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Colunistas


O único assunto

Sábado, 30/08/2014 às 16:40, por Fábio Rockenbach

Eu iria escrever hoje sobre a fraca terceira parte da franquia de auto-homenagem de Stallone, “Os Mercenários” que involuiu e se tornou auto-paródia. A brincadeira cansou da mesma forma que haviam cansado os filmes que a série homenageava.
Eu iria falar mais sobre “The Knick” nova e fabulosa série de TV bancada por Steven Soderbergh que pesca elementos que fizeram o sucesso das séries “médicas” com o humor negro e o protagonismo de um anti-herói de peso (que fizeram o sucesso de Breaking Bad e House).

Mas perdi a vontade. Cada vez mais, o público que ainda tem vontade de ir ao cinema é tratado com descaso.
Não lembro de outra vez na história recente de Passo Fundo em que não existisse NENHUMA opção de filme legendado em cartaz.
Temos seis filmes em cartaz.
Todos dublados, nenhum com áudio original.
E assim aos poucos vou dando adeus à vontade de frequentar as (antes) mágicas salas de cinema.




Max vai voltar

Sábado, 02/08/2014 às 19:03, por Fábio Rockenbach

Da série “refilmagem, remake, reboot, re-alguma coisa”: foi liberado o primeiro teaser trailer de “Mad Max: Fury Road”. A princípio, uma continuação da trilogia de sucesso dos anos 80, que colocou Mel Gibson e o diretor George Miller nos rumos do estrelato. O caminho escolhido por Gibson, sabe-se, foi mais bem trilhado. Miller, que instaurou modelos para o cinema de ação oitentista – a câmera na altura do chão, a manipulação do tempo da cena com a câmera rápida repentina, o zoom frenético, o uso de planos aberto graças aos cenários amplos do deserto mesclado com uma montagem ágil – dedicou as últimas duas décadas a contar histórias de porquinhos inteligentes (os dois filmes da série “Babe”) ou de um pinguim dançarino (HappyFeet). Muito pouco para quem parecia ter tanto a contribuir. Pois o mesmo Miller assina esse retorno à série. A princípio, todos os elementos visuais estão lá, dos figurinos à ambientação e às cores quentes que dominam tudo. Aliás, quase tudo:o único problema aparente da escolha de Tom Hardy para interpretar Max é que, ao contrário de Gibson, Hardy aparenta tristeza e pena em suas expressões. Gibson, pelo contrário, criou Max com a única expressão possível após a tragédia que configura a vida do personagem no primeiro filme: indiferença. Resta ver se, além da cortina de efeitos visuais e da ação, sobra alguma coisa de interessante no personagem. Até lá, vou dando um voto de confiança a Tom Hardy e até mesmo a Miller. “Mad Max” foi uma série que construiu minha cinefilia de garoto – aquela regada à Indiana Jones, Rambo, Goonies e personagens bem menos complicados para filmes muito mais divertidos que os de hoje.

 

***

Quando menos esperava, eis que começam a surgir boas séries para acompanhar. Nenhuma do nível, por exemplo, de “True Detective”, que deve ganhar segunda temporada. Mas “The Strain” superou expectativas. A série traz a assinatura de Guillermo Del Toro, baseado nos seus livros da “Trilogia da Escuridão”. Vindo de Del Toro, já imaginava no mínimo, respeito ao material e ao espectador. A série de terror moderniza alguns aspectos de mitos icônicos do gênero e consegue construir personagens que, se não são complexos, pelo menos são plausíveis e humanos – nem todos, claro. Mas o melhor é que Del Toro, quando parece que irá se refugir e simplesmente plagiar alguns temas clássicos dos filmes de vampiro, resolve atualizá-los e subverte-los, transformando o tema numa mescla com outro tema bem atual do terror moderno: os “infectados”. Melhor mesmo, para quem gosta de terror, é assistir à série, que está no terceiro episódio e mantém o pique do ótimo episódio piloto, repleto de mistério.  E o velho personagem interpretado por David Bradley, o cansado caçador de criaturas da noite, tem o nome e atualiza um personagem clássico da literatura do gênero de forma honrada. Ótima pedida para os adoradores do fantástico...




Tempo de novas séries

Sábado, 19/07/2014 às 16:26, por Fábio Rockenbach

Com exceção de “True Detective” e “PennyDreadful”, novas séries em 2014 enfrentam dificuldades criativas. “Dominion”, por exemplo, tem uma premissa interessante, mas assim como o filme que originou a série, “Legião”, não consegue evoluir de forma interessante depois de um bom episódio inicial. Aliás, é estranho que uma série tenha conseguido sinal verde para se desenvolver em cima de um filme tão ruim e tantos anos depois. Outras séries com dificuldade para conquistar o público foram “Believe”, “Turn” e “The100”, que estão patinando.  “The LastShip”, em que o embusteiro diretor Michael Bay faz as vezes de produtor, está conseguindo manter o ritmo, mas as limitações geográficas do próprio espaço da série colocam sérias dúvidas a respeito das soluções que seus roteiristas conseguirão alcançar.  “Underthe Dome”, que terminou patinando a primeira temporada, começou a segunda querendo se inspirar em George R. R. Martin, mas segue com problemas de ritmo que transformam cada episódio em uma tentativa de revolução da trama sem consistência alguma.

Por outro lado, “Flash” começou com um bom episódio piloto para quem curte séries com heróis. É quase um spin off de “Arrow”. Não é o tipo de série que me agrade pela pouca profundidade do roteiro, mas o episódio piloto surgiu com um bom ritmo e bem realizado.  “Extant” tem uma ideia interessante e a assinatura de Spielberg, que nem sempre conseguiu sucesso nessa área. Mas a melhor estreia recente é mesmo “Constantine”. O episódio piloto vazou e mostrou que dessa vez o personagem do selo Vertigo será retratado fielmente. Se antes o norte-americano e moreno Keanu Reeves fez as vezes do personagem, agora John Constantine é fiel ás HQs: loiro, britânico, com seu sobretudo surrado e tiradas irônicas. E a série mantém a atmosfera sombria das HQs. Ótimo episódio piloto – é uma série sobrenatural de peso comparada, por exemplo, a “Supernatural”, cuja fórmula já se esgotou e nunca deixou de ter uma abordagem mais adolescente.

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Transformers 4 – A Era da Extinção é pavoroso. Não apenas o pior filme de uma série conduzida por um diretor medíocre, mas um dos piores filmes dos últimos tempos. E tenho certeza que vai fazer sucesso. Michael Bay é um diretor que há 20 anos está viciado nas mesmas soluções visuais e que ainda faz uso de elementos da “gramática” do cinema sem sequer saber as razões, apenas porque “fica legal”. O resultado é um filme horrível. E ponto, não vale a pena muito aprofundamento aqui.

 




Destruidores em cartaz

Domingo, 13/07/2014 às 10:08, por Fábio Rockenbach

Adeptos do apocalipse, alegrem-se, a destruição está em dose dupla nos cinemas. Temos um monstro gigantesco que nos anos 50 se tornou símbolo da destruição nuclear, nascido dos testes nucleares no Atol de Bikini, nos anos 50 – na versão 2014, os testes foram feitos para destruí-lo, o que cria uma relação de causa e efeito típica de no­vas interpretações – que percorre o mundo atrás de dois monstrengos gigantescos porque quer demarcar seu território, o popular “fazer xixi no terreno, que ele é meu”. Só que, no caminho, destrói meio mundo. As perdas humanas, nesse tipo de filme, são jogadas para escanteio, diminuídas, fazem lembrar Stálin e sua famosa frase sobre mortes que significam tragédias ou estatísticas, mas esse é o cinema catástrofe. A diferença desse tipo de cinema nos anos 70 e algumas refilmagens recentes de hoje é que, lá atrás, nós acompanhávamos vários persona­gens e íamos perdendo eles ao longo do caminho. Hoje, a destruição é tão impessoal que nem sabemos quem morreu, porque são números, pontinhos pretos na tela criada em CGI. Ou alguém não lembra que, no apocalíptico “2012”, de Rolland Emmerich, mais de meio mundo morreu e o filme quer que a plateia roa as unhas pelo destino de um ca­chorrinho que precisa correr para entrar em uma das arcas gigantescas que representam a salvação para o mundo? Mas o “Godzilla” de 2014 é ligeiramente melhor do que aquele feito pelo mesmo Emmerich de “2012”, no hoje distante 1998. Lá, Godzilla era um dinossauro, gerava filhotes que mais pareciam os velociraptors de “Jurassic Park” e o que deveria ser drama para alguns personagens ganhou uma abordagem tragicômica. Foi um filme que não funcionou.

Agora, em 2014, Godzilla ganha uma carga dramática que ex­clui o humor, voluntário ou involuntário, e tenta nos ligar ao drama dos personagens humanos que conduzem a trama. Conseguiria, se a história do protagonista não fosse tão rasa e se os melhores perso­nagens abandonam a narrativa antes da hora. Impressionante como um filme que reúna tantos milhões de dólares consiga se por a perder por uma simples escolha de elenco errada. E, de certa forma, Godzilla é quase um coadjuvante de luxo, um background, construído numa narrativa que procura diminuir os custos com efeitos visuais am­bientando muitas cenas durante a noite. Guillermo DelToro também ambientou cenas assim à noite em seu recente “Pacific Rim”, mas a diferença é que a ação do filme de DelToro é limpa, perceptível, assim como os efeitos. É uma opção dramática. Em Godzilla, a ação noturna parece, às vezes, feita para reduzir gastos.

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A série de filmes mais ruins e milionária do cinema também está em cartaz com o quarto filme da franquia “Transformers”. Aqui, Michael Bay fez o que a CBF quer fazer com a seleção brasileira: mu­dar não mudando. Como os filmes deram sinais de cansaço e foram comprometedores em termos artísticos – principalmente o segundo filme, um fiasco completo – ele decidiu mudar o elenco. E na lógica de que “mais é melhor”, incorporou os Dinobots, juntando o útil ao agra­dável para a molecada: elas adoram os transformers, imagine então trazer os personagens que misturam eles a dinossauros? Se as piadas idiotas do roteiro, os diálogos histéricos que pensam ser agradáveis, a montagem alucinada de planos de 0,4 segundos de duração, a câme­ra lenta circundando personagens de forma épica em contraplongée (debaixo para cima) e a bandeira americana tremulando ao fundo em alguma(s) cena(s) continua(m), eu não sei, mas o certo é que o filme vai juntar um bocado (modo de dizer, claro) de bilheteria, e com os mi­lhões arrecadados garantir um quinto filme. E eu, provavelmente, vou ver ele como vi os outros, apenas para poder bradar o quanto Michael Bay é péssimo diretor, o quanto seu cinema não obedece nenhum tipo de justificativa para suas escolhas de enquadramento e movimento e o quanto o diretor resolveu esconder a falta de criatividade permane­cendo eternamente em uma franquia, para não ter que ser castigado pelo fracasso de alguma nova criação. Enfim, isso é Transformers 4 – A Extincão. (será a extinção da série?)

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Apenas para constar, Godzilla e Transformers 4 estão em car­taz... dublados (ah, tem uma cópia dos robozões legendada também, o que já é grande coisa aos adultos que resolvam ver isso)




Rock e Cinema

Sábado, 05/07/2014 às 19:46, por Fábio Rockenbach

Rock combina com audiovisual. Não foi o cinema ou a TV que ajudaram a consolidar o rock, ele não precisou de nenhum tipo de ajuda para se tornar parte essencial da história cultural da humanidade da metade do século passado em diante, mas o audiovisual casou bem demais com ele. Basta lembrar os áureos tempos da MTV – em um tempo em que o som alto nos carros era de rock, e não de outras “coisas” que se parecem com tudo menos música. Quando não havia Youtube, downloads fáceis e centrais de entretenimento digital numa tela poucas polegadas em qualquer celular, o lançamento de clipes novos de algumas bandas era um acontecimento. A MTV era um templo adorado. Alguns clipes, ligados a lançamentos dos cinemas, tornavam-se sucessos tão grandes quanto muitos filmes. Por exemplo, o frenesi em torno do lançamento do clipe de “YouCouldbe Mine”, do GunsN’Roses, ajudou a alavancar ainda mais o hype em cima de “O Exterminador do Futuro 2”, de James Cameron.

Não deveria ser difícil, então, elencar algumas aproximações entre o rock e o cinema ao longo dessas cerca de 70 anos. A tarefa acabou sendo árdua, no entanto, mais pelo grande número de títulos.

Depende muito, também, da geração. Quem for da geração dos anos 70 e 80, vai lembrar, nesse caso, de Tommy,a opera-rock do The Who, dirigida por Ken Russell, ou das incursões dos Beatles no cinema, em YellowSubmarine e no (para mim) bem melhor Os Reis do Iê-Iê-Iê (talvez porque o quarteto em carne e osso seja melhor sempre). Eu não esqueço, mesmo, de “The Wall”, onde o Pink Floyd construiu visualmente um universo metafórico poderoso até hoje (e provavelmente continuará sendo pelos próximos 50 anos).

Para os fãs de Quase Famosos (e eu sou um deles), a saga do aspirante a jornalista William Miller acompanhando a fictícia banda Stillwatter em turnê pelos Estados Unidos, há um similar menos “comportado” em 1984, “ThisisSpinalTap”, que também acompanha uma banda fictícia em turnê pela América. Mas Quase Famosos foi feita numa época onde a nostalgia fala mais alto que a rebeldia – pouco importa a qualidade do que a Stillwater toca, e mais a ligação sentimental que o filme estabelece com o mundo do rock, seus bastidores e quem verdadeiramente faz sua magia: os fãs do rock.

Se a ideia é falar de fãs, nada melhor para o número cada vez maior de amantes do vinil do que ter na estante, guardado, a adaptação para os cinemas do livro de Nick Hornby, “Alta Fidelidade”. Qual desses amantes do rock não gostaria de trabalhar, um dia, numa loja como aquela em que Rob Gordon (John Cusack) trabalha? E quem, afinal, não gosta de fazer – no rock ou no cinema – suas “listinhas” de melhores de todos os tempos?

O cinema já viu o cenário grunge de Seattle, em efervescência nos anos 90, em “Vida de Solteiro”, e a febre dos efêmeros grupos de um só sucesso dos anos 60, em “The Wonders”. Já acompanhou ascensão e queda de ídolos, como em “The Doors”, e mesmo a história de ídolos pouco conhecidos, como em “Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool”, um dos melhores do cinema até hoje a falar sobre os Beatles. Já viu até o rock salvar filmes, como em “Escola do Rock”, onde o melhor do filme é mesmo as sequências em que Jack Black homenageia clássicos do rock, principalmente do AC-DC (e o clássico organograma de épocas e estilos de rock desenhado no quadro é a melhor coisa do filme). A MTV pode ter acabado, sub-cantores podem querer até destruir a essência (como a pavorosa “adaptação” de “AnotherBrick in the Wall” para o sertanejo universitário) mas a grande riqueza do rock é que os clássicos, passados 70, 50 ou 30 anos, permanecem influentes e sempre atuais. Inclusive no cinema...






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