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Colunistas


Falem mal, mas falem de mim

Sábado, 13/12/2014 às 16:40, por Fábio Rockenbach

O mais marqueteiro dos diretores do cinema anunciou, semana passada, que não sabe se voltará a dirigir. Lars Von Trier confessou que, para conseguir escrever seus roteiros, precisa estar bêbado. Assim mesmo. Confessou que “Dogville”, sob efeito do álcool e drogas, foi escrito em 12 dias, enquanto “Ninfomaníaca”, completamente sóbrio, demorou oito meses para ser escrito. Quem me conhece sabe que nunca gostei do diretor desde o início da carreira – quando soltou um manifesto chamado “Dogma 95”, deu o que falar no mundo do cinema e no filme seguinte já abandonou completamente seu grande “manifesto”. Acho que Von Trier não tem estilo, e busca sempre polemizar para ser notícia, inclusive nos temas de seus filmes. Já disse, certa vez, que “Bergman foi uma grande inspiração. Não sei como, mas me inspirou muito.” (sic). Não é de impressionar, para mim, que o diretor, portanto, não consiga pensar em nada quando não está sob efeito do álcool. Não que seus filmes, escritos enquanto bêbado, signifiquem muito para mim também. O que ele quer, no fundo, é o que estamos fazendo aqui: que falemos dele. Não importa como. O que vale é ser notícia.

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Enfim, a estreia do último filme da trilogia “O Hobbit”. Sempre achei desnecessária a divisão do pequeno livro infantil em 3 partes – obviamente uma cartada mercadológica, para aproveitar a imensa legião de fãs que correm aos cinemas a cada menção de uma adaptação da obra de Tolkien. Gosto muito da trilogia original, assim como dos livros. E acho que a adaptação de “O Hobbit” está bem aquém do que Tolkien fez na adaptação de “O Senhor dos Anéis”. Um exagero no uso do CGI incomoda, e cenas visivelmente espichadas para dar conta de 9 horas de filme tornam a narrativa arrastada, e o ritmo, inconstante. Nada que mude a ideia dos estúdios de, sempre ganhar mais dinheiro – basta ver as últimas partes de várias séries, como Harry Potter, Crepúsculo e Jogos Vorazes (não por coincidência, séries escritas e transpostas para o público adolescente).

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Faltaria uma grande obra para Jackson: a adaptação de “O Silmarillion”, espécie de “velho testamento” da Terra Média de Tolkien. É um livro difícil, composto de uma narração indireta que coloca, às vezes, em uma página, eventos que ocupariam vários minutos em uma adaptação. Os fãs sonham com uma série de TV milionária, ao estilo “Game of Thrones”. Jackson deu pistas de que continuará envolvido com o universo de Tolkien, dependendo apenas de um acordo com a família de Tolkien. O mesmo papo já ouvido nas duas outras adaptações. Artisticamente, não seria bom para o diretor envolvimento direto em mais uma adaptação do escritor, mas não é de duvidar que Jackson assuma a produção. A TV já mostrou que tem condições de abraçar esse desafio e, convenhamos, de uma forma muito mais saudável do que no cinema.

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Saiu o primeiro trailer de “Terminator – Genisys”, quinto filme da franquia “Exterminador do Futuro”. Com Arnold Schwarzenegger. E com uma sensação, para mim, de que algo não funcionou. De qualquer forma, não deve chegar aos pés do segundo filme, esse sim uma das maiores ficções científicas da história do cinema.




Preparem as pipocas

Sábado, 29/11/2014 às 15:00, por Fábio Rockenbach

Fãs do cinema pipoca tiveram uma semana e tanto. Viram, também, uma inovação do marketing desses tempos: tivemos na semana passada um teaser de um trailer. O teaser é aquele trailer que mostra pouca coisa, de um minuto ou menos, que faz o primeiro lançamento de algum filme, muitos meses antes. Ele atiça o público, provoca curiosidade e ansiedade – algum tempo depois, é lançado o primeiro trailer, aí sim, com mais cenas, mais tempo, uma construção que permita entender a trama e o filme em si. Na semana passada, tivemos o teaser do novo trailer de Jurassic Park.
Sim: uma spécie de spot de TV, mas feito para a internet, que avisava que o primeiro trailer do quarto filme da sére Jurassic Park seria lançado dentro de alguns dias.
Se isso não for retrato da ansiedade exagera dos tempos modernos, não sei como conceituar.

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É em torno da dupla que mudou o cinemão pipoca, aliás, que circulam as duas notícias da semana: o primeiro, já disse acima, é a divulgação do primeiro trailer de “Jurassic World”. Fez bem à série os quase 14 anos desde o lançamento do terceiro filme, que não é todo esse fiasco que muita gente defende, mas que mostrava uma certa falta de direção ou de novas opções narrativas à série, que nasceu com um dos últimos representantes do autêntico filme-evento do cinema norte-americano. “Jurassic Park”, o de 1993, é um membro daquele grupo de filmes que surgiu no fim dos anos 70 e inundou os anos 80, arrastando adolescentes aos cinemas. O arrastão ainda acontece, mas muito da aura mágica presente em filmes como “Jurassic Park” perdeu espaço. Era um filme que atraia por si próprio, pelos envolvidos, sem depender de um sucesso anterior em outra plataforma, como na literatura, ainda que fosse baseado em um livro de sucesso. O livro de Michael Crichton não foi um fenômeno como as séries juvenis literárias que impulsionam novos fenômenos de bilheteria. “Jurassic Park” é uma obra-prima do entretenimento. O novo filme, assinado pelo ilustre desconhecido Collin Trevorrow, tem produção de Spielberg e investe pesado na ambientação de “filme catástrofe”, povoando a ilha onde os dinos se tornam atração turística. É sucesso certo para 2015.

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Mas o grande momento da semana foi o primeiro trailer – está mais para teaser – do novo Star Wars, o sétimo episódio da saga. Aqui ainda não saiu uma tradução oficial, mas deve se chamar “O Despertar da Força”. Feliz dos fãs que George Lucas vendeu os direitos à Disney. Lucas fez um pecado à série em sua nova trilogia, lançada entre 1999 e 2005 – filmes inodoros, artificiais e com péssimas interpretações. Ele nunca soube dirigir atores. A primeira providência do diretor J.J. Abrams foi a de abandonar o excesso de chroma key e efeitos e usar cenários reais e maquetes. O resultado parece ser um filme totalmente diferente e um resgate da nostalgia da trilogia clássica. A nova geração e os nerds da geração anos 70 e 80 agradecem. O trailer, sozinho, é mais realista do que toda a nova trilogia. Sem falar que Lucas tem os méritos por criar o universo Star Wars, mas nunca foi um bom diretor: sua criatividade no controle da câmera se perdeu com o tempo e virou burocracia. Que sua criação sobreviva nas mãos de um diretor competente. Star Wars merece muito!




Adeus Big Mike

Sábado, 22/11/2014 às 18:01, por Fábio Rockenbach

O cinema perdeu nessa semana o diretor Mike Nichols.

Mike quem?

O espectador pouco afeito a conhecer os nomes envolvidos nas produções pode não lembrar deNichols, mas o cineasta, nascido na Alemanha em 1931, é nome importantíssimo na renovação do cinema norte-americana iniciada na metade dos anos 60. Mesmo não sendo membro costumeiramente citado da nova geração de cineastas que transformou o cinema nos anos 70, é um dos responsáveis pelos pontapés iniciais de uma transformação nesse cinema até então acostumado a um classicismo que, no começo dos anos 60, começava a parecer excessivamente artificial e inodoro. “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, seu primeiro chute na porta da sociedade americana, trazia um estupendo casal (Elizabeth Taylor eRichard Burton) se destrindo em uma relação visceral acostumada de perto por sua câmera inquieta, numa sufocante fotografia em preto e branco. Adaptado de uma peça teatral, Nichols manteve muito do espírito de uma peça de teatro em uma transposição que envolve e transforma o espectador de perto. Seu filme seguinte, “A primeira noite de um homem” terminou de quebrar as portas que trancavam a sociedade em um mundo de faz de conta ancorado nos clássicos do passado. Escancara a hipocrisia de supostas relações familiares perfeitas e a indecisão da juventude do país quanto aos rumos de seu futuro – e iniciava a carreira de um novato chamado Dustin Hoffman, além de fundamentar na cultura popular a trilha sonora de Simon e Garfunkel. “Ardil 22”, crítica sarcástica à guerra, acabaria fracassando em uma época em que outro cineasta, Robert Altman, desferia um petardo direto no mesmo tema com um filme chamado “MASH”.

Os cidadãos excluídos da ordem social normal, deixados de lado, esquecidos, diminuídos, foram sua grande fonte de inspiração. Nos anos 80, uma série de filmes com esses personagens trágicos marcou sua filmografia, de “Silkwood” e “A difícil arte de amar” e “Uma Secretária de Futuro”, um de seus grandes sucessos e figurinha fácil na sessão da tarde dos anos 90. De certa forma, Nichols perdeu um pouco de sua direção à medida que o tempo passou – nos anos 90, refilmou “A gaiola das loucas” com sucesso e distribuiu sua visão do mundo político com a comédia (“Segredos do Poder”, uma crítica irônica a Bill Clinton) e o drama (“Jogos do Poder”, com Tom Hanks). Seu grande sucesso viria em 2004, quando praticamente atualizou sua visão de relacionamento de seu filme de estreia, em 66, voltando seu olhar para os relacionamentos modernos em “Closer – Perto Demais”, talvez seu melhor filme desde os anos 60. Nada mais coerente, por praticamente encerrar sua carreira coroando um tema que ajudou a cria-la na época em que o cinema americano mais precisava de pessoas com a coragem que ele demonstrou.

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Interestelar” está em cartaz nos cinemas de Passo Fundo. Uma única sessão, às 21 horas.

Comento o filme depois que ele chegar às locadoras ou quando conseguir viajar à capital. Assistir ao filme de Nolan em cópia DUBLADA não me serve, e não há outra opção. De novo.




Algumas respostas sobre o circuito de exibição

Sábado, 27/09/2014 às 17:40, por Fábio Rockenbach

De um lado, são reveladoras as respostas dadas por Mario Pintado, diretor da rede de cinemas Arcoplex, à jornalista SammaraGarbelotto, editora do Segundo ON, e compartilhadas com este colunista nesta semana. As principais dúvidas expostas a Pintado nos questionamentos encaminhados a ele dizem respeito à quantidade de filmes dublados, recentemente, no circuito de Passo Fundo, e ao atraso de alguns filmes, que chegam a Passo Fundo com várias semanas – no caso do oscarizado 12 anos de escravidão, com 3 meses de atraso.

O principal aspecto abordado pelo diretor da rede diz respeito à questões técnicas e financeiras. Mais especificamente, à ascensão do formato digital e a necessidade de adequação das salas para que elas possam comportar esse novo formato. O filme em 35 mm, de película, que por décadas correspondeu ao único padrão disponível para exibição, ainda é majoritário, principalmente nos cinemas do interior. Uma das grandes vantagens do formato digital é que ele permite que a mesma cópia do arquivo tenha versões dubladas e legendadas, e permite à empresa escolher qual versão exibir e em quais horários. “Quando o filme é 35mm temos poucas cópias legendadas, então não temos muita escolha, mais onde já temos salas Digitais exibimos as duas versões.” explica Pintado.

É uma explicação convincente. Mas, se a pouca disponibilidade de cópias legendadas e a crescente necessidade de mudança – dispendiosa, do ponto de vista financeiro - do formato 35mm para o digital explica a ausência de cópias legendadas nesse formato – a questão do custo dessas cópias, isoladamente, não foi abordada na resposta – algumas questões ainda não estão claras. Por exemplo, a opção pelo dublado tambémse baseia segundo o diretor, pelo perfil do público de cada cinema. Ele emenda afirmando que hoje o filme dublado corresponde por 70% dos frequentadores que vão aos cinemas, mas esse dado, como muitas pesquisas quantitativas, avaliam apenas números de um questionário e não contextualizações, meios sociais e mesmo o tamanho das cidades. Já o atraso se explica pela grande procura que determinados filmes demonstram em diversas praças – mas não se explica porque Passo Fundo acaba ficando no final dessa fila de cidades da rede. Aliás, seria interessante, até para nossa auto-crítica, termos números comparativos relacionados à presença do público nos cinemas de Passo Fundo e outras cidades.

A grande questão, mesmo, parece estar na necessidade de modernização das salas de forma a permitir a exibição de qualquer uma das versões. Mesmo assim, qual critério a empresa usará para optar pelo filme dublado ou legendado? A faixa etária? A “pesquisa” que indica maioria absoluta de público preferindo o filme dublado? Por que, então, é tão difícil, em certos círculos de espectadores, encontrar gente que prefira o filme dublado?  E, num típico questionamento de pesquisa, e sem abordar a qualidade dos filmes do circuito (que deixa de fora filmes elogiados, mas que não correspondem ao padrão buscado pelo grande público), as pessoas estariam indo menos ao cinema porque o cinema, como entretenimento, “acomodou-se” e não busca novas formas de cativar seu público, ou o cinema não busca investir em inovação porque não tem público? O ato de ir ao cinema hoje se resume a comprar ingressos, pegar pipoca, refrigerante, sentar e assistir ao filme. Fora o espetáculo audiovisual, não seria possível nenhum tipo de interação, novidade, promoção ou atividade que pudesse ampliar essa experiência?




Livrai-nos do mal

Segunda-Feira, 08/09/2014 às 16:54, por Fábio Rockenbach

Alguns gêneros do cinema fazem ciclos ao longo da história. O cinema de horror nasceu ancorado na forte religiosidade da sociedade do começo do século XX, e inspirado pelo horror gótico da literatura. Atravessou por um tempo em que o medo saiu do terreno religioso e abordou o medo que vem de fora – o alienígena – e assumiu que o maior horror pode não ser sequer espiritual, mas bem humano ( os assassinos seriais, os psicopatas, os torturadores, o ser humano em sua pior forma). Temas transversais sempre coexistiram com as ideias principais de cada tempo desse ciclo. Ultimamente, o sobrenatural tem se sobressaído no gênero, e não especificamente por algum fervor religiosos, mas porque o medo do desconhecido ainda é um dos maiores combustíveis desse gênero. Temos hoje o ciclo de zumbis e possessões. “Livrai-nos do mal”, em cartaz em Passo Fundo, é mais um da safra de filmes do estilo que têm chegado todos os anos aos cinemas. Susto, todos eles conseguem oferecer. O que diferencia alguns filmes, como “Invocação do Mal”, de James Wang, dos filmes comuns é a capacidade de construir esse susto de forma constante e suas características estéticas. Não assisti a “Livrai-nos do Mal”, que tem um ator que não me convence (Eric Bana), mas se seguir pelo mesmo caminho de “Anabelle”, vai oferecer sustos, mas no fim não vai conseguir alcançar aquele nível extra que diferencia os filmes competentes em reações dos filmes realmente diferenciados. Besteira falar do que ainda não se viu, mas ando meio descrente de encontrar algo realmente inovador ou competente no gênero como um todo – o filme de Wang, de dois anos atrás, foi uma grande surpresa.

BOYHOOD
Um filme gravado ao longo de 12 anos, acompanhando o desenvolvimento de um garoto da infância à adolescência. “Boyhood” , de Richard Linklater, é magistral pela forma como escapa das armadilhas de se render a formulismos e construir, no fim, uma obra acima de tudo humana. Não existem dramas maiores do que a própria vida. Espero que o filme encontre espaço no circuito de Passo Fundo.

RESUMÃO DE SÉRIES
Z NATION – é engraçado e divertido, no início, acompanhar a série zumbi da produtora Asylum, mas a graça começa a perder espaço para a precariedade do roteiro e a tentativa de emular situações dos filmes da produtora (como o tornado zumbi ou o tsunami zumbi) e a série começa a ficar cansativa.
FLASH – torço para que os produtores fujam do esquema de criar uma série em episódios isolados que se resolvem neles mesmos e não façam os episódios fazerem jus ao personagem também na condução da história. Tudo se resolve muito rápido (que ironia), personagens mudam de ideia em alguns segundos, soluções mágicas surgem na mente dos personagens instantaneamente.
GOTHAM – uma surpresa para quem esperava uma versão DC de “Smallville”. Não há pressa em desenvolver os personagens, e a série não encerra-se dentro de episódios isolados, mas vai desenvolvendo-se de um episódio a outro.




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