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Colunistas


Em busca do nosso Fausto

Sexta-Feira, 24/02/2017 às 09:00, por Gilberto Cunha


São muitos os Faustos. Desde o personagem histórico que, pelo envolvimento com magia, adivinhações, alquimia e um pouco de charlatanismo, ajudou a forjar, na Europa Central, o mito do culto do Doutor Fausto - o homem que, conforme reza a lenda, vendeu a alma ao Diabo -, até o personagem literário imortalizado por Christopher Marlowe, Johann Wolfgang von Goethe, Paul Valéry e Thomas Mann, entre outros. Em meio a tantos Faustos, sobreviveu, principalmente, o mito criado pela genialidade de Goethe. Uma olhada na obra de Jayme Mason, “O Dr. Fausto e seu Pacto com o Demônio”, editora Objetiva (1989), conforme proposta dessas breves notas, talvez nos ajude a encontrar o outro Fausto, aquele que, sintetizando o confronto entre a tentação e o desejo, pode estar oculto em cada um de nós.
Mefistófeles e Dr. Fausto são os dois personagens centrais do drama imortalizado por Goethe. O primeiro representa o Príncipe das Trevas, o inimigo de Deus, aquele que tudo sabe e (quase) tudo pode. E o segundo o pecador que recebeu o fruto do conhecimento de tudo em troca de sua alma. No território das emoções, Mefistófeles é a tentação e Fausto o desejo, cujos desdobramentos, muito mais além da nossa herança judaico-cristã, em que é natural que a tentação seja representada pelo Diabo e o castigo por ceder a ela sempre sobrevenha.
O Dr. Fausto, misto de lenda, história e literatura, vive a nossa espreita em cada esquina. Nada mais sensato, então, que conhecê-lo um pouco melhor a partir de Goethe. O Fausto de Goethe é representado por um sábio que na velhice, recluso em seu gabinete, começa a se indagar se valeu a pena a vida de sacrifícios e estudos para dominar a ciência e a filosofia. A questão central, que também nos diz respeito, resume-se na busca de resposta à pergunta se o homem, entregue a seu livre arbítrio e exposto às atrações do pecado, conserva, ao fim e ao cabo, a sua bondade e consegue salvar-se; como bem sintetizou Jayme Mason.
Goethe escreveu o seu Fausto em três momentos diferentes. O Fausto Primitivo (Urfaust) data de 1775. É o embrião do Fausto I, de 1790, que foi publicado em 1806, vindo a se juntar ao Fausto II, de 1833, na completude, publicada post-mortem, da obra goetheniana. O titã de Weimar transferiu para os personagens da sua célebre obra, segundo Jayme Mason, o seu reconhecimento de vaidade e os despontamentos, que o suposto saber humano pode levar a cada um de nós a experimentar. O Fausto I é obra de um Goethe jovem e o Fausto II de um escritor já em idade avançada. Isso talvez explique as diferenças notórias entre ambos. O primeiro é mais simples e o segundo exige uma cultura clássica mais apurada de parte do leitor.
Um Fausto ansioso por abandonar o saber livresco torna-se presa fácil de Mefistófeles, que autorizado pelo Padre Eterno, lhe propõe o pacto de servi-lo por toda a vida, dando-lhe todos os prazeres desse mundo, em troca da sua alma depois da morte. Quantos de nós, pegos em idade avançada, resistiríamos a uma proposta como essa? Rememoremos a cena da Cozinha de Feiticeiras, que após alguns exorcismos, Fausto bebe a poção mágica que lhe devolve a juventude. Advém a conquista amorosa de Gretchen (Margarida), a morte do filho, o enlouquecimento e morte de Gretchen, o romance com Helena, a morte de Eufórion (homenagem de Goethe a Byron), a conquista de terras para o imperador, o confronto e a critica velada de Goethe à política latifundiária da Igreja, até a morte de Fausto idoso e seu enterro por Lêmures (espectros, fantasmas, duendes) com Mefistófeles à espreita da saída de sua alma para arrastá-la ao inferno. Enquanto isso anjos espalham rosas e lutam com o Diabo, Gretchen também aparece ... Quer saber o desfecho? Leia o Fausto de Goethe, sugiro.
Os versos de Goethe, por meio das experiências a que Fausto é submetido, trazem a tona muitas das nossas contradições ao lidar com coisas como o amor (o envolvimento com Gretchen), a beleza (o contato com Helena) e o poder (o acordo com o Imperador, o Fausto governante). Que cada um de nós identifique o seu Fausto e espante o seu Mefistófeles.




Et tu, FDP!

Sexta-Feira, 17/02/2017 às 09:15, por Gilberto Cunha

São da lavra de Shakespeare (e não de historiadores, como seria presumível), os relatos mais conhecidos dos acontecimentos que marcaram os últimos e conturbados dias do governo de Júlio César em Roma. O texto do Bardo, escrito por volta do ano 1599, é tão convincente que muita gente não consegue distinguir o que é ficção e o que é historia real nessa tragédia clássica. A peça, originalmente chamada “The Tragedie of Julius Caesar”, ainda que pareça, pelo título, não trata propriamente do ditador romano. César é morto no início do terceiro ato. Essa tragédia shakespeariana, que centrou o protagonismo da história em Marco Júnio Bruto e seus conflitos mais íntimos - patriotismo, honra e amizade - foi levada aos palcos isabelinos como forma de reflexão sobre a preocupação que tomava conta da Inglaterra, na época, governada por uma rainha idosa que se recusava a indicar um sucessor; espalhando, entre os súditos, o temor de que, a exemplo do ocorrido em Roma, uma guerra civil fraticida poderia acontecer após a sua morte.
O texto de Shakespeare é, em boa parte, uma interpretação fantasiosa dos escritos dos historiadores romanos Plutarco e Suetônio. Mas, por retratar, como poucos, o lado trágico da alma humana na busca pelo poder, tornou-se indispensável; especialmente nos tempos atuais. Não faltam, nesse enredo, os ingredientes básicos do nosso dia a dia, quer seja no universo político, no ambiente familiar ou no mundo das corporações: conspiração, tramoias, traições, jogos de interesse e discursos eivados de ingênuas e/ou falsas boas intenções, não raro, envolvendo cidadãos honrados, a exemplo dos senadores romanos. O motivo aparente era salvar a República e a democracia em Roma. Mas, no fundo, o que os senadores romanos queriam era poder, fama e vingança. Ficaram com a vingança, César morto foi endeusado e ficou com a fama e os romanos, com a derrota de Marco Antônio imposta por Otávio, uma vez tendo sido decretado o fim da Republica, passaram a ser governados por imperadores tiranos.
Alguns dos versos mais conhecidos e proféticos de Shakespeare foram pronunciados por Cássio, diante do cadáver de César: “Quantas épocas por vir/ Será esta nossa elevada cena de novo encenada/em estados ainda não nascidos e sotaques ainda desconhecidos”. Que cena seria essa? Muito provavelmente (por ser a minha preferida, admito) aquela que, ignorando o aviso de um vidente, que, no meio da multidão, grita “Cuidado com os Idos de Março!”, e, contrariando a sua própria intuição e pedido da esposa, César dirige-se ao Senado para encontrar a morte naquele 15 de março do ano 44 a.C.
Há um clima de horror indescritível na cena da morte de César. E o cume, para mim, é quando, um César, acossado pelas punhaladas, consegue divisar, entre os rostos dos seus algozes, a figura de Marco Júnio Bruto (o seu protegido), e esse, sem piedade, desfere a 23ª e fatal punhalada. É nesse momento que Skakespeare faz Cesar proferir a famosa frase “Também tu, Bruto!” (em bom latim, Et tu, Brutus!); antes de cair, sugerindo que a traição destruiu a vontade de César de viver.
As palavras de Cássio e a cena da morte de César, muito provavelmente, inspiraram Jorge Luis Borges a escrever o miniconto (dois parágrafos apenas) “La Trama”, cuja essência, frisa Borges, é que ao destino agradam as repetições. E assim se dá, no sul da Província de Buenos Aires, a história de um “gaucho”, que é agredido por outros “gauchos” e, ao cair, reconhecendo um afilhado, surpreso e mansamente lhe diz: “Pero, Che!”. O matam e ele não sabe que morreu apenas para que se repetisse uma cena que fora escrita por Shakespeare dezenove séculos antes.
Tanto o César de Shakespeare quanto o “gaucho" de Borges, pela polidez em momentos tão dramáticos, soam demasiados inverossímeis nessas falas. Acredito que, como essas eram palavras para serem ouvidas e não para serem lidas, como destacou Jorge Luis Borges no seu conto, o mais provável é que, sempre no sentido figurado evidentemente , o “gaucho” tenha dito “Pero, Hijo de una P...!” , e César “Et tu, Filho da P...”.

 




Ilusões consentidas

Sexta-Feira, 10/02/2017 às 09:15, por Gilberto Cunha

Virgílio, pouco antes de morrer, pediu aos amigos que queimassem o manuscrito do seu famoso poema épico, Eneida, ainda incompleto para o gosto dele. Com isso, acabaria de vez com os penosos onze anos de trabalho que havia dedicado na busca de uma perfeição inatingível. Algo parecido teria feito Franz Kafka, muitos anos depois. Segundo consta, Kafka, sofrendo de tuberculose e sem esperanças, encarregou o amigo (e posterior biógrafo), Max Brod, de destruir os originais dos textos que lhe asseguraram a fama, como um dos maiores escritores do século 20.

O ponto em comum desses dois episódios famosos é a ilusão consentida. Virgílio não poderia ignorar que contaria com a desobediência piedosa dos seus amigos. E o mesmo vale para Kafka, em relação a Brod. Além do mais, quem quer realmente o desaparecimento de seus escritos não delega esse tipo de tarefa para ninguém. Faz por conta própria. Virgílio e Kafka, no fundo, não desejavam a destruição de suas obras, como analisou, com maestria, esses episódios, Jorge Luis Borges: Virgílio e Kafka queriam mesmo era fugir da responsabilidade que uma obra sempre impõe ao seu autor.
Virgílio, acredita-se que tinha, sobretudo, preocupações de ordem estética, para fazer esse tipo de pedido. Era o que se pode chamar de perfeccionista. Não foi por nada que, praticamente, serviu de modelo a toda poesia que se escreveu no Ocidente até o século 18 (Camões, Milton e muitos outros são virgilianos). Também foi uma espécie de poeta oficial do imperador Augusto. Escreveu parte de sua obra em Nápoles, onde terminou o poema bucólico Georgica (Geórgicas), despendendo sete anos nessa exaltação à natureza e aos lavradores. Sua maior obra foi a epopéia Eneida, na qual gastou onze anos, e estava completa, mas ainda não perfeitamente burilada, para o seu gosto, quando morreu, na volta de uma viagem à Grécia.
A Eneida é também uma obra de propaganda. Inventando para o Império Romano uma nobre origem troiana, Virgílio criou um novo mito. Era uma idealização das virtudes que fundaram e mantiveram o Império Romano. Dante perceberia isso e, não por outra razão, elegeu Virgílio como seu guia na viagem pelo outro mundo.
Quanto a Kafka, o caso é mais complicado. Seu trabalho versa sobre o tema da relação moral do indivíduo com a divindade e com o seu incompreensível universo, envolvendo desesperança e alienação. Tem uma consciência religiosa, e, acima de tudo, judaica. Quem sabe quis ter escrito páginas de felicidades e não de tristezas, mas não condescendeu em produzi-las, marcado por um sentimento de culpa exacerbado, pelo judaísmo que o separava da maioria dos homens. Além das influências do ambiente de Praga, cidade medieval gótica dotada de elementos eslavos, alemães e de barroco sombrio. Também teve uma vida emocional conturbada, com noivados e amores infelizes, que acentuaram o sentimento de solidão e desamparo que nunca o abandonaria.
Ainda vivo, Kafka publicou A metamorfose, em 1915, talvez a sua obra mais popular, em que o personagem acorda, certo dia, transformado num imenso e repugnante inseto. Suas obras-primas, O processo (1925) e O castelo (1926), foram publicadas postumamente por Max Brod.
Contra o desejo expresso de Kafka, que queria que seus inéditos fossem queimados após sua morte, Max Brod publicou romances, texto em prosa, correspondência pessoal e diários do escritor. Talvez por ver sua obra como um ato de fé, e não querer que ela desencantasse a humanidade, Kafka fez esse pedido ao amigo. É possível que soubesse que estava se iludindo.
Virgílio morreu em 21 de setembro do ano 19 a.C., em Brindisi. E Kafka, fragilizado pela tuberculose, depois de ter deixado definitivamente o emprego, em 1922, e passado o resto da vida em sanatórios e balneários, acabou morrendo em 3 de junho de 1924, em Kierling, perto de Viena. Ambos partiram para o outro mundo com a ilusão consentida de que os amigos queimariam seus escritos. Ainda bem que não o fizeram. E eles, provavelmente, sabiam disso.




Detalhes tão pequenos e tão significativos

Sexta-Feira, 03/02/2017 às 09:45, por Gilberto Cunha

Um detalhe sutil, mas que faz toda a diferença, no titulo principal dos quatro tomos que compõem a coleção chamada “Obras Completas” de Jorge Luis Borges (1899-1986), originalmente publicada por Emecé Editores S. A., em 1974, e que ganhou tradução para o português no final dos anos 1990, pela Editora Globo, provavelmente, foi responsável por fazer com que muita gente, ingenuamente, imaginasse que comprando essa coleção estaria adquirindo e levando para casa a obra completa do renomado escritor argentino. Ledo engano! Há um ardil editorial nesse título “Obras Completas”, que foi revelado graças à publicação das memorias de Adolfo Bioy Casares (1914-1999), cujas conversações entre ele e Borges, em encontros quase que diários, durante mais de 40 anos, foram reunidas por Daniel Martino nas 1680 páginas do livro “Borges”, que saiu pelas Ediciones Destino, em 2006.
Aos fatos: em 1974, quando das tratativas entre Borges e Emecé Editores S. A. para a publicação da sua “Obra Completa”, em quatro tomos, ao se cientificar dos títulos que seriam reunidos em cada volume, o escritor se recusou a assinar o contrato. Em definitivo, jamais autorizaria a reedição de alguns de seus livros, que considerava proscritos, como era o caso de Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928), e tampouco poderiam ser incluídos alguns poemas que originalmente constavam nos livros Fervor de Buenos Aires (1923), Luna de enfrente (1925) e Cuaderno San Martín (1929). O impasse estava posto. De um lado, um Borges famoso e irredutível, e, do outro, os editores de Emecé, que alegavam não conformidade contratual, uma vez que ele havia se comprometido a editar a sua “Obra Completa”, cuja campanha publicitária e o projeto gráfico já estavam prontos, e que, com a exclusão de textos, esse título não poderia ser mantido. Então, eis que algum iluminado encontrou a solução: em vez de titular os tomos como “Obra Completa”, esses seriam rotulados de “Obras Completas”. Nesse caso, não se estaria faltando com a verdade, pois as obras incluídas em cada tomo estariam “completas”, sem a exclusão de partes (embora isso não seja totalmente verdadeiro, pois, no caso dos livros de poemas, houve exclusões dos prólogos e de poemas). O relevante é que os leitores que adquiriram esses livros nunca foram explicitamente alertados do estratagema comercial.
Mas, se, com essa saída salomônica, o conflito contratual entre Borges e Emecé Editores S. A. foi resolvido, restava ainda entender por que Jorge Luis Borges, o escritor maduro, fazia questão de desqualificar e ocultar algumas obras ensaísticas e poéticas que havia produzido quando jovem? Por que, ao longo do curso da sua existência, mudou a sua visão de literatura, a tal ponto que se fala em “dois Borges”? E, adverte-se, que não se trata aqui de negar o direto de qualquer autor a autocriticar-se ou realizar ajustes ou correções na sua própria obra, como se encontra com relativa facilidade nos textos borgeanos publicados em veículos e /ou edições diferentes.
Seguindo as pistas deixadas por Volodia Teitelboim, no livro “Los dos Borges – Vida, sueños, enigmas”, e por Horacio Salas, e o seu “Borges, uma biografia”, o historiador Norberto Galasso produziu um ensaio, publicado no livro “Jorge Luis Borges – Un intelectual en el laberinto semicolonial” (Buenos Aires: Colihue, 2012, 308 p.), que ousou explicar as razões de Borges para negar o que havia escrito na juventude. Segundo Galasso, foi por influência da estrutura cultural vigente, forjada por uma aliança entre a classe dominante nativa, nesse caso bem representada na sua relação com Victoria Ocampo e Adolfo Bioy Casares, e o imperialismo estrangeiro, que Borges, convenientemente, a partir dos anos 1930, abandonou o seu discurso nacionalista e posições políticas contrárias ao status quo vigente, para converter-se no escritor canônico universal, alheio, até certo ponto, à realidade que o cercava na Argentina.




Repensando a evolução

Sexta-Feira, 27/01/2017 às 10:00, por Gilberto Cunha


São raros os livros, escritos por cientistas frise-se, que conseguem atrair a leitura e a atenção de leigos e, ao mesmo tempo, também despertem o interesse dos pares pelas novas teorizações que apresentam sobre algum tema. A Origem das Espécies (On the Origin of Species, 1859), de Charles Darwin, e O Gene Egoísta (The Selfish Gene, 1976), de Richard Dawkins, são dois bons exemplos que, inclusive, tratam do mesmo assunto: a teoria da evolução.
Mr. Darwin e não Sir Charles, como Richard Dawkins faz questão de se referir- ao seu ídolo maior, demonstrando certa intimidade com o famoso naturalista britânico, inovou ao publicar a sua obra magna em inglês e não em latim, como rezava a tradição cientifica no século 19, e, com isso, ampliando sobremaneira o publico leitor. E Richard Dawkins, dono de uma prosa clássica apurada, marcada por uma retórica de persuasão melódica, com forte conotação lírica, conhecimento enciclopédico evidente e pelo uso não comedido de pitadas de controvérsias, foi capaz de construir metáforas inteligentes, que, desde 1976, quando centrou a evolução no gene, relegando os níveis mais elevados de organização biológica a um segundo plano, tem despertado paixões e críticas exacerbadas, tanto favoráveis quanto contrárias, a sua nova proposta.
Ir adiante é primazia dos genes e não de indivíduos e muito menos de espécies, segundo a teorização de Dawkins. Para ele, a “imortalidade” reside nas informações contidas nos genes, sendo esses as unidades básicas de seleção. Indivíduos e espécies seriam, nesse caso, meros veículos de transporte de genes. Isso permitiu outras interpretações sobre a evolução das espécies, com desdobramentos, inclusive, na nova área da genômica, no que tange, por exemplo, à explicação do excesso de DNA presente nos seres humanos; que teriam de 30 a 50 vezes mais DNA do que a necessidade dos genes que codificam proteínas. Nesse caso, o único propósito desse DNA seria sobreviver, funcionando o excesso como um tipo de “parasitismo”. E, nesse sentido, as ideias de Dawkins tem sido inspiradoras para muitos cientistas levarem adiante novas pesquisas, como foi o caso da descoberta da transcriptase reversa, uma enzima cujo único trabalho seria a dispersão de cópias dela mesma. A ideia do gene como unidade de informação hereditária e da seleção natural, com essa descoberta, ganhou força nos meios acadêmicos. Inclusive, havendo quem ouse sugerir, a exemplo de Daniel Dennett, que o livro O Gene Egoísta não trata só de ciência, mas também de filosofia, e filosofia da melhor qualidade.
A proposta dos editores de Richard Dawkins, não acatada por ele, evidentemente, na época, de mudar o título da obra para O Gene Imortal (The Immortal Gene) em vez de O Gene Egoísta (The Selfish Gene), apesar do menor apelo de marketing, talvez tivesse evitado muitas interpretações equivocadas dos acusadores de que as suas ideias, na verdade, incentivavam o egoísmo e, até certo ponto, seriam uma forma de resgate da eugenia nazista, conforme lembrou Matt Ridley, em comentário para a revista Nature, edição e 28 de janeiro de 2016.
Há quem defenda a necessidade de uma nova interpretação para a teoria da evolução, pois, afinal, Darwin elaborou a sua teria sem saber da existência de genes (ignorava Mendel), e quem pense que está tudo bem e que não há razão para mudar nada do que está posto, incluindo-se, nesse último grupo, os defensores dos vieses criacionistas e do desígnio inteligente.
Uma alternativa a corrente evolucionista dominante, centrada em herança genética e mudança de frequência de genes, tem sido a visão de processos, que sustenta que a evolução não pode ser reduzida ao poder dos genes. Os organismos seriam “construídos” durante o processo de desenvolvimento e não “programados” pelos genes para se desenvolverem. Os seres vivos coevoluem com o ambiente, por um processo de mudança estrutural dos ecossistemas. Há mais, muito mais, sobre isso; mas, infelizmente, acabou o espaço. Voltaremos ao assunto!




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