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Colunistas


Sobre salas e porões

Sábado, 27/05/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Em 1973 o economista Paul Samuelson, do  Massachusets  Institute of Technology, publicou no Economics, livro mais importante do gênero no mundo, um artigo sobre a economia do Brasil e se estabeleceu tão importante a ponto de catapultá-lo a ser o primeiro americano a ganhar o premio Nobel de Economia. O Milagre Brasileiro chamava-se Delfim Neto que, em 4 anos saíra 18 vezes na capa de Veja e foi o caso raro de ministro ser recebido pelo presidente Nixon na Casa Branca, afinal nos seus sete anos de mandarinato (1967-73) o PIB crescera 85% e a renda per capita, 62%. O crescimento previsto em 1973 era de 10%, o cruzeiro se valorizava em relação ao dólar. Hermann Abs, ex-presidente do Deutsche Bank sugerira que a Alemanha precisava de um Delfim Neto. Milton Friedman escrevia que as taxas de crescimento justificavam a expressão “Milagre Brasileiro”. Mas...havia o porão, onde se torturava e matava os inimigos do sistema e a imagem maculada da agressão marcou de forma indelével o coração e mentes de muitos, ao ponto de somente restar o porão e nunca o milagre. Ao fim do “milagre” restou inflação de mais de 100%, concentração de renda, dívida externa quadruplicada e queda de poder de comprado salário mínimo em decorrência da elevação dos juros ao dinheiro emprestado pelos Estados Unidos e pelo aumento do preço do barril de petróleo de 3,37 a 11,25 dólares (informações contidas em A Ditadura Escancarada – Elio Gaspari e Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil – Leandro Narloch). O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiam negando-se. Passados mais de quarenta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve outro, completa Gaspari.

Os tempos são outros, em vez dos porões, existe o crime organizado, a sociedade civil, mesmo aos solavancos, retomou, democraticamente, ao comando. Em vez dos porões estamos na sala comendo canapés servidos de maneira elegante por simpáticos garçons. Não há mais milagre algum, o PIB chega a ser negativo, o desemprego atinge quase 15 milhões de pessoas sem que se contabilize os que ainda nem desempregados são porque nem conseguiram ingressar no primeiro emprego. Os canapés são preparados numa cozinha da qual não temos acesso, apenas aperitivamos enquanto conversamos sobre reminiscências, futebol e mulheres. Nós, cidadãos comuns, não somos convidados para e aproveitar a grande festa, apenas para pagá-la. Os espertalhões, escolhidos por nós, servem às grandes empresas criadas com a nossa grana e para sustentar o elegante status dos ditos homens públicos, de todos os partidos políticos. Não há ações sociais creditadas como de interesse público que não tenha desvio de dinheiro. Fico confuso em ler que a oposição tenta derrubar Temer. O que é oposição? Oposição a Temer deveria ser quem o levou ao poder, ou seja, quem votou em Dilma-Temer, talvez o pessoal do PSDB. A mixórdia das ideologias cegas e assépticas desvia o foco que deveríamos ter em promover um Brasil melhor e mais adequado a nossos filhos, afinal os canapés trazidos à sala parecem artificiais mas, tem gente que gosta do que é mostrado. É difícil saber que publicação da imprensa é absolutamente isenta ou que não tenha verniz do milagre ou dos anos de chumbo. O que resta, de maneira inegável, é que há dois atores nessa festa: os que ganham e os que pagam, como você e eu. Numa festa de pintos, entramos com as bundas. 




26

Sábado, 20/05/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Meu filho Ramon completou 26 anos neste 17 de maio. Eu tinha essa idade em 1983, que considero divisor de águas a minha vida. Santiago, Hospital Militar e Artilharia para quitar a dívida com o exército. 1983: Fagner (Guerreiro Menino), Alceu Valença (Anunciação), Roupa Nova (Anjo) que era tema de Juliana Maitê Proença) na novela Guerra dos Sexos e anjo caía bem para Maitê. Também foi ano de Lulu-Nelson Motta (Como Uma Onda no Mar). Ano de De Leon-Mazzaropi-Renato-Cesar-China-Tita e a primeira Libertadores. A coletânea da Abril da MPB com nomes como Caetano-Gil-Chico-Milton-Adoniram e outra da Motown com Michael Jackson-Commodores e muita leitura. Decidi-me, pela residência em cirurgia e essa decisão foi uma quinta de inverno entre 16-17 horas. Pronto, meu destino profissional estava selado.

Santiago do Boqueirão foi uma espécie de exílio, de olhar meu mundo de fora. Aos 26 estava deixando o menino Jorge e emergindo o homem. Eu olhava, através da colina em que ficava o campo de futebol do hospital militar, para uma sinuosa estrada de chão no horizonte. Meu destino estava ali, em alguma encruzilhada, para lugar qualquer. Deus, além da vida, deu a cada um de nós uma espécie de caixa de dinheiro dizendo: toma aí, faça as escolhas certas! Saber escolher é o canal. O que diferencia o menino do homem é a inocência, é a inconsequência. O menino parece estar sempre de recreio, o homem tem que bater ponto e batalhar. Mais do que sair do recreio é chegada a hora de dizer a que se veio. Senti imensa necessidade de tornar mais do que uma pessoa, queria me sentir gente. Gente gosta de gente, vive para outras gentes e, às vezes, mais do que para as gentes do que pra gente, entendeu?

Meu garoto, aquele em que dei o primeiro banho de chuveiro enquanto que a Globo oferecia a mini-série Tereza Batista ao som de Nana Caymi (Modinha para Tereza Batista) vive um ano de afirmação, de reconhecimento profissional da arte em criar imagens e trilhas para os sonhos das pessoas. Trabalhar nos sonhos das pessoas deve ser uma mágica como ter um programa de rádio a rodar trilhas sonoras das paixões. Queria dizer a meu filho e talvez a todos os nossos filhos que essa estrada sinuosa que você trilham já foram percorridas pelos  pais, adequando-se evidentemente às diferenças de perspectivas de cada geração. As angústias são as mesmas, a procura de espaços também. Mas, nós velhotes, estamos aí, dando força, oferecendo muitas vezes o que nossos pais não conseguiram ofertar e não raras vezes dando menos do que recebemos. Meu mundo era do rádio de pilhas, dos vinis e absolutamente sem grana, sem tecnologia. O de agora é para ontem, é High Tech e é também de relacionamentos amorosos que terminam rapidamente como a música Nevermore do Queen. Parabéns pelas conquistas meu filho, talvez 2017 seja o teu ano referência.

Dona Sandra, a que tudo comanda, fez aniversário ontem, dia 19 e tem a mesma idade do filho, coisas da vida. Sou extremamente feliz com as pessoas que o Criador destinou nessa travessia.




Transcendental

Sábado, 13/05/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Uma questionável convenção denominou ao segundo domingo de maio o dia consagrado às Mães. Ora, que dia não é o dia delas? Será que as mães comemorariam o dia dos filhos de alguma maneira especial ou diferente daquilo que ela faz diariamente? Mesmo assim, tentamos tornar essa data uma mágica de reaproximação com as pessoas a quem devemos pelo menos o aluguel do útero como se fosse uma kitinete e alimentação prazerosa até que tivéssemos condições de sair e sobreviver, com ajuda é claro. Há muito ou há muito antigamente atrás, como diz um conhecido, imaginava-se que a mulher era apenas uma grande incubadora e que ao homem coubesse a tarefa de repassar aos rebentos a hereditariedade. Com a evolução da genética passamos a compreender a importância do homem e da mulher na transferência de informações celulares ao que vai chegar. De qualquer forma, os homens que foram considerados como top caíram para o segundo lugar no podium pelo simples fato de que não podem ser gestantes. Ser mãe é algo divino e essa divindade não pertence ao homem. A mulher gestante é santificada e lembro de Elis grávida quando gravou Romaria, de Renato Teixeira, em absoluto estado de graça.

Mais do que essa impossibilidade obstétrica falta à maioria dos homens o conhecimento do amor transcendental ou amor de Cristo, conhecido pela palavra Ágape. A mãe dispõe dele e o amor de mãe é o que há de mais parecido com o amor de Deus porque é incondicional. A mãe amará intensamente o filho que já amava antes mesmo de engravidar, amava desde quando criança brincava com suas bonecas e amará pela eternidade porque o amor de mãe é além dos tempos.

Delas ganhamos tudo: os melhores lugares da cama, da mesa, o canto especial do coração, quando não o coração inteiro e continuarão oferecendo em generosas doses de bondade e carinho mesmo que delas esqueçamos, mesmo que as deixemos em segunda plano, mesmo quando são substituídas nas nossas vidas por outra mulher. Dessa outra mulher, esposa ou similar, nossas mães somente desejam que nos tratem bem e quando se trata de genros que honrem suas filhas.

Minha mãe deu-me tudo isso e alcançou-me algo ainda maior. Por ser espírita indicou-me esse caminho como se dissesse: meu filho, aqui está a senha para que a gente continue se falando depois que a gente se separar. Ao me indicar essa tarefa quis me preparar para que eu estivesse de prontidão para o acalanto nos piores momentos das pessoas: dores, saudades, desalentos, problemas conjugais ou com os filhos, solidão, sensação de menos valia, medo da escuridão. Deverá, meu filho, estar pronto para estender a mão, oferecer ombros e ouvidos. É a mensagem de Deus através do grande canal de comunicação Dele com os simples mortais, linguagem e conduta daquelas que o representam da melhor forma – a mãe. Abrace a tua velha, mesmo que fisicamente ela não esteja presente, ela vai captar o teu carinho e o teu agradecimento.




Scout

Sábado, 06/05/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Completei ontem sessenta anos de uma intensa e harmoniosa vida. É de bom tom apresentar um scout (balanço) do que me foi ofertado e o que de bom foi extraído. Nessa trajetória vim com uma espécie de código de barra, ou seja, vim mapeado com algumas características que foram aprimoradas ou que não tive a capacidade de desenvolver. E desses circunstantes aprendi a maior de todas as missões, a de que estamos em estado beta, aquele do aperfeiçoamento permanente, a busca eterna da batida perfeita. Meu velho pai era humanista e acreditava que todos eram bons. Dele não segui essa premissa ao pé da letra mas, desenvolvi outra parecida: a de que todos podem ser melhores do que são independentemente do tamanho que se tenha. Da minha velha, que me ensinou os valores da alma, adquiri a ponte do espiritismo desde cedo como se ela me indicasse o caminho para permanecermos em contato quando nossos corpos físicos se separassem de vez mas, mais do que isso, que eu buscasse a missão diletante de agraciar as pessoas com as ajudas necessárias quando enfrentassem seus piores momentos.

Na caminhada aprendi em todos os capítulos desde a infância até essa idade. Nessas estradas encontrei mestres que me indicaram caminhos, que me prestaram auxílios e conselhos, namoradas maravilhosas que me acolheram em suas casas e famílias e fui moldado até estar ao ponto de ser merecedor da mulher definitiva a qual necessitaria de mais 120 anos para agradecer o tudo que me é ofertado no cotidiano. Ganhei irmãos iluminados, amigos de valor imponderável e filhos que são fontes dos meus orgulhos e a eles dei a absoluta liberdade de buscarem seus caminhos e serão felizes porque têm berço.

Então, qual é o butim? O que de interessante há para ser deixado? Bem, a vida é simples e pode ser intensamente feliz, pensava eu na madrugada de anteontem quando retornei de uma cirurgia de emergência. Sem sono, fiquei à varanda a fitar a chuva que batia nas poças ou em contraponto à luz das lâmpadas dos postes. É lindo e é de graça, assim como o sorriso de uma criança, assim como o anoitecer-amanhecer, como o canto do bem-te-vi ou sabiá. O butim é que devemos ser solidários, mais do que isso, devemos ser prestativos, tolerantes e pacientes com as pessoas que nos cercam. E elas estão por toda a parte, estão no ambiente de trabalho-social-escolas-ruas-escritórios. É preciso que a gente acrescente qualidade na vida dos outros. Acredito absolutamente que nada acontece por acaso, que tudo tem uma razão de ser, que ninguém entra nas nossas vidas de forma aleatória. Acredito que é preciso mais congraçamento entre as pessoas.

Acredito por fim que há almas de diferentes tamanhos. As gigantes permitem que se faça coisas de igual tamanho e há almas menores, erráticas e sobre as quais os gigantes devem preponderar.  Uma alma gigante não comete deslizes como falsidade, inveja e ganância, uma alma gigante só faz coisas boas. E isso somos nós, escalados para a travessia e com uma missão – a de sermos propulsores de um mundo equilibrado exatamente como aquele que sonhamos em deixar para os filhos e netos. Meu butim, o que deixarei, é o de tentar ser merecedor de não ser somente pessoa, ser mais que isso, ser gente.




Tempo de homenagear

Sábado, 29/04/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

A Academia Passo-fundense de Medicina, juntamente com a Academia de Letras, associada a familiares, amigos e colegas desportistas prestaram reconhecimento à vida e obra do recentemente falecido Dr Sergio Lângaro. Homem de múltiplos talentos soube exercitar todos eles, deixando um legado de reconhecível competência e elegância profissional. Deixa uma rica história de harmoniosa convivência pessoal e profissional e um séquito de amizades, de seguidores e de tietes. Deixa, no entanto, uma enorme lacuna no coração de todos os que tiveram o privilégio de sua companhia. Menos mal que na noite da homenagem-reconhecimento estavam alguns dos notáveis colegas que continuam a carregar a grande tocha das virtudes profissionais estampada pelos grandes mestres, entre eles Dr Sergio. Osvandré Lech com a costumeira maestria referendou os sentimentos de agradecimento em nome de todos. A convivência com gigantes deve despertar o empoderamento, para usar uma expressão da hora e senti-me com a sensação de dever a cumprir. Nem todos somos da turma de Sergio Lângaro e de outros imortais da Academia mas, estamos aí, na luta, na batalha da formiguinha. Durante a cerimônia veio-me o poeta curitibano Paulo Leminski e uma lápide num cemitério qualquer: “aqui jaz um grande poeta / nada deixou por escrito / esse silêncio, acredito / é a sua obra completa”.  Sobre médicos, infelizmente faleceu o colega Domingos Núncio (Dr Dominguinhos) simpática figura indissociável ao Hospital César Santos. Parceiros em inúmeros plantões deixa saudades nos colegas de sempre – Drs Jaime Debastiani (in memorian), Hélio Renan, Claudio Machado, Sergio Machado, Claudio Goelzer, Luis Carlos Trombini, Albino Gazzoni, Gilberto Oliveira, Aiglon Simas Filho, esqueci alguém? – essa turma toda que durante mais de uma década foi fundamental pela contribuição social em manter aquele estabelecimento de saúde em funcionamento.

Em 1968 meu velho pai adquiriu com sacrifício uma enceradeira. Era para dar um descanso a milha mãe, com seis filhos crianças e que administrava a velha casa de madeira. Lavar o assoalho, parquetina e lustrar era trabalhoso para quem tinha zilhões a fazer. A enceradeira, a TV Admiral de 14 polegadas e o refrigerador Steigleder eram nossos objetos de maior valor. Meu irmão Binho padecia de patologia ainda sem diagnóstico e um dia meu pai adentrou à casa com um desconhecido para analisar a enceradeira. A seguir ela foi embora de nossas vidas por necessidade de “pagar o médico” que atendia meu irmão. Fui chorar no quarto – criança não entende a vida como ela é. A medicina humanizada ficou impregnada na minha pessoa, não seria assim se seu fosse médico no futuro, prometi. Talvez por isso, seja eu quase que um corpo estranho no mercantilismo do mundo de hoje. Mas, isso não é meu, copiei de alguns professores, uns que se foram, outros que aí estão.

Então, esse fim-de-semana é de sonho para a família de José Henrique e Beti Bassani pela formatura da Medicina de sua filha Gabriela. José Henrique (Tito) é um dos melhores caras que surgiram na minha história. Ele tendeu à Engenharia e ficamos muitos anos sem contato mas, é o mesmo menino que conheci em 1970: sensibilidade e inteligência superior. Que bom que haja gente assim. Tua filha, Tito...bem tua filha é um doce, daqueles bem doces, tão necessários às necessidades dos pacientes. Seja bem vinda, doutora, precisamos de gente do teu quilate.




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