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Colunistas


Orgânicos versus Convencionais

Sexta-Feira, 14/04/2017 às 08:00, por Gilberto Cunha

Negar que a atividade agrícola tem uma parcela substancial de culpa pela degradação ambiental que assola o mundo contemporâneo é, no mínimo, uma irresponsabilidade. Mas, colocar toda essa culpa sobre os agricultores, como alguns fazem, também não é uma irresponsabilidade menor. Ao se fazer isso, convenientemente, foca-se em um segmento e ignoram-se todos os demais braços do sistema mundial de alimentação, que antes e depois do campo, envolvendo desde a geração de tecnologias, passando pela indústria de insumos agrícolas e de processamento e distribuição e alimentos até o consumidor final, com suas atitudes de consumo consciente ou não e do destino que dá às embalagens que viram lixo doméstico, não há inocentes a priori; ainda que seja justa a reivindicação dessa presunção.

A solução, apontada por alguns e negada com veemência por outros, para o mundo atingir a segurança alimentar plena e de forma sustentável, seria a agricultura orgânica. Evidentemente, em tese; pois menos de 1% das terras atualmente usadas em agricultura no mundo poderiam ser enquadradas nos contornos dos rótulos dos produtos orgânicos encontráveis, com certificação, nas gôndolas dos supermercados. Isso significa que o sistema mundial de alimentação é, e vai continuar sendo ainda por um bom tempo, dependente da chamada agricultura convencional (essa que, pela via da exportação e produção de alimentos baratos, tem sido responsável por não piorar ainda mais o desempenho da economia brasileira). Mas, por outro lado, não há impedimentos para que muitas das boas práticas da agricultura orgânica não possam ser usadas na agricultura convencional, quer seja pelos benefícios trazidos para a saúde humana, por razões ecológicas ou por motivações meramente econômicas.

Eis um ponto de controvérsia: a agricultura orgânica seria a solução para a produção sustentável de alimentos no mundo, como apregoam os seus adeptos, ou não passa de um modelo retrógrado de produção alinhado com uma visão romântica de agricultura, que, pelo baixo desempenho produtivo, como insistem alguns críticos, em vez de soluções, espalharia fome pelo mundo e intensificaria a devastação ambiental? Uma questão aparentemente simples, mas que exige uma resposta complexa ou, pelo menos, para ir um pouco mais além do território das meras opiniões de ocasião, que seja, minimamente, fundamentada.

Luzes sobre essa discussão foram recentemente lançadas por Verena Seufert e Navin Ramankutty, da Universidade de Bristish Columbia/Canadá, em exaustiva revisão publicada na revisa Science Advances (edição de 10 de março de 2017), em que destacam que tanto os críticos quanto os defensores da agricultura orgânica, não raro, parecem que se referem a realidades distintas. Mesmo que há evidencias suportando os argumentos de ambos os lados, nenhum deles, pelas incertezas em muitas dimensões e os múltiplos contextos envolvidos, pode se alvoroçar como o detentor da razão.

São bem claros, mesmo que dependentes de contextos, os benefícios da agricultura orgânica. Sim, as práticas orgânicas promovem positivamente a biodiversidade local, podem trazer benefícios à saúde humana pelo menor uso de agrotóxicos e à qualidade das águas pelo menor aporte de contaminantes químicos (N e P, por exemplo) e ao produtor rural pelo prêmio que é pago adicionalmente, por um lado; mas, por outro lado, pairam dúvidas e possíveis malefícios relacionados com a contaminação de águas pelo tipo de adubo orgânico usado, a expansão de uso da terra pela menor intensificação da produção e o maior gasto em alimentação pelo adicional em preço pago pelo consumidor por produtos que ostentam o rótulo orgânico.

Indiscutivelmente, frisam Verena Seufert e Navin Ramankutty, a agricultura orgânica não é o Santo Graal para vencermos os desafios relacionados com a segurança alimentar sustentável no mundo. Mas, a integração de algumas práticas orgânicas, de reconhecido valor, nos modelos convencionais de produção, pode ser um passo importante.

 




Em defesa de uma ética climática

Sexta-Feira, 07/04/2017 às 08:00, por Gilberto Cunha

Pode parecer estranha a defesa de uma ética climática. Talvez até seja complicado para explicar, mas não difícil de entender. Afinal, as preocupações com a questão do aquecimento global e seus possíveis impactos sobre os ecossistemas e sobre as sociedades, mesmo havendo aqueles que, interessadamente, neguem; não podem mais serem ignoradas. E, admitindo-se a atividade humana, pelo aumento das emissões dos chamados gases de estufa, como sendo a principal responsável por esse temido aquecimento, nada melhor que considerar aspectos éticos para orientar os debates e regulamentar o relacionamento entre as nações, e - por que não? - também nos limites do território de cada país.

Antes de qualquer prova em contrário, independentemente do assunto, todo mundo tem um comportamento genuinamente ético. Ou pelo menos pensa que tem. E na questão clima/ambiente não poderia ser diferente. Leis, convenções, tratados e acordos buscam normatizar as relações que envolvem clima/ambiente e sociedades, quer seja no cenário mundial ou interno de cada nação. Ninguém ousa admitir que não estivesse sendo ético, ou pelo menos não fazendo uso da sua liberdade de decidir, ao se recusar assinar tratados internacionais, tipo Protocolo de Kyoto, por exemplo. Ou, melhor ainda, quando não quer cumprir o estabelecido, seja por mero acordo de cavalheiros ou firmado em leis, no tocante à poluição e à preservação do ambiente.

Ao que parece, as politicas relacionadas com clima/ambiente e sociedades, há algum tempo em discussão no cenário mundial, mais refletem uma forte disputa de interesses entre grupos competidores, cada um buscando a “sua política mais favorável”, do que propriamente visam a atender os problemas já detectados e que preocupam o futuro da humanidade. Por razões óbvias, em sendo a ética a responsável pela definição dos limites do uso que fazemos da nossa liberdade, uma adequada política sobre clima/ambiente e sociedades deveria, necessariamente, ser baseada em alguns fortes princípios éticos.

E quais seriam os aspectos éticos a serem considerados?  Pelo que foi exposto anteriormente, cabe a indagação. Embora não se limitando, algumas coisas podem ser discutidas. Começando pela questão da equidade entre gerações. Ou seja: não dá para fugir de responsabilidades. A geração atual não pode fazer de conta que não tem nada a ver com os estragos já causados, que o que está feito está feito e pronto. Ou, que pegou o barco andando e não pode fazer mais nada. E que não cabe a ela corrigir o passado, preocupando-se apenas com o presente e não dando atenção ao futuro. Isso é fundamental, pois os impactos maiores do aquecimento global serão observados no futuro, porém são dependentes do passado e do presente. Por isso mesmo, não se pode agir no presente como se tudo fosse ilimitado e sem maiores consequências, numa autêntica liquidação do futuro.

Também não se pode fazer de conta que não existirão “vencedores” e “perdedores” nos diversos cenários futuros de mudanças do clima global. Eles existirão sim. E, embora tanto nações ricas como pobres serão afetadas, muitas das hoje consideradas pobres e/ou em desenvolvimento poderão engrossar as fileiras dos novos miseráveis. Nesse sentido, carece uma rigorosa avaliação do clima regional, suas potencialidades e impactos, para fins de uma exploração com justiça do presente.

Alguns princípios básicos são indiscutíveis. É o caso típico do “quem polui paga”. Não se pode colocar na conta de todo mundo o modo de vida nababesco e o consumo exagerado de alguns, que não querem assumir qualquer compromisso de preocupação com as questões climáticas futuras.  Ainda, o “princípio da precaução”, porém sem exageros, pode ser posto em prática sim, quando se trata do uso de novas tecnologias e riscos para o ambiente.

Apesar da reconhecida importância desses e de outros aspectos éticos nas relações clima/ambiente e sociedades, tem havido uma sistemática negligência acadêmica e individual, quando se trata da sua inclusão nas discussões.

  




Lidando com pessoas

Sexta-Feira, 31/03/2017 às 08:00, por Gilberto Cunha

O grande desafio para o gestor de organizações que trabalham com o conhecimento é saber lidar adequadamente com as pessoas. Lá se foram mais de 50 anos, desde que Peter Drucker definiu a categoria dos “trabalhadores do conhecimento”, que se busca a melhor maneira de promover a integração de pessoas com habilidades especiais em empreendimentos de interesse comum (trabalho em equipe). É sabido, hoje mais do que nunca, que o sucesso de qualquer empreendimento depende do desempenho de pessoas. E isso é mais notório ainda em empresas que atuam na área de ciência, tecnologia e inovação.

O gestor, nesse tipo de organização, não deve ser avaliado apenas com base nos índices aparentes de desempenho da instituição. O exercício de liderança de pessoas e suas atitudes (exemplos pessoais) no trabalho em equipe são, cada vez mais, decisivos para diferenciar organizações relevantes, com possibilidade de vida longa, daquelas que, por inabilidade gerencial, tendem a desaparecer. Ao gestor cabe o papel de eliminar obstáculos, mais que qualquer outra coisa.

Não se separam conhecimentos e pessoas. E informação é a base do conhecimento do chamado “trabalhador do conhecimento”. Em uma época de acesso quase instantâneo a informações ilimitadas, em que o “avançado” para os dias de hoje pode ser a “ignorância” de amanhã, o que diferencia as pessoas é a capacidade de interpretar, integrar e aplicar de maneira estratégica o novo. E, mais que tudo, conseguir separar as informações necessárias daquelas que são dispensáveis. Isso, apesar da aparente simplicidade, pode representar a construção ou a destruição de empreendimentos e ser motivo de mau o bom desempenho pessoal no mundo do trabalho.

O conhecimento é parte integrante do processo de inovação. Não é por outra razão que a busca de novos conhecimentos é o ponto focal da gestão de qualquer instituição de ciência e tecnologia, que intenciona produzir inovação. E, em sendo indissociáveis pessoas e conhecimentos, torna-se elementar concluir que o êxito/fracasso nessas organizações é muito dependente do processo de gestão de pessoas posto em prática. Especialmente na gestão de trabalhadores que se diferenciam pela necessidade de uma maior autonomia, que usam o conhecimento para criar valor, que conseguem classificar e priorizar conhecimentos, que apresentam capacidade decisória e que possuem habilidades que levam com eles onde quer que trabalhem, mas, também, não raro, são dotados de personalidades fortes que, na contramão da história, dificultam o trabalho em equipe e são arredios à crítica.

O gestor da “era do conhecimento” sabe que pessoas são muito mais que empregados. Que há necessidade de respeito pela divergência de opiniões e que lhe compete agregar pontos de vista, embora sem perder o foco das organizações. O exercício de autoridade é mais moral que coercitivo, embora o uso desse último poder, em certas ocasiões, não possa ser ignorado. O que importa são os pontos fortes dos indivíduos (aqueles que podem representar um diferencial para a organização) e não as suas fraquezas.

A nova filosofia nas organizações é lidar com competências. É com base nelas que os indivíduos se diferenciam. Entre as competências corporativas ditas genéricas, destacam-se a capacidade de trabalhar em equipe, o foco no resultado, a flexibilidade e a gestão do conhecimento. No âmbito das competências específicas, tem-se a visão integrada de processos, a gestão de projetos, prazos e recursos, a orientação estratégica (capacidade de definir ações a partir de análise do ambiente externo e interno), a articulação de relacionamentos (uso de redes de relacionamentos em prol da organização) e a liderança/gestão de pessoas (capacidade de mobilizar esforços das pessoas, criando na empresa um ambiente participativo).

Diante do exposto, não é difícil entender porque, cada vez mais, o individualismo e a egolatria, ainda que vicejem no mundo contemporâneo, devem ser combatidos no ambiente de trabalho.




As lições do Eclesiastes

Sexta-Feira, 24/03/2017 às 08:00, por Gilberto Cunha

Os sociólogos Jonathan R. Cole, da Universidade Columbia, e Stefhen Cole, da Universidade Estadual de Nova Iorque, em artigo publicado na edição de 27 de outubro de 1972 da revista Science, denominado “The Ortega Hypothesis”, rejeitaram, com base em análise bibliométrica de citações afeitas ao universo das ciências físicas, a hipótese Ortega, que, segundo eles, foi construída a partir da obra “La rebelión de las masas”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, podendo ser assim sintetizada: “La ciencia experimental ha progresado en buena parte merced al trabajo de hombres fabulosamente mediocres, y aun menos que mediocres”. Concluíram, pelos resultados que encontraram, que apenas uns poucos cientistas contribuem para o progresso da ciência. Alternativamente, em dois artigos publicados na revista Social Science Information, 1976 e 1979, Stephen P. Turner e Daryl E. Chubim, professores de sociologia vinculados à Universidade do Sul da Flórida e à Universidade Cornell; respectivamente, fizerem outra leitura dos resultados encontrados por Jonathan R. Cole e Stefhen Cole, embora sem negá-los, que ficou conhecida como hipótese Eclesiastes.

 

No evangelho de São Mateus e no livro do Eclesiastes, pela riqueza de exemplos, podemos encontrar paralelismos e uma gama de interpretações possíveis, consubstanciados nos textos bíblicos, para os mais diversos comportamentos do dia a dia do mundo real dos cientistas.

 

O reconhecimento da autoria de artigos científicos é exemplar. Quando, entre os autores, há um cientista de renome, em meio a outros desconhecidos, estilo “ninguém”, “ninguém” e “alguém”, independentemente da ordem de autoria, o artigo em questão é comumente referido como sendo de “alguém”. Há quem veja nisso a materialização das mesóclises da parábola dos talentos (Mateus, 25:29): “Porque a todo o que já tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância: e ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que parece que tem”.

 

A questão principal enfocada por Stephen P. Turner e Daryl E. Chubim, na sua hipótese Eclesiastes, é o uso dos talentos, entenda-se dos cientistas e suas contribuições, em meio a um sistema de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I), cujo comportamento, supõe-se, tem algo de aleatório e, não raro, a marca da casualidade. Reviveram o Eclesiastes (9:11): “Eu me voltei para outra coisa, e vi que debaixo do sol não é o prêmio para os que melhor correm, nem a guerra para os que são mais fortes, nem o pão para os que são mais sábios, nem a riqueza para os que são mais doutos, nem a boa aceitação para os que são mais hábeis artífices: mas que tudo se faz por encontro e por casualidade”. Nessa mesma linha, sobre o papel do acaso, Maquiavel nos ensinou que temos o controle sobre a metade das coisas e a que a sorte é o juiz da outra metade; embora Pasteur tenha contrabalançado com a assertiva de que, em ciência, a sorte favorece apenas as mentes preparadas.

 

Pela hipótese Eclesiastes, não se trata de uma mera questão de exclusão da maioria dos cientistas do sistema de C,T&I, como uma leitura apressada da hipótese Ortega poderia sugerir, mas em se buscar uma maior eficiência na utilização dos talentos. Afinal, é equivocado imaginar que se pode medir eminência e se dar o devido reconhecimento a um cientista com base exclusivamente na métrica da sua produção de artigos e citações bibliográficas (a ciência da quantidade). São duas as categorias de cientistas: os eminentes e os obscuros. Um cientista adquire o status de eminência pela relevância do seu trabalho e reconhecimento, pelos pares e pela sociedade. E nessa questão da eminência, como bem frisa o Eclesiastes, o acaso pode desempenhar seu papel. Gregor Mendel é o exemplo de cientista, cuja relevância das suas leis da hereditariedade hoje ninguém desconhece, mas que foi sobejamente ignorado pelos seus contemporâneos. Qual teria sido o reconhecimento de Mendel, na sua época, se, em vez de um obscuro monge agostiniano, ele tivesse sido um catedrático da Universidade de Berlin? 




Clima e identidade nacional

Sexta-Feira, 17/03/2017 às 08:00, por Gilberto Cunha

A influência do clima na formação da identidade de uma nação é o tema do livro “Snow in America”, de Bernard Mergen, publicado pela Smithsonian Institution Press, em 1997. É evidente, pelo título, que trata da formação da identidade nacional dos Estados Unidos da América (EUA). Porém a sua base conceitual é aplicável para outros países ou, até mesmo, para regiões dentro de um país, incluindo o nosso tropical Brasil.

Desde a colonização, os EUA foram identificados como um país com as estações do ano claramente definidas. E a caraterística marcante do inverno era a neve, que ocorria em quantidade maior do que na Europa, de onde vieram os colonizadores britânicos. Sobreviver ao rigor do inverno era, para os colonizadores, um sinal de superioridade física e moral. Assim, a neve se constituiu em um referencial do inverno na sociedade americana. Thomas Jefferson, em suas notas sobre o estado de Virginia, manifestou-se em relação aos invernos, que estariam ficando mais quentes e com menos neve. Escreveu ele, em 1782: “nevascas são menos frequentes e menos profundas”. Também o dicionarista Noah Webster expressou o seu amor à neve na edição de 1828 do “American Dictionary of the English Language”. Concluiu a definição da palavra neve (“snow”) com a seguinte observação: “quando não há vento, os cristais caem em flocos ou em conjuntos que não se quebram, sendo, às vezes, extremamente bonitos”.

O culto americano à neve acentuou-se no século 19. Em 1834, a revista People’s Almanac trouxe a público o drama de Elizabeth Woodcock. Em 1799, durante uma viagem a cavalo entre Cambridge e Impington, Massachusetts, ela ficou presa na neve. Após oito dias na neve, ela foi resgatada. Seus pés tiveram de ser amputados e cinco meses depois ela morria. O infortúnio de Elizabeth motivou o mito da mulher congelada presa na neve. Músicas, poesias, pinturas retratavam o drama da mãe na tempestade de neve. Em algumas versões, mãe e filho morriam. Em outras, a criança era resgatada com vida.

E assim, ao longo do tempo, o surgimento de jogos de “guerra” com bolas de neve, brincadeiras envolvendo a construção de bonecos de neve e a cultura da limpeza da neve acumulada nas calçadas em frente às casas ajudaram a criar uma nova identidade nacional para os americanos, que não está baseada unicamente na sua realidade social e política, mas também na natureza. No inverno, a estrela maior é a neve. E o setor de turismo americano capitaliza isso muito bem. O natal com neve, em Nova York, atrai pessoas do mundo todo, por exemplo.

O Brasil também tem a sua identidade climática. E ela está ligada aos trópicos – sol e calor. Praias ensolaradas, Rio de Janeiro, alguns estados nordestinos e floresta equatorial (“rain forest”), Amazônia, são caracterizadores do nosso País no exterior. A corrente do determinismo geográfico, hoje ultrapassada, nos identificou com a chamada “preguiça tropical”. A falta de desafios impostos pelo meio físico forjaria um tipo humano acomodado. Mário de Andrade, com Macunaíma (o herói sem nenhum caráter) e sua clássica fala “Ai que preguiça!”, personifica bem esse mito.

Todavia, o Brasil é territorialmente muito grande. Possui diversidade de tipos climáticos. O Rio Grande do Sul, por exemplo, já faz algum tempo, por meio de campanhas publicitárias, buscou identificar-se com o frio. O objetivo foi o desenvolvimento de um turismo de inverno, enquanto o resto de País explora, e bem, o verão. A serra gaúcha, pelo setor de turismo, busca essa identificação regional para a sua sustentabilidade econômica, inequivocamente. Todavia, a criação de uma identidade baseada no clima não acontece em curto prazo, frise-se.

Por enquanto, ainda temos de lutar com a nossa identificação nacional, que, aos olhos do mundo, é de um país tropical – sol, praia, índios, carnaval e futebol – com um tipo humano acomodado pelo meio. Aliás, vale refletir, quem foi à Bahia e não voltou com a sensação de que lá não há pressa?




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