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Colunistas


Travessia de Lawrence

Sábado, 07/12/2019 às 07:00, por Jorge Anunciação

Lawrence da Arábia, fielmente retratado pelo diretor de cinema inglês David Lean, decidiu atacar a cidade de Aqaba (Jordania), junto ao Mar Vermelho, em 06 de julho de 1917, durante a primeira grande guerra. Aqaba tinha seus canhões apontados para o mar e estava sob domínio dos turcos. À retaguarda, desprotegida havia o deserto, o impenetrável, afinal chegar até Aqaba pelo deserto era impossível. E assim o era até que Lawrence resolvesse o contrário. Os camelos não aguentam mais de 20 dias sem beber água, seria uma jornada suicida. Lawrence juntou 50 voluntários e fez a travessia; se Moisés atravessou o deserto a gente pode, também.
Travessia...foi como passei a encarar a vida já aos 7 anos, quando assisti a esse filme em Cruz Alta, no Cine Rio. Sim, a vida era uma travessia pelo imenso deserto de calor e frio, de solidões, com poços de água aqui e ali. A vida era para os fortes e adaptados, como meus e assim deveria ser para seus filhos. Era a vida metaforicamente representada na tela grande, era uma mensagem do diretor de cinema, era o que ele queria repassar. Tem gente que nem prestou atenção, tem gente que nem lembra, tem gente que acha que essa passagem do filme não tem a menor importância. O deserto e a travessia dele.

Milton Nascimento, conhecido como Bituca, escreveu Travessia em 1966 e fala que pensou em morrer ou desistir quando ela (a amada) foi embora. Estava em um imenso deserto de dor, mas decidiu amar de novo e se não desse, tudo bem. Fez a sua travessia, assim como tantas que já fizemos e haveremos de fazer. Paul Simon na estonteante Brigde Over Troubled Water, 1970, cantada por Art Garfunkel, retrata a todos a travessia em águas problemáticas ou turbulentas. Na verdade, estavam dissolvendo a dupla e era doloroso aceitar isso. Assim também quando Erasmo compôs Sentado à Beira do Caminho (1969). Percebera que Roberto Carlos voltara diferente do Festival de San Remo, que a Jovem Guarda havia acabado, que o público envelhecera um pouco, que não queriam somente Twist and Shout, que queriam falar da vida, dos amores, das desilusões. Erasmo retratou que “preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo”; então, foi tocar sua vida, foi fazer sua travessia assim com Paul Simon e Garfunkel.
Se pudéssemos todos, e todos podem, é claro, escreveríamos sobre nossos desertos e como foram enfrentados. De algumas coisas sentimos orgulhos, de outra nem tanto. Quem sabe, se não fomos brilhantes em outras épocas, se não poderíamos brilhar intensamente nos desertos ali da frente, que serão apresentados pela vida? Quem sabe nesse deserto que cada um passa em sua intimidade a gente não brinca de herói tal qual Lawrence? Lawrence é um personagem tão legal quanto nós, superou diversidades, assim como a gente faz todos os dias. Afinal, se Moisés fez, por que não podemos fazer?




Muro

Sábado, 30/11/2019 às 07:00, por Jorge Anunciação

Prá começar Indico os seguintes livros O Garoto de Ipanema, sobre Vinícius (Alex Solnik) e Por Trás das Canções (Carlos Minuano) e Não Diga que Minha História Está Perdida (Jotabê Medeiros), ambos sobre Raul.
Estava pensando no muro e na frase “meu reino não é desse mundo”, parte do evangelho tratado essa semana na Casa de Oração André Luís. Muro, qualquer um, daqueles que dividem o lado de cá do lado de lá. Meu reino não é desse mundo tem a ver com o muro pelo qual passo diariamente há quase 50 anos: o muro azul do Hospital São Vicente, construído num ano qualquer entre os anos 1930-40. Passo, na maioria das vezes, sem olha-lo, sem prestar-lhe a devida atenção. Em 1982, doutorando que era, serviu-me, decididamente para que, mesmo em breves momentos, percebesse minha missão, a que foi outorgada a mim no imenso sacrifício de meus humildes pais. Bem, estava num angustiante plantão de domingo e observava o movimento da rua; domingo, temperatura agradável, sol convidativo. Para lá do muro, tudo de bom: casais de namorados, crianças com bicicletas, idosos de mãos dadas, o sujeito com o rádio de pilhas tomando cerveja; para cá: as dores, o desespero, antibióticos, curativos...Pensei por breves instantes que bastaria um lance de coragem para transpor o muro e meu destino estaria selado. Não nasci para conviver com as dores do mundo, pensei; nasci para alegrias e alto astral; minha vida era ligada ao lado positivo da existência, coisas leves, tipo sopinha de isopor. Então lembrei das circunstantes vezes em que meu pai esteve pai endividado pelo fato de ter gerado 6 filhos, pelas vezes que minha mãe deixou de se alimentar em benefício dos filhos. Fiquei envergonhado porque minhas limitações e lamentos íntimos diante dos sofrimentos alheios embotavam meus pensamentos. Estava, naqueles momentos, pensando em minhas dificuldades pessoais e esquecendo da missão profissional a mim destinada. Não, o sacrifício e expectativas de quem me gerou não poderiam merecer minha desistência. Então, meus responsáveis pensamentos sublimaram e voltei para o lado correto; precisava, médico, devolver os pacientes em suas plenitudes para o lado de lá, para suas famílias e para o lado de lá. A gente escolheu viver do lado de cá...misturado aos sangramentos, às noites insones de plantões...os pacientes merecem voltar as suas vidas.
Quando entendemos as missões que o Criador dispôs ao presentear a vida a nós, quando entendemos que devemos suplantar nossas comezinhas individuais, quando sublimamos a existência com a superação das nossas limitações entendemos claramente que podemos, talvez, fazer ficha para passar a eternidade na Cidade de Deus, aquela em que moram nossos pais e um monte de gente superbacana; aqui na Cidade dos Homens mora toda a canalhice, egoísmo, indiferenças e desumanidade...o passaporte para o reino que não é desse mundo, o da cidade de Deus, exige solidariedade, humildade, despojamento; e o melhor de tudo...depende somente da gente as ações que podem fazer com que olhem nossos currículos para deixarem a gente viver na Casa do Pai.




Alguma coisa acontece...

Sábado, 23/11/2019 às 07:00, por Jorge Anunciação

Entre os anos 1999-2000 a SP-TV promoveu um concurso para eleger a música que mais representaria a cidade de São Paulo. Entre as finalistas Trem das Onze (Adoniram Barbosa) e Sampa (do baiano Caetano) ganhou aquela. Em comum têm que nenhuma exalta a cidade. Ao contrário das músicas do Rio Ó Copacabana princesinha do mar, Ó cidade maravilhosa cheia de encantos mil, Ó o Rio de Janeiro fevereiro e março...Alguma coisa acontece no meu coração entre a Ipiranga e a avenida São João (cruzamento movimentado)...mostra perplexidade e perturbação com a grande cidade. Trem das onze mostra um conflito humano entre o distante bairro de Jaçanã para onde tem que voltar (já que mãe não dorme enquanto o filho não voltar) e ficar com a namorada. É drama-comicidade entre duas fidelidades, mãe-namorada, tendo como permeio um trem. O papel central da música é o trem, não é a cidade. Em Sampa, o papel central é a opressão é que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi...e foste um difícil começo...porque és o avesso do avesso do avesso de avesso...(trecho de A Capital da Solidão, Roberto Pompeu de Toledo, Editora Objetiva).
Hoje passei pela Capitão Araújo entre a Sete de Setembro até a Paissandu, atrás do meu Cenav. Mil lembranças destes quase cinquenta anos de vivências...Ali a casa do Subtenente Berbigier (onde sem que ninguém soubesse eu paquerava uma de suas lindas filhas), a casa dos Morbini, a casa dos Ruschel e meu colégio. Ainda me vingarei de quem organizou uma janta alusiva ao meu educandário e a gente nem ficou sabendo. A gente teria ido porque faz parte do coração.
O que é a nossa cidade? Era a terra do Teixeirinha; era a Chicago dos Pampas: era a capital dos buracos, como dizíamos. Depois mudamos para “a mais gaúcha das cidades”, para “terra de gente boa”. Tivemos títulos honoríficos e depreciativos. A cidade é o que é, assentada em concreto e tijolos sobre campos e colinas. Sobre essa pavimentação está o povo em sua organização territorial, bairros e vilas, e sua magnífica história. E a história é o que define um lugar, em outras palavras a gente faz o lugar, a gente faz um país. A nossa cidade não é suja por natureza, a gente suja a cidade, a gente picha monumentos, a gente deixa lixos fora de lugar; não é a cidade que é boa ou ruim, é a gente que a faz assim.
Ao se aproximar o pleito municipal quando escolheremos nossos mandatários de executivo-legislativo seria bom que prestássemos muita atenção nas propostas. O que é Passo Fundo? O que precisamos? Como vamos atingir nossos objetivos? Em quanto tempo. Era a Chicago; não é mais. Agora é terra da cultura, das universidades, da saúde, da construção civil, do futebol, dos espetáculos de teatro e música, dos festivais da cultura e tradicionalismo...não só de gente boa, é terra de coisas boas que, obviamente, pode ser de coisas ótimas. Trafegabilidade, estacionamentos, comercio que não fecha nos fins-de-semana, espaço gastronômico com o sabor da terra, espaços para idosos e crianças...
Que música poderia representar o que a gente é...já que em São Paulo as duas finalistas daquele concurso não souberam expressar? Se a gente não sabe o que é, dificilmente seremos capazes de saber que me queremos ser.




De que é feito um país???

Sexta-Feira, 15/11/2019 às 06:00, por Jorge Anunciação

Minha adolescência viveu o período militar, de exceção segundo alguns, revolucionário ou contra-revolução segundo outros, ditadura ou ditabranda segundo o que se imagina cada cabeça. E havia no mural da faculdade de medicina, junto ao diretório Sabino Arias, uma frase famosa e “corrigida”. A original constava “um país é feito de homens e livros” – Monteiro Lobato - e a corrigida “um país é feito de homens livres”. O que é ser livre? É andar sem aliança, sem CPF, sem documentos, sem ideologia, sem país, sem dinheiro, sem dependências, sem credo – em outras palavras, o super-homem de Niesztche? Quem é livre ou absolutamente livre? Somos seres sociais, necessitamos da aldeia, necessitamos de interação, não somos libertos. A gente se libera de algumas coisas com o andar da carroça como o materialismo exacerbado, como o de pertencer a grandes grupos, como a de lutar por lenços ou bandeiras. Passamos a centralizar atenções à família, o grande reduto, o aconchego final, como definiu Luc Ferry na Fronteiras do Pensamento essa semana em Porto Alegre.

 


E tem os livros (segundo Monteiro Lobato) e tenho fixação por eles. Tenho sobre a mesa os seguintes títulos a recomendar: a história é amarela (50 entrevistas de Veja), o lado certo da história (Ben Shapiro), entre sem bater, a vida do Barão de Itararé (Claudio Figueiredo) e o solar da fossa (Toninho Vaz), livro muito interessante sobre uma pensão no bairro de Botafogo no Rio, onde grandes personalidades emergentes das letras, música, teatro e cinema moraram em seus tempos de pobreza. O solar da fossa havia sido emprestado ao saudoso colega Ricardo Bittencourt há 12 anos. Comprei-o novamente.

 


Meus pais morreram fisicamente há 10 anos. Penso neles com a imensa responsabilidade de tentar reproduzir a majestosa missão por eles cumprida de criar filhos bons de cuca, honestos e de alto astral. Eram semianalfabetos, meus pais, ao se conhecerem em 1955. Minha velha mal sabia escrever, mas lia bem. Meu velho era muito pobre, feio e gago. Gago até para escrever, segundo ele mesmo. Mas, superou sua herança social, venceu seus obstáculos, foi além, excedeu. E eu? Bem, minha realidade social, conquistada pelos meus pais semianalfabetos foi bem mais branda. Meu velho ao entrar nas forças armadas, por onde ficou por 28 anos e 1 dia, apenas estendeu a si aquilo que aprendera em casa juntos aos meus avós Antonio e Maria: disciplina, hierarquia e honradez. Tarefa dada = tarefa cumprida. E assim fez seu mundo, mundo da correção onde cada um tinha seus atributos. Era assim que funcionava e que deveria funcionar. O professor ensina ou compartilha, o aluno estuda e pesquisa; o padre prega a palavra; o policial mantém a ordem; o prefeito torna o necessário possível...Mundo simples como meus pais. Mas, que funciona. Liberdade??? Sim, mas com responsabilidade. Liberdade sim, mas com respeito ao outro.

 

De que é feito um país??? Das pequenas-grandes lições de casa...da honradez mesmo que conquistada sob adversidades. Afinal, falta de grana não deveria ser motivo para suplantar os princípios que nortearam nossos ancestrais. De que é feito um país??? De nós, agora... e já. Não dá mais para esperar; o Brasil era o país do futuro...o futuro chegou.




Nem anjos, nem demônios

Sábado, 09/11/2019 às 06:00, por Jorge Anunciação

Neste tempo de feira do livro há muitas sugestões como, por exemplo: Segredos À Direita e À Esquerda na Ditadura Militar (José Mitchell), Mandela (Christo Brand), O Mundo da Escrita (Martin Puchner) e Nem Anjos, Nem Demônios (Mario Sergio Cortella e Monja Coen)...


Neste último há a inteligente discussão entre filosofia oriental e ocidental à cerca da humana escolha entre virtudes e vícios. Então, temos o seguinte: sempre se fala na imensa responsabilidade sobre o que se define sobre livre-arbítrio ou livre-escolha...que o destino é a gente que determina e...coisital. Muitos neurocientistas afirmam que o livre arbítrio, ou seja, a condução absoluta dos nossos passos não ultrapassa a 5% e que 95% do que fazemos conscientemente ou imaginamos fazer vêm da genética e da ancestral experiência dos DNAs que nos compõem. Em outras palavras somos escravos de um programa e deliberamos pouco sobre nossas atitudes e o produto final, virtudes ou vícios, têm a carga da ancestralidade. Se isso nos redime de delitos é para discussão heterogênea e complexa. Na prática, se disponho de 5% de livre-arbítrio, deveria usar a vontade de potência de Niesztche ou Clovis de Barros Filho para tornar nossos mundos ou minimundos consistentes e de belezas infindáveis ao ponto de provocar ciúmes. Não deve ser difícil a construção de ambiente saudável dentro das nossas casa, ambiente de trabalho ou ambiente social. Então, o quanto a gente é anjo ou demônio de forma absolutamente consciente? Será que temos força no taco?


Outra incógnita é a sobre a glândula epífise ou pineal também denominada de terceiro olho (embora alguns bagaceiras achem que terceiro olho é outra coisa) que fica entre os olhos na profundidade do cérebro. Dizem que é a sede orgânica da conexão da biologia com a espiritualidade. Dizem que é a sede da alma, essa energia capaz de movimentar o nosso corpo e de dispor ao mundo toda sua versatilidade. Sabemos pouco e, por isso, busquemos a leitura. Sonho em um caixão de defuntos repleto de livros ao invés de flores, sonho em morrer numa biblioteca ou livraria com todos os livros que não li caindo sobre minha cabeça. Como já escrevi certa feita, tenho saudades das ruas por onde nunca passei (Mário Quintana) ou ainda hei de encontrar os rastros dos versos que não cantei (Jayme Caetano Braun).


Então, voltando para a terra, Onyx declarou que o projeto da reforma-ampliação de nosso minúsculo aeroporto estava cheio de falhas. Ah, tá!!! Só viram agora ou somente divulgaram agora, depois de meses de expectativas e evasivas. Pensei da gente formar um mutirão para arrumar as descargas dos banheiros e arrumar as portas do Lauro Kortz e filmar para esfregar em quem promete e não cumpre. Quem promete e não cumpre diz que ao prometer usou todo os 5% da capacidade de deliberar, mas foi vencido pelos inesgotáveis 95% de forças contrárias ao desejo manifesto. Resumindo, não se pode condenar um político escravo da ancestralidade porque prometer e não entregar parece vir de muito tempo, desde que o homem é homem.






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