos Barreto. Barretão, aos 90 anos, se ajoelhou em frente a Fernanda (que está prestes a completar 90 anos) afirmando que naquele abraço “estão quase 180 anos de cinema”. Falecidos no ano que passou, Roberto Farias e Nelson Pereira dos Santos também foram lembrados. O prêmio é um retrato do nosso cinema: ignorado pelo público, frequentado por ótimas obras e permeado pela política – e o fato de “O grande circo místico” de Cacá Diegues, representar o Brasil na corrida do Oscar desse ano mostra o quanto há de outros elementos inseridos nesse contexto. Diegues, afinal, foi eleito recentemente para a Academia Brasileira de Letras e é o nome do momento. Já o filme, difícil dizer... 




Meu cinema está morrendo...

Sábado, 15/09/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

A modinha nas redes sociais, nos últimos dias, principalmente entre usuários de redes sociais de filmes, como a Filmow e o Letterboxd, tem sido enumerar a lista dos filmes lançados no ano do nascimento de cada usuário. É sintomático que eu tenha visto mais listas dos anos 70 do que qualquer outra década, mas o tipo de lista que mais costuma ligar meu alerta de cinéfilo tem relação com as famosas listas de “melhores” feitas por críticos e canais de cinema na internet. Nasci nos anos 70, e como muita gente que tem postado sua lista, é fácil perceber que as referências não param nessa década. São críticos que puxam filmes conhecidos e/ou obscuros dos anos 60, 50, 40, 30. Em contrapartida, acho preocupante que profissionais da área que hoje assinam textos em grandes veículos, na casa dos 20 a 25 anos, construam suas referências até os anos 70 e parem por aí. E mais preocupante ainda ver que a gurizada de hoje construa suas referências a partir dos anos 2000 apenas, ou que se esgotem apenas em séries para TV. 

Não é papo de tio velho, saudosismo gratuito. A geração dos anos 70 e 80 construiu sua base cinéfila a partir do que estava disponível na TV. E o que se exibia nas TVs não se restringia apenas ao que se produzia naquele tempo. Durante as tardes, eram exibidos filmes de 30, 40 anos antes. Hoje, a programação da tarde na TV aberta reserva somente filmes “recentes”, independente da qualidade. Qualidade no cinema não tem validade. Ótimos filmes dos anos 80 ou 70 poderiam ser exibidos durante a tarde. Sem contato com esse acervo, é cada vez mais difícil formar um hábito de não reconhecer o que é antigo apenas como “velho e estranho”.

A Netflix, já escrevi aqui, é sintoma disso. Olhei a lista de novos filmes de setembro, e não há um só filme feito há mais de dez anos. A história do cinema está desaparecendo, uma vez que as locadoras estão fechando e os serviços de streaming simplesmente optam por não colocá-los na sua programação. Vi filmes de Adam Sandler receberem nota máxima na Netflix (dar nota aos filmes é outra mania das novas gerações, tudo se categoriza por nota, não por opinião ou argumento) enquanto obras como O Poderoso Chefão, Chinatown ou O Bebê de Rosemary ganham duas ou três estrelinhas. Filme preto e branco, então, nem a pau. É a lógica inversa: quanto mais acesso é possível, quanto mais fácil conseguir proporcionar o contato com essas obras, menos elas chegam ao público. O consumismo de um público volátil, acostumado a começar a ver um filme e a parar na primeira dificuldade para escolher outro dificulta a formação de um público mais crítico e aberto à compreensão de um filme. Na dificuldade do passado, locar e pagar por um filme normalmente fazia as pessoas persistirem nele até o fim. Não havia outras opções. Hoje, um clique num botão tira o público do filme que ele achou “um pouco estranho” já no início e ele zapeia pelas outras 4.000 opções. A falta de insistência não ajuda a superar o estranhamento. O excesso é a mãe da falta de formação crítica.  

Percebo isso quando converso com alunos na universidade e vejo que muitos não reconhecem ou nunca viram obras que dez anos de idade, multipremiadas, faladas, comentadas. Não se trata de falta de interesse, se trata de excesso de ofertas e uma certa comodidade que impede o enfrentamento ao que é estranho.

No ano em que eu nasci, apenas para aderir à modinha, foi lançado “Taxi Driver”, um dos grandes filmes de Scorsese e do próprio cinema, tão sujo e repleto de camadas hoje como já parecia ser em 1976. Brian DePalma adaptava de maneira metafórica e brilhante o romance “Carrie” de Stephen King em um filme que é uma aula de cinema. “Rede de Intrigas” já antecipava, naquela época,o potencial destrutivo do jornalismo sensacionalista e a forma como ele manipula o público. “Rocky” surpreendia o mundo, e se até hoje é xingado por ter tirado o Oscar de Scorsese, ainda consigo ver um filme maravilhoso sobre a superação de dois patéticos derrotados contra o establishment, usando o ringue como uma metáfora visual.  “Todos os homens do presidente”, outra aula de cinema de Alan Pakula, expunha os bastidores da desconstrução do poder americano, que já vinha sendo posto em dúvida na ascenção da Nova Hollywood, construída pelo interesse de um público novo que desconfiava das suas instituições. São apenas algumas das obras feitas naquele ano. Dificilmente algum deles, marcantes para a história do cinema, seriam recebidos com algo além de um nariz torcido por quem acha que o cinema nasceu em 2000.




Jack Ryan na Amazon

Sábado, 01/09/2018 às 06:15, por Fábio Rockenbach

Sintoma comum dos nossos tempos, as pessoas, de forma geral, se acomodam em torno do que é popular e esquecem de explorar novas possibilidades. Quando se fala em serviços de streaming, 19 em 20 pessoas falam da Netflix e costumam se limitar ao que ela oferece – já comentei sobre isso em outras ocasiões, de como a Netflix, enquanto tem um  lado muito bom, por outro acaba acostumando as pessoas a verem apenas o que ela seleciona e como essa seleção esquece 90% do que já foi produzido na história do cinema e da televisão mundiais.

Sexta estreou na Amazon Prime a série Tom Clancy’s Jack Ryan. O personagem, derivado de uma série de livros de Tom Clancy, é um agente de inteligência e análise da CIA e pode ser desconhecido para muitos, mas é velho conhecido das telonas. Foi protagonista de um filmaço chamado Caçada ao Outubro Vermelho, na pele de um magrinho Alec Baldwin, e depois foi interpretado por Harrison Ford em Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato. Rejuvenesceu na pele de Ben Affleck em outro filmaço pouco lembrado, A Soma de Todos os Medos (em que uma bomba nuclear explode nos Estados Unidos) e ganhou uma quinta adaptação que passou quase em branco, apesar de ser bem legalzinha, Operação Sombra: Jack Ryan, onde o personagem é vivido por Chris Pine.

A série que estreou no serviço de streaming da Amazon (e que no Brasil é três vezes mais barata do que a Netflix e ainda cobra apenas R$8,00 nos primeiros seis meses) traz John Krasinski, ator que eu gosto muito e que dirigiu o ótimo Um Lugar Silencioso, na pele do personagem, em tramas envolvendo  terrorismo e as inquietas relações de segurança nos EUA, Europa e Oriente Médio. São oito episódios já disponíveis.

Aliás, para quem não conhece o  Prime, há ótimas séries ali. Lore, uma série de contos de terror, The Man In The High Castle, que imagina um mundo contemporâneo em  que as nazistas venceram a segunda guerra, American Gods, baseado na obra de Neil Gaiman, Electric Dreams, baseado na obra de Phillip K Dick e da qual já ouvi recomendações fabulosas, além  de séries premiadas como The Marvelous Mrs. Maisel, Mr. Robot e Mozart In The Jungle. O catálogo de filmes é variado e tem vários títulos que a Netflix não tem.

Fica a dica: sair do quadrado conhecido por todos e explorar o que a Prime da Amazon  tem a oferecer (alguns televisores já têm o aplicativo da plataforma, e se não for seu caso, há sempre a possibilidade do notebook e do cabo HDMI que o liga à televisão). 

 

BERGMAN HOJE NA CASA DE CULTURA
Nesse sábado, dia 01, tem encontro marcado para falar de cinema na Casa de Cultura Vaca Profana. “Uma Noite com Ingmar Bergman” continua as comemorações do centenário de nascimento do diretor,  falecido em 2007, que começaram com as exibições dos filmes da mostra trazida pelo SESC, que começou no dia 14 e encerrou no dia 30.

A partir das 18:30, estarei conduzindo um bate-papo sobre o estilo, os temas, a abordagem e os filmes de um dos maiores diretores da história do cinema. Indicado para quem não conhece o diretor e quer conhecer, e para quem ama Bergman e quer bater um papo sobre sua obra. O clima é informal, de roda de conversa mesmo, com exibição de imagens e cenas para ajudar na troca de ideias.




A cópia da cópia da.....

Sábado, 25/08/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

O relativo sucesso de Megatubarão, inclusive entre parte da crítica, mostra o quanto o cinema se estabeleceu como indústria de entretenimento ligeiro. O filme estrelado por Jason Statham é herdeiro direto de uma tentativa tosca de explorar o medo de uma besta dos mares usando a tecnologia 3D no longínquo ano de 1983. Oito anos antes, Steven Spielberg havia mudado o cinema americano e entregado um dos grandes filmes americanos dos últimos 50 anos com "Tubarão", e o filme  ajudou a popularizar, com outros filmes do período, o hábito das continuações (“Tubarão 2” foi lançado em 1978). No começo dos anos 80, os produtores americanos perceberam que o grande público a frequentar as salas de cinema tinha mudado de idade. Os adultos e casais de meia idade deram lugar a uma "horda" de adolescentes e crianças buscando as emoções de outros planetas, seres estranhos, muita ação e aventuras inimaginadas ao sabor de pipoca e refrigerante. O surgimento do blockbuster moderno na metade dos anos 70 encontrou no surgimento da MTV o complemento ideal para tornar a década de 80 o cenário ideal para filmes escapistas, muitos colocando os adolescentes como protagonistas. 

Nessa busca por novas emoções e atrativos ao público jovem, a técnica do filme em 3D foi retomada, mas usando uma tecnologia herdada dos anos 50, extremamente deficiente, com óculos desconfortáveis e resultados duvidosos. Nessa leva, "Tubarão 3" estreou em 1983 em 3D... e foi um imenso fracasso. Não só a tecnologia era ruim, mas o filme era MUITO ruim. No rastro do "Tubarão" de Spielberg vieram "Orca, a baleia assassina" em 1977 (uma mistura do filme de Spielberg com o clássico "Moby Dick", de Mellvile, que é até interessante em alguns aspectos) e "Piranha", de 1978 (cujo maior mérito é ter permitido o surgimento de James Cameron como diretor da horrenda continuação "Piranha 2 - Assassinas Voadoras” - sim, piranhas com asas). Aos poucos, os peixes assassinos deixaram de ser moda e passaram a surgir com menos frequência, até surgir a Asylum.....

Fundada em 1997, a Asylum é uma produtora "picareta" que fez fama lançando direto no mercado de home vídeo filmes com pouco orçamento e péssimos resultados. Na metade dos anos 2000, descobriu que poderia se dar bem aproveitando a ansiedade do público com grandes blockbusters que estavam por estrear na temporada. “Transformers" não havia estreado ainda em 2007, mas "Transmorphers", usando a mesma premissa (mas efeitos visuais milhões de dólares mais baratos) era lançado em DVD.  "10.000 DC", do diretor Rolland Emmerich, viu um concorrente chegar nas locadoras: a cópia chinfrim "100.000 DC". Até a Marvel foi alvo: quando "Thor" chegou aos cinemas, foi lançado em vídeo o risível "Almighty Thor", que parece ter sido feito nos anos 80. Os robôs de "Pacific Rim", de Guilherme Del Toro, tiveram a concorrência dos robôs de "Atlantic Rim", da Asylum.

Mas o grande achado foi a onda de filmes com monstros gigantes. Lulas, crocodilos, tubarões, cobras gigantes se enfrentando com efeitos de quinta. Mega Shark, Mecha Shark e cia. Lembrado pela série “Barrados no Baile” dos anos 90, Ian Ziering estrelou em 2013 “Sharknado”, filme sobre um tornado que, passando pelo oceano, arrastou centenas de tubarões e os fez voar sobre o continente, provocando uma matança sem limites (!!!!!!!!!!!!!!!!!). De tão tosco, fez sucesso e ganhou até continuações. A Warner provavelmente pensou nesse publico quando achou que poderia injetar dinheiro para fazer algo um pouco melhor, ainda que absurdo. Assim nasceu “The Meg” ou “Megatubarão”, em cartaz na cidade, sobre um gigantesco tubarão gigante que sobreviveu à extinção dos dinossauros e dá as caras no nosso tempo.

O mais irônico de tudo é que até mesmo o Megatubarão da Warner sofreu do mesmo mal de onde capitalizou seu público: a Asylum lançou, agora no começo do ano, “Megalodon”, sobre um.... tubarão gigante que ressurge do período cretáceo atacando no nosso tempo. Pimenta nos olhos dos outros não dói.....




Nostalgia Bergmaniana

Sábado, 18/08/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

A Mostra Bergman, que o SESC traz a Passo Fundo, segue ao longo da próxima semana. Já havia comentado na coluna do último sábado sobre os filmes da primeira semana e, também, sobre “Vergonha”, filme da mostra para a próxima terça à noite, dia 21. Além dele, apenas um filme será exibido nessa semana, e será “Na presença de um palhaço”, filme da fase “televisiva” do diretor, de 1997, que eu não vi, mas que puxa um sub-tema comum na carreira do diretor, o mundo circense das artes, já retratado em “Noites de Circo” (1953), “O Sétimo Selo” (1957) e “O Rosto” (1958). Três filmes finalizam a mostra, na última semana do mês. Como pretendo dedicar a coluna do próximo sábado a duas outras atividades que vão finalizar esse mês dedicado ao diretor em Passo Fundo, e entre esses três filmes está um dos meus favoritos, me adianto para falar um pouco deles. 

“Face a Face”, de 1976 (exibição dia 28/08, 19:30h), é um filme já rodado em uma época de problemas pessoais de Bergman, principalmente relacionados ao fisco sueco, que o levariam a abandonar o país e a filmar, nos anos seguintes, na Alemanha e nos Estados Unidos. Não é dos meus preferidos do diretor, mas tem Liv Ullman e Erland Josephson, o que já seria motivo suficiente para conferir a obra, que retrata os transtornos psicológicos de uma psiquiatra. Não fez parte da revisão que fiz neste ano, mas os diálogos crus entre Ullman e Josephson e a visão soturna da velha que assombra a perturbada psiquiatra são imagens que carrego do filme.  

O penúltimo filme da mostra é, também, um dos meus favoritos. “Fanny & Alexander” (exibição no dia 29/08, 19:30h) foi a despedida de Bergman dos cinemas (mais tarde, o diretor seguiu fazendo filmes para TV e alguns foram lançados na tela grande, mas não como intenção original do diretor). O que mais se diz sobre "Fanny & Alexander" é que a obra é uma das mais simples e acessíveis de Bergman, o que não está errado, mas por "acessível" não se pode jamais pensar em, pela ausência da complexidade no tratamento dos principais temas de sua filmografia, encontrar um filme pobre em termos de imagem e som. Destaca-se o evidente papel da cenografia e das cores, e é maravilhoso, também, como a cenografia rica é explorada tanto horizontalmente como em profundidade - e não raro, temos personagens percorrendo o espaço do fundo ao primeiro plano e vice-versa. A alternância entre os planos abertos e os closes determinam a riqueza do discurso de Bergman. Esses planos abertos expõem melhor a dinâmica dos personagens, ricos em dualidades, lembranças da infância do próprio Bergman, como aliás em todos os filmes dele.

Essa nostalgia está nas personagens, nos atos pitorescos que mais nos levam a buscar os recantos da nossa infância e na forma carinhosa como Bergman dedica longos closes em objetos que despertam a sua lembrança, mas nos atingem do lado de cá, e o realismo mágico presente pelos toques sobrenaturais ou líricos só complementam essa despedida tocante do diretor dos filmes para o cinema.

O filme que encerra a mostra, no dia 30/08 às 19:30h, é “A Hora do Lobo”, de 1967.  O que se diz é que é o único e impressionante filme de terror de Bergman. O que causa horror a diferentes pessoas normalmente tem relação com nossos próprios passados e experiências. Bergman promove em "A Hora do Lobo" uma série de digressões, experimentos e expressões de seus próprios demônios, já sem a preocupação excessiva à inquietante pergunta da primeira metade de sua filmografia (Deus existe? Por que ele não se manifesta?). 

Alternando entre o sonho e o pesadelo, a partir da visão do casal de protagonistas em uma ilha isolada, Bergman tem seu filme de perturbação (acho melhor do que filme de horror) dividido formalmente entre a delimitação dos pesadelos externos e a personificação dos horrores. Se é aceitável carimbar rótulos a partir do que o diretor mostra ("filme de horror)", inútil é querer "explicar" um de seus mais enigmáticos e interpretativos filmes, que tem ganho, com o passar dos anos, mais respeitabilidade em comparação com outras obras mais famosas.

Para além da mostra do SESC, duas outras atividades irão discutir Bergman em Passo Fundo. A gente fala sobre isso na semana que vem.






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