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Colunistas


O muro

Sexta-Feira, 21/04/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Ramon-Alana, filho e nora, editaram um vídeo comemorativo à formatura Da Medicina de seu amigo de séculos João Basegio. Inevitável assistir ao mesmo sem relembrar meus passos e parte de minha juventude deixada intramuros, intraparedes e intrapáginas de cadernos, apostilas e livros. Nesta imensidão de informações e conhecimentos técnicos entre os anos de 1976-1982 plantei desempenho muitas vezes prejudicados por coisas da vida como saudades, dificuldades financeiras, angústias próprias da idade e decepções sentimentais. Claro que teve um milhão de alegrias e aos quais devo agradecimentos eternos a todos que participaram de minha vida no  apoio ou na crítica.

Houve momentos de vacilações, evidentemente e quero me referir a dois. O primeiro foi em 1980 quando estava no quarto ano e a primeira criança que vi morrer e o imenso sofrimento dos pais e avós, logo aquela criança tão doce e adorável, como todas as crianças. Foi então que experimentei a teodiceia, a propriedade de conferir ao Criador as possibilidades de coisas ruins que possam nos acontecer. Perguntava-me se morte de inocentes fazia parte do plano do Criador e que Criador era aquele que permitia morte de inocentes? Naquela tarde de quinta, sentei-me em um dos bancos da Praça Tamandaré e fiquei por três horas a observar crianças nos balancinhos. O que eu queria de verdade para meu futuro? Na medicina seria também vivências de dores e frustrações. Estaria disposto a encarar? Pensei, então, que talvez, num futuro próximo, a minha atuação poderia fazer a diferença entre desespero e esperança; então voltei ao mundo intramuros do hospital.

Em 1982, numa tarde de domingo-plantão junto com então residente Luis Carlos Trombini, postamo-nos na portaria do São Vicente, junto à rampa de acesso às ambulâncias. Estava angustiado, talvez pelas imensas responsabilidades do médico prestes a ser formar. Muro prá lá -  pessoas caminhando, namorados de mãos dadas, crianças de bicicletas, o embriagado com uma latinha de cerveja, o homem ouvindo rádio, o garoto caminhando com uma bola de basquete sob o braço. Sim...sim...havia dois mundos de possibilidades para minha pessoa. Do muro para lá parecia mundo de Baco ou Dionísio, mundo das alegrias e prazeres, mundo das despreocupações; do muro para cá era mundo das formas ou de Apolo, mundo real dos desafios, do estar preparado permanentemente para poder ser o diferencial ao enfrentar perigo real e imediato à manutenção da vida ou do estado de saúde ao paciente que, na maioria das vezes, era um ser absolutamente desconhecido. Olhei angustiado o muro como desafio e ...novamente adentrei ao hospital.  Era assim, era para ser assim e foi assim como o resto do céu no mar, como a brisa na preamar (Água – música de Ruy Barata e letra de Paulo André na voz de Fafá de Belém, 1977).

João Basegio, amigo de Ramon, venceu também seus demônios e se conservou intramuros, sem sequelas. Meu filho e Alana compuseram um vídeo de formatura que estampasse o orgulho da gente em ver a garotada, agora formando, competente chegando – avisa lá, avisa lá, avisa lá que eu vou - para a missão abençoada. Também objetiva mostrar o olhar e a alma cândida de nossas crianças, aquelas que cuidarão de nós, logo ali, no futuro que se aproxima rapidamente.

Em tempo, já faz uma ano que Armando Ferreira, o Manduca, deixou-nos. Além da saudade deixa a certeza de que o mundo pode ser melhor do que é a partir de homens dessa cepa. Abraços.




Jorge, Luís e Borges

Sábado, 08/04/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Jorge (meu pai, falecido), Luís (tio materno, falecido) e Alaor Borges (casado com minha prima mais esperta, Helena) tinham laços congruentes: eram meus parentes, eram sargentos do exército e eram possuídos de alegria contagiante. Moldaram minha personalidade pelas práticas do bom humor e otimismo, características que tento empregar em meu dia-a-dia. Os três me remetem aos domingos de ramos dos anos 1960. Tradicionalmente os fiéis trazem para suas casas os abençoados ramos para energizar o ambiente, ramos que foram usados na semana da páscoa há dois mil anos quando o filho do carpinteiro adentrou a Jerusalém. Aos domingos de ramos sobrevém meu passado ligados aos queridos parceiros de existência. Sempre prometo que irei à Cruz Alta nessa data e não cumpro por diversos motivos sempre ligados à profissão que abracei.  Mas, não desisti da ideia.

Já Jorge Luis Borges, nascido no elegante bairro de Palermo, poliglota e intelectual, escreveu obras densas, que confesso a necessidade de aprofundar, assim também como devo fazer em Gabriel Garcìa Marques e Julio Cortazar. A cegueira proporcionou a Borges a criação aprofundada de seus personagens marcados de mistérios e de elucubrações de cunho religioso-metafísico porque ele vislumbrava com os olhos da alma. Sua obra se assenta numa Buenos Aires pungente em que imaginamos uma atmosfera noir, de grossos casacos e de elegâncias infindas de homens e mulheres, ambiente fumacento, tangos melodiosos e café ou vinho. Essa atmosfera carregada de imagens e de significados me trazem a mãe romântica e nostálgica aos meus olhos e peito pois, assim como ela, essas coisas são eternas. Talvez, também por isso o restante do país devesse entender porque nós rio-grandenses somos tão apaixonados pela Argentina e Buenos Aires. Buenos Aires me traz a elegância de Rui Carlos Osterman, na descrição pormenorizada dos pratos que se serviam e dos acompanhamentos, além da poesia e dos ricos embates que a filosofia, da qual foi professor, é capaz de conduzir. A filosofia extrai o que há de melhor em nós, faz extrapolar o homem da mesmice que o cerca. Jorge Luis Borges foi homenageado por Humberto Eco em O Nome da Rosa no personagem cego Jorge de Burgos e na biblioteca do mosteiro, baseada no conto de Borges A Biblioteca de Babel.

La Biela, Avenida Quintana 596, café do bairro Recoleta, quase em frente ao cemitério onde seu muro dianteiro alerta em uma inscrição: aqui descansam as pessoas que nos precederam e que construíram esse país e que merecem nosso respeito – algo assim. La Biela, mesa um, aqui, diz o garçom, sentavam Juan Fangio, Carlos Reutemann (ex-pilotos de Fórmula Um) e Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. De fato, há fotos bacanas que provam isso aí. Sentei-me na esperança de, por osmose, captar um pouco da grandiosidade, esqueci de pedir que batessem uma foto e solicitei um malbec Altivo, safra 1990 (estávamos em 1998), 14º GL, de cor intensa, fruta fresca como a cereja, especiarias e aportes do envelhecimento em carvalho; precisava de alguma maneira saudá-los sussurrando que alguns são protagonistas e nosotros somos admiradores, mais do que isso, tietes. Pretendo voltar ao La Biela e carregar pelos meus olhos, os olhos de minha mãe, que lá nunca foi a não ser fechando os olhos para ver a imensidão do mundo, assim como Borges. A minha mãe, a Jorge, a Luís, a Borges e a Jorge Luis Borges, salud.




O Duelo Old Dog

Sábado, 01/04/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Digitalizei minhas fichas de atendimento ambulatorial realizadas no São Vicente e a cada data de nascimento do paciente eu ia buscava o que de relevância tinha havido sob a minha ótica. Paciente nasceu em 1969 – neste ano eu gostava da Vera e estudava no Colégio Estadual Antônio Sepp em Cruz Alta; na minha cabeça batia “sentado à beira do caminho”, de Erasmo e Zingara, cantada por Bobby Solo. Na TV havia os dramalhões tipo “A Rosa Rebelde”, na Globo com Tarcísio e Glória. Ao ano1978 e veio-me ABBA em “Move On”, Rocky Balboa e durante a copa da Argentina eu corria pelas ruas de Passo Fundo principalmente quando a nossa seleção (Chicão-Jorge Mendonça) estava jogando; avenida Presidente Vargas vazia, chovendo e frio e eu solitariamente no asfalto matutando sobre a paixão platônica que eu de 21 anos nutria por uma linda senhora casada, coisas de piá. Perceba o leitor que para mim, pelo menos, tudo tem sentido, tudo se encaixa e nada acontece por acaso e, talvez, por isso, fica tudo marcado e a lembrança flui facilmente. Acho que desta forma, pelo menos, aproveitei e aproveito minha vida intensamente pelo fato de entender que tudo tem uma razão de ser.

A semana que passou marcou-me uma presença no Smith Bar quando na companhia de minha mulher e do casal Beti e Marcus Portela passamos momentos agradáveis. O pessoal que fazia a música ao vivo deu um show de competência. Entre eles estava o garoto Jean Novello (harmônica) que também é integrante do Old Dog, banda que já conhecia pelo clipe Duelo que minha nora Alana e Ramon Anunciação trabalharam e que foi mostrado neste último sábado no Maktub. Para quem ainda não apreciou atento para a formação: Rodrigo Accorsi no comando, a energia de voz e violão, a inquieta guitarra de João Schons, o competente baixo de Jordalan Muniz, bateria de quatro mãos de Marcelo Cassol e Novello carregando na gaita de boca. Também tive uma gaita de boca na infância, pena que não aprendi a tocar assim. Sabe o que é legal? É estar ouvindo o rock, eterno rock salpicando folk de Creedence, Southern melodioso de Elvis, Beatles e quase tudo que bombou quando eu era criança-adolescente. Mais legal ainda é que tinha uma gurizadinha que curtia tanto quanto eu evidenciando que a música é eterna principalmente quando muito bem tocada, como foi o caso desta banda que nos emociona e orgulha. Fiquei secretamente esperando que Jean Novello emendasse um John Barry, que me levaria como mágica a 1969-70 quando assisti Midnight Cowboy (perdidos na Noite) com John Voigt e Dustin Hoffmann, lá no inesquecível Cine Coral, na Santa Terezinha.

Passo Fundo está bem servida de músicos e eu fico triste pelo fato que nossa realidade social  não permita a maioria dos artistas viva exclusivamente da arte. A gurizada batalha o dia inteiro e na noite está lá a brindar os felizes expectadores e ouvintes com baladas produzidas diretamente para quem vive da paixão, paixão por quem divide a travessia e pelo que faz.

Fiquei feliz e agradecido ao pessoal da banda por ter confiado a meus familiares a produção do clipe tudo a ver com a música. Pela arte do que se ouvia e do que se assistia- banda ao vivo-clipe – senti-me nuca capital e fazendo parte da arte; em outras palavras, senti-me sublimado.




Sobre perplexidades e certezas

Sábado, 25/03/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Veríssimo escreveu, certa feita, que aos quarenta anos perdemos a sensação da perplexidade e nada mais seria estranho.  Um matuto mastigava um naco de torresmo e ouvia maravilhas discorridas de um estudado sobre tecnologias e viagens interplanetárias. O matuto ouviu pacientemente e sem franzir o cenho declarou: depois que inventaram a máquina de “debuiá” milho não duvido mais de nada. Bem, o circo de horrores que atinge os poderes máximos de nossa república não estarrece a todos porque é do protagonismo do homem; e o homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e não é santo; é falível e erra por humano que é, e é humano, demasiado humano. O que estarrece e causa perplexidade é a inércia da população que a tudo assiste anestesiada. Meirelles acena com novos impostos, alguns dos mais notórios gatunos ainda estão à solta, os beneficiados dos saques das estatais parecem receber o manto protetor de quem deveria zelar pela aplicação das leis. Vemos um desfile de egos inflados empulhando as pessoas comuns, como nós, que estamos prestes a ser assaltados novamente, como a todo ano, no final de março-abril quando entregaremos as declarações do imposto de renda. 

 

Além da perplexidade perdemos o sentimento da certeza. Ah, aquelas certezas que tínhamos na adolescência: amor eterno, amizades eternas, respeito infinito, solidariedade, humanidade e que com o tempo as coisas, todas elas, iriam melhorar. Eu tinha certeza de que o mundo era dividido assim: o mundo das formas (externo) e das ideias (o mundo de dentro da minha cabeça). Assim, então, para um cronista que se atreve semanalmente a invadir os lares das pessoas, o que deveria ser importante escrever?  Críticas políticas-sociais ou escrever impressões para aquilo que habita o nosso melhor e que é manifestado quando, por exemplo, sentamos à mesa de um bar com os amigos para falarmos dos bons tempos, aqueles em que nossas almas não estavam contaminadas pela realidade das iniquidades que nos conduzem ao que somos – seres contemplativos mesmo quando somos açoitados por “essa gente” detentoras dos poderes que delegamos e sobre as quais parece não termos força para arriar?

 

Poderia escrever sobre a carga tributária no Brasil e mundo; sobre os vazamentos da Lava Jato e as pérolas de Gilmar Mendes; sobre Janot e o segredo de justiça; sobre o porque de Temer não estar sendo investigado; sobre e a reforma trabalhista; sobre a reforma previdenciária e aposentadoria. Li bastante sobre isso mas, jornalistas bacanas especializados esmiúçam melhor  mas, poderiam alguns ser menos ideológicos-partidários e sectários. Então, melhor tergiversar sobre a condição humana e sobre o que nos assombra porque está mais perto do que imaginamos.

 

Um cara é morto num bar do centro, bar frequentado pelos nossos filhos tal qual aconteceu no bar Vereda Tropical em 1983 na Moron, lembram? O pessoal do BOE foi deslocado para o policiamento da capital, já que por aqui a coisa está tranquila; o aeroporto está daquele jeito; o desemprego assombra; o nosso EC Passo Fundo encabula os torcedores com performance nunca vista em que recebe um milhão de reais da federação para vencer um entre oito jogos; é o leite, e´ a carne e é o que falamos à boca pequena quase em sussurros.

 

Perplexidade é sobre a inércia do povo ordeiro e sonhador; e a certeza é que da minha geração  nada sairá, além de gritinhos esparsos e discursos vazios. Serão os nossos filhos que farão um país aprazível, país capaz até de acolher a senilidade de nossos corpos e mentes mesmo que não mereçamos.




Abecedário

Sábado, 18/03/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Está com Marco Damian o dicionário de Cruz Alta, editado por Rossano Cavalari,  por uma tentativa de organizarmos nosso histórico. Rossano tabulou quase tudo daquela cidade por ordem alfabética, onde narra pessoas, acontecimentos, gírias e locais que fizeram e fazem parte das memórias. Como todo grande escritor, deixou a obra incompleta e remetemos algumas sugestões ao amigo. Daí, que temos que deixar no papel e não somente na falha transmissão oral a epopeia de nossas vidas e de nossos pais. No último domingo enfrentei 41 quarteirões a pé para assistir ao glorioso EC Passo Fundo e enquanto caminhava pelo centro e pela Presidente Vargas ia lembrando os idos tempos iniciais da década de 1970 que, em companhia de meu pai, apreciava nossos valorosos jogadores, do naipe de Santarém, Mariotti, Raul, Roberto, Bebeto. Ontem encontrei Luís Freire e me bateu um saudade por estarmos perdendo o vínculo com o futebol de campo tal qual perdemos com o futsal. O Vermelhão é neutro, a torcida fica muito longe do gramado, não há pressão, não temos o 12º jogador e nem tem mais jogadores identificados com nossa cidade. Dessas centenas de jogos, mal lembro os resultados porque a gente vai lá para encontrar os amigos e tomar cerveja. Mas, precisamos registrar as passagens assim como o fazem Damian, Ivaldino, Monteiro, Ney, Osvandré e outras excelências da Academia.

Organizei minha “biblioteca” por temas e agora ordenarei meus CDs, discos de vinil e filmes. Estava uma bagunça e como tenho memória fotográfica preciso me socorrer da organização. Lembrei de Caetano e Odair José. Odair vendia muito e a gravadora, através do lucro das vendas da chamada música brega, podia bancar os bacanas (Caetano e Gil). Em reconhecimento Caetano chamou Odair ao palco para cantar alguns de seus sucessos, entre eles a proibida Pare de Tomar a Pílula, música que ia de encontro a campanha do controle da natalidade que o governo propagava. A plateia de Caetano vaiou e este valentemente repreendeu a todos exclamando: “nada mais Z do que um público A”.  A música brega, como você sabe, teria ganho esta denominação em razão de uma casa de shows em Salvador que ficava na Rua Padre Manoel da Nóbrega, casa que tocava muitos boleros ou músicas de corno, como queiram. A maresia foi comendo as letras da placa da rua e de todo o nome restou...brega.

De Aa Z tenho meu abecedário da família. De maneira altamente folclórica discorrerei sobre uma prima que se apaixonou por um homem casado usando a letra A, de amor. Começa que ela se sentiu Atraída pelo cara, homem proibido, que retribuiu e ela passou a ser Alvoroçada pelo romance. Cada vez mais Animada, tornou-se Apaixonada. Na correspondência de sentimentos, mesmo fortuitos, sentiu-se Aconchegada e, logo a seguir, diríamos – Amigada. Na repetição amiúde dos encontros amorosos tornou-se Amasiada. Na paixão, o homem casado alugou um muquifo, ninho de amor, ao qual sede das volúpias e do tórrido sentimento. Amigas alertaram que ela nada mais era do que uma garota Amancebada e que deveria querer mais da vida. Para isso, deveria dar pressão no amante. A inútil pressão findou o relacionamento e ele passou a ser uma mulher Abandonada e, com contas a pagar, viu-se Atrapalhada, Atolada e Atormentada. Sua difícil vida Atravancada levou a revelar delírios de uma pessoa Alucinada, talvez Alocsada como dizem suas amigas. Agora Amargurada procura encontrar o trem de sua vida. Ah, os abecedários de nossas tragédias pessoais caberiam bem na caneta de Nelson Rodrigues.




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