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Colunistas


Se é Pixar, não me importa a qualidade...

Sábado, 30/06/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Sou suspeito para falar de filmes da Pixar. Sou da geração que cresceu na fase mais medonha da história da animação, os anos 70 e 80 em que a Disney mergulhou na sua pior crise. O interessante da Disney é que, mesmo nessa fase, ela ainda era referência. Nesses anos de crise criativa, após a morte de Walt, o estúdio entregou obras como “Robin Hood”, “O Cão e a Raposa”, “Bernardo e Bianca”, “Aristogatas” e “A espada era a lei”, que quase afundou o estúdio, e viu crescer a popularidade dos mangás, com obras-primas como “Akira”, ainda hoje uma referência cyberpunk que respinga em muitos filmes contemporâneos. Na metade dos anos 80, surgiu no  Japão o Studio Ghibli de Hayao Miyazaki, que já começou colocando o pé na porta com “O castelo no céu”, “Túmulo dos Vagalumes” e “Meu vizinho Totoro” – o Ghibli ainda hoje é uma referência de animações para crianças e adultos, com temas e abordagens sensíveis, inteligentes e cativantes, muitas vezes pouco comuns, como em “Ponyo”.

Pois mesmo com essa concorrência de peso, a Disney sobreviveu à época de vacas magras e voltou com tudo quando lançou “A Pequena Sereia”, em 1989 – e principalmente quando “A Bela e a Fera” se tornou a primeira animação indicada ao Oscar de melhor filme em 1991. O padrão de qualidade, o investimento na trilha, na qualidade gráfica mas, também, nos roteiros evidenciaram a nova fase do estúdio, cujo ápice para mim sempre será “O Rei Leão”, uma animação que emula movimentos de câmera live-action em uma trama shakespeariana. Tudo sob a batuta do talento e dos traços à mão livre dos artistas do estúdio.

Por isso torci o nariz quando veio a notícia de que estava estreando nos Estados Unidos, em 1995, a primeira animação toda feita por um computador. Estamos em 1995, onde a internet discada tinha a velocidade incrível de 28kbps e não existiam comunicadores instantâneos, e vídeos na web eram com no máximo 360pixels, travando a todo instante. Computadores com placa de som e CD eram “top de linha”. O mundo era diferente. Só isso já coloca “Toy Story” como um fenômeno além do seu tempo. A surpresa foi descobrir que ali havia uma abordagem incomum – e se brinquedos ganhassem vida quando os donos não estão perto? – em um resultado formal que estava longe de parecer engessado como se esperavam. De repente, era uma história emocionante, com ritmo ágil, envolvente e personagens “humanos” além da conta.

A surpresa com “Toy Story” não foi maior do que a sucessão de obras-primas da Pixar, criadora do filme, que mais tarde seria adquirida pela Disney (se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele). E se o monstro do armário tivesse mais medo de nós do que nós dele? E se o mundo fosse habitado por carros, e não humanos? Um peixe medroso em busca do filho numa odisséia pelos mares? E um velho que decide pendurar a casa em balões para voar para longe? Nossas emoções têm personalidade? Um robô habita o planeta abandonado, há centenas de anos limpando nossa sujeira deixada para trás? Onde isso se encaixaria como animações infantis antes da Pixar? 

Minto: não são animações infantis. A Pixar produz filmes para todas as idades. Numa animação da Pixar, a ideia mais esdrúxula se revela genial pelo cuidado com os detalhes em cada história, pela criação de cada personagem, pelo tratamento maduro a conflitos e demandas que surgem na narrativa. Em um filme da Pixar, você ri (demais), você se empolga (ele não cansa), e você chora (muito). Já assisti “Toy Story 3” pelo menos 20 vezes. Me emocionei no final de todas.

“Os Incríveis 2”, que estreia nesse final de semana, também faz parte das ideias incomuns. E se heróis tivessem que viver vidas comuns? O primeiro filme faz parte daquele rol de obras-primas em sequência, o que torna provável que a experiência valha a pena. O mais importante, porém, é que isso provavelmente não vai importar muito: o valor dos desenhos da Pixar está no simples fato de ser da Pixar. Esses bastardos já fazem parte da nossa vida. A maior prova do impacto da Pixar na vida deles meu filho mais velho me deu aos 3 anos: ele colocou vários bonecos que ele tinha – e nem eram dos filmes – enfileirados e, vagarosamente, saiu da sala. Esperou alguns segundos e, quieto, espiou por trás da estante. Queria ver se eles ganhariam vida e começariam a se mexer. Ficou assim por alguns segundos, até que desistiu e resolveu ele mesmo brincar. A Pixar está com ele desde os dois anos....

Coisas assim marcam a família pra sempre, mostram o impacto desses gênios criativos e me fazem ter fé na humanidade.




Sem criatividade, sobra a referência

Sábado, 23/06/2018 às 07:30, por Fábio Rockenbach

Jurassic World – Reino Ameaçado está em cartaz nos cinemas, e tem pontos em comum com seu equivalente na primeira trilogia de Jurassic Park (1993-1996-2000). Quem dirige o filme é o talentoso J. A. Bayona, cineasta que entregou anos atrás o excelente filme de terror O Orfanato, do qual sou fã. Bayona é mais diretor do que Colin Trevorrow, diretor do primeiro Jurassic World, de 2015. Pesa para Trevorrow, um diretor insípido, o mérito de ter renovado o interesse nos dinos, e a estratégia que ele usou e abusou foi apelar para a nostalgia. A estrutura, a trilha e diversas cenas de Jurassic World fazem referência direta a Jurassic Park, de 1993, o primeiro e ainda melhor de todos, dirigido por Spielberg. Digo que Trevorrow é insípido porque ele faz uma mímese desprovida de emoção, regida pelo CGI e pelo deslumbramento visual e ritmo. Jurassic World – Reino Ameaçado, que está em cartaz em Passo Fundo, repete os erros da continuação de Jurassic Park, e até nisso parece que a série está incorporando a original. 

Em The Lost World (1996), uma equipe volta à uma segunda ilha para documentar dinossauros que sobreviveram sem auxílio dos cientistas do parque, e são surpreendidos por um time de caçadores que consegue levar um T-Rex para San Diego, na Califórnia.
No filme em cartaz, os protagonistas de Jurassic World voltam à ilha para salvar os animais sobreviventes de uma catástrofe natural, e o filme dedica toda sua segunda parte para mostrar – não vou falar mais – as consequências de tentar levar o que é selvagem por natureza para a civilização. A ideia de explorar mudanças genéticas nos dinossauros é mais uma vez explorada e o que, na primeira metade, ainda parecia ser uma divertida aventura, descamba para um filme indeciso em seus ritmo, desenvolvimento e interesse.  E novamente, surgem as referências como forma de mascarar, nos efeitos, nas explosões, nos novos dinossauros, no deslumbramento, as indecisões do roteiro. Nostalgia e referência são legais, mas querer que um filme sobreviva disso é mostrar o lado mais fraco da criatividade na indústria de hoje.
Mas não tenham medo: adolescentes e crianças malucas pelos dinos – como meu filho – vão ficar maravilhados, mas também mais assustados: é provavelmente o filme mais sombrio da série até agora.

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Para quem ama cinema, é um tempo confuso. O fim cada vez mais iminente das locadoras – algumas ótimas em Passo Fundo resistem bravamente apoiadas pela cinefilia dos clientes mais fervorosos – convive lado a lado com a ascensão do streaming e o download de filmes na internet, uma prática que é difícil de impedir. O problema é que, sem a locação, resta apenas o cardápio restrito de serviços como Netflix ou Amazon (escassos em clássicos e filmes cult) ou a ilegalidade e a menor qualidade. A solução tem sido apostar no trabalho que distribuidoras têm feito pensando nos colecionadores. Duas distribuidoras fazem a alegria dos fãs de cinema aqui no Brasil. A primeira é nacional. A Versátil (www.versatilhv.com.br/) aposta em packs reunindo a obra de diretores, movimentos ou gêneros, já pensando justamente no público colecionador. Em junho,  por exemplo, um pacote aborda os filmes sobre a Guerra do Vietnam no cinema (a primeira e a segunda guerra já foram abordados em packs lançados nos meses anteriores com filmes, inclusive, nunca lançados comercialmente no Brasil) e em um pacote com filmes menos conhecidos do diretor Richard Fleischer. Os preços são atrativos: a famosa coleção FILM NOIR da Versátil, traz em cada pacote 6 clássicos, ao preço de R$ 79,00. Filmes cultuados também podem ser adquiridos pelo site, alguns inéditos no Brasil. “A Paixão de Ana”, do mestre Bergman, que completaria  100 anos em Julho,  pode ser adquirido por R$22,00, inclusive contando com registros de making off.

A segunda opção é internacional, a aclamada CRITERION COLLECTION (www.criterion.com) que há mais de uma década é especializada em restaurar e relançar clássicos do cinema em novas versões impecáveis.  Para setembro, a Criterion já anunciou o relançamento de ANDREY RUBLEV, clássico em P&B de Andrei Tarkovski, com versão restaurada, A FONTE DA DONZELA, de Bergman, DRAGON INN, do mestre wuxia King Hu, cineasta pouco conhecido no Brasil mas que influenciou o cinema de artes marciais a partir dos anos 60, e um que fez meus olhos brilharem: a versão restaurada digitalmente de EL SUR, de 1983, meu filme preferido do espanhol Victor Erice, diretor de poucas obras, mas contribuição marcante na história do cinema espanhol (seu filme mais famoso é O ESPÍRITO DA COLMÉIA, de 1973). Os filmes da Criterion têm preços mais salgados, mas para quem é colecionador, vale a pena ficar de olho nos sites para guardar seu dinheirinho e investir na própria estante. 

 




Rat Pack Feminino

Sábado, 09/06/2018 às 07:30, por Fábio Rockenbach

Estreia nas duas redes de Passo Fundo "Oito Mulheres e um Segredo", que traz um ótimo elenco feminino - Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham-Carter - liderado por Sandra Bullock. O longa de Gary Ross é uma versão conduzida por mulheres de "Onze Homens e um Segredo", filme de 1960 que foi refilmado no começo dos anos 2000 com o mesmo título e com elenco encabeçado por George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon (e que teve, por sua vez, duas continuações). O filme original surgiu a partir da afinidade do elenco, que tem Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr., entre outros. Eles faziam parte do "Rat Pack", grupo de artistas e atores que apareceram juntos em filmes e em apresentações nos palcos durante aquela década, principalmente na primeira metade dos anos 1960. Mesmo conhecido por ser um grupo masculino, mulheres como Shirley MacLaine, Lauren Bacall e Judy Garland também frequentavam as apresentações do bando. Nos anos 60, a ligação entre Martin e Sinatra era a "cola" do grupo, assim como nos três filmes dos anos 2000, foi a amizade dentro e fora das telas entre Clooney, Pitt e Damon que ajudaram a trama a, de certa forma, reproduzir a química entre os amigos na vida real. O filme de Ross junta as mulheres em torno de Bullock sem esses ingredientes extra-produção, mas, convenhamos, o grupo de atrizes tem reputação suficiente para justificar o ingresso, ainda mais em uma trama de golpe - quem, afinal, não gosta das reviravoltas desse tipo de história? (a melhor de todas ainda é "Golpe de Mestre", de 1973)

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TÚNEL DO TEMPO - HISTÓRIA DO CINEMA

Há quarenta anos os quadrinhos começaram a ganhar respeitabilidade quando a Warner apostou alto em uma adaptação de SUPERMAN para os cinemas. Aliás, apostou alto é pouco: pagou uma fortuna para Marlon Brando fazer uma pequena aparição no começo do filme e trouxe Gene Hackman para encarnar o vilão Lex Luthor, além de promover uma busca insana pelo desconhecido (o diretor Richard Donner não queria um rosto famoso no papel para facilitar a identificação com o personagem, e não com outros papéis famosos) que acabou sendo Christopher Reeve. Com a frase promocional "Você vai acreditar que o homem pode voar" o filme foi a maior bilheteria do ano e mostrou que, mesmo com o bom humor de vários arcos no roteiro, os heróis podiam ganhar um tratamento sério no cinema. O filme teve uma boa continuação e outras duas patéticas, com cada vez menos orçamento, mas permanece clássico: a primeira aparição do Super-homem salvando Lois Lane da queda de um prédio e segurando com outra mão um helicóptero se tornou uma espécie de be-a-bá para filmes que vieram depois (O Spiderman de Sam Raimi, filmado em 2002, segue a receita do início ao fim). Demoraria mais de uma década para surgir um novo filme de herói com a mesma recepção e tratamento, o Batman, de Tim Burton, lançado em 1989, que finalmente iniciaria a série de boas adaptações que estourariam de vez nos anos 2000 até virarem a febre de hoje. 

O pai de todos esses filmes, no entanto, ainda é o quarentão Superman de 1978...

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Se liguem fãs de blockbusters: "JURASSIC WORLD - Reino Ameaçado" tem estreia prometida, pelo menos na rede Arcoplex, na próxima quinta-feira (versão 3D e dublado).




Arte x Diversão

Sábado, 02/06/2018 às 10:00, por Fábio Rockenbach

Cinema, afinal, é arte?
Faz mais de um século que um teórico colocou em palavras a afirmação que sim,  ele é arte.  Em 1912, um manifesto assinado por um italiano chamado Riccioto Canudo deu ao cinema a alcunha de sétima arte. Não há como afirmar que uma arte é melhor ou maior, mas o cinema é seguramente a mais abrangente de todas as artes – afinal, ele agrega tudo o que há nas demais. Em um filme, há elementos da poesia, da música, da arquitetura, da escultura, da pintura. Até por isso, quem estuda cinema aprende desde cedo que ele é composto por elementos chamados não-específicos (que vem dessas artes) e específicos, que nasceram com ele.

Mas ele é respeitado como arte?
Não.
Tem uma história que eu sempre uso quando falo sobre isso escrito por uma teória americana famosa, Kristin Thompson, que ilustra o quanto o cinema é desconsiderado como arte séria, e visto apenas como um entretenimento sem maiores implicações. Thompson diz que costuma ser abordada constantemente por pessoas que pedem a ela indicações de cânones cinematográficos, filmes que qualquer pessoa precisa conhecer. Ela, via de regra, costuma indicar sempre o mesmo filme: A Grande Ilusão, um filme anti-bélico dirigido  por Jean Renoir (filho do famoso pintor) em 1937, constantemente presente na lista dos mais importantes filmes de todos os tempos.

A reação à indicação de Thompson costuma ser a mesma. As pessoas dão de ombros, surpresas com a indicação, e ela costuma ouvir sempre a mesma frase.

- Ah, não conheço não. Nunca ouvi falar.
(hoje seria comum  ouvir o complemente “Tem na Netflix?)

Thompson argumenta que foi a partir de sua experiência que se deu conta de como as pessoas pouco se importam com o cinema de forma séria, porque, se alguém reagisse dessa forma a um cânone literário (A Odisséia, Dom Casmurro...), musical (Mozart, Bach, Beethoven...), da arquitetura (o Partenon...) ou da pintura (a Mona Lisa, o Grito de Munch, a Ronda Noturna, de Rembrandt) a reação geral seria de inconformidade. Aliás, as pessoas teriam vergonha de afirmar não conhecer algum cânone de outras artes porque elas são, com  frequência, vistas com mais respeito e seriedade.

Já no cinema, ninguém tem vergonha de não conhecer a obra de Renoir, ou os filmes de Lang, Murnau, Welles, Sjostrom, Satyajit Ray, Mizoguchi ou Ozu. É na falta dessa vergonha em admitir ignorância que Thompson enxerga um sintoma de como o cinema, como arte, ainda está muito atrás das demais, algo que dificulta muito a que dêem a pessoas como ela, teórica e estudiosa, também, um respeito pela importância de seu trabalho.

O pior, para a Thompson, é saber que a tendência é de ampliar ainda mais essa distância que separa o hábito do reconhecimento, uma vez que, cada vez mais, as novas gerações vão misturar a palavra cinema à palavra entretenimento – e dá pra acrescentar que não é preciso separar elas, já que é possível se divertir muito com a ideia de que há arte envolvida no processo, vide os games, que têm sido incluídos por vários teóricos como uma nova arte. Já noto isso quando alguns alunos me observam ser difícil de ver filmes mais antigos porque tem um “ritmo diferente, parece que nada acontece”. O filme preto e branco, então, é simplesmente ignorado. Aquilo não pode ser sério....

Te cuida, Thompson, a coisa anda feia pro teu (nosso) lado....

 ***

Nunca vou ser uma Thompson, mas os alunos gostam de saber sobre as séries que eu indico na Netflix. O papo costuma dar boas risadas. Não suportei ver La Casa del Papel (um novelão), assim como não suportei a segunda temporada de 13 Reasons Why ou a primeira de 3% ou Altered Carbon.
Mas achei promissora a nova versão de “Perdidos no Espaço”, indico demais “Manhunter: Unabomber”, uma série muito semelhante à famosa “Mindhunter” (mas melhor, inclusive em linguagem audiovisual), comecei deslumbrado a ver “Better Call Saul” e acho “American Crime Story” (a primeira temporada) uma das melhores dos últimos anos. Sigo “Designated Survivor” como um guilty pleasure, uma série que começou bem e se tornou chavão. Mas não indico mais porque, sinceramente, prefiro assistir, no tempo de dois episódios, a um bom filme.
Ah, e eles não estão na NETFLIX... 

 




Meio século de um filme que não envelhece

Sábado, 26/05/2018 às 06:30, por Fábio Rockenbach

2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, completa em 2018 meio século do seu lançamento. É um filme dicotômico: difícil encontrar alguém que fique indiferente. Normalmente, ou ele seduz o espectador que passa a idolatrá-lo como uma obra superior, ou desperta ódio pelo seu ritmo, incongruente com o público acostumado ao ritmo mais ágil quase obrigatório do cinema mainstream contemporâneo. 

A aura que paira em torno de “2001” não sobrevive apenas pelas suas qualidades audiovisuais. Alguns filmes na história do cinema conseguem suplantar o status de simples obra audiovisual, principalmente pelo seu potencial de questionar o espectador, independente do seu tempo. Bergman, Kubrick e Tarkovsky são alguns diretores que conservam em sua filmografia esse aspecto bem particular.  O filme de Kubrick está ali, encravado no passado, mas parece constantemente apontar para um futuro ainda não alcançado, ao mesmo tempo que nos questiona do nosso lugar no universo. O ano que data o filme tornou-se passado, o homem não vive em estações orbitais, não tem tecnologia para fazer vôos tripulados à Júpiter. Mesmo assim – e considerando que muito do que é visto no filme já se tornou realidade – “2001” não envelheceu. O que sobrevive, mais do que título ou previsões, é seu conceito, e ele não vai deixar de fazer sentido jamais, porque não se propõe a fornecer respostas. “2001” foi feito para gerar perguntas, não para fornecer respostas. Uma ideia que casa com um dos muitos conceitos da crítica e da teoria cinematográfica, que reza que ela não deve trazer explicações, mas suscitar questionamentos constantes em torno da obra e do ato de interpretá-la.

“2001” é a obra de um artista tão seguro de si que se permitiu o luxo de não abrir nenhuma brecha em sua linha narrativa com o intuito de agradar ou conquistar o público. Obra e filme, se nasceram juntas a partir de um mesmo processo criativo, explicitam o fato de pertencerem a pais diferentes. O escritor Arthur Clarke deu à sua obra um sentido visionário, quase profético. Já Kubrick, que a filmou ao mesmo tempo que Clarke a escrevia conjuntamente, fez de “2001” um exercício visual muito particular. Meticuloso. Enigmático. Crítico. E silencioso (menos de 2/3 do filme contém algum diálogo).

Sutilmente, Kubrick expõe a insignificância do homem através da sua relação com o novo ambiente, o espaço. Ao atravessar as fronteiras de seu pequeno planeta, o homem perde o controle das suas ferramentas (a caneta que voa na gravidade zero), regride até tornar-se quase um bebê, que precisa aprender a andar de novo (lentamente, e com ajuda de botas especiais) e precisa ajuda até para respirar. No paralelo com o homem pré-histórico, que assim como o astronauta quer sempre tocar o desconhecido, uma pergunta: depois de milhares de anos, será que realmente evoluímos?  O uso das cores também tem seu sutil significado: o vermelho representa o perigo, a ameaça – presente nos avisos das telas e no frio e insensível olho eletrônico de Hal – enquanto o azul do planeta representa a esperança, o futuro (maximizado na cena final). E tão importante quanto o jogo visual, a trilha sonora de temas clássicos complementa a narrativa, denotando evolução e ritmo em uma valsa de Strauss ou a pompa e a circunstância em uma peça sinfônica do mesmo compositor (Also Sprach Zarathustra)

A tecnologia, um dos dois grandes alvos do “discurso” de Kubrick – o outro é a já dita relação entre o homem e o universo - é ao mesmo tempo a grande conquista e a grande vilã. E a ironia suprema é verificar que, de todos os personagens, é a máquina o único ser a esboçar algum tipo de emoção, a fugir da lógica fria dos números e o pensamento racional. Não é à toa que, no momento em que começa a “morrer”, HAL começa a cantar “Daisy” como se fosse uma criança, contrapondo aos personagens humanos que não demonstram uma só emoção durante o filme, seja nas cenas de perigo ou de tensão. O quase romantismo presente no último ato que vem logo depois, e sua visão poética dessa relação entre homem e universo, até contrasta com a frieza racional do segundo e terceiro atos, mas é perfeitamente justificável porque Kubrick e Clarke também querem dizer que, apesar de pequeno, o homem tem, sim, importância. E esse constante questionamento do seu lugar minúsculo no universo é um dos grandes legados de um dos maiores filmes da história.




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