PUBLICIDADE

Colunistas


La la, Schopenhauer e Miguelina

Sábado, 25/02/2017 às 09:00, por Jorge Anunciação


O mundo como vontade e representação de Schopenhauer reverberou nos mais diversos pensadores há 300 anos, quase tanto como Sócrates quando sabiamente revelou que nada sabia. O mundo é uma representação, está aí e pronto, é fruto da experimentação. Pode ser lindo ou não dependendo da subjetividade ou da vontade. Compreender o mundo e a vida requer um mergulho introspectivo, uma imersão poderosa quando acompanhada de alguns anos de existência e de contemplação sobre a balança de erros-acertos.
Minha mãe era para ser Miguel, ao nascer menina estabeleceu-se Miguelina, para o mundo e Neca, para os íntimos. Era espírita, altamente romântica; foi de um grupo de danças flamencas em outra vida e isso era absolutamente claro para ela. À noite via, projetada na parede do quarto, pessoas dançando em grupo e com castanholas. Miguelina-Miguel-Espanha era de um romantismo quase ingênuo e era de duas vidas; uma como representação e outra como vontade. Assim como a personagem de Cecília (Mia Farrow) de A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen) que tinha um marido bêbado e violento (mundo da representação), a personagem era apaixonada pelo personagem do filme (mundo da vontade), o oposto de seu marido. Cecília tinha uma vida e amava outra. Neca era fascinada pelos filmes musicais, tal qual foi sua vida anterior. Enacantava-se por Fred Astaire-Gene Kelly-Cyd Charisse-Ginger Rogers. O mundo da vontade de Neca-Miguelina-espanhola era de cores e de coração, era iluminado pela magia e arte que lhe faltava no mundo da representação. A dança de Neca era com seus seis filhos e limpando a casa, fazendo almoço, cuidando de meu pai como se mais um filho fosse.
Ela-miguelina-espanhola, ao contrário de Neca semialfabetizada, deve ter tido acesso a Miguel de Cervantes e seu Don Quixote, um herói romântico-sonhador-corajoso que vê a beleza no que a maioria não vê, aquele que consegue transformar a realidade em beleza. Talvez tenha lido as histórias de Simbad-Ali Babá-Aladim que Sherazade contava ao sultão Shahyar nas Mil e Uma Noites. Talvez, ainda, tenha admirado Henry David-Thoreau na obra Walden ou a Vida nos Bosques onde, numa simples cabana às margens de um lago em Massachussetts aprendeu a contemplar a simplicidade das coisas e estabeleceu: o homem é rico na medida do número de coisas de que é capaz de abrir mão.
Domingo, o musical La La Land concorre ao Oscar. É um musical de sapateado, é um mundo de vontade. Minha mãe torceria fervorosamente para ele, em respeito aos velhos tempos. Ah, minha velha, tantas coisas tinhas a me ensinar! De repente, veio-o me Neca, visitar meu mundo da vontade. Aí, aquelas coisas de sempre: garganta apertada, olhos marejados, opressão torácica, coisas de filho.
Quando ela foi enterrada, naquele sábado, fui trabalhar como palestrante na casa André Luís. Foi em homenagem a ela e a um filme que ela descreveu sobre a primeira grande guerra: um maquinista tem seus cinco filhos levados à luta. Sabedor que um deles morreria em combate recebeu meses depois em sua casa, ele e a esposa, um oficial com a bandeira do país e uma caixa de medalhas. Perguntou ao oficial: quem deles? O oficial respondeu: infelizmente todos. Depois de recomposto o velho ferroviário disse à esposa que iria trabalhar porque nunca havia faltado ao serviço por qualquer motivo. Ao manobrar a máquina e os vagões vislumbrou seus meninos-crianças a acenar ao velho pai no velho local de costume. E, então, coisas de pai: garganta apertada, olhos marejados e insuportável opressão no tórax, era o mundo da representação manifestado e que, naquele momento suplantava o mundo metafísico. Te amo, velha Neca, na vontade e na representação, saudade de dançar e cantar contigo.




Rosebud

Sábado, 11/02/2017 às 10:00, por Jorge Anunciação


Os analistas especializados na sétima arte (as outras são música, dança, pintura, escultura, teatro e literatura) escolheram Cidadão Kane, de Orson Welles (1941) como o melhor filme já realizado. A gente nem sempre concorda com os críticos. Mas, Kane trata da vida do gigante da mídia americana William Randolph Hearst cuja estrutura de comunicação definia o que o povo americano deveria saber e o que deveria passar batido. Época estranha aquela, deve ser horrível viver em um país cujas informações disponibilizadas por parte da imprensa são tendenciosas. No final do filme Kane balbucia uma palavra que ficou como ponto de interrogação – rosebud. O que queria dizer? Ora, rosebud era como Hearst chamava seu trenó de brinquedo. Também era como se referia ao clitóris de sua amante, a atriz Marion Davies. Chocante, não. Clitóris é clitóris mas, rosebud...
Dia desses alguns colegas insistiam na ideia de colocar meu nome à disposição para concorrer à eleição da cooperativa dos médicos em março. Lembrei de Kane e respondi: Plein. Plein é o meu rosebud para essa possibilidade. Em 2004 o Grêmio contratou o treinador José Luiz Plein que vinha de Santa Maria. Plein fez parte do Grêmio campeão nacional de 1981 (será que esse título a Fifa reconhece?) e sua carreira no imortal durou vinte jogos em que somou dez derrotas. A imprensa detonou seu trabalho e forçou sua saída. Veja o elenco do imortal: Márcio, Bilica, Capone, Baloy, Cocito, Zulu, Pitbull...assim nem David Copperfield. Na entrevista de despedida os sicários que haviam detonado o jovem treinador do interior perguntaram a razão do pedido de demissão. Plein poderia ter respondido que o elenco era horrível, que não havia grana para contratações, que não havia comando, etc. Mas, o elegante Plein colocou a mão no ombro de seu crítico e disse o seu rosebud, o mesmo que respondi aos colegas que me solicitavam meu nome à disputa eleitoral. Plein falou: quero ser feliz. Aos sessenta anos quero ser feliz, não quero ouvir reclamações de colegas ou de pacientes, não quero prometer o que não possa cumprir. Além disso, o atual presidente e seu conselho de administração fazem um trabalho admirável e que deve ter continuidade.
Meus filmes inesquecíveis são: Lawrence da Arábia, O poderoso Chefão - trilogia, Butch Cassidy, Midnight Cowboy, Ao Mestre Com Carinho, Papillon, Retratos da Vida, Amadeus, O Sétimo Sentido, Duas Vidas, 2001 e, pasmem, Dança Comigo? Sei, os críticos não concordariam comigo mas, eu também não concordo com eles. Nesse musical em que Richard Gere faz seus tiques tradicionais eu vivia uma crise no casamento e a cena em que ele sobe pela escada rolante ao encontro de sua mulher e pede que ela dance me fez chorar copiosamente no cinema na presença de minha filha Georgia. Quando se separa pode ser que uma das coisas que tenha faltado é a dança, uma das artes. E, afinal, filme bom é aquele que toca o coração da gente.
Cada qual tem os seus rosebuds ou a manifestação final em que referimos o que realmente importou na vida que estamos a deixar. Meu rosebud sobre a vida pessoal quando tiver chegado a hora de ir embora: família..família...a eles diria que mesmo morrendo, vou morrer de saudades.




Despedidas

Sábado, 04/02/2017 às 08:45, por Jorge Anunciação


Essa semana morreu Mary Tyler Moore. Sei que você nunca ouviu falar dela. Mary iniciou na TV americana no programa de variedades dos anos 1960 de Dick Van Dyke, outro desconhecido para a maioria dos que têm menos de cinquenta anos. Mary foi a precursora da mulher independente, ousada, assumida, beligerante. Foi copiada, como tudo o que é bom, pela TV do Brasil na personagem Malu Mulher (Regina Duarte). Em 1980 brilhou intensamente em Gente Como a Gente, filme dirigido por Robert Redford, que versa sobre a crise familiar advinda da morte violenta de um dos filhos do casal. A gente, sem ter mais o que fazer, há cinquenta anos, assistia TV o dia inteiro e esses personagens impactaram, de alguma forma. Assim, crescemos com Big Valley nas noites de sábado, Missão Impossível nas noites de domingo; Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo, Baretta, Kojak, Kung Fu, Bonanza, Zorro, Combate, McGyver, Jeannie é um gênio, Os Waltons...Dia desses estava assistindo do YouTube “por onde andam os personagens dos seriados” e deu saudade, a maioria morreu, assim como vão morrendo pedaços de nós. A gente vai desativando, visão, audição, memória, outras coisas que não lembro. Que chato, morreu Mary Tyler Moore, um símbolo e você nem sabe quem foi.
Minha filha me mostrou emocionada a foto de ontem de FHC abraçando, em condolências, o também ex-presidente Lula. Disse a ela que adversários políticos não são, necessariamente, inimigos. É assim que deve ser. Falei a ela que os homens são idiotas, que se encontram em velórios para prantear os falecidos e prestar solidariedade aos enlutados e combinam encontros que não se realizarão. É, ficamos encistados, enclausurados nos nossos mundos egoístas e vamos nos abandonando e as pessoas vão nos deixando e vamos ficando cada vez mais solitários à espera do chamado. É assim que é; é assim que vai ser. Mas, vamos à luta preenchendo os espaços com bobagens – futebol, novelas, fofocas, carteado...Criamos expectativas, tentamos mostrar ao mundo que permanecemos necessários. Ao homem se faz essencial a ideia do pertencimento, ser da turma, ser da tribo, ser lembrado, ser querido e necessário. Se a nada disso estivermos associados a morte física vem mais cedo.
Há uma turma de doutorandos e residentes se formando aos quais presto meus agradecimentos pelo convívio. A uns repassamos conhecimentos e conquistamos apreço e é o que ficará. A outros seremos descartáveis e, até, indesejáveis. Não importa, de alguma maneira são como filhos que seguirão suas vidas. Amamos os filhos, mesmo quando são desligados ou desrespeitosos. Afinal, tudo o que fazemos, nós os professores, não é por agradecimentos ou retribuições. Fazemos por nós, pela nossa consciência e pelo butim de conhecimentos, grandes ou pequenos, adquiridos dos professores mais velhos, aqueles aos quais minha geração é eternamente grata. São alunos, gostaríamos que todos fossem nossos amigos mas, a vida é assim, a gente que está de cabelos brancos deveria saber. Independente disso, boa sorte a todos, apliquem com presteza todo o butim que tentamos repassar.




Cabra marcado para morrer

Sábado, 28/01/2017 às 15:00, por Jorge Anunciação

No contestado governo João Goulart, herança da megalomania de Janio associado à quebradeira do surto desenvolvimentista de Juscelino, houve o desdobramento do que se chamou de república sindicalista, onde os cidadãos que abandonaram a vida rural tentavam encontrar mercado de trabalho nas incipientes cidades e se organizaram, sob batuta do governo, em sindicatos ligados ao partido comunista. Cuba resplandecia na cabeça da intelectualidade e dos sindicalistas e os arroubos brizolistas incendiavam a temperatura política do país emparedando até o presidente Jango. AS reformas de base, principalmente a reforma agrária era o papel de parede num inconveniente jogo de disputa de belezas entre Brizola-Jango-Juscelino-Lacerda, todos interessados no poder. A ameaça comunista-socialista-sindicalista incomodava as forças armadas e a Igreja. A isso somado havia a insurgência de sargentos-cabos-soldados o que acarretava desobediência na caserna. Do caldeirão político-econômico-militar os conflitos eram inevitáveis. Já li tudo ou quase tudo desse período – biografia de JK, Murilo Mello Filho, Elio Gaspari, Helio Silva, Flavio Tavares e conclui que há muito a ser debatido, sem os ranços, sem as cicatrizes. A democracia resultante de tudo isso não nos livrou dos espertinhos e continuamos a debater ideologias e as autoridades públicas não conseguem aparecer em público sem ser vaiadas e hostilizadas. O respeito surge, esporadicamente, quando alguém morre. Que país é esse? Que gente é essa?

Cabra marcado para morrer é um filme de Eduardo Coutinho sobre João Pedro Teixeira, líder camponês do Engenho Galileia, assassinado em 1962. Lutas travadas entre os senhores proprietários que perdiam sua abrangência de poder e o novo proletariado só poderiam resultar em violências – estava marcado, estava marcado para morrer. Aí estava começando As Ligas Camponesas, defendidas pelo advogado Francisco Julião.
As mortes violentas do último fim-de-semana vitimando os filhos de nossos amigos estavam assim – cabras marcados para morrer, como eu e você que transitamos em estradas mal planejadas, mal conservadas, mal construídas. Em estruturas ruins qualquer vacilo, imprudência ou imperícia pode causar óbitos ou sequelas. Clamamos por melhorias na estrada da morte como Passo Fundo-Marau é conhecida da mesma maneira que suplicamos reengenharia na estrada Coxilha-Tapejara. Ansiamos adaptações no nosso aeroporto mas, às vezes as respostas não vêm ou vêm tarde.
O morticínio da Boite Kiss somente é dolorosamente lembrado pelos familiares das vítimas; o morticínio das estradas parece não ter ressonância alguma a não ser quando atinge nossos conhecidos ou familiares. Eu sou cirurgião do trauma, aquele que faz remendos, aquele que costura pacientes, aquele que retira órgãos despedaçados, aquele que tem a missão de tentar resgatar vidas de jovens acidentados. Bombeiro das desgraças sou um bem necessário, é bom sempre ter um por perto. O que eu gostaria mesmo é que os nossos jovens não sofressem acidentes de estrada. Não podemos dirigir por eles, nem evitar os impulsos da juventude mas, podemos adequar as estradas, podemos colocar mais limitadores de velocidade, podemos sinalizar melhor, podemos...não é mesmo?




Pedro...do mundo

Sábado, 21/01/2017 às 09:45, por Jorge Anunciação

Conheci em Torres o cidadão do mundo Pedro Marodin, portoalegrense, , poeta, saxofonista, palhaço, escritor. Há muito largou tudo e foi viver da poesia, sujeito viramundo a percorrer todos os recantos do país e alguns de fora. Um dia dissera a seu pai: não quero ser profissional liberal; quero ser poeta, quero ser do mundo. Do que iria viver? De vender livros de poesia, de poesias que atingissem os corações inquietos e mentes perscrutadoras como a sua. Seus livros são prefaciados por Moacyr Scliar, Martha Medeiros e Luís Fernando Veríssimo. Simpático e feliz percorria a praia abordando os veranistas a oferecer seus livros. Comprei quatro, conversamos sobre suas viagens e sobre suas escolhas. Dorme dentro do carro, come o que tiver, é dono de si. Faz apresentações de circo, participou de grupos teatrais, teve várias namoradas mas, a ninguém se prendeu de fato. Esteve em uma das jornadas de literatura e gostou do que viu, quem não gostou? Um de seus livros é autobiográfico, é delicioso de ler porque mostra a coragem do cara anticonvencional e que largou tudo pelo seu sonho e liberdade absoluta.
Meu filho Ramon cursa engenharia mas, é fascinado pela arte da fotografia e por editar vídeos. Está iniciando nessa atividade e me parece ser prazerosa a tal ponto de não parecer trabalho. Está recebendo convites até do Rio pela qualidade das edições que já postou na internet. Trabalha no sonho, é baixista, toca guitarra. É meio Pedro Marodin. Minha filha Georgia cursa relações internacionais e acaba de terminar de escrever seu primeiro livro que julgo será sucesso pela razão de que trata de assuntos que interessam às mulheres e aborda situações referendadas em personalidades públicas da cultura mundial. Também está feliz e me lembra um pouco de Pedro Marodin.
Um dia houve um Jorge...tipo Marodin mas, isso foi em 1974-75 do qual me separei. Aquele que ficou pelas estradas da vida não gostava de gravatas e de imposições sociais, achava o mundo meio depravado e inconsistente; achava que o egoísmo e a hipocrisia eram as marcas que definiam bem a sociedade. Achava o mundo autolimitado, preso a regras fechadas, não pensadas não entendia qualquer tipo de discriminação social, racial, geográfica ou de costumes. Não queria fazer parte do rebanho inconsciente que nada contestava e tudo aceitava. Ao contrário de ser complexo era simples: “eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde prá plantar e prá colher...ter uma casinha branca de varanda...com quintal e uma janela só prá ver o sol nascer”. O outro Jorge viajou para longe e adotou os costumes da sociedade: gravata, avental, funcionário, cartão-ponto, CPF, vendeu a liberdade e abdicou muitos de seus sonhos. O amor pela família e por se sentir útil à sociedade é o que abranda suas angústias. Mas, não pode se excluir de uma sociedade, também construída por ele, com tantas desigualdades e impunidades, além do imenso vazio existencial que se verifica nas pessoas.
É bem provável que eles se encontrem, o Jorge Marodin e o Jorge Anunciação, um dia em uma praça ou praia, someday-somewhere como cantava Demis Roussos. Confesso a vocês que tenho receio em encontrá-lo; confesso a vocês que, mais do que receio, estou quase com medo. Peço a Deus que eu não sinta o pior de tudo... vergonha ao encontrar o Jorge 1974.




PUBLICIDADE


PUBLICIDADE