PUBLICIDADE

Colunistas


Sobre perplexidades e certezas

Sábado, 25/03/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Veríssimo escreveu, certa feita, que aos quarenta anos perdemos a sensação da perplexidade e nada mais seria estranho.  Um matuto mastigava um naco de torresmo e ouvia maravilhas discorridas de um estudado sobre tecnologias e viagens interplanetárias. O matuto ouviu pacientemente e sem franzir o cenho declarou: depois que inventaram a máquina de “debuiá” milho não duvido mais de nada. Bem, o circo de horrores que atinge os poderes máximos de nossa república não estarrece a todos porque é do protagonismo do homem; e o homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e não é santo; é falível e erra por humano que é, e é humano, demasiado humano. O que estarrece e causa perplexidade é a inércia da população que a tudo assiste anestesiada. Meirelles acena com novos impostos, alguns dos mais notórios gatunos ainda estão à solta, os beneficiados dos saques das estatais parecem receber o manto protetor de quem deveria zelar pela aplicação das leis. Vemos um desfile de egos inflados empulhando as pessoas comuns, como nós, que estamos prestes a ser assaltados novamente, como a todo ano, no final de março-abril quando entregaremos as declarações do imposto de renda. 

 

Além da perplexidade perdemos o sentimento da certeza. Ah, aquelas certezas que tínhamos na adolescência: amor eterno, amizades eternas, respeito infinito, solidariedade, humanidade e que com o tempo as coisas, todas elas, iriam melhorar. Eu tinha certeza de que o mundo era dividido assim: o mundo das formas (externo) e das ideias (o mundo de dentro da minha cabeça). Assim, então, para um cronista que se atreve semanalmente a invadir os lares das pessoas, o que deveria ser importante escrever?  Críticas políticas-sociais ou escrever impressões para aquilo que habita o nosso melhor e que é manifestado quando, por exemplo, sentamos à mesa de um bar com os amigos para falarmos dos bons tempos, aqueles em que nossas almas não estavam contaminadas pela realidade das iniquidades que nos conduzem ao que somos – seres contemplativos mesmo quando somos açoitados por “essa gente” detentoras dos poderes que delegamos e sobre as quais parece não termos força para arriar?

 

Poderia escrever sobre a carga tributária no Brasil e mundo; sobre os vazamentos da Lava Jato e as pérolas de Gilmar Mendes; sobre Janot e o segredo de justiça; sobre o porque de Temer não estar sendo investigado; sobre e a reforma trabalhista; sobre a reforma previdenciária e aposentadoria. Li bastante sobre isso mas, jornalistas bacanas especializados esmiúçam melhor  mas, poderiam alguns ser menos ideológicos-partidários e sectários. Então, melhor tergiversar sobre a condição humana e sobre o que nos assombra porque está mais perto do que imaginamos.

 

Um cara é morto num bar do centro, bar frequentado pelos nossos filhos tal qual aconteceu no bar Vereda Tropical em 1983 na Moron, lembram? O pessoal do BOE foi deslocado para o policiamento da capital, já que por aqui a coisa está tranquila; o aeroporto está daquele jeito; o desemprego assombra; o nosso EC Passo Fundo encabula os torcedores com performance nunca vista em que recebe um milhão de reais da federação para vencer um entre oito jogos; é o leite, e´ a carne e é o que falamos à boca pequena quase em sussurros.

 

Perplexidade é sobre a inércia do povo ordeiro e sonhador; e a certeza é que da minha geração  nada sairá, além de gritinhos esparsos e discursos vazios. Serão os nossos filhos que farão um país aprazível, país capaz até de acolher a senilidade de nossos corpos e mentes mesmo que não mereçamos.




Abecedário

Sábado, 18/03/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Está com Marco Damian o dicionário de Cruz Alta, editado por Rossano Cavalari,  por uma tentativa de organizarmos nosso histórico. Rossano tabulou quase tudo daquela cidade por ordem alfabética, onde narra pessoas, acontecimentos, gírias e locais que fizeram e fazem parte das memórias. Como todo grande escritor, deixou a obra incompleta e remetemos algumas sugestões ao amigo. Daí, que temos que deixar no papel e não somente na falha transmissão oral a epopeia de nossas vidas e de nossos pais. No último domingo enfrentei 41 quarteirões a pé para assistir ao glorioso EC Passo Fundo e enquanto caminhava pelo centro e pela Presidente Vargas ia lembrando os idos tempos iniciais da década de 1970 que, em companhia de meu pai, apreciava nossos valorosos jogadores, do naipe de Santarém, Mariotti, Raul, Roberto, Bebeto. Ontem encontrei Luís Freire e me bateu um saudade por estarmos perdendo o vínculo com o futebol de campo tal qual perdemos com o futsal. O Vermelhão é neutro, a torcida fica muito longe do gramado, não há pressão, não temos o 12º jogador e nem tem mais jogadores identificados com nossa cidade. Dessas centenas de jogos, mal lembro os resultados porque a gente vai lá para encontrar os amigos e tomar cerveja. Mas, precisamos registrar as passagens assim como o fazem Damian, Ivaldino, Monteiro, Ney, Osvandré e outras excelências da Academia.

Organizei minha “biblioteca” por temas e agora ordenarei meus CDs, discos de vinil e filmes. Estava uma bagunça e como tenho memória fotográfica preciso me socorrer da organização. Lembrei de Caetano e Odair José. Odair vendia muito e a gravadora, através do lucro das vendas da chamada música brega, podia bancar os bacanas (Caetano e Gil). Em reconhecimento Caetano chamou Odair ao palco para cantar alguns de seus sucessos, entre eles a proibida Pare de Tomar a Pílula, música que ia de encontro a campanha do controle da natalidade que o governo propagava. A plateia de Caetano vaiou e este valentemente repreendeu a todos exclamando: “nada mais Z do que um público A”.  A música brega, como você sabe, teria ganho esta denominação em razão de uma casa de shows em Salvador que ficava na Rua Padre Manoel da Nóbrega, casa que tocava muitos boleros ou músicas de corno, como queiram. A maresia foi comendo as letras da placa da rua e de todo o nome restou...brega.

De Aa Z tenho meu abecedário da família. De maneira altamente folclórica discorrerei sobre uma prima que se apaixonou por um homem casado usando a letra A, de amor. Começa que ela se sentiu Atraída pelo cara, homem proibido, que retribuiu e ela passou a ser Alvoroçada pelo romance. Cada vez mais Animada, tornou-se Apaixonada. Na correspondência de sentimentos, mesmo fortuitos, sentiu-se Aconchegada e, logo a seguir, diríamos – Amigada. Na repetição amiúde dos encontros amorosos tornou-se Amasiada. Na paixão, o homem casado alugou um muquifo, ninho de amor, ao qual sede das volúpias e do tórrido sentimento. Amigas alertaram que ela nada mais era do que uma garota Amancebada e que deveria querer mais da vida. Para isso, deveria dar pressão no amante. A inútil pressão findou o relacionamento e ele passou a ser uma mulher Abandonada e, com contas a pagar, viu-se Atrapalhada, Atolada e Atormentada. Sua difícil vida Atravancada levou a revelar delírios de uma pessoa Alucinada, talvez Alocsada como dizem suas amigas. Agora Amargurada procura encontrar o trem de sua vida. Ah, os abecedários de nossas tragédias pessoais caberiam bem na caneta de Nelson Rodrigues.




Sobre valores e cascatas

Sábado, 11/03/2017 às 09:15, por Jorge Anunciação


Toda empresa bacana tem afixado em local de grande visibilidade um cartaz onde consta: negócio, missão, visão e valores. Ou seja, qual é o meu ramo, onde quero chegar em curto-médio-longo prazo e quais as ferramentas que balizarão a filosofia de trabalho.
Seria bacana se considerássemos que somos uma empresa, mesmo que trabalhemos em carreira solo e tivéssemos com absoluta clareza a certeza do que queremos para focar e otimizar recursos. Mas, a coisa não funciona assim porque somos envolvidos em aspectos sentimentais, fraternais, paternais, financeiros, religiosos e somos condicionados ao meio social ditado por política econômica que tira e dá oportunidades. E é nesse balanço entre avançar ou perecer que cresce a importância de sabermos quais os reais valores que estampam nossas figuras.
Se inquiríssemos ao acaso receberíamos como respostas à cerca dos valores o seguinte: paz mundial, democracia, justiça social, fome zero, fraternidade, fé, amor no coração...São os valores que contamos aos outros como se de nós fossem cláusulas pétreas. São valores para consumo externo, aqueles para constar em discursos e arrancar aplausos dos puxa-sacos ou, ainda, segundo a inolvidável Araci de Almeida, cascatas. Araci diria mais, diria: o que é ilsso? Deixa dilsso!
Conheço muitos que gritam: exijo respeito, exijo eficiência, quero ser ouvido, quero ser valorizado...Só que quem isso não oferece, não tem como exigir, a não ser na ameaça. Gente grande faz coisas grandes, gente pequena faz coisas pequenas.
Em 1995 Galvão Bueno relatou que um jornalista perguntou: quantos amigos você acha que tem? Cinquenta, respondeu Galvão. Quantos te emprestariam grana? Uns vinte. Desses vinte, quantos emprestariam sabendo que tu terias dificuldades em devolver? Uns três. Desses três quantos ofereceriam a grana sem que tu tivesses de passar a humilhação de pedi-la emprestada? Um deles, somente, concluiu Galvão. Pois, esse é o teu amigo, aquele que se antecipa.
Quem tem a sorte de ter um amigo assim? A pergunta mais fodástica, no entanto, é: será que sou isso, antecipador, para alguém? Ofereço ajuda, ombro amigo, meu precioso tempo para ouvir, sou compartilhador? Quais são os nossos reais valores, os em cascatas, para consumo interno? Sem os relacionamentos consistentes cairemos na vala comum da desolação, da vida vazia da materialidade. Quem não trocaria os imóveis e os investimentos arrolados ao longo dos anos pelo compartilhamento da vida com os filhos, aquele mesmo que foi solapado à guisa do trabalho ininterrupto a fim de conquistar a solidez do dinheiro. A vida é simples, deveria ser simples porque as melhores coisas não dependem da grana. As melhores férias são as passamos com as pessoas que amamos independente dos lugares em que estivermos. Se, entretanto, o valor que reconhecemos é o dinheiro, é melhor ler mais sobre o amigo francês de Galvão Bueno, aquele mesmo que reconheceu a vida destacada naquilo que damos exagerada importância, as sobras e os lucros. As empresas que focam em sobras acima da qualidade do produto oferecido tendem a soçobrar, assim como os relacionamentos que não calcados no que realmente vale na vida.




O mundo, segundo o sargento Jorge

Sábado, 04/03/2017 às 09:55, por Jorge Anunciação


O Mundo, Segundo Garp foi um exitoso filme estadunidense de 1982 onde brilhou a estrela de Robin Williams. O drama trata de Garp, martirizado pela fama de sua mãe escritora feminista numa época em que rasgar sutiãs era para poucas. Garp, marcado pela vida eclética de sua mãe, estabelece-se num patológico medo de perder os filhos. O brilho da atuação do ator remete às patologias que o mundo social apresenta.
Meu pai foi militar do exército por trinta anos. Teve outro mundo, sem patologias sociais. O mundo, segundo o sargento é lógico, disciplinado e hierárquico. Todos, desde o soldado cabelo-reco até o comandante, sabem suas atribuições. Trabalham em equipe, mutualizam as funções, apresentam resultados e no insucesso ou indisciplina enfrentam a 4ª parte – justiça e disciplina e, na leitura do boletim militar todos entendem e acatam o elogio ou punição. Todos, sem exceção, estão sujeitos à promoção ou cadeia. O mundo da caserna contempla o mérito e pune o demérito. O exército apresentou a meu pai um mundo repleto de regramentos de condutas. Ao soldado-cabo-sargento executor e ao oficialato comandador a regra é clara: cada um deve fazer sua tarefa. Disso resultou que meu pai-sargento tenha se tornado um romântico para uns, ingênuo para outros porque acreditava nas pessoas e nas palavras delas porque o tratado era cumprido. O mundo civil não é disposto assim, as regras são mais morais que disciplinares porque até há pouco tempo o xilindró era para o pobre que roubava penosas. À falta de receio de ir para a cadeia estimula delitos e muitos têm comportamento social bacana somente quando são submetidos à observação.
Então, os milicos voltaram à caserna há muito. O Brasil aspirou o retorno do comando civil, os militares devolveram os destinos do país ao mundo dos políticos, muitos lutaram e morreram por isso, de ambos os lados. E a gente votou e votou, numa enxurrada de pleitos. Mas, a verdade é que relaxamos, exercer cidadania não é somente exercer o poder de votar e o que vemos é a mixórdia lançadas as nossas faces diariamente. Realmente, escorraçamos a metade dos gatunos, príncipes da locupletação mas, ficou a outra metade. O descaso à hierarquia e disciplina, causam na ordem e progresso e falta comando e exemplos. Mas, sobram desvios e roubalheiras, cada escândalo será superado pelo próximo numa rede sem fim em que todos os partidos ou quase todos fazem parte de um emaranhado incompreensível ao cidadão comum. Com isso perde-se a esperança, estabelece-se o receio da falta de um futuro estruturado aos filhos e netos e quem pode sonhar sonha em morar em outro país, talvez nem tão tropical ou abençoado por Deus e bonito por natureza mas, num país onde as regras do bem viver social são praticadas de forma natural.
No mundo segundo o sargento, o professor ensina, o aluno estuda, o diretor dirige, os pais acompanham e o estado paga. No mundo que dispomos muito professor faz que ensina, o aluno cabula, o diretor não sabe o que fazer, os pais terceirizam a educação dos filhos e o estado não paga o que deveria ser para que tivéssemos uma educação para que o país tenha um futuro. Especialistas afirmam que a democracia é o melhor regime, também acho. A liberdade é boa, no entanto, deve ter alta responsabilidade, sem o que tendemos ao egoísmo e ao facilitário.
Não sei se deveríamos ser mais militares mas, há muito, ao perceber que os homens são incapazes de autogestão alguém sugeriu um contrato social delegando ao governo o comando de tudo. Foi o começo do fim da liberdade absoluta que muitos almejam. Pena que muitos não possuem a responsabilidade necessária para exercê-la.




La la, Schopenhauer e Miguelina

Sábado, 25/02/2017 às 09:00, por Jorge Anunciação


O mundo como vontade e representação de Schopenhauer reverberou nos mais diversos pensadores há 300 anos, quase tanto como Sócrates quando sabiamente revelou que nada sabia. O mundo é uma representação, está aí e pronto, é fruto da experimentação. Pode ser lindo ou não dependendo da subjetividade ou da vontade. Compreender o mundo e a vida requer um mergulho introspectivo, uma imersão poderosa quando acompanhada de alguns anos de existência e de contemplação sobre a balança de erros-acertos.
Minha mãe era para ser Miguel, ao nascer menina estabeleceu-se Miguelina, para o mundo e Neca, para os íntimos. Era espírita, altamente romântica; foi de um grupo de danças flamencas em outra vida e isso era absolutamente claro para ela. À noite via, projetada na parede do quarto, pessoas dançando em grupo e com castanholas. Miguelina-Miguel-Espanha era de um romantismo quase ingênuo e era de duas vidas; uma como representação e outra como vontade. Assim como a personagem de Cecília (Mia Farrow) de A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen) que tinha um marido bêbado e violento (mundo da representação), a personagem era apaixonada pelo personagem do filme (mundo da vontade), o oposto de seu marido. Cecília tinha uma vida e amava outra. Neca era fascinada pelos filmes musicais, tal qual foi sua vida anterior. Enacantava-se por Fred Astaire-Gene Kelly-Cyd Charisse-Ginger Rogers. O mundo da vontade de Neca-Miguelina-espanhola era de cores e de coração, era iluminado pela magia e arte que lhe faltava no mundo da representação. A dança de Neca era com seus seis filhos e limpando a casa, fazendo almoço, cuidando de meu pai como se mais um filho fosse.
Ela-miguelina-espanhola, ao contrário de Neca semialfabetizada, deve ter tido acesso a Miguel de Cervantes e seu Don Quixote, um herói romântico-sonhador-corajoso que vê a beleza no que a maioria não vê, aquele que consegue transformar a realidade em beleza. Talvez tenha lido as histórias de Simbad-Ali Babá-Aladim que Sherazade contava ao sultão Shahyar nas Mil e Uma Noites. Talvez, ainda, tenha admirado Henry David-Thoreau na obra Walden ou a Vida nos Bosques onde, numa simples cabana às margens de um lago em Massachussetts aprendeu a contemplar a simplicidade das coisas e estabeleceu: o homem é rico na medida do número de coisas de que é capaz de abrir mão.
Domingo, o musical La La Land concorre ao Oscar. É um musical de sapateado, é um mundo de vontade. Minha mãe torceria fervorosamente para ele, em respeito aos velhos tempos. Ah, minha velha, tantas coisas tinhas a me ensinar! De repente, veio-o me Neca, visitar meu mundo da vontade. Aí, aquelas coisas de sempre: garganta apertada, olhos marejados, opressão torácica, coisas de filho.
Quando ela foi enterrada, naquele sábado, fui trabalhar como palestrante na casa André Luís. Foi em homenagem a ela e a um filme que ela descreveu sobre a primeira grande guerra: um maquinista tem seus cinco filhos levados à luta. Sabedor que um deles morreria em combate recebeu meses depois em sua casa, ele e a esposa, um oficial com a bandeira do país e uma caixa de medalhas. Perguntou ao oficial: quem deles? O oficial respondeu: infelizmente todos. Depois de recomposto o velho ferroviário disse à esposa que iria trabalhar porque nunca havia faltado ao serviço por qualquer motivo. Ao manobrar a máquina e os vagões vislumbrou seus meninos-crianças a acenar ao velho pai no velho local de costume. E, então, coisas de pai: garganta apertada, olhos marejados e insuportável opressão no tórax, era o mundo da representação manifestado e que, naquele momento suplantava o mundo metafísico. Te amo, velha Neca, na vontade e na representação, saudade de dançar e cantar contigo.




PUBLICIDADE


PUBLICIDADE