PUBLICIDADE

Colunistas


De onde menos se espera...

Sábado, 07/04/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Jordan Peele construiu carreira nos Estados Unidos participando de filmes de comédia tolos, filmes infantis e séries de TV humorísticas, mas surpreendeu meio mundo (ou mais) quando assinou Corra! no ano passado. Peele roteirizou e dirigiu um dos filmes mais elogiados do ano e se tornou o primeiro diretor a ser indicado ao Oscar já em seu primeiro filme. Ninguém esperava tanto talento num gênero sem nenhuma relação com o trabalho de Peele.
John Krasinski agora é o nome da vez. Krasinski é mais conhecido por papéis em séries de TV e como coadjuvante de alguns dramas e filmes de ação. Pois ele dirige aquele que vem sendo considerado um dos melhores filmes de terror/suspense (seu filme é difícil de definir) dos últimos tempos. Em Um Lugar Silencioso, temos uma família (o próprio Krasinski, ao lado de Emily Blunt e duas crianças) que precisam viver isoladas no meio rural e em completo silêncio, pois estão cercadas de criaturas assassinas que se orientam pelo som.
Krasinski é elogiado pelo trabalho de direção e parece ter tido competência de explorar o que o roteiro melhor oferece: um plot baseado em um elemento que reverbera nas escolhas técnicas. Ao ter como elemento central do seu filme de terror a necessidade de silêncio, tem um prato cheio para desenvolver um trabalho de som que ajuda na narrativa e oferece possibilidades imensas de construir tensão apoiando as imagens. Mais do que isso: a própria ideia de que não pode haver barulho já antecipa na plateia o medo e o suspense pela simples possibilidade de acontecer qualquer coisa, antes que elas aconteçam.
O filme é a estreia da semana na sala 1 do Centerplex Bourbon, com opções dublada e legendada.

***

PARA ESPERAR EM BLURAY: “Deixa a luz do sol entrar”, da diretora francesa Claire Dennis, vem arrebatando a crítica internacional e brasileira, e ainda tem a sempre maravilhosa Juliette Binoche no elenco. Como é quase certo que esse tipo de produção não é exibida em Passo Fundo, aguarde chegar nas plataformas ou no home cinema.

***

A Netflix segue ampliando na sua grade suas produções originais – e se alguém não percebeu, a empresa tem feito isso para garantir o próprio futuro, já que as produtoras cujos filmes são exibidos no serviço já perceberam que ela se tornou, mais do que aliada, uma concorrente. Só que se a Netflix continuar lançando bombas como The Titan, que estreou na semana passada, vai dar com a cara na parede. A premissa até é interessante – em vez de adaptar um planeta à raça humana, tentar adaptar o ser humano às condições da lua de Saturno que a NASA pretende colonizar para a humanidade sobreviver à destruição da Terra. A premissa para, no entanto, na ideia interessante e depois se torna um típico filme onde um experimento genético dá errado e cria um monstro. Pálido como filme, patético como construção de tensão, falho no desenvolvimento, é uma tremenda bola fora.

***

Tem sessão aberta neste domingo na Casa de Cultura Vaca Profana. O documentário “O Pasquim – a subversão do humor” será exibido na Casa a partir das 17h30min com entrada franca. Na trajetória do Pasquim – que teve no passo-fundense Tarso de Castro um de seus expoentes -, fundado em 1969, no auge da ditadura militar, surgem nomes como os de Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Marta Alencar, Miguel Paiva, Claudius, Sérgio Augusto, Reinaldo e Hubert, Angeli, Chico Caruso, Washington Olivetto e Zélio – e todos com seu espaço no documentário. A Casa fica na rua Paissandu, 180, uma quadra abaixo do Hospital da Cidade. É só chegar!




E a Netflix não vai "sentar à mesa"...

Sábado, 31/03/2018 às 09:00, por Fábio Rockenbach

A Netflix parece aquele convidado deslumbrado que quer sentar à mesa mas se nega a usar talheres e prefere usar só as mãos. Se nega a se dobrar às regras. Adorou o tapete vermelho de Cannes, mas a partir de agora, só poderá exibir filmes no festival francês fora da mostra competitiva. Todas as competições e mostras cinematográficas exigem que seus competidores sejam exibidos nos cinemas para concorrer a prêmios, mas a Netflix se recusa a exibir seus filmes fora do seu serviço de streaming.  Como resultado, o júri oficial do evento baniu a empresa da competição. Na semana passada, Steven Spielberg já havia manifestado a mesma opinião sobre a Netflix e o Oscar. "Se você produz para um formato de televisão, é um filme de TV", contou a agência ITV. “Se for bom, certamente merece um Emmy, mas não um Oscar. Eu não acredito que filmes que se qualificaram simbolicamente sendo exibidos por menos de uma semana na telona devam concorrer ao Oscar.” O debate em torno da empresa, inclusive, tem se alongado em torno de outros fatores, como a ausência de títulos clássicos e o tratamento desleixado dado a produções premiadas adquiridas pela empresa.
Não que a Netflix não produza material de qualidade: várias de suas séries e filmes são ótimos – alguns, como o recente Aniquilação e vários documentários, são provocadores – mas a quantidade de produções de qualidade duvidosa têm tomado a grade do serviço em detrimento da variedade de opções que ele detinha há alguns anos. Agora é esperar para ver se a empresa vai mudar suas regras para “entrar” no mundo das competições ou se vai optar por, quem sabe, boicotar os filmes de quem a tem criticado.

***

Para quem já foi o “Peter Pan” do cinema, Steven Spielberg andava devendo. O diretor de Indiana Jones, Jurassic Park e produtor de marcos da geração jovem dos anos 80 como Goonies  Gremlins e De Volta para o Futuro há anos derrapa quando investe no público adolescente. Sua adaptação de TinTim para as gelas decepcionou muita gente, o quarto Indiana Jones é o mais fraco da série e “O Bom Gigante Amigo” é um de seus piores filmes. A julgar pela recepção, a grande estreia deste fim de semana em Passo Fundo está se saindo bem melhor. “Jogador Nº 1”  (14:15 e 21:15 na sala 1 do Centerplex Bourbon) vem sendo saudado como o retorno do diretor aos seus momentos mais inspirados. Apesar das ressalvas ao excesso de CGI, é difícil pensar que o livro de Ernest Cline ganharia as telas de outra forma. O sucesso da obra, que traz um futuro em que as pessoas imergem em um mundo digital para fugir do cotidiano opressor, reflete também o tempo em que ela é adaptada,  mais até do que quando foi escrita (o livro é de 2011).  Em tempo: sem cabines de imprensa longe das capitais, ainda é difícil alguma opinião mais concreta sobre o filme, apenas sua recepção.
Já no Arcoplex, TODAS AS SESSÕES serão tomadas pela cinebiografia de Edir Macedo – ou seja, sem espaço a outras opções para o público. Como o assunto  aqui é cinema, prefiro focar a atenção na obra de Spielberg...

****

Aliás, sem contar a opção única do Bella Cittá, que é nacional, a ordem aqui continua sendo filmes dublados – inclusive no filme de Spielberg. A única opção legendada é a fraca continuação de Círculo de Fogo no Centerplex. Para quem acha que a dublagem deturpa todo o trabalho de som e interpretação originais, uma decepção.




House of Cards

Quinta-Feira, 19/03/2015 às 12:00, por Fábio Rockenbach

Serviços como o Netflix parecem se sustentar, hoje, como a mais provável direção a ser tomada por empresas distribuidoras de audiovisual. O padrão da TV Paga, se era inovador há 10 anos, hoje é insifuciente pela fome do público de ir além das já saturadas opções que elas oferecem. Há poucos dias, o Netflix liberou a seus anunciantes um dos melhores – senão o melhor – filme de 2014, “O Abutre”, antes de qualquer outro serviço. Se por um lado o cardápio de opções, apesar de vasto em séries, ainda é restrito em filmes, principalmente cults, clássicos e opções menos óbvias, é um serviço promissor por um preço tão baixo.

Outro exemplo do potencial do serviço está em “House of Cards”. Poderia ser só na série, mas está na proposta com que o Netflix inovou ao lançar a primeira temporada, três anos atrás. Nada de esperar semana após semana para o próximo capítulo: a temporada inteira é liberada de uma vez. Assista tudo em dois dias, num feriado ou fim de semana, ou assista quando puder, mas não seja mais refém do que o CEO da empresa  chamou de “administração da ansiedade”. Nada, aliás, que muitos já não façam: há quem prefira esperar os últimos episódios de uma temporada para ver uma após o outro os episódios de sua série favorita.

No caso de “House of Cards”, há outros méritos para a ousadia do Netflix em investir em produções próprias: é uma das séries mais ricas em termos visuais e sonoras. Se a história, seus personagens e tramas são envolventes, a forma como essa trama é passada ao espectador coloca a série ao lado de outras precursoras como Breaking Bad e Sopranos, e de ótimas séries contemporâneas, como The Knick, True Detective e Penny Dreadful, como uma das melhores já feitas para TV. Se há episódios que ficam apenas no “correto”, há pelo menos 3 ou 4 episódios ao longo de cada temporada que, isolados, se revelam preciosidades audiovisuais. A forma como o enquadramento expressa relações de poder, como a centralização é usada para comentar o estado de espírito de seus personagens, como o som é utilizado de forma sutil na montagem alternada e para ligar fragmentos separados de história, ampliando seu ritmo, ou como a profundidade de campo se torna mais do que um mero recurso para nos fazer prestar atenção em nosso confidente, Underwood, também podem ser explicados pela presença de gente consagrada atrás das câmeras. David Fincher deixou sua marca na primeira temporada. Joel Schumacher – vá lá, nem tão consagrado assim, autor de filmes bons e bombas monumentais – e a veterana Agniezka Holland (nessa terceira temporada) comprovam que, definitivamente, a TV deixou de ser destino dos banidos e passou a se tornar um paraíso aos profissionais do cinema.

***
Programações do Ponto de Cinema sendo definidas – e provavelmente anunciadas nos próximos dias. O que dá para adiantar é que, entre cursos rápidos, mostras, ciclos, exibições livres e eventos, haverá acesso a clássicos, grandes diretores e debates sobre cinema para quem quiser na região. Não haverá desculpa, portanto. Uma das iniciativas é dedicas um mês a um grande diretor com exibição de filmes e debates em torno de sua obra, com acesso gratuito. Nomes como Orson Welles (100 anos de nascimento), Alain Resnais e Mike Nichols (falecidos ano passado) e Woody Allen (que completa 80 anos) estão na pauta do projeto para 2015. Fiquem de olho.




O velho está de volta

Quinta-Feira, 12/03/2015 às 11:00, por Fábio Rockenbach

Poucos diretores, hoje, me fazem aguardar com ansiedade cada novo filme. Posso citar David Fincher, um diretor genial cujo brilhantismo da forma como trabalha com o audiovisual  o público pode não perceber, mas que de forma geral todos acabam reconhecendo. Scorsese, o maior gênio vivo do cinema. Paul Thomas Anderson, um cineasta viciado em certas soluções visuais, mas ainda assim muito acima da média. E, claro, há Clint Eastwood, que eu carinhosamente chamo de “o velho”. E o velho há muito tempo é um dos grandes diretores do cinema norte-americano. Exibe certa inconstância, alternando obras-primas como “As Pontes de Madison”, “Gran Torino” e “Sobre Meninos e Lobos” com filmes “normais”. Mesmo os normais, no entanto, costumam ser superiores a maior parte da filmografia inteira de outros diretores. O grande mérito do velho é sua sutileza. Seus filmes são produções em que todos os esforços se movem na construção de uma mensagem que nunca é aquela mais básica, a que todos esperam ou a que todos vêem.

O que nos leva a “Sniper Americano”. Se fosse colocar o filme nessa divisão simples de sua obra, estaria perdido no meio. Não é uma das suas obras mais marcantes, mas está longe de ser comum. E é impressionante como tanta gente criticou o filme por vender a figura do herói americano que matou centenas de pessoas e exibe esse dado com orgulho. Abrem a voz para dizer o quanto Clint está sendo Clint – o cowboy ou policial machão que o eternizaram como ator. Mas parece não terem visto o filme. Vejo “Sniper Americano” como um tapa na cara da hipocrisia norte-americana em louvar seus cowboys modernos como heróis sem verem o mal que esses personagens fazem a si próprios. O protagonista do filme é tratado como lenda, mas sofre de constantes conflitos acerca do que faz para viver e com sua família. Não é propriamente um retrato otimista feito de quem se notabilizou por apertar o gatilho. É justamente quando expõe essa face mais humana e as consequências do trabalho que Clint se iguala a seus grandes momentos no cinema. Há uma cena em que o protagonista mata um soldado inimigo de muito longe e a câmera segue a trajetória da bala mas, no momento em que o inimigo é realmente atingido, opta por não mostrar isso de perto. Vemos de longe, como costuma ver o soldado, indiferente a quem mata. Por outro lado, nos aproxima nos momentos em que o dedo coça no gatilho com mais dor: quando temos crianças na alça de mira. E aí temos um dos melhores momentos do filme, intensificado pelo som surdo e incômodo da trilha sonora. O trabalho de som, aliás, é fabuloso no filme, seja para nos inserir na ação ou para nos manter nela mesmo longe: quando nosso protagonista está em casa em frente à TV e parece estar assistindo a um filme de guerra, mas descobrimos que a TV está desligada e todos os sons estão na sua cabeça.

Os problemas de “Sniper Americano” – seu ritmo inconstante e a sensação de que não se chega a lugar algum – são suplantados pelos méritos que carrega nesses pequenos momentos. Uma pena que na web o que  mais se tenha mencionado é o bebê de brinquedo que ninguém consegue deixar de notar em uma sequência de diálogo. O filme do velho é muito mais do que isso.




Selma e Griffith

Quinta-Feira, 05/03/2015 às 10:00, por Fábio Rockenbach

Impossível não acompanhar a cerimônia do Oscar deste ano sem comparar com a cerimônia anterior, marcada pela forte presença de temas referentes ao racismo e ao preconceito, que premiou “12 anos de escravidão”. Neste ano, muitos criticaram a ausência de atores e diretores negros entre os principais indicados – como se fosse obrigatória que essa margem fosse preenchida todos os anos, independente da qualidade. “Selma”, de Ava DuVernay, estava lá concorrendo a melhor filme, e a apenas mais um prêmio, o de melhor canção (que merecidamente ganhou. “Glory” é uma música formidável). A ausência de outras indicações deixa transparecer que o filme foi indicado mais para constar da lista final e amaciar as críticas do que por méritos. “Selma” é um bom filme, e apenas isso. DuVernay, que poderia ser a primeira diretora negra indicada ao Oscar, não estava concorrendo simplesmente porque... não foi melhor que os outros indicados. É competente – quero ver seus próximos filmes - mas ao mesmo tempo em que demonstra talento na construção de sentido em uma linguagem de enquadramentos incomuns (os personagens continuamente dão as costas ao cenário e aparecem apertados no quadro) também tenta criar sentidos de maneiras que não convencem. “Garota Exemplar” e “O Abutre” mereciam muito mais estar entre os oito. “Selma” concorreu porque sua história é extremamente relevante e pelo legado histórico que deixa, exato meio século depois dos acontecimentos que mostra.

Lembrei de “Selma” porque, em 2015, lembramos do centenário de um filme igualmente importante e polêmico. “O nascimento de uma nação” convive, há 100 anos, com uma mescla de sentimentos. Por um lado é lembrado como, talvez, o filme mais racista da história, uma celebração da Ku Klux Klan como fiel depositária dos valores caucasianos da pura sociedade norte-americana. Por outro lado, é também fiel depositário de uma série de recursos de linguagem cinematográfica que justificam porque seu diretor, D. W. Griffith, é considerado o “pai da moderna linguagem cinematográfica”. Está quase tudo ali: princípios de montagem invisível, narrativa, escala de planos, interpretação. Tal história nem seria filmada hoje, seu roteiro não teria aprovação de nenhum estúdio. É um lixo em termos de conteúdo, e um tesouro em termos de forma e significado histórico. Comemorar os cem anos do filme não deve ser comparado a comemorar o que ele retrata em sua narrativa, portanto, mas conheço gente que não suporta olhar para o filme, nem mesmo com a curiosidade de um historiador.

***
Liam Neeson que me perdoe, mas é hora de deixar Bryan Mills finalmente descansar. O personagem principal da série “Busca Implacável” não emplaca mais. “Busca Implacável 3” mostra que a fórmula esgotou. Não basta a história, chupada de “O Fugitivo” (aquele filme em que Harrison Ford interpreta o Dr. Kimble, que é acusado de um crime e precisa fugir enquanto tenta provar sua inocência) a edição deste terceiro filme é um tapa na cara. Nos momentos de ação extrema, temos quatro, cinco cortes em menos de um segundo, com enquadramentos mal escolhidos que só conseguem deixar uma sensação incômoda de tontura em vez de passar a ideia de urgência. Deixem Bryan descansar, já passou da hora.

***
A partir desta semana, a coluna, que se chamava Cinefilia, passa a adotar o nome do projeto Ponto de Cinema, que em breve deve divulgar suas atividades para 2015. Já adianto que teremos cursos de compreensão e discussão do cinema, convidados, palestras e mostras com exibições gratuitas direcionadas a grandes clássicos, temas e diretores em praticamente todas as semanas. O Museu de Artes Visuais Ruth Schneider deve ser um dos parceiros nessa empreitada, para que essas mostras sejam acessíveis aos amantes do cinema todos os finais de semana – além, claro, da parceria do jornal O Nacional. Mais notícias em breve.

 




PUBLICIDADE


PUBLICIDADE