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Colunistas


Nossos respeitos à memória de Harold Bloom

Sexta-Feira, 18/10/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

De Harold Bloom (1930-2019), professor e crítico literário americano, sou admirador pela sua indiscutível qualidade como intelectual e, sobretudo, pela criação dos conceitos do Cânone e da Angustia da Influência. Ambos se confundem em William Shakespeare, pois, para Bloom, Shakespeare não é apenas o cânone ocidental, é também o cânone mundial.


A palavra cânone, que inicialmente tinha um sentido religioso, sendo aplicada à relação dos homens da Igreja que eram tidos como santos, evoluiu, literariamente, para uma lista de escritores considerados como referências a serem imitados, até à posição sustentada por Harold Bloom, envolvendo um conjunto de qualidades que converte autores em autoridades culturais. O cânone “bloomiano” é centrado em Shakespeare, embora, na sua definição, possam ser incluídos nomes como Cervantes, Tolstói, Dante, Goethe etc., que, indiscutivelmente, são escritores cujas qualidades intrínsecas e, acima de tudo, pelo valor estético das suas obras, influenciaram o processo criativo de autores posteriores a eles. Não sem críticas, evidentemente, pois o cânone de Bloom é integrado em demasia por homens, brancos e europeus.


O conceito de cânone defendido por Harold Bloom é, reconhecidamente, de caráter utilitário, pois, entre tantas obras disponíveis, permite o estabelecimento de uma ordem de prioridade de leitura. Isso, evidentemente, se contrapõe ao conceito de “biblioteca”, defendido por Foucault, que implica na utilização pelos intelectuais de todos os textos disponíveis sem qualquer discriminação convencionada pelo valor estético ou influência que, por ventura, tenham exercido.


Em 1973, Harold Bloom publicou o livro The Anxiety of Influence – A Theory of Poetry, cuja tradução para o português recebeu o título de A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia, que, até hoje, tem recebido criticas e elogios variados, dependendo da simpatia do leitor por Bloom. E mais uma vez, nessa obra, Shakespeare aparece como o herói favorito de Bloom, sendo considerado o mais influente dos autores que apareceu nos últimos quatro séculos. Não passamos, como escritores, de meras criaturas inventadas por Shakespeare. William Shakespeare não pensou uma ideia, escandalosamente, pensou todas as ideias; frisou Harold Bloom ao criar, assim rotulada por ele, uma espécie de “Bardolatria”.


Na segunda edição do livro The Anxiety of Influence – A Theory of Poetry, publicada em 1977, Haroldo Bloom dedicou um laudatório prefácio para atacar aqueles que ele chamou de ressentidos da literatura canônica, como sendo, nada mais e nada menos, que negadores de William Shakespeare, que se rendem a sua influência mesmo sem perceber que o fazem e que não escondem o sofrimento da angustia que sentem por terem sido influenciados pelo Bardo.


A influência usada no contexto explorado por Harold Bloom é uma metáfora envolvendo relacionamentos humanos, que pode ser extrapolada para além do ressentimento dos ressentidos em relação ao cânone da literatura mundial. Não pode ser ignorada, por exemplo, a angústia da influência que grassa no mundo acadêmico, ainda que nem sempre perceptível ou assumida, entre orientados e orientadores, pesquisadores associados e cientistas sêniores, supervisionados e superiores, membros e lideres de projetos, etc., que não raro deixam de lado o combate criativo do campo das ideias, o AGON preconizado por Bloom, em que aquele que vem depois realiza uma obra importante (e melhor, se possível) em resposta ao seu antecessor influente, ao trilhar, por meritocracia, novos cargos/caminhos no mundo das corporações. Nesses casos, eu, por não ter a erudição de Harold Bloom para criar uma metáfora modelar, diria, para algumas situações, quando mudam as posições de comando em uma organização e se sobressai uma aura deliberada de má vontade dos novos comandantes com os antecessores, que não estamos diante de meros ressentidos angustiados pela influência, mas, efetivamente, de uma horda de FDPs.




A femme fatale de Viena

Sexta-Feira, 11/10/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Não são muitas as mulheres que fizeram tanto por merecer o título de femme fatale do século 20 quanto Alma Mahler Gropius Werfel (1879-1964). A coleção de sobrenomes famosos, relacionados aos ex-maridos, que ela fez questão ostentar pela vida afora, é um bom indicativo; embora não suficiente. Inclusive, há quem diga que, mesmo enquanto casada, só Deus sabe as outras paixões vividas por ela, entre as quais se incluem os pintores Gustav Klint e Oskar Kokoschka e o cientista Paul Kammerer.


Alma Schindler foi uma mulher encantadora. Bonita, inteligente, dotada de talento musical, ambiciosa e sensual. Alma casou com o compositor Gustav Mahler, cuja obra dispensa comentários, que, na época dirigia a Ópera de Viena. Em 1910, ainda casada com Mahler, viveu um breve romance com o arquiteto Walter Gropius. A relação veio a publico e o casal fez terapia, nada mais e nada menos, com Sigmund Freud. Que Gustav Mahler procurou Freud é fato. O resto, sobre a prescrição do tratamento freudiano, é lenda. Em meio a turbulências matrimoniais, Gustav Mahler e Alma, foram para os EUA, onde ele foi regente da Orquestra Sinfônica de Nova York. O casal retornou a Viena em 1911. E, em agosto daquele ano, o maestro morreu.


Depois da morte de Mahler, Alma viveu uma tórrida paixão com o pintor Oskar Kokoschka. Foi homenageada pelo artista no seu quadro mais famoso (Die Windsbrautt/A noiva do vento). Na Primeira Guerra Mundial, Kokoschka alistou-se no exército austro-húngaro e partiu para o front de batalha. Alma então se reaproximou do arquiteto Walter Gropius, que ficaria famoso pela criação, na Alemanha, do estilo/escola Bauhaus, um marco na arquitetura e na arte moderna, e como professor de arquitetura em Harvard, nos EUA, onde morreu em 1969. Em 1915, Alma casou-se oficialmente com Gropius e, em 1918, teve um filho que recebeu o sobrenome de Gropius, mas cujo pai verdadeiro, descobriu-se mais tarde, era o escritor austríaco Franz Werfel.


Findo o relacionamento com Gropius, Alma, enfim, casou com a sua grande paixão: o poeta Franz Werfel. Nas suas memórias, Alma fala sobre o quão estranho era o relacionamento com Gropius, pois embora casada com ele, escreveu, em 1917, que “não consigo pensar em nada a não ser em Franz Werfel”. Gropius e Werfel disputaram o amor de Alma. Ela chegou a renunciar a ambos, mas cedeu e ficou com Werfel. O casal, acabaria, fugindo do nazismo (Werfel era judeu), indo para Nova York. Franz Werfel morreu na Califórnia, em 1945, e Alma Mahler Gropius Werfel, em Nova York, em 1964.


Um livro intrigante, “Mein Leben” (Minha Vida), em tom autobiográfico, foi escrito por Alma, em 1957. Indiretamente, esse livro lança luzes sobre o caso da fraude científica dos sapos parteiros/chocadores, protagonizada pelo biólogo Paul Kammerer, que, inclusive, deu motivo ao seu suicídio em 1926. Não por acaso, Paul Kammerer, fez parte do rol de apaixonados e da lista de amantes de Alma Mahler. Segundo relatos dela, que, após a morte de Mahler, trabalhou na Estação de Biologia Experimental de Viena (o Vivarium), onde foi assistente de pesquisa e teve um caso com Paul Kammerer: “Eu fazia registros, mas registros exatos. E isso irritava Kammerer. Registros menos precisos, com resultados positivos, teriam sido mais do agrado dele”. O depoimento de Alma reforça a alegação de outros colegas de Kammerer, caso de Franz Megusar, que, em artigo de 1913, faz referencia a falsificações grosseiras e a não confirmação experimental de dados que eram reportados por Kammerer. O sedutor Paul Kammerer não se deu bem com Alma. Ameaçou cometer suicídio caso Alma o abandonasse. Ela, alegando preocupação com algum desatino da parte dele, encaminhou a carta à esposa de Kammerer.


Sobre si, Alma disse: “ninguém, jamais, vai conseguir me descrever completamente. Nem eu mesma consigo. Eu sou cheia de enigmas sem solução. Um dia dirão sobre mim: ela foi uma esfinge!”. Hoje, diz-se que ela foi uma mulher fatal (uma femme fatale).




Unidos do negacionismo, da pseudociência e de outras charlatanices

Sexta-Feira, 04/10/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Aos ouvidos de negacionistas, pseudocientistas e charlatões de variados matizes, deve soar como o grito de guerra criado por Neguinho da Beija-Flor – Olha a Beija-Flor aí, gente! –, sempre que, pelas redes sociais ou nos veículos tradicionais de comunicação, surge alguém contestando o aquecimento global e sua relação com a atividade humana. A mística desse grito de guerra – Olha a Unidos do negacionismo, da pseudociência e de outras charlatanices aí, gente! – incendeia os instintos mais primitivos em muita gente, que, sem o mínimo de criticismo, passa a replicar falas em vídeos, entrevistas, textos, etc. e, quando não, a propor uma verdadeira cruzada messiânica contra quem pensa diferente. Por que isso acontece? Elementar, porque não conseguem distinguir o que É CIÊNCIA do que NÃO É CIÊNCIA.


É importante conhecer a ciência e seus padrões de funcionalidade para entender esse fenômeno. Sim, são categorizações diferentes, embora com traços comuns, negacionistas, pseudocientistas e charlatões. O fraudador na ciência, em geral, sabe como a ciência funciona e aceita os seus padrões, mas, não raro, intencionalmente, não hesita em violá-los para obter os resultados almejados. O caso dos negacionistas e pseudocientistas, é diferente. Eles podem não entender os padrões da ciência ou não entender o suficiente para abandonar as suas crenças. Mas, não se iluda com eles, pois não são tipos inofensivos e apenas folclóricos, como muitas de suas falas podem sugerir. Não raro, são perniciosos, ao defender interesses velados para contradizer a ciência, promover campanhas para minar a compreensão pública da ciência, e, via organizações tipo Think Tanks, financiar pesquisas questionáveis que visam à subversão da credibilidade da ciência. São exemplo públicos, além da negação da mudança do clima global como causada pelo homem, do habito de fumar e câncer de pulmão e do HIV e AIDS, também a insistência em relacionar vacinas infantis e autismo.


Um negacionista recusa-se a acreditar nas evidências ao ter as suas crenças ideológicas confrontadas, especialmente quando estão envolvidas também convicções políticas e religiosas. Os negacionistas preferem ser chamados de céticos. A palavra negacionista carrega a conotação religiosa do episódio retratado nos quatro Evangelhos do Novo Testamento, no qual Pedro negou por três vezes conhecer Jesus. Mas, em essência são negacionistas mesmo, pois não praticam o ceticismo filosófico (dúvida de tudo) e muito menos o ceticismo científico. Baseiam suas conclusões mais na intuição e em assertivas de fé do que em fatos e evidências. Uma teoria científica deve ser testada contra evidências empíricas e não apenas pela razão, como fazem os filósofos, e abandonada quando as evidências não a suportam. Mas, para a desilusão de negacionistas e pseudocientistas, esse ainda não é caso da relação entre mudança do clima global e atividade humana.


Os pseudocientistas atuam sob o manto da ciência, usam seletivamente a dúvida com aparência de ciência, porém sempre com inclinação viciada para promoção das teorias que defendem, na contramão do que deveria ser uma verdadeira atitude científica.
Negacionistas, pseudocientistas e charlatões, no tema mudança do clima global e atividade humana, são, efetivamente, mercadores de dúvida na opinião pública. Esse é o seu negócio: promover a dúvida! Para isso, insistem no surrado mantra, contra todas as evidências, que há dúvida se o clima da Terra está mesmo mudando, que não há consenso sobre o assunto na comunidade científica (Como não há consenso? 97% dos artigos publicados sobre esse tema suportam a hipótese do aquecimento global por causas antropogênicas, segundo Benestad et al., 2015 – Theor. Appl. Climatol. DOI 10.1007/s00704-015-1597-5) e atingem o clímax do nonsense, quando, apoiados em teorias da conspiração, atribuem a mudança do clima a mera companha financiada pelo magnata e filantropo ultraliberal George Soros. Aí o Diabo venceu!




Em busca do homem “perfeito”

Sexta-Feira, 27/09/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Não é de hoje que melhorar a espécie humana – não só fisicamente, mas também em seus aspectos morais e intelectuais –, tem sido objeto de preocupação de filósofos, de cientistas e de estadistas das mais diversas ideologias e correntes de pensamento. Três nomes, apenas para ilustrar: Platão, Francis Galton e Adolf Hitler. Na sua República, Platão descreve uma sociedade na qual se procura aperfeiçoar a humanidade, por processos seletivos. O estatístico vitoriano, Francis Galton, foi o criador da eugenia (conjunto de técnicas para melhorar geneticamente a espécie humana). E Adolf Hitler e os nazistas, pregando a superioridade da raça ariana, levaram de vez essas teorias e idéias ao descrédito, quando se valeram da eugenia para justificar a eliminação de judeus, negros e homossexuais.


Para entender Francis Galton e suas idéias expressas no livro Hereditary Genius (Gênio hereditário, Gênio herdado ou A hereditariedade do gênio; dependendo do tradutor), poucas coisas são necessárias: compreender o próprio Galton e seus conceitos de gênio e eminência, além de um conhecimento primário em estatística (distribuição normal de Laplace-Gauss).


Começando com Francis Galton: era filho de um grande banqueiro de Birmingham e primo-irmão de Charles Darwin. Nasceu em 1822 e morreu em 1911, no Reino Unido. Começou estudando Medicina, mas por problemas de saúde abandonou a carreira. Sua privilegiada situação econômica permitiu que viajasse muito e se dedicasse a escrever livros sobre múltiplos assuntos. Seus tratados sobre a África, por exemplo, foram premiados pela Sociedade Real de Geografia (em 1853). Também assinou obras nas áreas de fisiologia, antropologia, meteorologia, estatística e história da ciência. Ainda, foi o pioneiro nos métodos de identificação de pessoas por meio de impressões digitais. Seu livro mais famoso é o Hereditary Genius. A primeira edição saiu em 1869, merecendo resenha na revista Nature, de 17 de março de 1870, e a segunda edição, contando com um esclarecedor prefácio do próprio Galton, acabou publicada em 1892. uma obra de leitura fácil e agradabilíssima.


Na concepção de Francis Galton, o gênio deve ser entendido como o mais elevado grau de capacidade mental criadora, caracterizando um indivíduo com extraordinária potência intelectual. Usou essa palavra para expressar uma habilidade extremamente elevada e ao mesmo tempo natural. A posição de eminência, significando reputação elevada em uma dada profissão, na visão de Galton, é uma decorrência da superioridade do gênio em relação aos seus pares.


O que Galton procurou provar com o seu Hereditary Genius era que genialidade e eminência são transmitidas por herança. Para testar a sua hipótese, ele analisou famílias de notáveis, nas mais diversas áreas do conhecimento (direito, letras, ciência, música, política, pintura, etc.), relacionando os graus de eminência e de parentesco entre indivíduos. Acabou encontrando que a frequência do destaque de eminência declina com a mudança no grau de parentesco, entre os indivíduos analisados. Qualquer coisa tipo: filho de peixe peixinho é. Ou: a fruta não cai muito longe do pé.


Com a eugenia, reservando a reprodução às pessoas selecionadas, Galton sugeriu a possibilidade de aprimoramento da espécie humana, por meio de cruzamentos genéticos premeditados. Não visava à criação de classes privilegiadas e sim a uma evolução positiva da humanidade em seu conjunto.


Não faltaram críticas às suas idéias. Começando pelos aspectos racistas e discriminatórios de uma proposta desse gênero. Seus maiores erros: (1) subestimar a influência do ambiente sobre as pessoas; e (2) tal qual seu primo Darwin, também ignorou as descobertas de Gregor Mendel, particularmente no que concerne à presença de genes nocivos, em portadores normais (heterozigotos) de genes recessivos.


A eugenia de Galton saiu de moda, surgindo, mais por questões de saúde pública do que propriamente para produzir gênios, os aconselhamentos genéticos da Medicina.




Fiat Dubium

Sexta-Feira, 20/09/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Assim como está escrito no Gênesis 1:3, que o Espírito de Deus, enquanto vagava em uma terra vazia e coberta por trevas, teria dito FIAT LUX e houve luz; foi nos suntuosos salões do Hotel Plaza, em Nova York, que, em meio a uma reunião de cúpula da indústria do tabaco, convocada, naquele ano de 1953, para ver o que podia ser feito contra o resultado, que se supunha devastador, de um artigo cientifico, recém-publicado, que, pela primeira vez, ligava o cigarro como causa de câncer, que John Hill, o mago das relações públicas do mundo corporativo, teria, de forma figurada, evidentemente, proferido o FIAT DUBIUM.


A solução proposta por Hill foi que, em vez de continuar insistindo que fumar era um hábito saudável, a indústria do tabaco deveria criar um fundo para financiar pesquisas com o objetivo de, pela via da dúvida, convencer o público que não havia prova que fumar causava câncer e que os estudos que suportavam essa ideia estavam sendo questionados por numerosos cientistas. E assim, financiando cientistas comprometidos com a causa da indústria do tabaco (um dos mais notórios dessa trupe foi o renomado estatístico inglês Sir Ronald Aylmer Fisher) e pelo patrocínio de campanhas publicitárias milionárias, a dúvida – cigarro e câncer de pulmão – prevaleceu, pelo menos por mais 45 anos, até 1998, quando a indústria de tabaco, finalmente, abandonou essa estratégia de ação e abriu seus gastos e documentos, em meio aos quais foi encontrado um memorado interno, de 1969, da lavra de um executivo do setor fumageiro, que realçava “a dúvida é o nosso produto, uma vez que é a melhor maneira de competir com fatos na mente do público geral”.


E houve a dúvida, não só entre leigos fumantes, mas também nos meios médicos (Mário Rigatto, médico porto-alegrense que se notabilizou na luta contra o tabagismo no Brasil, foi uma ave rara no seu tempo). Mas, se isso hoje faz parte do passado, com relativa facilidade, pode-se perceber que o Fiat Dubium, em relação a muitos outros temas da atualidade, ainda tem vez no nosso meio. O caso mais notório, embora outros exemplos também possam ser dados, é o da mudança do clima global.


Não é difícil encontrar paralelismo entre o interesse e a estratégia de ação adotada pela indústria do tabaco, no caso do hábito de fumar e câncer de pulmão, com o envolvimento da indústria do petróleo e outros congêneres interessados no uso de combustíveis fósseis e as discussões sobre a mudança do clima global e suas causas. A promoção do ceticismo que a mudança do clima global, ora em curso, seja causada pela atividade humana guarda muitas similaridades com o que diz respeito à relação uso de cigarro e câncer de pulmão, que dominou a segunda metade do século passado.


O negacionismo, calcado no Fiat Dubium e tendo como foco a defesa de uma agenda econômica ou ideológica (comumente ambas), tem sido responsável para que resultados científicos, outrora dignos de respeito, sejam publicamente questionados por uma legião de não especialistas, pelo simples fato de discordarem deles. Mas o que leva um leigo a sentir-se motivado para questionar a ciência? Talvez, quando instigado pela dúvida deliberadamente posta na sua mente, sente necessidade disso por achar que a sua crença está em conflito com as conclusões da ciência. O exemplo clássico é o eterno confronto entre os criacionistas e os que defendem a teoria da evolução das espécies; ainda que, frisamos, crenças religiosas são dignas do nosso respeito.


O mais grave, nas discussões sobre mudança do clima, é negar a existência do problema e as suas causas, usando a dúvida criada por livros ou artigos deliberadamente produzidos para essa finalidade ou falas de professores e técnicos que se comportam como pops stars em eventos ou em entrevistas. Soaria hilário, se não fosse trágico, atribuir a falta de consenso ou de resultados científicos para pôr em cheque que a atividade humana é a responsável pela mudança do clima global em curso. Mudança do clima se combate com inovação tecnológica e empreendedorismo, não com negacionimos e muito menos com pregações do atraso.




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