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Colunistas


Olhares

Sábado, 22/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Ramon tinha pouco mais de dois anos e estávamos num churrasco da semana farroupilha no CTG Lalau Miranda. Conversava com amigos entre uma cerveja e outra quando vi o olhar de meu pequenino procurando o meu; terno e comovedor porque ele chorava e provavelmente perguntava-me porque não estávamos juntos? Sempre tivemos muitos olhares, meus filhos e eu; mínimas vezes de reprovação, muitas outras de cumplicidades. Não somos perfeitos, longe disso; nem nossos filhos, que enfrentam a curva de aprendizagem. Darão cabeçadas, recorrerão em erros, dimensionarão em exageros pequenos problemas...assim como nós, ao longo de nossas aventuras que chamamos vida. Em, suma, queremos que sejam melhores que nós, algo que não deve ser tão difícil assim.


Minha mulher olhou o quarto de nossa filha, agora sem a cama de dormir que a acompanhou desde que era criancinha. Não pôde evitar o choro, era como se Georgia não fosse mais voltar; não fiz comentários, curti minha pequena tristeza em silêncio respeitador. Agora ali naquele canto cabe um sofá cama que não substituirá a magia dos grandes momentos mas, é hora de entender que ambos – Ramon e Georgia - não moram mais com a gente; nunca sairão de nossas mentes e corações, estão presentes em todas as nossas preces, em todos os nossos pedidos de luz e paz e em todas as nossas expectativas. Não almejamos riquezas e sucessos sociais retumbantes; almejamos que sejam felizes do jeito que escolherem ser. Ramon está cheio de trabalhos de filmagem, cineasta que é e Georgia está em Belém junto com a ONG solidária em que trabalha – Comunitas (Ruth Cardoso era presidente). Não confundir com comunista, aquele troço que não vê valor em meritocracia. São do mundo e são da gente, são as nossas melhores partes.


Olhei para minha foto de dezessete-dezoito anos, antes da escolha profissional e pensei que poderia voltar no tempo e bater papo com aquele menino cabeludo de calça e jaqueta US Top. Quer ser médico? Entre 1960-1980 esses profissionais ganharam muita grana; agora não mais; agora é medicina socializada, pouca grana e muito trabalho. Quer ser médico para trabalhar até morrer? Sim, deve ter sido essa a resposta que dei; a profissão permite ajudar a tratar doenças do corpo e da alma diariamente. Medicina não é profissão e nem vocação; é um chamado. Deus olha para seus filhos e escala alguns para ser isso tudo ou tudo isso. E permite que exercitemos o sacerdócio de acalmar espíritos e corpos combalidos a cada momento. Se a gente não usa essa benção para o desiderato desejado é pena. Às vezes Deus dá dentes para quem não gosta de mastigar, vai saber, como dizia a senhorita Jordana.


Olhei no face a baixaria de alguns concorrentes ao cargo máximo da república; carnificina, jogo de interesses, jogo de esconde-esconde. Lembrei de Bussunda e sua trupe: não pergunte o que seu país pode fazer por você...pergunte o que ele pode fazer por mim. Lembrei de Chico Anísio: enquanto o povo tem medo do futuro os candidatos têm medo do passado. Pensei certa feita, de maneira inocente, que pra ser presidente de qualquer coisa por aí era necessário ser decente. Era necessário ter vergonha na cara. Que horror. Diz um amigo que numa festas de pintos fomos convidados a entrar com as bundas.




Aparentemente

Sábado, 15/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Aparentemente o eleitorado (ou boa parte dele) cansou dos modelos históricos e pútridos dos partidos majoritários que comandaram a país nas duas últimas décadas. Cansou do MDB-PSDB-PT e aguarda algo novo ou menos viciado. O destino, se a gente acredita nele, colocou o meliante em cana (com ampla defesa contratada a peso de ouro com advogados caríssimos), esfaqueou o capitão que ainda luta pela sobrevivência, enquadrou Alckmin em sucessivos escândalos à cerca de irregularidades financeiras de seus companheiros de sigla, escorraça a estapafúrdia e impraticável ideia de Ciro de perdoar ou renegociar os devedores que estão com o nome sujo no SPC, postergou a indicação oficial de candidato do PT (até para proteger Haddad e sua inoperância) e ignora Meirelles. Os demais candidatos como Álvaro e Amoedo não seduzem.


Fernando Haddad (conhecido em São Paulo por “Jaiminho” – personagem do seriado Chaves, o carteiro que nada faz e está sempre cansado) tornou-se capacho do presidiário. Alckmin juntou as coligações que, aparentemente, grande parte do eleitorado quer deletar. Jair Bolsonaro emergiu de um partido nanico e o que ele representa? Representa a ruptura daquilo que é sempre o mesmo, ou seja, o não combate adequado à corrupção e ao crime organizado. Tem muita gente que acha que é esse o mote. Eduardo Jorge, vice de Marina, é um sujeito boa praça, daqueles de sentar num boteco e falar sobre os sonhos da juventude; médico com ideias claras, com trânsito histórico no PT (de onde vazou em 2003 ao se incompatibilizar com as ideias de Lula), trabalhou com Serra e Alckmin como secretário de saúde de São Paulo; também serviu a Luiza Erundina e Marta Suplicy. Sua entrevista na Jovem Pan desta sexta mostrou um cara simpático e equilibrado; tenho a impressão de que o foco dos entrevistadores se fixou muito na questão ambiental que é o que deverá por absoluta responsabilidade de todos ser o prisma para esse século em que deveremos castigar nosso planeta de forma mais irresponsável. Marina Silva encontrou bom nome para vice, se vai fazer a diferença e empurrar a Rede para o topo não se sabe.


As sabatinas erraram o foco ao abordar em Bolsonaro somente o período militar, torturas e Atos Institucionais; parece que somente isso interessa. Erraram o foco ao querer saber de Eduardo Jorge notícias sobre o PT, partido que abandonou há 15 anos. Erraram ao não focar pesado nos inúmeros escândalos financeiros da era PT. Erraram ao não bombardear o MDB pelo seu passado de apego exagerado ao poder e pela cumplicidade nas roubalheiras generalizadas. Erraram ao esquecer de perguntar ao candidato Alckmin sobre o provável loteamento dos vinte mil cargos que servem ao governo federal já que conta com a sigla inchada de composições.
A Veja de hoje estampa a tendência do eleitorado em confirmar Jair Bolsonaro e pergunta: quem vai com ele para o segundo turno (se é que vai ter segundo turno)? As entrevistas não conseguiram clarear o pensamento de grande parte do eleitorado porque os discursos ou são vazios e repetitivos ou são carregados de ressentimentos, pelo menos na aparência. Também aparentemente as pesquisas não são dignas de confiança. Quem viver, verá.




História que se repetem

Sábado, 01/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Os jornalistas do JN Bonner e Renata, ao estilo Faustão, perguntam sem oferecer tempo aos entrevistados de concluir raciocínio ou resposta. Augusto Nunes, da Jovem Pan, calculou que, dos 27 minutos em que Geraldo Alckmin esteve sendo sabatinado, 15 minutos respondeu sobre corrupção em que seu partido está envolvido no estado de São Paulo. O jornalista calcula que sobre o mesmo tema e respeitando a proporcionalidade de tempo o candidato do PT Fernando Haddad deveria ser inquirido por 15 horas em resposta às bandalheiras de seu partido e que Lula deveria permanecer no ar por 15 dias.


O relacionamento do PSDB paulista de Alckmin com o mundo do crime estaria ligado com a historinha que vou descrever. O PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa dirigida dentro dos presídios (agora é moda no Brasil), foi criado dentro da cadeia em Taubaté, em 1993. No ano de 2010 Geraldo Alckmin pediu votos para Ney Santos, meliante que já tinha sido condenado por adulteração de combustíveis, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Em 2012 um inquérito sobra colaboração de PMs e PCC foi arquivado. O PCC controla grandes áreas da cidade de São Paulo, cadeias, escolas de samba e tem bases no Paraguai e Bolívia.


Ney Santos estava solto através de um habeas do STF e resolveu que deveria ser prefeito da cidade de Embu das Artes (240 mil habitantes) mesmo sendo considerado chefe do tráfico de drogas na zona oeste de SP desde 1999, quando tinha 19 anos, idade em que já tinha sido condenado por formação de quadrilha após crime de assalto a um carro-forte. Em 4 anos de liberdade arrebatou fortuna de cem milhões de reais.


No ano de 2016 teve candidatura a prefeito de Embu impugnada pela Justiça Eleitoral com base na Lei de Ficha Limpa. Na eleição, com esse currículo de fazer inveja, teve o apoio de 79% dos votos – o pessoal do nosso país parece ter queda para meliantes – mas, a posse foi garantida no STF pelo ministro Marco Aurélio Mello; é, ele mesmo.


Após a tentativa de assassinato de um cartunista crítico a seu histórico e temendo ser condenado no julgamento de seu habeas, pediu licença da prefeitura e fugiu de avião para o Paraguai. Nem precisava, com os votos dos ministros Alexandre de Moraes (ex-filiado ao PSDB e ex-secretário de segurança de Alckmin) e de Marco Aurelio Mello (de novo) foi autorizado a reassumir o comando da prefeitura. É, 15 minutos foi tempo curto para Alckmin tentar passar a seus eleitores a sensação de que nada sabia a respeito de tudo isso.


As preocupações com o desemprego, educação, saúde, reformas tributárias e da previdência tendem ficar em segundo plano quando constatamos o aparelhamento das instituições com o submundo. Segurança e tráfico de drogas estão acabando com a Pindorama (Terra das Palmeiras) e arrastando o futuro de nossos filhos para esperanças de vida além-mar. E as instituições sofrem pesado golpe na luta contra o crime organizado que tenta eleger pessoas para cargos públicos.




Facebook

Sábado, 25/08/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Feliz fiquei ao receber curtições à simples homenagem a meu pai no face. Exibi foto em que meu velho estampa uma das indumentárias que mais apreciava, a pilcha. A outra, a farda, usou-a diuturnamente por dezoito anos. Fiz um texto simples, reconhecimento e exteriorização do orgulho pela convivência familiar, pelos exemplos, pela superação. O velho Jorge dizia não conhecer as sensações de tristeza, depressão ou melancolia pelo simples fato de não ter tempo para essas coisas. Verdade, com seis filhos para alimentar levantava uma hora mais cedo para trabalhar vinte e cinco horas por dia. Gago, por solidariedade a um irmão mais velho sobre o qual se zoava, como zoa-se fanhos, instintivamente compartilhou esse distúrbio da fala e diluía-a fraternalmente. Jamais se abalou à falta de grana, não tinha tempo para isso, também. Entristecido? Sim, às vezes, quando o Gaúcho, Guarani de Cruz Alta e Grêmio perdiam; sim, quando um filho adoecia, quando tinham dificuldades, quando minha mãe combaliu no final de sua vida. Então, por trabalhar no que gostava, tal qual eu – seu filho mais velho, que trabalha no que gosta – não era usual se entristecer e muitas vezes nem se sentia estar em labor. Quem está feliz com o que faz não trabalha nunca.
Era imperativo não ofender ninguém, apenas tocava flautas, flautinhas diria. O mundo de Jorge era extremamente simples, como o de Neca – minha mãe. Se vivos fossem era bem capaz de entender o face como imensa ferramenta para notícias boas, mensagens construtivas, compartilhamento de velhas músicas, lembranças dos grandes filmes e músicas. Nada de fakes, nada de injúrias, nada de agressões fortuitas.


Mas, o mundo mudou, as coisas deles também. Melhor, o mundo continua o mesmo, as pessoas mudaram. Mudaram suas perspectivas, tornaram-se mais imediatistas, os relacionamentos tornaram-se mais tênues, as pessoas ficaram mais solitárias. Alguns usam a rede social para revelar aquilo que não tem coragem de dizer pessoalmente; outros pintam-se com cores artificiais mostrando faces distintas do que são; outros se exibem com bens materiais. Os perfis também podem parecer exóticos tal qual a descrição de autobiografia – livro que o camarada escreve contando como gostaria de ser.


Percebo extremismos em relação à política; parece que aquela fera que habita no interior de cada um de nós é libertada na possibilidade de externar aquilo que não teríamos coragem de fazer pessoalmente. É pena que não saibamos dominar para o bem essa ferramenta; aos meus instintos mais primitivos que possa desconfortar opiniões alheias peço desculpas e cito um velho amigo de infância, especialista na faculdade da vida: erremo mas, se assim aconteceu, consertemo.




Crônica da morte anunciada

Sábado, 18/08/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Deprimente para a sociedade brasileira o armado espetáculo de escárnio do partido dos trabalhadores em relação à aplicação da justiça no país. O cara é julgado e condenado em duas instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro e tem a candidatura ao mais alto cargo político do país lançada oficialmente, tentando encontrar brechas através de chicanas jurídicas para ser levado a sério pelo eleitorado. Dizem por aí que de cada dez eleitores três votariam no meliante; é como se dissessem que trinta por cento dos brasileiros acham certo corrupção e lavagem de dinheiro e acham errado que estes crimes não sejam punidos com inelegibilidade. Eu era um adolescente e me encantei com o partido polonês Solidariedade de Lech Walesa; era bacana assistir o proletariado assumindo o poder; via no Solidariedade os meus primos, as famílias pobres de meus pais, via a maioria dos meus amigos de Cruz Alta. O PT no Brasil foi criado com intenções absolutamente sociais, acredito. Os chamados autênticos, como o recentemente falecido Hélio Bicudo, devem ter experimentado uma sensação de traição de valores com as falcatruas que Lula e seus apaniguados impuseram ao país. Que país pode desejar ser comandado por pessoas que enriqueceram às custas de ilegalidades? Que sociedade é essa que permite que um presidiário comande os destinos de um povo? O petismo morreu, foi engolido pelo lulismo; Lula é maior que o PT, fez dele o que quis, não deixou criar nenhum líder que se aproximasse de sua aura de poder. Convidou a quadrilha para o grande saque, elegeu um poste para sucedê-lo, arranjou no MDB os comparsas de sempre para dividir o butim, alinhou-se de forma solerte com os tucanos de FHC para alternância de poder com o mesmo fim, da locupletação. O PT não tem líderes, tem gente ajoelhada aos pés do meliante, bebendo de sua água, repetindo suas cantilenas. Tem um séquito da grande imprensa, dos artistas de vanguarda, gente aliás que ama e admira Che Guevara sem se importar de ler o que o “romântico” guerrilheiro-terrorista aprontou em sua sanha revolucionária. Essa gente também acha que Cuba e Venezuela são exemplos de sociedade a ser copiada. Gente emergente do povo, dos estudantes que usaram trampolim para favorecimentos pessoais e deixaram isso aí. Tem gente que acredita na inocência, é cada vez mais vergonhoso para quem trabalha e paga impostos regularmente.


O cenário não é bom. Geraldo Alckmin assessorado por uma coligação em nome da chamada “governabilidade” tende a repetir o que é crônico na política do país – o loteamento de pastas e estatais. Ciro vai tentar tirar o nome sujo do SPC-Serasa de milhões de pessoas, com um toque de midas. Assim como Ciro (abandonado pelo PT) Henrique Meirelles foi abandonado até por Michel Temer. Resta Jair Bolsonaro e Álvaro Dias; gostei deste último, não sei se ele se sustenta, não sei se tem fôlego.


Volta e meia aparece um salvador da pátria. Assim foi com Getúlio, Jânio, Castelo, Tancredo, Sarney e seu plano cruzado, Collor, Lula, Dilma. O salvador viria em um cavalo branco, São Jorge ou Caiado? Quem nos salvará? A quem entregaremos nossos destinos e dinheiro?


Veríssimo escreveu uma crônica intitulada A Hora do Louco; era sobre um time de futebol de que com o passar do tempo não conseguia furar as redes do adversário. No desespero, aos 38 do segundo o técnico chama o suplente, o louco, para ir para a grande área esperar o cruzamento-chuveirinho. É hora do louco ou hora dos certinhos? Será que Álvaro, Ciro e Jair seriam os loucos da hora?




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