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Colunistas


Tributo a Ana Maria Primavesi (1920-2020): A Dama da Agroecologia – Parte 1

Sexta-Feira, 17/01/2020 às 06:00, por Gilberto Cunha

Tributo a Ana Maria Primavesi (1920-2020): A Dama da Agroecologia – Parte 1

Se há uma mulher digna de ser chamada de a Dama da Agroecologia brasileira, essa pessoa é Ana Maria Primavesi. Dama, em se tratando de Ana Maria, é uma forma de tratamento que nos parece mais adequada e elegante do que Madame, como de costume se referiam a ela, com certo tom pejorativo, no começo, alguns alunos e determinados colegas professores desafetos, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nos anos 1960 e começo dos anos 1970, e, depois, em, aparente sinal de “respeito”, ao legado deixado por ela na instituição; como são exemplos o “Campo da Madame”, a “Floresta da Madame”, o “Açude da Madame”, o “Galpão da Madame”, o “Laboratório da Madame”, etc.

Ana Maria Conrad nasceu em 1920, no vilarejo de St Georgen de Judenburg, no estado da Estíria, Áustria. Membro de uma família aristocrática que se dedicava à criação e gado e ao cultivo da terra, viveu e recebeu uma educação esmerada no castelo Pichlhofen. Estudou agronomia na Universidade Rural para Agricultura e Ciências Florestais de Viena, a famosa Boku, que concluiu em 1942, e onde fez doutorado em solos e nutrição de plantas e conheceu o futuro marido, com quem se casaria em 1946, Artur Primavesi. Viveu as agruras da Segunda Grande Guerra, quando perdeu dois irmãos e viu a destruição das propriedades da família. E foi deixando uma Europa destroçada para trás, que ela, então casada com o fazendeiro, diplomata e também doutor em agronomia Artur Barão Primavesi e mãe do primeiro filho, Odo Primavesi, em 1948, veio para o Brasil, acompanhando o marido, que havia recebido um convite do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, por ocasião de visita oficial desse à Alemanha, para trabalhar no nosso País.

Artur Primavesi e família, assim que chegaram ao Brasil estabeleceram-se em São Paulo. Artur foi contratado pela Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo como superintendente para o plantio de trigo. Depois, deixando o serviço público, foram para Passos/MG, onde Artur prestava serviço para uma usina e se dedicava ao cultivo de cana-de-açúcar, e nasceria Carin, a filha do casal, em 1951. Depois, voltaram para Itaberá, em SP, para trabalhar numa empresa, a Companhia Paulista de Trigo. Nesta cidade, em 1953, nasceu o terceiro filho do casal, que recebeu o nome do pai, chamando-se também Artur Primavesi. Em julho de 1956, o casal Primavesi voltou para São Paulo, morando incialmente na Vila Madalena e depois no Brooklin Velho, onde construíram uma casa. Nesse período publicaram nove livros sobre agricultura, pela Editora Melhoramentos.

Em 1960, com a criação de várias universidades no País, o casal Primavesi, foi convidado para trabalhar em pelos menos três instituições: em Botucatu, Brasília e Santa Maria. Optaram pela UFSM, atendendo ao convite do Magnífico Reitor Mariano da Rocha, e marcariam de forma indelével a instituição, especialmente pela criação do ensino de pós-graduação nas ciências agrárias, materializada no curso de Biodinâmica e Produtividade do Solo.

Nem tudo foram flores na vida de Ana Maria Primavesi. Na UFSM enfrentou a inveja de colegas que insistiam que o diploma dela não era válido, que se equivalia a um curso técnico e não de doutorado. Venceu essa batalha e teve o seu diploma reconhecido; não sem controvérsias dos desafetos. Em 1974, com os filhos já adultos e formados, o casal Primavesi deixou Santa Maria e voltou para São Paulo, onde Artur passou a trabalhar como consultor de empresas da área agrícola.

Uma nova vida, novos reveses e novas contribuições esperavam por Ana Maria Primavesi em São Paulo. Houve a morte do marido, Artur Primavesi, em 1977, vitimado por um câncer de próstata. E, em 1986, a morte do filho mais novo, Artur Primavesi, que trabalhava como médico anestesista em Passo Fundo e acabaria vitimado por um acidente automobilístico fatal numa Rodovia de Santa Catarina, enquanto se deslocava com a mulher e o filho para se reunir com os demais familiares em São Paulo, no Natal daquele ano. (continua na próxima semana).




Pierre Menard, autor de L´Ecriture et le subconscient

Sexta-Feira, 10/01/2020 às 07:00, por Gilberto Cunha

Na noite de Natal, em 1938, Jorge Luis Borges sofreu um acidente quase fatal. Ao subir correndo a escadaria do prédio onde morava a amiga Ema Risso Platero, bateu a cabeça no batente de uma janela. Foi atendido na hora e o ferimento suturado, mas o problema se agravou. Teve uma infecção, ficou uma semana sem dormir, alucinações e febre alta. Uma dada noite não conseguiu mais falar. Foi levado a um hospital, passou por uma cirurgia de urgência, teve septicemia e durante um mês se debateu entre a vida e a morte. Quando começou a se recuperar, temeu ter perdido a razão. Ao entender uma passagem de um livro, lida por sua mãe, chorou de emoção. Mas, ainda o atemorizava a dúvida se um dia voltaria a escrever. Até então havia escrito poemas, resenhas de livros e artigos breves. Se tentasse escrever algo desse gênero e fracassasse, estaria acabado intelectualmente. Então, decidiu tentar algo diferente de tudo que já havia feito. Se não conseguisse, seria justificável. Decidiu escrever um conto e assim nasceu o fantástico “Pierre Menard, autor del Quijote”.

O conto “Pierre Menard, autor do Quixote” saiu publicado, originalmente, na edição de maio de 1939 da Revista Sur. Depois foi incluído no livro Ficciones, de 1944, que junto com El Aleph (edições de 1949 e 1952) são, segundo o próprio Borges, as suas obras mais importantes. O Menard, personagem de Borges, é um romancista e poeta francês, que recém falecera (o narrador fora ao enterro), deixando uma obra visível, facilmente enumerável, contemplando sonetos, monografias, traduções, artigos técnicos e sobre suas paixões (xadrez, versos alexandrinos etc.), e outra inconclusa, monumental, singular, mas desconhecida, que foi a empreitada de ter escrito três capítulos da primeira parte do Quixote (9 e 33 completos e um fragmento do 22).

Pierre Menard, personagem e Borges, não queria escrever outro Quixote, pois isso seria fácil, mas sim O Quixote. A sua ambição era produzir páginas que coincidissem, palavra por palavra e linha por linha, com as originais de Miguel de Cervantes, mas que o resultado fosse outro livro. E conseguiu. Vejam o fragmento do capítulo 9 do Quixote. Escreveu Cervantes: “...la verdade, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo passado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo porvenir.” E, da lavra de Menard: “...la verdade, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo passado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo porvenir.” Parecem iguais, mas, insisto, NÃO SÃO!

A diferença, entre o texto de Cervantes e o texto de Menard, reside na diferença do universo simbólico que rodeia cada autor. Edgardo Gutiérrez, no livro Borges e los Senderos de la Filosofia, frisa que é a alteridade que faz a repetição de algo idêntico ser diferente. Não há texto idêntico. A recontextualização provoca a diferença na repetição. A existência do contexto faz a diferença.

A escolha, por Borges, do fragmento do capitulo 9 do Quixote, cuja  referência é à história, não foi tão aleatória como poderia aparentar. De fato, a verdade da história aparece como a história da verdade, contingente, passível de ser reescrita. Para Menard, a verdade histórica não é o que aconteceu, mas o que julgamos que aconteceu. Esse conto anteciparia uma boa parcela da teoria literária que ainda estava por vir no século XX, no que diz respeito aos papéis do intertexto, da citação, da reescritura e do leitor como criador da obra.

Mas, e Pierre Menard, não o simbolista de Nîmes inventado por Borges, existiu? Sim, existiu. E quem nos apresentou ele foi Daniel Balderston, professor da Universidade de Pittsburgh, que, no livro How Borges Wrote, de 2018, ao mencionar o interesse de Borges por grafologia e que ele havia lido o livro L´Ecriture et le subconsciente: Psychanalyse et graphologie, de Pierre Menard, de 1931, e o homenageou como o personagem principal do famoso conto de 1939. E como Balderston chegou a essa conclusão? Elementar, lendo as anotações do escritor e o manuscrito do conto de Borges.




Operação Shakespeare

Sexta-Feira, 03/01/2020 às 02:56, por Gilberto Cunha

Ainda que ninguém leve mais a sério as teorias conspiratórias, surgidas no século XIX, que levantavam dúvidas sobre a autoria das obras de William Shakespeare, talvez, pelos tempos que ora vivemos, que são pródigos para o ressurgimento de velhos mitos (Terra plana, Beatles versus Adorno e outros quejandos), valha a pena saber um pouco mais sobre o Bardo de Stratford-upon-Avon, antes de sair por ai a replicar, pelas redes sociais, coisas que, apesar de soarem inteligentes, não passam de bullshit (nada mais que merda).
William Shakespeare (1564-1616), ator e dramaturgo inglês, escreveu 38 obras dramáticas, além de sonetos e poemas narrativos, cujo conjunto, levou ao crítico literário Harold Bloom (1930-2019) a defini-lo como O CÂNONE ou, simplesmente, aquele que estabeleceu o padrão e os limites de toda a literatura. Então, sobre um escritor sem passagem por Oxford ou por Cambridge, o berço intelectual da elite inglesa, que não deixou manuscritos e cuja aparência infere-se de dois ou três possíveis “retratos” que sobraram; não seria descabido que surgissem controvérsias.
Entre os criadores dessa mitologia, destaque para a escritora americana Delia Bacon (1811-1859) cuja tese acabaria esposada por gente como James Joyce, Charles Dickens, Mark Twain e Sigmund Freud, que, como anedota não confirmada, dizem que o seu famoso Complexo de Édipo, não fosse por Delia Bacon, teria se chamado Complexo de Hamlet. No grupo dos ghostwriters do Bardo, três nomes surgiram com mais força: Sir Francis Bacon, Christopher Marlowe e Edward de Vere. Nenhum tem sustentação. Os sonetos conhecido de Bacon, que levam a sua assinatura, são medíocres comparados com os de Shakespeare. O dramaturgo Christopher Marlowe, autor de destaque na cena teatral londrina do século XVI, morreu em 1593 e muitas das obras emblemáticas de Shakespeare datam a posteriori. Restou Edward de Vere, 17º Lorde de Oxford, o mais credenciado dos candidatos e que angariaria mais simpatizantes, uma vez que, pela sua posição social e as leis da época, teria preferido escrever sob o pseudônimo Shakespeare. Também não tem sustentação essa tese, uma vez que a causa atribuída, a “Poor Law Act” (a Lei dos Vagabundos), não seria aplicável a um nobre.
Acrescentam os defensores de que Shakespeare teria sido um embuste literário, que a temática e o vocabulário da língua inglesa usados na sua obra seriam abrangentes em demasia para uma só pessoa e que a descrição dos locais de Verona, onde se passa Romeu e Julieta, e de Veneza, sede de Otelo e de O Mercador de Veneza, seria impossível para um autor que não tivesse visitado aquelas cidades.
Ignoram os que defendem esse tipo de tese que, apesar de ter nascido no interior da Inglaterra, ser filho de pais analfabetos e não ter passado por Oxford ou Cambridge, Shakespeare estudou num colégio público modelar, o Stratford Grammar School, onde teve acesso aos escritos clássicos de Ovídio, Cícero e Virgílio. E que, depois do casamento com Anne Hathaway, ocorrido em 1582, ele foi tentar a vida como ator e autor de teatro em Londres. Isso teria ocorrido por volta de 1887, quando ele passou a trabalhar como auxiliar num escritório de advocacia ou de um juiz. O que explicaria o seu conhecimento jurídico e a razão de cenas de julgamentos fazerem parte de pelo menos dois terços de suas peças. E para entender porque Shakespeare é tão caro para o Direito, sugere-se o livro “Medida por medida: o Direito em Shakespeare”, de José Roberto de Castro Neves, 6ª edição, 2019, pela Nova Fronteira.
O fato é que William Shakespeare, em Londres, fez sucesso como ator e autor de teatro, virou empresário da área, contou com o beneplácito de suas majestades Elizabeth I e James I, ganhou dinheiro, voltou para sua terra natal em 1609 e lá morreria em 1616. E para acabar de vez com a discussão se Shakespeare existiu ou não, em Julgamento simulado em Washington (EUA, 1987), três juízes da Suprema Corte, no caso denominado “In re Shakespeare: The Authorship of Shakespeare on Trial”, decretaram o reconhecimento que William Shakespeare, ele mesmo, era o autor das suas obras.




As memórias do Bira

Sexta-Feira, 27/12/2019 às 07:00, por Gilberto Cunha

Ubirajara Vasconcellos Morsch, Bira para os íntimos, levou ao pé da letra o velho adágio popular que diz que todo ser humano deve, pelo menos, plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Árvores, ele plantou muitas, com destaque para o pomar de laranjeiras, bergamoteiras, limoeiros, pitangueiras, jabuticabeiras e pinheiros que ele montou no quintal da sua residência no Bosque; filhos ele teve quatro (Valesca Cristine, Ana Carla, Rafaela e João Gilberto); e livro, com a publicação, em 2019, das suas “Memórias Esparsas”, cumpriu-se o desiderato.
Livros de memórias, como é o caso desse escrito pelo Ubirajara Morsch, que, não raro, exageram no relato de vivências pessoais e de cunho familiar, podem, à primeira vista, aparentar interesse restrito aos círculos de parentesco e de amizade ou às pessoas citadas. Mas, isso é um engano. Livros de memórias são fundamentais para a compreensão de uma sociedade e seus valores em determinada época. São valiosos, não necessariamente pelo que dizem, mas pelo que possibilitam ao leitor inferir. E, é assim que as memórias esparsas de Ubirajara Morsch nos permitem conhecer melhor a sociedade passo-fundense e sua evolução, desde a segunda metade do século passado até os dias atuais.
Ubirajara Morsch nasceu em 21/08/1940 (foi registrado como 21/09/1940). Ia se chamar Italmar (além-mar em italiano), mas, devido ao impedimento do Estado Novo para nomes italianos e alemães, acabou recebendo o bem brasileiro: UBIRAJARA, que em Tupi Guarani significa Senhor da Lança ou Senhor das Flechas, com o sentido intrínseco de Guerreiro. E é isso que ele foi e segue sendo na vida: UM LUTADOR.
As primeiras memórias afetivas relatadas por Ubirajara Morsch remontam ao nascimento do irmão Gilberto e quando, aos 6 anos de idade, acompanhando o pai, saíram de madrugada montados a cavalo, quebrando geada e enfrentando o Minuano, para buscar uma tropa de gado e um petiço que seria seu presente. Sob a proteção de uma capa Renner e do calor do corpo do pai, cujo afeto vivenciado naquela ocasião nunca mais se dissipou das suas lembranças.
Morsch estudou no Fagundes dos Reis, no Instituto Educacional (IE), onde concluiu o Técnico em Contabilidade, e na Universidade de Passo Fundo, formando-se em Direito na turma de 1972. Em 1964, ainda como estudante do IE, vivenciou algo inusitado, que foi o encontro de estudantes secundaristas e universitários, promovido por Cezar Romero, então candidato à presidência da União Passo-Fundense de Estudantes (UPE), ocorrido num sábados a tarde, em junho de 1964, na Câmara de Vereadores (atual Teatro Múcio de Castro), segundo Morsch, ou na Biblioteca Pública, segundo outros. Não importa quem esteja certo quanto ao local, pois a Biblioteca Publica, na época, funcionava no prédio da Academia Passo-Fundense de Letras, que fica ao lado do Teatro Múcio de Castro. O relevante foi que nesse dia ele conheceu Maria Dorotéa Deczka, representante do Centro Acadêmico João Carlos Machado da Faculdade de Direito, com quem se casaria em Capinzal, SC, no dia 27 de fevereiro de 1965, tendo João Carlos Pires e Ivo Coitinho como padrinhos.
Tinha pouco mais de 15 anos, quando, no dia 2 de abril de 1956, começou a trabalhar como balconista na empresa Barbieux & Geiger Ltda. (Casa do Agricultor). Lembra que vendeu e entregou as lajotas vermelhas que revestem as cúpulas das torres da Catedral de Passo Fundo. Nessa empresa galgaria todos os postos e viraria sócio, completando, em 2019, 63 anos de atividade na organização, que segue sob a razão social de UVM – Assessoria Comportamental e de Negócios Ltda.
O empreendedorismo e certo misticismo (expresso nos relatos de viagens e como seguidor do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran) marcam a trajetória de vida de Ubirajara Morsch. Criou empresas, trabalhou em associações classistas, engajou-se politicamente no PMDB, foi diretor regional da COHAB, presidiu a seccional local da Escola de Pais do Brasil e integra a Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC), atuando como orador regional e mestre da Loja de Passo Fundo.




O cartão de Natal dos Du Bois

Sexta-Feira, 20/12/2019 às 07:00, por Gilberto Cunha

Quem imaginar que a criatividade dos cumprimentos dos festejos de final de ano resume-se aos protocolares “Feliz Natal e Próspero Ano Novo” ou que, nessa época, nos resta apenas a resignação da espera pela volta da Simone cantando a surrada versão da música “Happy Xmas (War Is Over)”, gravada, em 1971, por John Lennon e Yoko Ono, como forma de protesto contra a Guerra do Vietnã, certamente, não recebeu o “cartão” de Natal 2019 dos Du Bois.
Tânia e Pedro Du Bois, casal de passo-fundenses radicado em Balneário Camboriú, mas que mantém estreita vinculação com as atividades culturais locais (presença nas Jornadas de Literatura, nas Feiras do Livro e publicando obras pelo selo editorial do Projeto Passo Fundo Apoio à Cultura, por exemplo), esse ano, inovou, na forma de enviar seus cumprimentos natalinos, por meio da produção de um pequeno livro (16 páginas) com textos de Tânia e poemas e ilustrações de Pedro.
O livro NATAL 2019 abre com a dedicatória “Amigos, desejamos boas festas, com alegria e amor”, e segue, com um breve poema de Pedro, destacando que “a magia do Natal está nas palavras que iluminam nossos corações”, e texto de Tânia que faz uma reflexão sobre o Natal como o tempo dos desejos. Em essência, Tânia e Pedro rememoram natais como um fio que nos conduz a uma outra vida, a uma outra infância, aquela que desejaríamos ter vivido, mas que não necessariamente vivemos. Ainda que Papai Noel não exista, e Tânia e Pedro são sabedores disso, a sua figura de símbolo de bondade e solidariedade, pode ajudar as crianças a lidarem melhor com a realidade por meio da fantasia, uma vez que, antes das significações e dos conceitos, pode despertar o desejo de existir. Os Du Bois são originais ao definirem cartão de Natal como “sinais marcantes na expressão dos sentimentos” e Natal como “encontro entre presentes”.
O cartão de Natal dos Du Bois, felizmente, chegou para mostrar que inovar é sempre possível, mesmo numa temática conservadora como o Natal. O Natal não se resume nem a Simone aos brados “Então, é Natal/ E o que você fez?/ O ano termina/ E nasce outra vez” (...) “Então, é Natal/ Pro enfermo e pro são/ Pro rico e pro pobre/ Num só coração”; e nem aos versos engajados do acadêmico e cordelista Aldemar Paiva, no seu monólogo de Natal, “Não gosto de você, Papai-Noel, também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia... Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humanidade, jogavam pedras nessa fantasia!”. Aldemar Paiva retrata, pela história de um menino pobre que sonhava com o Natal e cujo pai para fazer cumprir o seu sonho havia cometido um desatino, que, enquanto existir pobreza e injustiça no mundo, nenhum homem poderá ser efetivamente feliz.
O ano de 2019 foi prolífico para produção literária de Tânia e Pedro Du Bois. Pedro publicou os livros de poemas “O vendedor de cadeiras e outros poemas” e “Limites e outros exageros e alguns poemas”, e Tânia a coletânea de crônicas “Na sombra dos sentidos”. Todos pelo selo editorial do Projeto Passo Fundo Apoio à Cultura, que reforça o vínculo cultural de Tânia e Pedro com a cidade de Passo Fundo, ao escolherem uma editora local para publicar seus livros.
De Pedro Du Bois, compartilho, do livro “O vendedor de cadeira e outros poemas”, os versos de “O Mascaramento”: “A esterilidade mascarada em filhos gerados no seguimento do nome./ Desmascarado o homem se contempla em não acontecimentos./ Reaparece de forma antagônica e a agonia do recado./ A farta distribuição de balas e biscoitos antes de a porta ser fechada entre máscaras.” E de Tânia, do livro “Na sombra dos sentidos”, um excerto da crônica “Amavisse” (verbo em Latim que significa ter amado): “Acredito que há versões sob medida e, muitas vezes, o fato de haver amado me leva a fantasias como chaves para viver o cotidiano. Sinto a necessidade de fugir das limitações. ”
Eu finalizo com a força da mensagem dos versos da página 9 do livro/cartão de Natal dos Du Bois: “Iluminar as mentes para que a revelação não se perca nas trevas que nos ameaçam! ”. Era isso. Feliz Natal!






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