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Colunistas


O sonho de Emily

Sexta-Feira, 09/11/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Um dia, no rastro dos versos da velha canção escrita por Gilberto Gil, vivi a ilusão de que ser homem bastaria e, até por isso, eu, independentemente das circunstâncias, julguei que, depois de adulto, jamais choraria. Ledo engano! Houve momentos nessa vida, embora raros, que, confesso, não consegui controlar a emoção. Um desses foi há poucos dias (9 de outubro). Aconteceu durante a preparação do livro “Cultivando Talentos 2018”, que foi lançado na última terça-feira (6), às 11h, na 32ª Feira do Livro de Passo Fundo. Enquanto manuseava os originais, recebi, via WhatsApp, uma mensagem da organizadora da obra, Dilse Piccin Corteze, acompanhada de um desenho e um pedido: uma das autoras havia falecido, a mãe encontrou o desenho que ela fizera para ilustrar o texto que havia escrito, trouxe para a professora e pedia para ser publicado no livro.


A autora era Emily da Rocha Stenzel, o texto em voga chamava-se “O sonho de Lúcio” e o desenho mostrava um astronauta (uniformizado no padrão NASA) flutuando no espaço entre estrelas, planetas e um céu de coloração azulada. Desnecessário dizer, mas, por um instante, mesmo sem ter tido qualquer contato anterior com aquelas pessoas, fui tocado por aquele pedido, imaginando e sentindo a situação vivenciada por elas. E assim, parei o que estava fazendo e fui LER, de fato, aqueles textos que, até então, manipulara de forma automática e displicente; especialmente os escritos por Emily.


Emily da Rocha Stenzel era natural de Araucária, PR, e moradora de Erechim, RS. Tinha 16 anos e fazia parte da classe hospitalar Escola de Vida do HSVP. Na fotografia, que ilustra a autobiografia, aparece uma jovem sorridente e de cabeça raspada, sugerindo a doença que a acometia. Nas suas palavras, descreve-se como uma menina calma, quieta e comportada, que gostava de escutar música, assistir futebol e pescar com a família em Jacutinga. Sonhava ser fotógrafa, mas adorava estudar planetas, galáxias, observar a lua e as estrelas. Eu acrescentaria: e com talento para a escrita e para a ilustração.


O sonho de Lúcio, o texto assinado por Emily na obra, retrata bem a sua paixão pelo cosmos. Eis um excerto: “...quando abriu os olhos, estava em um lugar diferente, parecia estar dentro de um foguete. Com uma roupa de astronauta. Ele olhou ao seu redor e estava acompanhado de dois homens, chamados de Buzz Aldrin e Michael Collins. Ele ficou muito espantado! Seus companheiros estavam chamando-o de Neil Armstrong.


Lúcio, não estava entendendo o que acontecera. Então, uma contagem regressiva começou: “5...4...3...2...1...”. E, o foguete estava sendo lançado para o espaço. Lúcio, mesmo um pouco assustado, estava gostando daquilo, pois queria conhecer o espaço.”

 

A história de Emily, sem qualquer outro juízo de valor, retrata bem o papel do Projeto Identificando Talentos, que desde 2016, por meio de oficinas de criação literária e artística semanais, com foco em estudantes da rede municipal de ensino e da Escola de Vida do HSVP, que abrange pacientes do Centro Oncológico Infantojuvenil do Instituto do Câncer do HSVP, vem sendo conduzido pela Academia Passo-Fundense de Letras, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo. Nossos respeitos e admiração a todos os envolvidos com esse projeto. Em especial, as acadêmicas Dilse Piccin Corteze (coordenadora) e Elisabeth Souza Ferreira, o professor Edemilson Brandão (Secretário Municipal de Educação), a professora Silvia Ricci (da Classe Hospitalar Escola de Vida) e Claudio Janczak (colaborador do projeto).


Um outro sonho confessado por Emily era ter um Opala. Quem sabe, numa noite dessas, se você olhar para o céu e, poeticamente, ouvir um ronco de motor, não seja ela, que ficou encantada, passeando entre as estrelas que tanto amava.


Quanto à ilustração feita por Emily, eu decidi não colocar no texto, como fora solicitado; mas sim, em homenagem à sua memória, na capa do livro “Cultivando Talentos 2018”. Prestigie esse projeto! Adquira o seu exemplar na Feira do Livro, que vai até domingo (11), no Bourbon Shopping.




Biografia da Feira do Livro de Passo Fundo

Sexta-Feira, 02/11/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

“A Feira do Livro de Passo Fundo nasceu no ano de 1977”. É assim, no convencional estilo da melhor tradição enciclopédica dos escritores de biografias, que encontrei aquela que julguei ser a maneira mais adequada de começar a contar a história da Feira do Livro de Passo Fundo, que esse ano chega a sua 32ª edição. E se há que se atribuir uma paternidade ao evento, segundo os relatos do professor Welci Nascimento, que foi testemunha ocular da história, essa deve ser dada ao professor Athanásio Orth, que, na época, ocupava a Secretária Municipal de Educação e Cultura, na administração Wolmar Salton e Firmino Duro.


Entre as metas do professor Athanásio Orth, estava a criação de uma Feira do Livro em Passo Fundo. Uma reunião com os livreiros foi convocada pelo titular da pasta municipal da educação para debater o assunto. Outras tantas aconteceram, com a participação ampliada por educadores e empresários da cidade, até que, finalmente, foi designado Welci Nascimento como coordenador da 1ª Feira do Livro de Passo Fundo, que seria realizada no final do ano de 1977, como parte das homenagens dos 20 anos da Faculdade de Educação em Passo Fundo. E assim, com o apoio do executivo municipal, que forneceu transporte para trazer livros de Porto Alegre, recursos para a construção de barracas e subsídios para a vinda de escritores, se fez, no final de 1977, a 1ª Feira do Livro de Passo Fundo, nas dependências da Praça Tamandaré, com a participação de Josué Guimarães, em sessão especial de autógrafos.
A segunda edição da nossa Feira do Livro aconteceu em 1978, dessa vez na Praça Marechal Floriano, com quatro barracas de livreiros e a presença de escritores, como Cyro Martins, autografando suas obras. A feira do Livro começava a se consolidar e o evento se repetiria nos anos seguintes, no mesmo local, até a 6ª edição, em 1982, com as presenças ilustres de Josué Guimarães, Sergio Capparelli e Jayme Caetano Braun, entre outros. Em 1982, por obra e graça do evento El Niño de 1982/83, a estrutura da feira foi abalada por um forte temporal, que trouxe prejuízos e tristes lembranças aos expositores. Algo parecido se repetiria no El Niño de 1997/98.


Entre meados dos anos 1980 e início dos anos 1990 (até 1993, especificamente) há um hiato na história da Feira do Livro de Passo Fundo. A Feira do Livro de Passo Fundo é retomada em 1993, dessa feita no pavilhão anexo à Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, sendo iniciada a tradição de escolha de patronos, cuja honraria coube à professora Tania Rösing. Desde então, sucederam-se no posto de patrono da Feira do Livro de Passo Fundo: Dalva T. M. Bisognin (1994), Antonio Kurtz Amantino (1996), Pe. Elli Benincá (1997), Neusa Rocha (1998), José Johann (1999), Mário Maestri (2000), Jaime Sirotsky (2001), Alberto da Costa e Silva (2002), Airton Lângaro Dipp (2003), Ignácio de Loyola Brandão (2004), Carlos Henrique Iotti (2005), Alcione Araújo (2006), Antonio Augusto Meirelles Duarte (2007), David Coimbra (2008), Gilberto R. Cunha (2009), Eduardo Bueno (2010), Luiz Carlos Tau Golin (2011), Carlos Urbin (2012), Paulo Monteiro (2013), Juremir Machado da Silva (2014), Jorge Alberto Salton (2015), Mariane Loch Sbeghen (2016), Luis Fernando Verissimo (2017) e Luiz Coronel (2018).


Em 1994, o evento foi para o Ginásio do Sesi, sendo realizado com o apoio dessa instituição. No ano seguinte, 1995, não foi realizada a feira, que voltou em 1996, na Praça Marechal Floriano, na Avenida General Netto, em frente à Catedral, local onde seria realizada, anualmente, até 2014. Em 2018, a 32ª Feira do Livro de Passo Fundo, com programação de 1º a 11 de novembro, como vem acontecendo desde 2015, será realizada nas dependências do Bourbon Shopping.


Na história da Feira do Livro de Passo Fundo, além da prefeitura Municipal de Passo Fundo e da Universidade de Passo Fundo, especial menção deve ser feita à Associação dos Livreiros de Passo Fundo, que, desde a sua criação, em 2008, tem assumido a coordenação e se responsabilizado pela realização desse evento.




Um brinde, Minella!

Sexta-Feira, 26/10/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Ignoro se, em algum lugar do mundo, no meio de conversações animadas de mesa de bar, com pilhas de bolachas de chope ou de garrafas vazias enfileiradas ao redor, ou por ocasião do delicado processo de harmonização de uma comida especial com uma cerveja artesanalmente produzida com esmero de ourives, algum dia, alguém tenha lembrado de erguer um brinde aos responsáveis pela inovação da matéria-prima que é a base dessa bebida milenar: a cevada. Até porque, a maioria de nós, não faz a menor ideia de quem sejam as pessoas que, no dia a dia, se dedicam a melhorar geneticamente a planta de cevada, de cujos grãos é derivado o malte que, em última instância, é o principal ingrediente da tão apreciada bebida. De certa forma, ainda que simbolicamente, esse tipo de brinde que faltava, foi erguido pela AmBev, que, no dia 20 de outubro desse ano, concedeu a Euclydes Minella, pesquisador responsável pelo programa melhoramento genético de cevada na Embrapa, a distinção PERSONALIDADE 2018, como reconhecimento pela sua contribuição para o negócio cevada no Brasil.


Afinal, você que aprecia cervejas especiais e chopes cremosos, e, não raro, se alça ao papel de mestre-cervejeiro produzindo a sua marca própria de cerveja, sabe quem é Euclydes Minella e o que ele fez para merecer essa honorável deferência da AmBev? Muito provavelmente, não. Então, permita-nos apresentá-lo.


Euclydes Minella é engenheiro-agrônomo formado pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM (1974), cumpriu programas de mestrado (M.Sc.), na University of California/Davis (1979), e de doutorado (Ph.D.) em melhoramento genético vegetal na Cornell University (1989). Ingressou na Embrapa em 1975. Iniciou trabalhando com trigo, em Passo Fundo, e, durante breve pesagem, atuou no Cerrado, em Planaltina, DF. Mas, indiscutivelmente, foi o trabalho de Euclydes Minella, à frente do programa de melhoramento genético de cevada da Embrapa, ao primar pela criação e cultivares adaptadas ao ambiente brasileiro, com foco em produtividade elevada, resistência a doenças, tolerância a estresses abióticos e perseverar na indefectível aptidão cervejeira, que o levou a merecer a distinção de PERSONALIDADE 2018, dada pela AmBev.


O programa de melhoramento genético de cevada da Embrapa, como parte do “Programa Nacional de Auto-Suficiência (sic) de Cevada e Malte”, criado, em 1976, pelo Governo Federal, teve início em 1977. Desse trabalho, saíram as cultivares BR 1, que não alcançou padrão cervejeiro e, portanto, não chegou a ser usada em lavouras comerciais, e a BR 2, a primeira cultivar efetivamente cervejeira da Embrapa. Ao todo, Minella participou da criação de 29 cultivares de cevada, pela Embrapa, e mais nove em parceira com a AmBev. No elenco de cultivares elite, que ocuparam e ainda ocupam lugar de honra nas lavouras brasileiras: BR 2; Embrapa 43; BRS 180; BRS 195; BRS Brau; BRS Cauê; BRS Elis; BRS Sampa; BRS Manduri; e BRS Itanema.


Euclydes Minella também foi Chefe-Geral da Embrapa Trigo, entre 04/08/1990 e 10/05/1995. Nesse período, destacam-se como principais legados da sua gestão: o primeiro Plano Diretor da Unidade; a primeira norma de identidade e qualidade do trigo brasileiro; o primeiro curso de pós-graduação stricto sensu em Passo Fundo (Mestrado em Agronomia, parceria Embrapa-UPF); e o projeto METAS, que impulsionou a transferência de tecnologia para o sistema plantio direto no sul do Brasil.


O consumo de malte no Brasil, somente pelas cervejarias, é estimado em 1.300.000 toneladas por ano. Desse montante, produzimos cerca de 560.000 toneladas (43%), usando cevada nacional (40%) e importada. A produção de toda a cevada e malte que o País necessita seria possível com o cultivo de 660.000 ha, admitindo-se rendimento médio de 3 t/ha e quebra de 20%, e a duplicação da capacidade da indústria de malteação. Esses números indicam o quanto ainda nos falta para o atingimento da meta da autossuficiência planejada em 1976. Euclydes Minella permanece luta para que essa meta seja atingida. Ein Prosit, Minella!




A humildade de Darwin e a arrogância de Lorde Kelvin

Sexta-Feira, 19/10/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

William Thomson (1824-1907), o primeiro barão de Kelvin de Largs, que entre nós é mais conhecido como Lorde Kelvin, simbolizou como poucos o poderio científico da Inglaterra Vitoriana no século XIX. E fez por merecer, justiça seja feita, ao ser o primeiro cientista a receber um título de nobreza pelos avanços seminais relacionados com as suas descobertas em eletricidade, magnetismo e termodinâmica; com destaque para o desenvolvimento da escala Kelvin de temperatura absoluta e o protagonismo que desempenhou no comando da instalação do cabo submarino, que ligou a Inglaterra aos EUA, facilitando a comunicação telegráfica entre os dois países. Foi eleito Presidente da Royal Society of London, em 1890, e seus restos mortais repousam na Catedral de Westminster, em tumba vizinha a de Isaac Newton.


Apesar do perfil pessoal considerado discreto, Lorde Kelvin se viu envolvido em algumas polêmicas científicas que, pela soberba das falas, destoam do que seria esperável de um sábio da sua estirpe. Atribuem-se a Lorde Kelvin afirmações que hoje, certamente, o envergonhariam por serem totalmente erradas. Entre tantas, essas: “o rádio não tem futuro”; “máquinas voadoras mais pesadas do que o ar são impossíveis”; e “veremos que os raios x são um embuste”. Mas, a meu ver, a principal, foi a consternação causada a Charles Darwin (1809-1882) ao usar todo o prestígio científico que gozava na época para tentar “provar” que o Sol era jovem demais para que a evolução pudesse ter tido tempo de acontecer.


Sobre esse episódio envolvendo Lorde Kelvin e Charles Darwin, Richard Dawkins, na conferência que proferiu para a rádio BBC de Londres, em 24 de março de 1998, sobre o tema “ Sondagem do século: O que o século xx deixará aos seus herdeiros”, que sob o título “Ciência e sensibilidade” pode ser encontrada no livro “Ciência na alma: escritos de um racionalista fervoroso” (Companhia das Letras, 2018, p. 98-122.), foi categórico em rechaçar a arrogância de Lorde Kelvin, que supôs que tudo o que se sabia na época era tudo o que havia para se saber. Kelvin teve o disparate de afirmar a Darwin que “a Física fala contra a evolução, portanto a sua Biologia só pode estra errada”. Darwin, insiste Dawkins, deveria ter retrucado: “A Biologia mostra que a evolução é um fato, portanto a sua Física só pode estar errada”. Mas não o fez. Charles Darwin era um cavalheiro e se rendeu, pois, prevalecia, na época, que a Física suplanta a Biologia. Darwin, infelizmente, não viveu para ver que o erro era de Kelvin e, assim, não teve tempo de se arrepender por não ter mandado o mais graduado físico da Era Vitoriana para a P.Q.P.!


A teoria da evolução das espécies por seleção natural é considerada por muitos como a mais brilhante ideia que um ser humano já teve. Outros, evidentemente, discordam. Mas, convenhamos, essa teoria, que formalmente foi comunicada ao mundo em 1º de julho de 1858 e se popularizou com a publicação, por Charles Darwin, do livro “A Origem das Espécies”, no ano seguinte, é genial. E sobre ela, especialmente, se sobressai a generosidade e a humildade de dois sábios, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, que, sem conflitos e alardes maiores pela prioridade da descoberta, compartilharam os méritos da paternidade da teoria.


Há quem diga que Darwin chegou a se abalar ao receber, em 17 de junho de 1858, uma carta de Wallace, acompanhada de um ensaio, cuja teoria se assemelhava às ideias que ele vinha trabalhando há mais de 20 anos, e que pedia a sua opinião e a recomendação para publicação. Darwin aconselhou-se com Charles Lyell e Joseph Hooker, que sugeriam que os trabalhos dele (os ensaios de 1842 e 1844 e a carta que ele havia enviada a Asa Gray em 1857) e o manuscrito de Wallace fossem apresentados simultaneamente à Linnean Society of London, o que aconteceu em 1º de julho de 1858. Depois desse episódio, Darwin, que por temer implicações religiosas, políticas ou por perfeccionismo mesmo, não concluía os seus manuscritos, acelerou a redação da sua mais notável obra: A Origem das Espécies.




Ciência e salsichas

Sexta-Feira, 28/09/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Há uma crise de falta de reprodutibilidade nos resultados de artigos científicos que são publicados em renomadas revistas de circulação internacional. Eis uma particularidade que afeta diretamente a confiabilidade da produção acadêmica baseada em evidências, que é dominante nas chamadas ciências empíricas (ou experimentais, se preferirem), entre as quais se incluem as agrárias e as da saúde. Essa temática mereceu destaque especial na edição de 21 de setembro de 2018 da prestimosa revista Science. Felizmente há saída para essa crise, mas, por envolver mudanças de atitudes, institucionais e pessoais, e lidar diretamente com conflito de interesses corporativos, não se pode dizer que é algo fácil.


Entre as razões que contribuem para agravar o problema identificado, incluem-se as fraudes científicas, que, frise-se, não são majoritárias, os conflitos de interesse, envolvendo desde prestígio pessoal até negociações econômicas vultosas, e, no meu entendimento, aquela que é a preponderante, uma vez que diz respeito, especificamente, à formação acadêmica deficiente dos nossos mestres e doutores, estimulada pela massificação produtivista de programas de pós-graduação no mundo, que orientados pelas métricas do publish or perish (publicar ou perecer), em alguns casos, não atentam minimamente para o manuseio responsável do método científico nos estudos que darão origem as suas dissertações, teses e publicações derivadas.


Sim, o problema dos resultados que não se confirmam pode começar com o uso inadequado do método científico. Isso ocorre quando, consciente ou inconscientemente, as hipóteses do trabalho, por exemplo, são formuladas depois que os dados experimentais foram gerados. Ou quando são feitas muitas análises estatísticas sobre o mesmo conjunto de dados, sendo reportadas apenas aquelas que apresentam significância estatística. Ou pior ainda, quando a análise, que deveria ter sido definida a priori, é terceirizada para um consultor, que entende de estatística, mas não do assunto, encontre um modelo para explicar os dados, independente do que fora delineado para responder com o estudo. Coisas estúpidas podem ser feitas com aparente boas análises estatísticas, bastando, para isso, usar espaços amostrais pequenos e negligenciar o uso de técnicas multivariadas.


O problema de “hipotetizar” após os dados serem conhecidos pode ser corrigido com o registro antecipado do estudo e disponibilizar os dados originais (nada mais que seguir o projeto da pesquisa e adotar a filosofia open data), indicando o problema que vai ser estudado, qual é a hipótese que será testada e quais dados serão coletados e como serão analisados. Essa prática pode coibir o vício de que resultados negativos, geralmente, não são publicados.


Outra ferramenta bastante usada é a metanálise. Essa técnica foi criada por Gene Glass, em 1976, que a definiu como a análise de análises. Envolve uma revisão sistemática do conhecimento sobre determinado assunto, via o uso de resultados publicados em revistas supostamente de qualidade. As mais famosas metanálises da área da saúde são as produzidas pela Cochrane, uma multinacional sediada em Londres, que conta com equipe de especialistas e segue protocolos rígidos de trabalho, disponibilizando os seus produtos sobre evidências na famosa Cochrane Library. Mas nem as metanálises da Cochrane têm escapado do criticismo, uma vez que, pela inclusão e exclusão de trabalhos, pode-se condicionar as conclusões.

 

Exemplos de controvérsias não faltam, desde a relação entre o uso de antidepressivos e suicídio juvenil, produtos rotulados de orgânicos e saúde, campanhas de desverminação em massa e desenvolvimento/aprendizagem infantil e a recente sobre vacinação humana e HPV.
Enfim, a ciência, quando vista por dentro, nem sempre é tão rigorosa e objetiva quanto aparenta. E, contrariando o vaticínio de Sir Winston Churchill, nunca é demasiado saber como as salsichas são produzidas.




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