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Colunistas


A propósito de Dirceu Gassen

Sexta-Feira, 07/09/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Escrever sobre Dirceu Neri Gassen (1953-2018), depois de quatro dias da sua morte, ocorrida no amanhecer da última segunda-feira (3), ainda que aparente, não é uma tarefa fácil. E não é uma tarefa fácil porque, além de tudo que foi dito e escrito desde o seu passamento, o próprio Dirceu, pelo trabalho que realizou, construiu uma história de vida que é por demais conhecida, deixando sem maior importância outros comentários feitos de fora desse contexto. De qualquer forma, nunca será demasiado reprisar a vida e a relevância da contribuição deixada por Dirceu Gassen para o desenvolvimento da agricultura brasileira.


Em breve síntese: Dirce Gassen nasceu em Santa Rosa, RS, no seio de uma família de agricultores, e formou-se em Agronomia pela Universidade de Passo Fundo, na turma de 1977. Fez mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na área de entomologia agrícola, em 1980. Fez curso sobre controle biológico de pragas na Universidade da Califórnia, nos EUA, em 1982, e cumpriu programa de disciplinas de doutorado (sem defesa de tese) na Lincoln University, na Nova Zelândia, no final dos anos 1980. Trabalhou como pesquisador na EMPASC (atual Epagri, 1979-1981), em Caçador, SC, e na Embrapa Trigo (1981-1995), em Passo Fundo. Foi coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da Secretária da Agricultura e Abastecimento do RS, em Porto Alegre, de 1995 a 1997. E a partir de julho de 2000, assumiu a gerência da área técnica da Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto Ltda. (COOPLANTIO). Foi sócio da empresa Vértice Agrícola - Agricultura de precisão e consultor privado em agricultura. Fluente em inglês, alemão e espanhol foi um palestrante reconhecido internacionalmente. Autor de livros e informativos diversos sobre proteção de plantas (pragas e doenças), controle biológico de pragas, plantio direto e evolução na agricultura. Além de ter sido editor-técnico da Revista Plantio Direto.


A síntese do parágrafo anterior, ainda que correta, não faz justiça a Dirceu Gassen. O legado que ele deixou é imensurável. Será sempre lembrado como o profissional dinâmico e entusiasmado, que não media esforços para encontrar soluções para os problemas do campo; criando grupos de discussão; visitando lavouras, participando de eventos, no Brasil e em diversos países do mundo; fazendo postagens nas redes sociais; e sempre presente nos veículos de comunicação. O reconhecimento da importância do seu trabalho na área de entomologia agrícola levou-o a ser agraciado, em 1995, com o nome de uma espécie que parasita os adultos de Diabrotica spp, cujas larvas são pragas de diversos cultivos: Centistes gasseni. Dirceu foi um entusiasta do Sistema Plantio Direto, sendo impossível separar o seu nome dessa revolução no manejo de solo que mudou a face da nossa agricultura.


O principal traço da personalidade do Dirceu, em paralelo à competência profissional inquestionável, sempre frisando que "A produtividade é o conhecimento acumulado por hectare", era a alegria, o trato fácil e a disposição para compartilhar conhecimentos. Os que conviveram com ele lembrarão do trabalhador incansável, que chegou ao ponto de ter sido hospitalizado por estafa; que visitava lavouras à noite, com uma lanterna, para avaliar problemas de pragas noturnas; que era capaz de ficar imóvel durante horas, deitado entre as linhas de plantas de soja, para identificar o que estava causando danos nas lavouras; do contumaz perdedor de aparelhos celular no campo; do agrônomo sempre munido de pá, enxada, canivete e uma indefectível câmara fotográfica, para auxiliar no diagnóstico de problemas nas lavouras. Não foi sem motivo que a sua última mensagem publicada em rede social, no dia 30 de agosto, foi essa: "Cada indivíduo dedica tempo, energia, conhecimento…para cultivar a paz, desenvolver o bem... de acordo com o caráter e valores que têm...".


E havia também o Dirceu que ia ao encontro de amigos para jogar tênis sem levar a raquete; que gostava de andar de patins; que compartilhava as alegrias que estava vivendo, ao ponto de ter ligado para Ataides Jacobsen apenar para contar da emoção que estava sentindo ao entrar num estádio por ocasião da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006; que era capaz de colocar um vagalume num saco plástico e sair à noite para demonstrar que iluminava para algumas crianças; que por andar sempre munido de uma rede entomológica caçando insetos, nos anos 1970, recebeu o apelido de Dirceu Borboleta, em alusão a um personagem da novela O Bem-Amado; e o Dirceu fotógrafo, dotado de técnica apurada, que para produzir um cartão de Natal com a imagem de um beija-flor passou horas à espreita da pose perfeita, como bem retratou a exposição “Visão do Agro através de imagem”, que fez em Gramado, em 2014.


A propósito de Dirceu Gassen, em mensagem especialmente dirigida à esposa Elaine, às filhas Tatiana, Thais e Tainara e aos genros Eduardo, Aramis e Richard, outra vez, socorro-me das palavras do poeta Manoel Bandeira, proferidas por ocasião da morte do escritor Mário de Andrade: “Você não morreu: ausentou-se. A sua vida continua na vida que você viveu. ” Requiescat in pace Dirceu!




Lidando com perversidades

Sexta-Feira, 31/08/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

São passados 45 anos desde a publicação, em 1973, do famoso artigo de Horst Rittel e Mel Webber (Rittel & Webber, 1973), “Dilemmas in a General Theory of Planning”, publicado na prestimosa revista Policy Sciences (v.4, n.2, p.155-169), e, apesar de toda a repercussão que esse texto alcançou, pelo que tudo indica, ainda não aprendemos a lidar da forma mais adequada com os chamados problemas perversos que afligem a humanidade. Esse trabalho, quer seja pelo número de citações que recebeu, pelos downloads realizados e/ou pelos debates e novos artigos que suscitou, está entre os mais importantes na carteira de publicações da Policy Sciences. Em razão dos tempos que ora estamos vivendo, e tanto faz um olhar sobre o mundo ou sobre o nosso País, revisitar e refletir sobre os insights do artigo de Rittel & Webber não nos parece algo descabido.


Essencialmente, Rittel & Webber lançaram um olhar sociológico para definir os contornos e buscar soluções para os chamados problemas perversos (wicked problems na expressão original deles) que afligem as sociedades nas suas mais diferentes escalas de abrangências (local, regional, nacional ou global). Suscitaram a crítica à crença demasiada no poder do enfoque científico para a solução de problemas sociais. A mesma racionalidade, ordenamento de processos e de controles que, um dia, permitiu à NASA colocar o homem não Lua, não necessariamente são aplicáveis, com o mesmo grau de resultados esperados, quando estão envolvidos problemas sociais, em particular os que podem ser categorizados como perversos.


Há que se entender o que leva um problema social a merecer o designativo de perverso e porque algumas soluções políticas podem dar resultado e outras não. Um problema perverso, no escopo da definição de Rittel & Webber, nunca tem uma formulação definitiva; não tem uma regra de comando que o faça cessar de imediato; não possui solução, por mais sem sentido que possa parecer, do tipo falsa ou verdadeira, mas sim do tipo boa ou ruim; não existe um teste expedito de solução; não cabe solução por tentativa e erro; não compete meras soluções enumeráveis em um plano fixo; cada problema é essencialmente único, embora um pode ser decorrência de outro; os problemas contemplam formas diferentes de representação; não há espaço para soluções por tentativa e erro; e, mesmo que a infalibilidade humana não seja premissa aceitável e nem possa ser desconsiderada, quem formula um plano de soluções para esse tipo de problemas não pode se dar o direito de estar errado.


Exemplos de problemas sociais perversos não nos faltam. Alguns nos afligem indiretamente e outros de forma mais direta e no dia a dia da vida em sociedade. Inclua nesse rol: pobreza e desigualdade social; violência doméstica e urbana, combate às drogas, criminalidade, sistema educacional e de saúde pública debilitados, corrupção e improbidade administrativa, poluição ambiental, mudança do clima, terrorismo, imigração ilegal, barreiras ao comércio internacional etc. Uma simples lista que pode ser ampliada com relativa facilidade por qualquer leitor dessa coluna. E as soluções para problemas que possuem esse grau de perversidade social? São simples? São meramente tecnocratas? São únicas? O mercado livre tudo resolverá? Você acha que o Estado mínimo é a saída? O problema do desemprego é uma mera questão de falta de qualificação individual do desempregado? O combate à violência e à criminalidade são resolvíveis com o acesso da população a armas de maior calibre? A discussão sobre armas que serve para os EUA é a mesma que serve para nós?


Você, prezado leitor/leitora, é inteligente o suficiente para perceber que diante da perversidade desses problemas; ainda que existam soluções, essas não são únicas e nem simples. Exigem construção política. E para isso, uma parcela de SIM e de NÃO para cada um dos questionamentos postos é uma solução infinitamente melhor do que meros SIM e NÃO absolutos e postos de forma intransigente.




As duas “vidas” de Mendel

Sexta-Feira, 24/08/2018 às 11:24, por Gilberto Cunha

Não poderia ter sido mais adequada a escolha da Ordem de Santo Agostinho, que seguia a crença PER SCIENTIAM AD SAPIENTIAM (pelo conhecimento se chega à sabedoria) e que teve Martinho Lutero nos seus quadros, cujos membros enfatizavam mais o ensino e a pesquisa do que a reza, para abrigar o jovem Johann Mendel (o nome de Gregor foi assumido no meio dos agostinianos), que teria entrado para a vida monástica por conveniência e circunstâncias familiares e não por vocação religiosa. Nesse ambiente, auspiciado pelo abade Cyrill Napp do monastério de Brno (na atual República Tcheca), Mendel pode estudar na Universidade Imperial de Viena e, após retornar, se dedicar integralmente à função de professor e à pesquisa, onde, em casa de vegetação, realizaria os famosos experimentos com ervilhas, que lhe assegurariam o título, com o qual hoje é reconhecido, de “Pai da Genética”.

Até realizar as duas conferencias na Sociedade de História Natural de Brno, em 8 de fevereiro e 8 de março de 1865, e a publicação do famoso artigo de 44 páginas, em 1866, intitulado “Versuche über Pflanzen-Hybriden” (Experimentos em Hibridização de Plantas), Mendel realizou vasta experimentação com ervilhas. Foram dois anos (1854 e 1855) testando 34 variedades de ervilhas, das quais escolheu 22. E depois mais 8 anos (1856 a1864) fazendo cruzamento de plantas e estudando a transmissão para os descendentes das características selecionadas, que envolveram: textura da semente (lisa ou rugosa); cor da semente (amarela ou verde); cor do tegumento da semente (cinza ou branca); textura da vagem (lisa ou rugosa); cor da vagem imatura (verde ou amarela); posição da inflorescência (axial ou terminal) e altura da planta (alta ou baixa).

Dois anos após a publicação do famoso “Versuche”, em 1868, Mendel foi escolhido abade do mosteiro e, a partir de então, envolvido apenas com tarefas administrativas, abandonou de vez as pesquisas. E ainda que tivesse solicitado 50 cópias do trabalho publicado, distribuindo-as a estudiosos do assunto, o seu feito não repercutiu até 1900, ano que marca a redescoberta das leis de Mendel, de forma independente, pelo holandês Hugo De Vries, pelo alemão Carl Correns e pelo austríaco Erich von Tschermak.

Em 1900 inicia a “segunda vida” de Gregor Mendel. Se na “primeira vida”, quer seja como obscuro monge agostiniano ou como festejado abade de mosteiro, quando assumiu como membro de diversas sociedades científicas e o cargo de diretor do Banco Hipotecário da Morávia, ou mesmo post-mortem, ocorrida aos 61 anos de idade, em 6 de janeiro de 1864, o “Versuche” foi solenemente ignorado pelos pares, o oposto ocorreu na “segunda vida”; mas não sem controvérsias, frise-se.

A redescoberta do “Versuche” envolveu uma disputa de prioridade autoral entre Hugo De Vries e Carl Corrrens. O primeiro usou os termos do “Versuche” e não citou Mendel. O segundo denunciou o fato e citou Mendel. Tschermak não compreendeu o “Versuche” e nem o conceito de dominância de Mendel. Carl Correns efetivamente entendeu o “Versuche”, pois foi ele que descreveu as razões 3:1, para 1 caractere, e 9:3:3:1, para dois caracteres, além de ter explicado a teoria de Mendel e estabelecido e enunciado as suas leis.

Gregor Mendel, graças a William Bateson, tradutor do “Versuche” para o inglês em 1902, passou a ser festejado como gênio, por uns, mas também detratado, por outros, com referências pouco elogiosas, tipo “sacanagem no monastério” ou “grandes imposturas da ciência”, afirmando que os seus dados teriam sidos falsificados, uma vez que as razões encontradas por ele são próximas demais das esperadas.

Somam mais de centena os artigos que acusam ou defendem Mendel. O fato é que os cães ladram e a caravana passa, pois as leis de Mendel, na pratica, continuam irrefutáveis, não podendo a mera aplicação de testes estatísticos sobre os dados disponíveis no “Versuche”, uma vez que se trata de um resumo de oito anos de experimentação, servir de prova para condená-lo. Mendel é maior do que os seus detratores!




O outro Oppenheimer

Sexta-Feira, 03/08/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

O modelo convencional de biografias, de pessoas ilustres ou nem tanto, cuja linguagem e expressões usadas dão ares de vidas vividas de maneira preordenada e com cronologias preestabelecidas, nem sempre possibilita o entendimento pleno do biografado. Por isso, no tocante a biografias, o recomendável é sempre a leitura de mais de uma obra, que, inclusive, podem complementar ou divergir, sobre fatos atinentes à vida do biografado. Eu, nesses casos, quando se trata de resolução de conflitos entre versões, ousaria sugerir como sendo necessárias leituras de obras paralelas que, por não envolverem diretamente o biografado, podem lançar luzes sem vieses sobre as questões de interesse ou apontar novos caminhos para o entendimento.


Sobre J. Robert Oppenheimer (1904-1967), os verbetes enciclopédicos convencionais dão conta que estudou física em Harvard, EUA, passou por Cambridge, no Reino Unido, e obteve doutorado na Universidade de Göttingen, na Alemanha, em 1927. Lecionou na Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Foi nomeado diretor dos laboratórios governamentais americanos de Los Alamos, Novo México, onde dirigiu o Projeto Manhattan para o desenvolvimento de bombas atômicas. Presidiu a Comissão Nacional de Energia Atômica dos Estados Unidos, entre 1947 e 1952, e atuou como diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton (1947-1966). Depois Segunda Guerra Mundial passou a lutar pelo controle internacional das armas atômicas, vindo, em 1954, pelas ligações com amigos esquerdistas e opiniões, a ser incluído na lista dos traidores comunistas e obrigado a depor no processo capitaneado pelo senador Joseph Raymond McCarthy, de cujas acusações, por força da opinião pública, acabaria absolvido.


Na monumental entrevista que George Steiner concedeu a Ramin Jahanbegloo, compilada no livro “George Steiner: à luz de si mesmo”, há uma passagem, retratada no capitulo 3, que mostra outro Oppenheimer, que não aparece nos verbetes enciclopédicos mais conhecidos.


Na condição de editorialista da revista The Economist, sucursal de Londres, George Steiner foi enviado aos EUA, em 1956, para entrevistar J. Robert Oppenheimer sobre energia atômica e relações entre EUA e Europa. Foi recebido em Princeton por um Oppenheimer arredio e exacerbando traços virulentos de cinismo, avisando que concederia apenas 5 minutos do seu tempo, devido ao pouco caso que fazia dos jornalistas. Finalizada a entrevista, na forma de perguntas e respostas, Oppenheimer convidou Steiner para almoçar, sem a companhia dele, na Cafeteria da Universidade.


Depois do almoço, o secretario de Oppenheimer conduziu Steiner para um encontro com o professor Harold Cherniss, célebre helenista, que perguntou se ele, efetivamente, estudara grego e se podia lhe ajudar com uma passagem de um manuscrito de Platão em que havia algumas palavras faltando. Enquanto conversavam, Oppenheimer entrou na sala e sentou-se numa posição privilegiada atrás dos interlocutores. E sem se dirigir a eles, exclamou: “O que há de importante na poesia e na filosofia são as partes em branco”. Steiner reagiu, dizendo que essa opinião era de Mallarmé e que denotava arrogância, pois, se verdadeira, para que existiriam os livros? Oppenheimer atacou dizendo que Steiner acabará de colocar uma questão quase inteligente e que estava convencido que os livros eram necessários, pois a Bhagavad Gita era a voz viva de Deus. A discussão continuou até que, na despedida, Oppenheimer perguntou se Steiner era casado e, ao receber como resposta “muito recentemente”, retrucou: “Ah!, sem filhos. Isso vai facilitar o alojamento”. E foi assim que George Steiner foi escolhido como humanista no Instituto de Estudos Avançados de Princeton.


Eis porque desse jogo de gato e rato, que protagonizaram Oppenheimer e Steiner, fica-se com a convicção de que, para alguém que diziam ser possuidor do cérebro mais poderoso da humanidade desde Leibniz, todo mundo era besta.




O desejo de durar

Sexta-Feira, 27/07/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Soa infeliz e dramática a frase que, amiúde, se atribui a Gustave Flaubert em seu leito de morte: “Eu morro como um cão e essa puta da Bovary vai permanecer”. Cruel, demasiadamente cruel, de parte do criador para com a criatura! Essa frase, de acordo com George Steiner, manifesta o paradoxo da angustia de um artista em face da sobrevida misteriosa da personagem, que surgida de palavras sem vida, rabiscadas em folhas de papel, seguindo o seu vaticínio, continuaria a viver.


Madame Bovary e Gustave Flaubert alcançariam, ambos, a imortalidade; apesar do pessimismo do escritor no leito de morte. E imortalidade no sentido de que, ainda hoje a criatura é lida e o criador lembrado e reverenciado. É a típica imortalidade que graceja quando um leitor qualquer, nas mais diferentes línguas que essa obra clássica ganhou traduções, abre o exemplar de um livro (ou manuseia um arquivo digital), trazendo criatura e criador à cena contemporânea.


Estamos falando da imortalidade da criação humana e, em particular de criação literária. E nesse sentido há que se fazer referência à mística heidggeriana, segundo a qual “somos falados” pela linguagem, que, no caso de um escritor poderia ser adaptada para o “ser escrito pelo texto”, ao estilo de Mozart quando dizia “uma sinfonia inteira me veio”, exemplificados por George Steiner à exaustão. Isso, que pode aparentar falsa modéstia, mas é criação.


Outra forma de imortalidade de um escritor pode ser alcançada por um erro de cópia do impressor, cujo exemplo mais notável, muito citado por George Steiner, é a tradução que Thomas Nashe, dramaturgo e romancista elisabetano, fez para “Ballade des dames du temps jadis”, de François Villon, cujos versos “La clarté tombe des cheveux d`Hélène” (A claridade cai dos cabelos de Helena), que em inglês seria “Brightness falls from the hair”, mas, por uma falha tipográfica, resultou em “Brightness falls from the air” (A claridade cai do ar), transformando-se em um dos versos mais celebrados da língua inglesa e conferindo a imortalidade a Nashe. Queira Deus que a Gráfica Berthier cometa um erro desse tipo durante a impressão da obra de algum escritor passo-fundense!


Na essência do que chamou “As Gramáticas da Criação”, George Steiner questiona: Afinal, Deus criou ou inventou o universo? Um cientista cria ou inventa uma teoria? Um músico cria ou inventa uma melodia? Um matemático cria/descobre ou inventa um novo teorema? A responsa mais sensata pode ser encontrada na raiz da palavra grega “poiésis” que significa criar e não inventar (inventar deriva do latim inventare). Assim, quer seja nas ciências ou nas artes, a imortalidade somente pode advir da criação. É de “poiésis” que deriva a nossa palavra poesia, que, essencialmente, envolve criação.


Difícil falar em imortalidade literária ou em qualquer arte, quando, vivenciando uma crise cultural e de educação, o que vemos grassar são celebridades de talentos e gostos questionáveis, que, dificilmente serão lembrados pelas próximas gerações. Não é sem razão que uma alusão a um clássico encontra tanta dificuldade de ser entendida mesmo entre pessoas detentoras das mais elevadas titulações acadêmicas. Isso talvez seja explicável por, no Brasil, particularmente, vivenciarmos uma crise de leitura que afeta uma ou mais gerações, que se encontram espremidas entre as mais antigas e a atual, comprometidas (sequeladas) por sucessivas reformas de ensino que não deram os melhores resultados, uma vez que, nas Universidades, a preocupação maior foi com a difusão da cultura científica, relegando as Letras e as Humanidades a um segundo plano (inclusive nas notas exigidas para ingresso de novos alunos). E assim a ignorância se perpetua.


Por que Machado de Assis é imortal? Pra você eu não sei, mas pra mim porque ele, entre outras coisas memoráveis, criou Capitu, aquela mulher, personagem do romance Dom Casmurro, cujo olhar oblíquo, cheio de incertezas e de ambiguidades, sugeria quase tudo e revelava muito pouco. Olhe bem, que pode haver uma Capitu à sua espreita.




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