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Colunistas


Rock e Cinema

Sábado, 05/07/2014 às 19:46, por Fábio Rockenbach

Rock combina com audiovisual. Não foi o cinema ou a TV que ajudaram a consolidar o rock, ele não precisou de nenhum tipo de ajuda para se tornar parte essencial da história cultural da humanidade da metade do século passado em diante, mas o audiovisual casou bem demais com ele. Basta lembrar os áureos tempos da MTV – em um tempo em que o som alto nos carros era de rock, e não de outras “coisas” que se parecem com tudo menos música. Quando não havia Youtube, downloads fáceis e centrais de entretenimento digital numa tela poucas polegadas em qualquer celular, o lançamento de clipes novos de algumas bandas era um acontecimento. A MTV era um templo adorado. Alguns clipes, ligados a lançamentos dos cinemas, tornavam-se sucessos tão grandes quanto muitos filmes. Por exemplo, o frenesi em torno do lançamento do clipe de “YouCouldbe Mine”, do GunsN’Roses, ajudou a alavancar ainda mais o hype em cima de “O Exterminador do Futuro 2”, de James Cameron.

Não deveria ser difícil, então, elencar algumas aproximações entre o rock e o cinema ao longo dessas cerca de 70 anos. A tarefa acabou sendo árdua, no entanto, mais pelo grande número de títulos.

Depende muito, também, da geração. Quem for da geração dos anos 70 e 80, vai lembrar, nesse caso, de Tommy,a opera-rock do The Who, dirigida por Ken Russell, ou das incursões dos Beatles no cinema, em YellowSubmarine e no (para mim) bem melhor Os Reis do Iê-Iê-Iê (talvez porque o quarteto em carne e osso seja melhor sempre). Eu não esqueço, mesmo, de “The Wall”, onde o Pink Floyd construiu visualmente um universo metafórico poderoso até hoje (e provavelmente continuará sendo pelos próximos 50 anos).

Para os fãs de Quase Famosos (e eu sou um deles), a saga do aspirante a jornalista William Miller acompanhando a fictícia banda Stillwatter em turnê pelos Estados Unidos, há um similar menos “comportado” em 1984, “ThisisSpinalTap”, que também acompanha uma banda fictícia em turnê pela América. Mas Quase Famosos foi feita numa época onde a nostalgia fala mais alto que a rebeldia – pouco importa a qualidade do que a Stillwater toca, e mais a ligação sentimental que o filme estabelece com o mundo do rock, seus bastidores e quem verdadeiramente faz sua magia: os fãs do rock.

Se a ideia é falar de fãs, nada melhor para o número cada vez maior de amantes do vinil do que ter na estante, guardado, a adaptação para os cinemas do livro de Nick Hornby, “Alta Fidelidade”. Qual desses amantes do rock não gostaria de trabalhar, um dia, numa loja como aquela em que Rob Gordon (John Cusack) trabalha? E quem, afinal, não gosta de fazer – no rock ou no cinema – suas “listinhas” de melhores de todos os tempos?

O cinema já viu o cenário grunge de Seattle, em efervescência nos anos 90, em “Vida de Solteiro”, e a febre dos efêmeros grupos de um só sucesso dos anos 60, em “The Wonders”. Já acompanhou ascensão e queda de ídolos, como em “The Doors”, e mesmo a história de ídolos pouco conhecidos, como em “Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool”, um dos melhores do cinema até hoje a falar sobre os Beatles. Já viu até o rock salvar filmes, como em “Escola do Rock”, onde o melhor do filme é mesmo as sequências em que Jack Black homenageia clássicos do rock, principalmente do AC-DC (e o clássico organograma de épocas e estilos de rock desenhado no quadro é a melhor coisa do filme). A MTV pode ter acabado, sub-cantores podem querer até destruir a essência (como a pavorosa “adaptação” de “AnotherBrick in the Wall” para o sertanejo universitário) mas a grande riqueza do rock é que os clássicos, passados 70, 50 ou 30 anos, permanecem influentes e sempre atuais. Inclusive no cinema...




O que dizer do tempo?

Sábado, 07/06/2014 às 15:25, por Fábio Rockenbach

Bill Murray interpreta um jornalista pedante, mal-educado, cansado da profissão e de pouco trato com as pessoas, que vai com seu cinegrafista e sua produtora a uma pequena cidade do interior dos EUA para cobrir o “Dia da Marmota” - em que uma marmota “fala” ao ouvido de um homem como será o inverno: um dia que resume tudo o que ele mais abomina na profissão em uma cidade que reúne o tipo de pessoa que ele mais detesta. Porém, uma nevasca o impede de ir embora e ele é obrigado a dormir na cidade. No outro dia, para sua surpresa, ele acorda... no dia anterior, e todos agem como se fosse, ainda o “Dia da Marmota”. A cada manhã, ele se descobre preso no tempo vivenciando sempre os mesmos acontecimentos, os mesmos eventos, encontrando as mesmas pessoas, que dizem e fazem as mesmas coisas. A sinopse do genial “Feitiço do Tempo”, do falecido diretor Harold Ramis só está aqui porque lembrei imediatamente do filme – uma das grandes comédias do cinema de sempre – quando estreou, por aqui, “No Limite do Amanhã”. Não vi ainda o filme de Tom Cruise, em que um homem se vê preso no dia de sua morte, revivendo-a sucessivamente, mas acho pouco provável que seja tão genial quanto o filme de Ramis. Mas, apesar de estar saturado com as receitas prontas do cinemão americano – e de decidir dar um tempo nas idas ao cinema por causa disso – torço para que o filme seja bom, porque a temática me atrai. É um estilo de trama que funcionou bem, também, em “Contra o Tempo”, com JakeGyllenhall. “Questão de Tempo”, filme emocionante que esteve não faz muito tempo em cartaz, também comenta sobre as consequências de reviver certos atos. Que tipo de questionamento trará o filme de Cruise? (e ele traz algum?)

 

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Me dei conta de que comentei, já, brevemente, sobre o bom “Capitão América” e o divertido, mas inconstante, “X-men”, ainda em cartaz em Passo Fundo, mas não havia falado ainda nada sobre a continuação do reboot do “Homem-Aranha”. No filme anterior, já havia visto algumas características melhores do que nos filmes de Sam Raimi, mas o todo da obra ainda é inferior à primeira trilogia, aquela com Tobey Maguire, que se preocupava menos com a verossimilhança e mais com a diversão. Aqui, parece ser o contrário: uma preocupação excessiva com a verossimilhança e menos com a diversão. Achei um filme fraco, principalmente porque, quando tenta divertir com seus personagens, beira o clima “camp” dos filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher nos anos 90 (e o pobre Jamie Foxx, aqui, tem um dos momentos mais constrangedores da carreira com seu personagem). Se Marc Webb não tomar cuidado, vai transformar o homem-aranha em uma piada, ainda que, debaixo da máscara, o herói aqui seja mais bem humorado do que foi Maguire no cinema. Mas os dois primeiros filmes de Sam Raimi foram bem melhores que esses novos. Talvez, em 2018, eles reiniciem tudo de novo para consertar...

 

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Melhor do que ir ao cinema é sintonizar na TV a cabo no final de semana. Quem tem TCM, tem a chance de ouvir Dean Martin cantando “My Rifle, MyPonyand Me” no fabuloso “Onde Começa o Inferno”, western essencial do mestre Howard Hawks, ou, no Telecine Cult, rever a visão de Stanley Kubrick para o épico hollywoodiano em “Spartacus”,único filme em que o mítico diretor “se vendeu” ao sistema, mas ainda assim, entregando uma obra de várias camadas, que percorre um caminho diferente de outros épicos históricos da sua época. Ambos os filmes valem a pena.

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Sim, “A Culpa é das Estrelas” chega aos cinemas de Passo Fundo apenas em cópias dubladas. Se você quiser ter a chance de ver filmes com seu áudio original – e o áudio original faz parte tanto da composição do ator como do trabalho de mixagem de som cuidadosamente planejado por meses em um filme – é melhor esperar pelo DVD. Está difícil ver uma obra como ela foi planejada nos cinemas daqui...

 




Nos cinemas e em DVD também!

Sábado, 31/05/2014 às 10:03, por Fábio Rockenbach

Alguém tem alguma explicação lógica, razoável, minimamente aceitável, para que os cinemas de Passo Fundo exibam, neste final de semana, “12 anos de escravidão”?
Pergunto porque o filme já está disponível em DVD.
E estreou nos cinemas do Brasil há três meses atrás...

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Me abstenho de fazer a mesma pergunta quanto à única cópia de Malévola, inclusive aquela exibida às 21:30, ser dublada, porque ver o filme legendado é uma preferência pessoal, mas também não havia sequer a opção de ver X-Men – Dias de um Futuro Esquecido em uma versão com legendas sem o famigerado 3D - são faltas de opção que podem afastar uma parcela do público das salas.

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Aliás, sobre o novo X-Men, que assisti em 3D, me parece um filme de ritmo frenético – tão frenético que opta por ter um roteiro quase autofágico, que devora a si mesmo e prefere correr com elementos importantes que justificam a trama, para que assim o público não pense muito. É irônico que seja justamente o roteiro o ponto fraco da nova aventura, já que as aventuras dos mutantes são das melhores adaptações que o cinema já fez dos quadrinhos. É um filme divertido, que deve muito da ligação do público à força de sua trilha sonora e o carisma dos personagens, mas com uma história que se fragiliza aos poucos. A primeira metade é a melhor. Na segunda, há sequências cuja existência só se justificam pela exibição meio vaidosa do poder dos efeitos visuais. Mas diverte. Pena que o 3D mascara muito do trabalho de direção de arte em prol de uma profundidade que não acrescenta em quase nada à experiência de ver o filme. Sou um crítico do 3D, apesar de reconhecer que em determinados filmes, como Avatar e A Invenção de Hugo Cabret, ele se torne um personagem à parte. Não é o caso aqui, onde é mero artifício vazio.

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A cena mais famosa de “12 anos de escravidão” é um plano-sequência de imagens fortes, envolvendo a oscarizada Lupita Nyong’o, Michael Fassbender e um chicote, mas se há cena que resume o sentimento do filme, é uma sequência em que o personagem de Chiwetel Ejiofor mantém-se vivo na ponta dos pés, enforcado, durante horas. É uma cena sem ação, revoltante, que parece interminável a quem vê o filme. Não acho que o filme de Steve McQueen merecesse o prêmio de melhor do ano no Oscar, mas é um filme importante principalmente aos norte-americanos (é uma ferida que custa a cicatrizar para eles, e está longe de acabar). O filme mais emblemático sobre racismo, para mim, é de 1988, de Alan Parker, e chama-se “Mississipi em Chamas”, porque não busca tão longe no passado o seu tema: o faz na contemporaneidade, mostrando o lado racista e nojento do Mississipi. Já passou várias vezes na TV, mas quem não viu, deveria ver.




Tudo é remix... ainda!

Sábado, 24/05/2014 às 18:30, por Fábio Rockenbach

Será que o público que consome – sim, consome – cinema hoje em dia é tão carente de capacidade de leitura, de compreensão, de assimilação?

Iria escrever sobre outros temas hoje – a exibição de “O Poderoso Chefão I e II” no TCM no final de semana e a previsão de discutir a série no Núcleo de Cinema na UPF me animavam a falar sobre Coppola, mas quando vi a programação do cinema em Passo Fundo me fiz a pergunta acima, porque lembrei também de um pequeno documentário online que eu já comentei aqui meses atrás, uma série em 4 partes chamada “Everything is a remix”. No segundo episódio da série, há dados assustadores que se aplicam ao que temos hoje em cartaz nos cinemas.

Temos em exibição três filmes baseados em quadrinhos (Capitão América, X-Men e O Espetacular Homem-Aranha), sendo que todos eles são continuações. Um deles (o do Homem-Aranha) é continuação de um reboot de uma trilogia que terminou em 2007, já baseada em quadrinhos.

Temos uma continuação de uma paródia de outro filme (Inatividade Paranormal 2) e uma adaptação de um livro para o público jovem (Divergente) que segue a mesma fórmula de outras dezenas de séries de livros para esse mesmo público com o mesmo tipo de protagonista e o mesmo tipo de estratégia comercial (série de livros com títulos “espertos” indicando uma relação – Crepúsculo/Lua Nova/Amanhecer/blablabla, Divergente/Convergente/Insurgente e por aí afora).
Ainda temos uma continuação de uma animação de sucesso e um drama baseado na Bíblia.

As únicas histórias originais, pasmem, são de um desenho da Disney (Tinker Bell) e de um filme nacional (Julio Sumiu). Godzilla, outro arrasa-quarteirão por chegar, é um reboot de uma refilmagem de uma série japonesa.

A necessidade do lucro e do consumo fácil está matando a criatividade do cinema. Todos os anos, basta surgir um filme com um pouco de criatividade e originalidade para que ele se destaque do cenário habitual. Não basta nem ser um filme fantástico, apenas que ele traga ideias novas e fuja do lugar comum (A Origem, de Nolan, é um exemplo).

Há, sempre, o inevitável argumento que é graças ao lucro dessa produção em série dedicada ao consumo rápido (e esquecível em pouco tempo) que tornou o cinema um parque de diversões para consumo imediato que os estúdios conseguem sustentar e bancar determinados projetos mais autorais e artísticos. Mas a que preço?

Eu vou ao cinema consumir esse produto. Assisto a Godzillas e X-mens na tela grande do cinema porque ela é perfeita para esse momento de diversão pura. Levei meu filho para ver Rio 2 e ele adorou. Mas o espaço para filmes que desafiem minimamente o espectador é cada vez menor. A rede está inundada de notícias sobre a união entre Superman e Batman e a possibilidade de sair o filme da Liga da Justiça em... 2018.

Não há nada mais além disso?

Nos anos 70 tivemos Coppola, Scorsese, Ashby, Friedkin, Kurosawa, Spielberg, Scott, até Hitchcock e Bergman ainda em ação comandando as maiores bilheterias. Hoje, vez que outra temos um James Cameron (a cada quatro ou cinco anos) ou um David Fincher, mas a lista é encabeçada por nomes como Jon Favreau, Gareth Edwards, Marc Webb, Neil Burger.
Quem? Se o nível de uma literatura pode ser medido pelo talento da geração de escritores, o resumo da geração de diretores comandando as bilheterias dá um bom tom do cenário do cinema hoje.

Aliás, Godard está lançando um novo filme, “Adeus à linguagem”, no Festival de Cannes e... bom, não faz diferença. Não vai ser exibido por aqui, de qualquer forma.




47 americanizados ronins...

Sábado, 17/05/2014 às 17:56, por Fábio Rockenbach

Ia escrever sobre o fato de “Godzilla” NÃO estrear em Passo Fundo (e se há um filme que deva ser visto  na tela grande do cinema é um filme sobre Godzilla, convenhamos, independente da qualidade) ou sobre o bom “Capitão América – Soldado Invernal”, infinitamente superior ao primeiro filme, que está em cartaz, mas não vou falar sobre o que está ou deveria estar em exibição em Passo Fundo. Minha atenção nessa semana foi para outro lado.

A Versátil, distribuidora de filmes brasileira que é reconhecida pela contribuição em fazer entrar no mercado nacional clássicos e filmes raros, lança a segunda parte de uma coletânea dedicada a clássicos do cinema oriental que enfocam, unicamente, os filmes de samurai. É justamente em meio a esse lançamento – que tem filmes de diretores pouco conhecidos aqui como Kihachi Okamoto – que acabei vendo “47 Ronins”, com Keanu Reeves, que estreou no Brasil no começo do ano. O comentário vem aqui unicamente porque o filme é uma prova de como Hollywood (assim, significando o cinema comercial de blockbuster) toma posse de materiais ricos de outras culturas para transformá-los em um esboço do que poderia ser uma visão de fora. Uma caricatura. A história dos samurais sem mestre que são desonrados e passam anos construindo sua vingança faz parte do imaginário popular japonês, mas nas mãos do diretor Carl Rinsch torna-se pretexto para a incorporação de um elemento estrangeiro – o norte-americano Reeves – em uma história recheada de elementos fantásticos e efeitos visuais. É o modelo de como certos pensadores do cinema comercial enxergam o público de hoje: um bando de adolescentes cuja única forma de atração está na forma recheada de atrativos vazios, embalando uma ausência de conteúdo. Se há méritos no filme de Rinsch foi ter despertado a vontade de ver qualquer uma das muitas versões da história já filmadas no cinema japonês. A versão de Mizoguchi, de 1941, é minha primeira escolha. O outro mérito é o de ter acentuado o quanto “13 assassinos”, épico de samurais recente de Takashi Miike, é um exemplo do cinema épico que “Hollywood” não consegue reproduzir respeitando o espectador.

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Muito bom o episódio de estreia de Penny Dreadful, série de terror sobrenatural produzida por Sam Mendes com uma ótima Eva Green comandando o elenco. A premissa indica uma mistura geral de monstros clássicos da literatura que se ligam naturalmente no destino dos protagonistas. É uma caleidoscópio de referências fantásticas ambientada na Londres vitoriana. Difícil dizer se vai manter o ritmo, mas para quem gosta de histórias fantásticas, é prato cheio.

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Ainda no assunto séries, em “Game of Thrones”, o desempenho de Peter Dinklage (Tyrion Lannister) no final do sexto episódio é desde já uma das melhores coisas que o cinema e as séries de TV apresentaram em 2014. O anão estraçalha com a série e ofusca todos ao seu lado. Fabuloso.

 

 

 




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