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Colunistas


Nem o Nº 1 e nem o Nº 2

Sexta-Feira, 14/02/2020 às 07:00, por Gilberto Cunha

Se você é daqueles que não vê nada de mal em flertar com ideias totalitárias, e, frise-se, independente de matiz ideológico, pois exemplos de barbáries são facilmente encontráveis em regimes de exceção tanto de extrema-esquerda quanto de extrema-direita, pode valer a pena rememorar algumas aulas de história, para, dependendo do seu caráter, consolidar de vez a sua convicção ou, pelo menos, suscitar um pouco mais de reflexão.


Talvez, na história da humanidade, não tenha havido obsessão tão grande para o extermínio de um povo como a que foi levada a cabo por Adolf Hitler e seus seguidores nazistas de extrema-direita contra os judeus; ainda que Stalin e seus seguidores comunistas de extrema-esquerda não tenham deixado por muito menos. Mas, era mais do que os judeus que os nazistas queriam erradicar, pois atacaram principalmente a inteligência, a sensibilidade e a cultura que os israelitas haviam desenvolvido na Alemanha e de resto em toda a Europa. Se não, como entender a proposta da solução definitiva da questão judaica, que veio à luz, em junho de 1946, em Nuremberg?


Foi por ocasião do interrogatório do S.S. Oswald Pohl que, num certo dia de junho de 1946, três juízes americanos ouviram a expressão que há muito suscitava dúvidas. Oswald Pohl declarou que um dos seus colegas, Hoess, havia sido encarregado por Himmler para a solução definitiva da questão judaica. Então, perguntado em que consistiria essa solução definitiva, com naturalidade, respondeu: no extermínio de todos os judeus.


Essa expressão, até então, era ignorada pelos principais dirigentes nazistas que depunham em Nuremberg. O marechal Goering afirmou nunca tê-la empregado, mas a sua tese caiu por terra quando apareceu uma ordem dele dirigida a Heydrich, chefe da S.D., de 31 de julho de 1941, dando-lhe plenos poderes para os preparativos de uma solução definitiva para a questão judaica nos territórios europeus dominados pela Alemanha.


O plano original era de Hitler, evidentemente. Em inflamado discurso de 3 de janeiro de 1939 ele havia repetido à exaustão que “se os banqueiros judeus internacionais conseguissem fundir as nações em uma guerra mundial, dela resultaria o aniquilamento de toda a raça judia na Europa.” Era uma espécie de profecia do mal.


Goering, Himmler e Heydrich trataram de por a Ordem do Führer, ainda que não escrita, em prática. Definiu-se, em junho de 1942, que a solução definitiva da questão judaica deveria afetar ao redor de 11 milhões de judeus. E detalharam-se as cifras por países, a forma de extermínio, o uso como mão de obra, etc. O representante da Polônia, dizem, pediu prioridade para a solução do problema no seu território, que envolvia algo como dar destino a uns 2,5 milhões de seres humanos.


O primeiro passo foi reunir os judeus em guetos de grandes cidades, de onde ficaria mais fácil enviá-los para o seu destino final. E começou o horror, desde fuzilamentos em massa, comboios de trens de prisioneiros, campos de concentração, trabalhos forçados, experiências científicas atrozes com seres humanos, câmaras de gás, fornos de incineração, etc.


O mais importante dos campos de extermínio, os Vernichtungslager, foi Auschwitz, onde até 6000 pessoas por dia eram levadas às câmaras de gás. E do qual Rudof Hoess se “orgulhava” de ter reorganizado o extermínio de judeus pela melhoria do tamanho das câmaras e pelo uso do Zyklon B., que, dependendo das condições atmosféricas, fazia efeito em até 15 minutos. O odor dos fornos nos arredores de Auschwitz nunca deixou de denunciar o inferno que ali ocorria.


Se um histriônico cabo vindo da Áustria conseguiu dominar as mentes de uma Pátria que gerou gente como Goethe, Brahms, Schiller e Beethoven, imaginem o estrago que profissionais de teatro, ideólogos de ocasião e fake news bem produzidas podem fazer em cabeças formadas quase que exclusivamente pelas redes sociais?


Nunca é demais relembrar que, no término Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill vaticinou que, uma vez terminado com o inimigo Número 1, agora o dever era terminar com o inimigo Número 2. Ambos estão mortos. Não nos cabe ressuscitá-los!




Seu Sampaio

Sexta-Feira, 07/02/2020 às 06:50, por Gilberto Cunha

O 7 de fevereiro de 2020 define o fim das atividades do observador meteorológico Ivegndonei Luiz Pinto Sampaio na Embrapa e o começo de uma nova fase na sua vida. Depois de 41 anos de trabalho na Empresa, Ivegndonei Sampaio aderiu a um Programa de Desligamento Incentivado e, a partir de segunda-feira (10), não mais estará à frente das observações do tempo e do clima na estação Climatológica Principal de Passo Fundo. Que dizer sobre Ivegndonei Luiz Pinto Sampaio? Agradecer pelo trabalho que realizou? Elogiar o homem, o colega de trabalho e o profissional de alta respeitabilidade? Sim, mas por mais que eu diga, e ainda que tudo seja verdade; seria pouco. Então optei, para aqueles (e são muitos) que o conhecem apenas pelos veículos de comunicação, por apresentá-lo um pouco melhor.


Ivegndonei Luiz Pinto Sampaio, o “Juca” (para os familiares), o “Jandaia” (para os colegas da Embrapa, em alusão a uma maritaca barulhenta do Nordeste), o “Ivegndonei Sampaio” (para os jornalistas) e “Seu Sampaio” (para muitos passo-fundenses) é natural de Xanxerê, SC. Nasceu no dia 20 de fevereiro de 1958 e é filho de Adão Pinto Sampaio (in memoriam, músico e barbeiro) e Alda Rosalia Antoniazzi (aposentada, trabalhou muitos anos na SAMI e no Lar da Menina). Veio para Passo Fundo aos 6/7 anos, acompanhando os pais, que logo se separaram, e mais 5 irmãos, que ficaram sob os cuidados da mãe. Ivegndonei, junto com Igorvani e Igalivan (falecidos), faz parte da tríade de nomes inspirados em personagens de um romance polonês que Dona Alda leu quando estudava em colégio de freiras. Também, havia as irmãs Gislaine (falecida), Igle e Elaine.
Ivegndonei foi casado com a Sra. Roseclér Aparecida de Almeida Kunz, com quem teve os filhos Bruna Sampaio (09/09/1986) e Felipe Sampaio (10/09/1992). O casal se separou, consensualmente, em 1997, e Bruna e Felipe, ainda crianças, ficaram com o pai, que os criou e os educou com esmero. Hoje, do núcleo familiar mais próximo, além da Bruna e do Felipe, são partes o genro Jonatan e as netas Júlia e Isabela.


Houve muitos Ivegdoneis Sampaio na Embrapa, desde o seu ingresso em 16 de janeiro de 1979. O sindicalista (foi presidente da seção local, dirigente regional e nacional do SINPF), o empregado que ascendeu na carreira na Empresa (de auxiliar de campo a assistente), o adulto que votou a estudar (concluiu o Ensino Fundamental pela Escola Técnica Federal de Santa Catarina em 2002) e que se consagrou como observador meteorológico, função que exerceu com maestria desde 28 de abril de 1998 até o último dia de trabalho, recebendo visitantes na estação meteorológica (310 pessoas, em 2019), atendendo solicitações da imprensa (em 2019, 264 entrevistas para rádios e jornais e 27 para TVs) e demandas diversas da comunidade. Competente, atencioso, gentil, inteligente e perspicaz, o “Seu Sampaio” angariou simpatias e respeito.


Não foram poucas as vezes que, nos últimos anos, andando por supermercados, nas calçadas das ruas da cidade, nos shopping centers etc., eu fui chamado de “Seu Sampaio” e recepcionado com cumprimentos efusivos, tipo “Seu Sampaio, que satisfação o encontrar! Gostei muito da sua entrevista na rádio Uirapuru. O JG sempre tentando pegar o senhor!”. No início eu esclarecia o equívoco e dizia que eu era o Gilberto Cunha e que o Ivegndonei Sampaio era colega meu, mas não era eu. Depois desisti. Passei a retribuir os cumprimentos e responder as perguntas como se eu fosse o “Seu Sampaio”. Na última vez que lembro (não faz muito tempo), mantive, travestido de “Seu Sampaio”, uma longa conversa com um professor de educação física, na sala de espera de um consultório odontológico. Acredito que o “Seu Sampaio” não se saiu mal no esclarecimento das dúvidas sobre meteorologia levantadas pelo professor.

 
Agora, aposentado, Ivegndonei Sampaio, sem medo de ser feliz, poderá resgatar o antigo grupo de cinéfilos que pertenceu, cujo gosto refinado por películas singulares e raras, marcou época na Embrapa. Em nome dos colegas do Laboratório de Meteorologia Aplicada à Agricultura da Embrapa Trigo, o nosso MUITO OBRIGADO, JANDAIA! E felicidades, que você merece.




Entendendo a Zona de Convergência do Atlântico Sul

Sexta-Feira, 31/01/2020 às 06:30, por Gilberto Cunha

Quem tem assistido os noticiários de televisão sobre os alagamentos e chuvas intensas que ora estão acontecendo em Belo Horizonte, invariavelmente, tem se deparado, nas falas dos meteorologistas, com a expressão Zona de Convergência do Atlântico Sul, designada pela sigla ZCAS (leia-se zacas) e o seu papel nesse tipo de excepcionalidade do clima. Afinal, que é ZCAS? Como se forma? Quando atua? Em que partes do País exerce influência?


Aquela banda de nuvens, facilmente observável nas imagens de satélite, orientada de noroeste para sudeste, que se estende desde a Amazônia até o sudeste do Brasil e, frequentemente, também atinge parte do Oceano Atlântico subtropical, é o que se convencionou chamar de Zona de Convergência do Atlântico Sul ou, simplesmente, de ZCAS. As primeiras observações desse fenômeno, evidentemente, foram feitas após o advento da era dos satélites meteorológicos. O diagnóstico da sua existência começou nos anos 1970 e avanços significativo de conhecimento aconteceram nos anos 1980 e 1990.


A formação da ZCAS começa, em geral, com a intensificação da atividade convectiva (transporte vertical de energia na forma de calor latente e a decorrente formação de nuvens) no oeste da bacia Amazônica, no mês de agosto, e se põe em marcha rumo ao sudeste do País. Então, não é sem razão, que as chuvas, nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, com a formação da ZCAS e o escoamento convergente de umidade na baixa troposfera, comecem, de forma mais sistemática, em termos médios, a partir de meados de outubro e atinjam o clímax, com os eventos mais intensos de precipitação, entre os meses de dezembro e fevereiro; acompanhando a atividade da ZCAS. Nos meses de março e abril tem início o enfraquecimento da atividade convectiva na região tropical e, como corolário, a estação seca no sudeste e centro do Brasil começa a se delinear, sendo que, em muitos locais do bioma Cerrado, entre abril e setembro, praticamente não chove.


A regularidade das chuvas nas zonas tropicais e subtropicais de boa parte do território brasileiro é influenciada pela ZCAS. Mas, mesmo que a ZCAS marque presença em todos os verões, em função do caráter dinâmico da atmosfera, há variação na sua organização espacial e na intensidade das chuvas associadas, podendo configurar situações extremas como as que têm sido observadas nesse início de 2020. Às variações de atividade da ZCAS, não raro, podem ser atribuídos os desastres naturais envolvendo alagamentos, deslizamento de encostas, etc., bastante comuns, nos inícios de ano, nas áreas mais densamente habitadas do País, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.


Por outro lado, a não formação da ZCAS também pode determinar ausência ou supressão de chuvas, causando estiagens e problemas para a agricultura, dificuldades de abastecimento de água para a população e limitações na geração de energia elétrica, nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. A ZCAS, depreende-se, é fundamental para a regularidade do regime de chuvas em vastas áreas do Brasil. O que não se quer ou se espera são deformações na intensidade e na atuação da ZCAS.


São muitas as teorias que buscam explicar a localização e as características da ZCAS. Desde as monções tropicais e o seu papel na manutenção das zonas de convergência subtropicais e, especialmente, o aquecimento adiabático (transporte de energia sem trocas com o meio) na bacia amazônica, cuja localização e intensidade dessa fonte de calor podem influenciar os padrões de convecção, a forma da ZCAS e o posicionamento dos seus ramos de ascensão de ar úmido e de subsidência (descida de ar seco). As anomalias opostas de chuvas, entre o sul e o sudeste do Brasil, no verão, com estiagens na região Sul e excesso de chuva na região Sudeste, podem, algumas vezes, estar atreladas às assimetrias da ZCAS, especialmente quando a sua atividade é mais intensa sobre o oceano e o ramo de subsidência atinge o sul do País (além do Uruguai e norte da Argentina).

 
Quando são combinados ZCAS intensas e vulnerabilidade social causada por pobreza extrema, não tem jeito, o Diabo sempre vence!




Tributo a Ana Maria Primavesi (1920-2020): A Dama da Agroecologia – Final

Sexta-Feira, 24/01/2020 às 06:00, por Gilberto Cunha

Depois que deixou a UFSM, em 1974, apesar dos reveses que sofreu em São Paulo, primeiro com a morte do marido, Artur Primavesi, em 1977, e depois com a perda filho mais novo, o médico Artur Primavesi Filho, em 1986, Ana Maria Primavesi ainda tinha muito com que contribuir para a agricultura brasileira, com destaque em agroecologia; como efetivamente fez.

Em 1977, Ana Maria Primavesi aproximou-se do Movimento de Agricultura Alternativa, que, na ocasião, mesmo enfrentando a oposição de boa parte da classe agronômica, era capitaneado pela direção da Associação de Engenheiros-Agrônomos do Estado de São Paulo, culminando essa iniciativa, em1989, na criação da Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo. Nesse período, Ana Maria Primavesi também se dedicou a concluir aquela que, reconhecidamente, é a sua obra magna: o livro O Manejo Ecológico do Solo.

A obra O Manejo Ecológico do Solo: A Agricultura em Regiões Tropicais, mais conhecida pelo titulo resumido Manejo Ecológico do Solo, inicialmente, fora escrita com a intenção de ser publicada pela Editora Agronômica Ceres, uma das mais importantes casas editoriais na área de Ciências Agrárias no País. A Editora Ceres relutava em publicar o livro. Um parecer sobre a obra foi solicitado a professores da ESALQ/USP. O relatório recebido foi arrasador. De qualquer forma, Ana Maria Primavesi não desistiu do livro. Ao contemplar as sugestões dos revisores, o livro passou das originalmente 250 páginas para mais de 500 páginas. A Editora Ceres não se decidia pela publicação ou não do livro. Nesse interim, em 1980, surgiu o interesse da Editora Nobel, que buscava um livro sobre agricultura. A Editora Ceres recebeu um ultimato e desistiu da publicação. O livro acabou saindo pela Editora Nobel, ganhou lançamento na Associação de Engenheiros-Agrônomos do Estado de São Paulo, e, apesar das críticas, foi um sucesso, vendendo três edições completas em seis meses.

A visão de Ana Maria Primavesi sobre o solo, como uma entidade viva, ao apregoar que os solos tropicais, diferentemente dos temperados, não precisavam ser revolvidos pela a aração para se tornarem produtivos, ainda que não goze desse reconhecimento, ajudou na construção de um dos princípios basilares do atual Sistema Plantio Direto: o revolvimento do solo apenas na linha de semeadura.

Em 1980, empregando parte da indenização recebida do governo alemão pelas perdas materiais sofridas por Artur Primavesi por ocasião da Segunda Guerra Mundial, Ana Maria Primavesi comprou uma fazenda em Itaí, no interior de São Paulo. Nessa propriedade de 96,8 ha ela construiu uma casa, plantou árvores e cultivou o solo segundo os princípios que acreditava, transformando aquelas terras em uma propriedade referência em sistemas sustentáveis. Ali, Ana Primavesi, mesmo viajando muito, viveu por 32 anos, até que, no final de 2011, aos 91 anos, deixou Itaí de vez para voltar a São Paulo.

Nunca faltaram reconhecimentos ao legado deixado por Ana Primavesi. Na Alemanha, em 2012, recebeu das mãos de Vandana Shiva o One World Award (OWA), da International Federation of Organic Agriculture (IFOAM) e, em 2013, foi aplaudida em pé por mais de cinco minutos no Terceiro Encontro Internacional de Agroecologia, realizado em Botucatu/SP.

Em 2014, pela Editora Nobel, Ana Primavesi publicou o livro Pergunte ao solo e às raízes: uma análise do solo tropical e mais de 70 casos resolvidos pela agroecologia. E, em 2016, veio a lume a biografia Ana Maria Primavesi: Histórias de Vida e Agroecologia; que começou a ser escrita em 2010, pela geógrafa Virgínia Knabben. O livro foi publicado pela Editora Expressão Popular, como parte da série Ana Primavesi, que foi criada especialmente em sua homenagem. Por essa série, saiu também o livro A convenção dos Ventos, um retrato da Agroecologia em contos, assinado por Ana Maria Primavesi.

No dia 5 de janeiro de 2020, aos 99 anos, Ana Maria Primavesi morreu em São Paulo. Pelo legado que deixou, rendemos os nossos respeitos à memoria da Dama da Agroecologia brasileira.




Tributo a Ana Maria Primavesi (1920-2020): A Dama da Agroecologia – Parte 1

Sexta-Feira, 17/01/2020 às 06:00, por Gilberto Cunha

Tributo a Ana Maria Primavesi (1920-2020): A Dama da Agroecologia – Parte 1

Se há uma mulher digna de ser chamada de a Dama da Agroecologia brasileira, essa pessoa é Ana Maria Primavesi. Dama, em se tratando de Ana Maria, é uma forma de tratamento que nos parece mais adequada e elegante do que Madame, como de costume se referiam a ela, com certo tom pejorativo, no começo, alguns alunos e determinados colegas professores desafetos, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nos anos 1960 e começo dos anos 1970, e, depois, em, aparente sinal de “respeito”, ao legado deixado por ela na instituição; como são exemplos o “Campo da Madame”, a “Floresta da Madame”, o “Açude da Madame”, o “Galpão da Madame”, o “Laboratório da Madame”, etc.

Ana Maria Conrad nasceu em 1920, no vilarejo de St Georgen de Judenburg, no estado da Estíria, Áustria. Membro de uma família aristocrática que se dedicava à criação e gado e ao cultivo da terra, viveu e recebeu uma educação esmerada no castelo Pichlhofen. Estudou agronomia na Universidade Rural para Agricultura e Ciências Florestais de Viena, a famosa Boku, que concluiu em 1942, e onde fez doutorado em solos e nutrição de plantas e conheceu o futuro marido, com quem se casaria em 1946, Artur Primavesi. Viveu as agruras da Segunda Grande Guerra, quando perdeu dois irmãos e viu a destruição das propriedades da família. E foi deixando uma Europa destroçada para trás, que ela, então casada com o fazendeiro, diplomata e também doutor em agronomia Artur Barão Primavesi e mãe do primeiro filho, Odo Primavesi, em 1948, veio para o Brasil, acompanhando o marido, que havia recebido um convite do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, por ocasião de visita oficial desse à Alemanha, para trabalhar no nosso País.

Artur Primavesi e família, assim que chegaram ao Brasil estabeleceram-se em São Paulo. Artur foi contratado pela Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo como superintendente para o plantio de trigo. Depois, deixando o serviço público, foram para Passos/MG, onde Artur prestava serviço para uma usina e se dedicava ao cultivo de cana-de-açúcar, e nasceria Carin, a filha do casal, em 1951. Depois, voltaram para Itaberá, em SP, para trabalhar numa empresa, a Companhia Paulista de Trigo. Nesta cidade, em 1953, nasceu o terceiro filho do casal, que recebeu o nome do pai, chamando-se também Artur Primavesi. Em julho de 1956, o casal Primavesi voltou para São Paulo, morando incialmente na Vila Madalena e depois no Brooklin Velho, onde construíram uma casa. Nesse período publicaram nove livros sobre agricultura, pela Editora Melhoramentos.

Em 1960, com a criação de várias universidades no País, o casal Primavesi, foi convidado para trabalhar em pelos menos três instituições: em Botucatu, Brasília e Santa Maria. Optaram pela UFSM, atendendo ao convite do Magnífico Reitor Mariano da Rocha, e marcariam de forma indelével a instituição, especialmente pela criação do ensino de pós-graduação nas ciências agrárias, materializada no curso de Biodinâmica e Produtividade do Solo.

Nem tudo foram flores na vida de Ana Maria Primavesi. Na UFSM enfrentou a inveja de colegas que insistiam que o diploma dela não era válido, que se equivalia a um curso técnico e não de doutorado. Venceu essa batalha e teve o seu diploma reconhecido; não sem controvérsias dos desafetos. Em 1974, com os filhos já adultos e formados, o casal Primavesi deixou Santa Maria e voltou para São Paulo, onde Artur passou a trabalhar como consultor de empresas da área agrícola.

Uma nova vida, novos reveses e novas contribuições esperavam por Ana Maria Primavesi em São Paulo. Houve a morte do marido, Artur Primavesi, em 1977, vitimado por um câncer de próstata. E, em 1986, a morte do filho mais novo, Artur Primavesi, que trabalhava como médico anestesista em Passo Fundo e acabaria vitimado por um acidente automobilístico fatal numa Rodovia de Santa Catarina, enquanto se deslocava com a mulher e o filho para se reunir com os demais familiares em São Paulo, no Natal daquele ano. (continua na próxima semana).






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