PUBLICIDADE

Colunistas


Variedade?

Sábado, 19/05/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Vamos falar de variedade? Há quatro salas de cinema em Passo Fundo. As quatro estão ocupadas com apenas dois filmes. Ao todo, são 14 horários diferentes disponíveis nos dois cinemas. Os 14 horários divididos entre "Vingadores - Guerra Infinita" e "Deadpool 2", a estreia da semana. Eu até gostaria de tecer alguma crítica sobre isso buscando variedade, mas a verdade é que, em um mês como esse, infelizmente, os estúdios evitam estrear seus filmes junto com esses arrasa-quarteirões, e seguir contra a corrente é pedir aos exibidores que percam dinheiro. Uma tristeza para quem busca variedade de opções. 

***

A 20th Century Fox divulgou o primeiro trailer da cinebiografia de Freddie Mercury, um filme que surge com cara de decepção após uma expectativa nas alturas no início da produção. Inicialmente, Sacha Baron Cohen seria o intérprete de Mercury em uma escolha que beirava a perfeição, mas tudo começou a parecer estranho quando Cohen foi desligado da produção por achar que o filme deveria também enfocar a morte do astro e suas causas. O guitarrista e fundador do Queen, Brian May, seria o responsável pela opinião contrária à de Cohen. May estaria optando por resguardar a imagem de Mercury evitando discussões sobre sua bissexualidade e sua morte por Aids. Em dezembro do ano passado, o diretor Bryan Singer, nome de peso na condução do filme, teria sido desligado por desavenças com o ator Rami Malek, que substituiu Cohen. O trailer exibido na semana que passou indica dois temores dos fãs do Queen: o tom condescendente, já que “aparenta” ter suavizado a personalidade de Mercury, e o incômodo causado com a figura de Malek como Mercury: o ótimo ator de Mr. Robot é baixo e magro demais e a maquiagem não conseguiu tirar a atenção causada pelo aspecto mais chamativo do rosto do ator, os seus olhos. O filme, que ganhou o título “Bohemian Rhapsody”, estreia em dezembro e a torcida é para que o trailer seja, afinal, apenas uma impressão.

***

Correção à coluna da última semana: não pertencem à Marvel as primeiras colocações na lista de maiores bilheterias da história. Os três primeiros filmes ainda são "Avatar", "Titanic" e "Star Wars VII - O Despertar da Força". "Os Vingadores" é "apenas" o quarto maior da história, seguido de perto pelos outros filmes citados no texto.

***

O cinema brasileiro perdeu um de seus grandes na semana que passou. Roberto Farias morreu de câncer na última segunda-feira aos 86 anos. Os mais novos - e os nem tão novos - provavelmente não têm a mínima ideia de quem seja Faris, diretor que ficou popular dirigindo as 3 aventuras de Roberto Carlos no cinema - sim, o "rei" estrelou filmes de sucesso nos anos 70 e, acredite, boas aventuras. Foi gestor da Embracine e do Concine no período em que o cinema brasileiro mais teve público, nos anos 70, desafiou a ditadura em 1981 ao lançar "Pra Frente Brasil", mas seu grande momento no cinema foi mesmo à frente de um dos grandes filmes da história do cinema nacional, "O Assalto ao Trem Pagador", de 1962, ano de ouro na história do cinema nacional - quando "O Pagador de Promessas" foi lançado e ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O falecido diretor era irmão do ator Reginaldo Faria, que inclusive estrela o filme e também marcou o cinema brasileiro nos anos 70 ao atuar em outras obras memoráveis, como "Lúcio Flávio - Passageiro da Agonia".

***

Aos fãs de Star Wars, a rede Arcoplex anuncia no seu sistema de programação a estreia do filme em Passo Fundo na próxima quinta, dia 24. A má notícia é que será uma versão em 3D e dublada.




À prova de falhas

Sábado, 12/05/2018 às 07:45, por Fábio Rockenbach

VINGADORES – Guerra Infinita é o representante máximo de um produto típico dos nossos tempos: o fenômeno antecipado. Desde o instante em que o filme foi anunciado, os produtores já sabiam que, não importa o quanto gastassem, nem a qualidade do filme, ele não apenas se pagaria como, desde então, corria “o risco” de se tornar a maior bilheteria de todos os tempos.  Goste ou não da onda de filmes baseados em super-heróis que tomou o cinema norte-americano (e por consequência a cultura pop no mundo tudo), a Marvel está colhendo, hoje, os frutos plantados há uma década, quando lançou “Homem de Ferro” e, instaurando a moda das cenas pós-créditos, deu início a um processo meticulosamente calculado. Foram 19 filmes interligados, estabelecendo relações e criando, praticamente, a mesma metodologia das HQs, já há muito tempo, e o modo de pensar de um seriado, em que os fatos de um episódio são influenciados pelos anteriores. O que está em exibição hoje nos dois cinemas de Passo Fundo, mais do que um filme, é a parte 20 de um longo filme, como se fosse o clímax de uma minisérie MUITO longa.

Vingadores: Guerra Infinita se tornou o filme mais rápido a atingir a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria, tendo atingido o feito em pouco mais de uma semana em cartaz. Ao todo, o estúdio tem 15 bilhões em bilheteria e o seu filme mais recente, ainda com um bom tempo de carreira, está próximo de desbancar os únicos três filmes da história com mais bilheteria: Pantera Negra e os outros dois Vingadores. O quinto da lista é “Homem de Ferro 3” (um dos piores filmes da Marvel, o que prova que a fórmula já é à prova de fracassos, o que também é terrível). Ou seja: as cinco maiores bilheterias de todos os tempos são filmes do universo cinematográfico Marvel.

Alguma dúvida de que a continuação, que deve sair ano que vem, vai desbancar todos? E alguém ainda pensa em debater o cinema como entretenimento ou como arte? O debate poderia ser longo, mas tudo hoje parece reduzido ao campo da imersão total – nos games, no cinema e em outras mídias, numa receita retroalimentada pelos próprios filmes e pela mídia indireta dos youtubers. Particularmente, o único motivo de isso não me alarmar mais é o fato de que esse sucesso absurdo ajuda as produtoras a bancarem filmes menores sem risco, o que permite, do outro lado, o surgimento de novos diretores e boas surpresas que, mesmo eclipsadas nos espaços do circuito, não prejudicam tanto as produtoras por conta do imenso sucesso do outro lado.

Sobre o filme, muitos pontos positivos dentro da expectativa de uma obra com tantos personagens, ainda que a urgência motive a transformar todos em pequenas peças em uma máquina muito grande. Mas os irmãos Russo, diretores do filme, mostram que são habilidosos em costurar de forma coerente essas muitas linhas narrativas. Mas, me incomoda demais que a receita do sucesso da Marvel seja a total descaracterização dos filmes, todos embolados num mesmo padrão visual e narrativo que não permite que nenhum deles tenha personalidade própria. O excesso de piadinhas em momentos inoportunos, apenas porque o público fiel aos filmes gosta e pede por isso, é o maior exemplo de como o cinema cedeu lugar ao lucro absurdo e ao entretenimento puro. Prova maior é que o que mais se discute sobre a obra não são suas características como cinema, mas fatos da HISTÓRIA do filme, teorias sobre o que virá ou coisas que aconteceram, independente de como tenham sido mostradas. O cinema, aqui, está em último lugar: importa ver o que acontece, e não como isso acontece. 

A receita da Marvel foi um produto de consumo à prova de falhas – algo que a DC ainda busca sem saber como fazer, mas cujo sucesso reside no cuidado na construção dos personagens. GUERRA INFINITA foi feito para ser consumido, não avaliado. E nisso, ele é à prova de críticas – até porque diverte muito. O hype para o próximo ano inteiro está garantido.




Crise de saberes

Sábado, 28/04/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Não é difícil, hoje, produzir conteúdo. Se há alguns anos ter um blog era o ápice do processo de produção de conteúdo, hoje dificilmente alguém opta pela escrita: o vídeo é mais direto, atrai mais interesse, é menos trabalhoso para consumir, e qualquer um com um bom celular pode fazer. Grande parte da audiência de canais no YouTube é composta por gente jovem, para quem infelizmente é sempre melhor assistir à opinião de alguém sobre algo do que ler essa mesma opinião. O problema é que a facilidade em produzir conteúdo em vídeo diminui, de certa forma, a noção de responsabilidade sobre esse conteúdo.

Boa parte de quem decide criar um canal no YouTube escolhe falar de cinema, séries, games ou música. O motivo é simples: são mídias fáceis de consumir, o que faz com que todo mundo ache que entende muito sobre elas. Como muitos deles dizem, que basta ver muitos filmes para poder falar sobre filmes. E aí surgem as bobagens. A velha frase: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

Meu interesse são os canais sobre cinema. Acompanho muitos, a maioria de fora do Brasil produzindo vídeo-ensaios. Aqui no Brasil, muito poucos, porque a maioria é composta de gente que replica as mesmas informações, mas pouco se aprofunda na área da qual falam, e muitos, inclusive, optam pelo humor e efeitos engraçadinhos nos vídeos para conquistar um público que está mais interessado na cobertura doce do que no recheio do bolo.

 O correto seria que comunicadores dotados do poder de atingir tanta gente tivessem um compromisso com esse público, mas o problema é que o nível dos seguidores se nivela ao dos próprios youtubers. E no processo, além das famigeradas Fake News, surge a disseminação de conhecimentos errados. Se de um lado as notícias falsas impregnam a rede, de outro a informação enciclopédica começa a se perder. A internet é uma bênção e uma praga.

Na semana que passou a comunidade de críticos e profissionais de cinema reverberou um vídeo conjunto feito por dois youtubers. Nenhum dos dois com formação na área, mas ambos se dizendo críticos de cinema. Empolgados, eles cunharam um novo termo para a série de bons filmes de terror que têm surgido nos últimos anos, o “meta-terror”. Identificam como “novidades” o grande número de temas adjacentes ao terror, ao fato de o filme não querer dar sustos, aos temas sociais abordados, a questões técnicas envolvendo o som, ao fato de serem dirigidos por jovens talentosos. Se mostraram realmente empolgados pelas suas “descobertas”.

O problema é que as “novidades” detectadas pelos dois existem desde os anos 30. Passaram e foram desenvolvidas por diretores como Tourneur, Lang, Carpenter, Polanski, Craven, Bava, Mizoguchi. Vem se repetindo nos anos 50, 70, 90. Tudo o que eles apontam como revolucionário vem se repetindo ciclicamente no gênero desde o começo do cinema. Está longe de ser uma novidade, mas eles, que pouco conhecem da história, do passado do cinema, ou que se formam vendo filmes dos anos 2000 em diante, não conseguiram perceber isso.

O problema, que o vídeo deixou claro, é o lapso de conhecimento de uma geração de produtores de conteúdo que tem acesso aos meios, mas cuja formação se dá em cima de uma parcela muito pequena do conhecimento. Gente que busca informação na internet, mas não se debruça sobre livros, que não assiste outros cinemas, que não renova suas preferências, e que inacreditavelmente acha que, mesmo com tão pouca bagagem, podem ser referências. E o pior, hoje, é que eles, realmente, se tornam referências, tanto quanto para muitos Netflix é referência em cinema. 

***

O novo Vingadores é tema para a semana que vem!!




O adeus ao 3D? (Já vai tarde)

Sábado, 21/04/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Há alguns anos, quando a primeira sala 3D foi inaugurada em Passo Fundo, fui convidado por O Nacional para dar um depoimento sobre o formato. Provavelmente não fui a melhor opção porque na época já mostrava o quanto ele me desagradava. Comentei, na ocasião, que o 3D estava sendo valorizado demais. Poucos cineastas faziam ideia de como usar o formato, e a quantidade enorme de filmes sendo convertidos para 3D depois de lançados mostrava o quanto a indústria do cinema via a tecnologia apenas como um enfeite de bolo. Pior: o público, entorpecido pela novidade, comprava a ideia e pagava mais caro.

Pior, ainda, é o fato de o 3D ser uma distração: elementos importantes da linguagem cinematográfica poderiam se perder – para que o 3D funcione, é preciso que haja uma grande profundidade de campo, ou seja, quando tudo que aparece no plano esteja em foco, principalmente o fundo. Cenas em que haja pouca profundidade – com desfoque atrás dos personagens no primeiro plano – são inúteis em termos de 3D. Adaptar um filme pronto a ele, portanto, é saber que muitas partes do filme simplesmente não mudarão. Scorsese, em A Invenção de Hugo Cabret e Alfonso Cuarón, em Gravidade, são dois dos raros diretores que pensaram nisso ao filmar já pensando no 3D – e por isso seus filmes são considerados modelos, junto com Avatar, de Cameron (que também comete pecados com a profundidade de campo).

De minha parte, sempre fui contra, também, pelo desconforto, pela dor de cabeça - principalmente com legendas - o que também fez aumentar a oferta de filmes dublados para se adequarem melhor ao formato, ou seja, um duplo prejuízo - pelos óculos ruins e, no caso local, por deixar mais escura ainda a projeção. Ah, claro, e pelo preço.

A novidade (boa), publicada nessa semana num dos principais blogs de mercado de home video do Brasil, o blog do Judão, é a constatação de que os filmes 3D estão indo para o buraco. O CEO da IMAX Entertainment, Greg Foster, afirmou recentemente que a demanda por filmes 2D está começando a ultrapassar a de 3D nos EUA, menos filmes são feitos no formato e os lucros com ele diminuem - nos últimos dois anos, ele caiu quase 20%.  TVs com tecnologia 3D estão deixando de ser produzidas como eram na febre do formato. Não significa que de uma hora para outra os filmes no formato deixarão de ser oferecidos por aqui, principalmente depois do investimento em salas equipadas para o formato – obviamente que o Brasil demora a assimilar o comportamento do restante do mundo. Aqui, como se ninguém olhasse para a tendência externa, as salas aumentaram de 2016 para cá, apesar dos problemas de qualidade do serviço e do preço. Porém, só de antever um cenário que dê preferência ao velho, bom e salutar 2D, que permite ver com clareza cada aspecto da produção – e não apenas “sentir” e “reagir” – minha fé em retomar com mais frequência a visita às salas aumenta. 

***

Para quem anda decepcionado – como comentei na semana passada – com os rumos de The Walking Dead e seu ritmo arrastado há três temporadas, a boa notícia é que, surpreendentemente, a nova temporada de Fear The Walking Dead começou MUITO boa.

***

Na semana que vem, se tudo der certo, é hora de reservar espaço apenas pra diversão e agendar a ida ao cinema para assistir a Vingadores - Guerra Infinita. Se adiante ou se prepare para as filas. A pedida é mesmo, assim que for confirmada a programação, tentar antecipar a compra.




Tolkien vs Asimov

Sábado, 14/04/2018 às 07:45, por Fábio Rockenbach

Matéria na semana passada em um jornal da capital sobre o fechamento de uma cadeia de locadoras – e infelizmente tem gente que nunca entrou em uma na nova geração – aponta para o que parece ser o futuro estabelecido do serviço de consumo de filmes: o streaming. Saem de cena os relacionamentos, os papos de balcão,  as indicações... entram em cenas algoritmos feitos para limitar o acesso do público àquilo que a empresa quer. Tenho opiniões contrárias e favoráveis ao streaming – a maior crítica que faço é quanto ao serviço estar matando a boa cinefilia, ao concentrar na oferta e na facilidade de acesso ao cliente uma quase totalidade de filmes novos, matando a história do cinema no processo e mudando até o conceito do que é “bom” ou “ruim”. Muita gente vendo filmes significa muita gente opinando sobre filmes e os indicando a outros, mas educar-se cinematograficamente em uma Netflix significa também ter muito pouco parâmetro de comparação para saber o que é bom ou mau audiovisual.
A indicação do futuro vai se comprovando a cada semana. Veio também com dois anúncios recentes: o primeiro é que a adaptação de O Senhor dos Anéis para um seriado, que está em fase de pré-produção pela Amazon para seu serviço de streaming Primevideo, teve seu orçamento ampliado de 500 milhões para 1 bilhão de dólares (e já com 5 temporadas garantidas). O medo aqui é pela participação de Peter Jackson, depois do atentado cometido por ele na trilogia O Hobbit, que é descartável. Jackson criou uma obra-prima na adaptação de O Senhor dos Anéis para as telas, mas seria interessante ver uma visão diferente desse universo na nova série.
O outro anúncio foi feito pela Apple, que vai lançar um serviço próprio de streaming para competir com a Netflix e a Amazon: a trilogia de livros de ficção Fundação, de Isaac Asimov, vai se tornar uma série para TV. Um dos pilares da moderna literatura de ficção científica, Fundação foi publicado em três livros lançados no começo dos anos 50 e ainda são referência. A Apple apenas anunciou o início do projeto, mas não o início das filmagens.
Vem briga grande entre os serviços do streaming por aí.

***

O público que vai aos cinemas ver um filme de Dwayne Johnson sabe o que vai encontrar: testosterona pura ou ação com humor. Às vezes divertido, como no recente Jumanji: De Volta à Selva, às vezes horrível, como no descartável Terremoto - A Falha de San Andreas. Espere um personagem heróico e tiradas engraçadinhas em momentos inoportunos, a solução que 11 entre 10 roteiristas de ação  encontram para inserir humor em um monte de explosões e cortes rápidos. A boa novidade é que Rampage - Destruição Total tem surpreendido parte da crítica - enquanto a outra parte diz ser mais do mesmo, vai entender - por conseguir trabalhar o estereótipo do personagem em um tipo de história que é feita para ver na tela grande: experimentos do governo transformando animais em monstros gigantes. Claro que eles acabam na cidade e provocam destruição. Se há um lugar para ver esse tipo de filme, é na tela grande - até a diversão fica menor preso à televisão. Rampage tem cópias dubladas e legendadas no Centerplex. 

***

Alguém mais também está com a paciência se esgotando com The Walking Dead?






PUBLICIDADE