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Colunistas


Rede de Intrigas

Sábado, 10/11/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Sempre apreciei cinema, principalmente em ler as resenhas dos filmes. Em 1976 lia Hiron Goidanich (intelectual) no suplemento de variedades de ZH, assim como gostava de ler Janer Cristaldo (doutor em filosofia pela Sorbonne) na Folha da Tarde. Esse tipo de lazer (leitura) jogava-me num patamar que me sublimava sobre minha própria existência e resplandecia na alma. Um pouco antes, entre 1971-72 lia tudo o que me aparecia, de Machado de Assis-José de Alencar a Herman Hesse-Gibran Kalil ou Hemingway-Guy de Moupassant. Ler acrescenta, seja romance, biografias, história...Em 1976 tivemos o premiadíssimo O Predileto (de Roberto Palmari), baseado no romance Totônio Pacheco (de João Alphonsus), em que brilhou o ator Jofre Soares; ao mesmo tempo a América produzia Taxi Driver (Martin Scorsese), Rocky, um lutador (John Alvidsen) e Casanova de Fellini. Mas, o que me marcou foi o filme de Siney Lumet Rede de Intrigas em que a baixa audiência de um programa de TV sugere ameaça de demissão de seu protagonista e gera ameaça de suicídio ao vivo; esse nonsense faz a audiência aumentar.


Rede de Intrigas é o que constatamos nessa última eleição no Brasil, fato que chamou a atenção do mundo sobre nosso país. Nunca antes existiram tantos fakes e tantas manipulações de frases, vídeos, informações de institutos de pesquisas, uma panaceia de jornalistas engajados ideologicamente. Bom, acabou por ora, ainda bem, mas repercutiu de forma inusitada entre grupos familiares estabelecendo cizânia em razão de posicionamentos políticos, como na peça de Guarnieri Eles Não Usam Black-Tie (1958). Jamais imaginamos que preferências políticas sobrepujassem relacionamentos sanguíneos pretensamente consolidados. Onde está a verdade? Não sei, somente sei que não é na rede social. Aliás, esta é mais destrutiva do que construtiva e cito como exemplo a criação de grupo de WhatsApp de minha turma de formatura, agora que completamos 35 anos de titulação acadêmica. Criada que foi para aproximar teve efeito contrário, o da dispersão porque a turma começou a falar de críticas sociais, de comportamento, mensagens existenciais e de cunho espiritual. Esse desnudamento, por assim dizer, retirou a curiosidade e a saudade, se é que existia e, de repente, não havia mais motivos para o reencontro pois tudo havia sido dito e revelado e, além disso, criado desconforto entre alguns membros do grupo. E o mais grave, o grupo era composto de pessoas que conviveram por alguns anos.

 

Na rede social as pessoas nem se conhecem, na maioria das vezes e se ofendem e se digladiam, adotam opiniões geradas em fakes, assimilam comentários de jornalistas comprometidos e na ansiedade não suportam divergências de opiniões. A rede social bestializou as pessoas quando deveria ser extremamente construtiva. Pensemos nisso antes da exposição pública da opinião para não pagarmos mico.


PS – tocante a crônica de ontem de Gilberto Cunha e somos assim, graças a Deus, sem fakes ou ideologias. Somos tocados na alma por dramas, por históricos de superações, por encontros sucessivos que nos recolocam nos caminhos que devemos trilhar. O homem muitas vezes tropeça na verdade...mas, levanta...olha envergonhado para os lados...e sai correndo.




Decisão

Sábado, 27/10/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

É chegada a hora da decisão, percebo apreensão em nós e nos nossos oponentes; eles já mostraram que são fortes; e tu tens a escolha a teus critérios. Estes espelham o mundo como vontade e representação como dizia o filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860), retratado como pessimista, ou vida repleta de infelicidades pois, o mundo e a “verdadeira verdade” nunca se disporá pois é fruto da individualidade de cada um e também porque esse mundo é o que é independente de qualquer subjetividade. Então, a incapacidade de conclusão dá a sensação de pequenez e para os que filosofam a tendência do fim da existência é o vazio. A vingança para todos seria viver...viver e não ter a vergonha de ser feliz. Mesmo que se morra na ignorância total.


Passei a perguntar por aí o seguinte: qual situação significa pra ti “isso sim é que é vida”? E as respostas foram diversas. Viver é ter grana e poder desfrutar do conforto que isso dá; viver é ter saúde; viver é ter paz; viver é ter trabalho; viver é estar sempre com os filhos por perto; viver é poder extravasar a individualidade e não ter preconceito ao que se diz, pensa ou age. Enfim, resposta diversas. Uma das mais comuns refere-se às férias, guarda-sol + pés na areia + caipirinha-cerveja-chimarrão + céu azul + mar + pessoas felizes + sonzeira – “isso é que chamo de qualidade de vida, eu mereço isso”. Boa parte das pessoas entende que felicidade depende de fatores externos como grana, sol, praia, vitórias de seu time do coração...e nem sempre qualidade de vida é igual à vida de qualidade. Vida de qualidade depende de se sentir bem com equalização de fatores internos. Sucesso, por exemplo é estar realizado com o conquistado, como sucesso profissional, por exemplo. Felicidade é estar pleno com as nuances internas, é estar pleno com o que tens independente de fatores externos. Não tenho tudo o que gosto mas, gosto de tudo o que tenho. Felicidade tem a ver com outros, ninguém é feliz sozinho.


Vivemos em mundo de regras porque não temos a educação-ética-moral para deliberarmos sem elas. Às regras chamamos leis e li, em algum lugar, que necessitamos de mais de trinta mil leis para cumprir adequadamente os dez mandamentos. Se elas, as regras, não existissem e dependesse somente de minha vontade eu iria trabalhar de havaianas e bermudas, talvez sem camisa ou com o manto tricolor; talvez com aquela agasalho surrado que só uso em casa. Se dependesse de minha vontade as rádios só tocariam os velhos sucessos, enfim. Ao sentir incapacidade de gerir sua as próprias vontades emprestamos ao estado a condução do destino que foi denominado como contrato social (Rousseau). O esse bateu o martelo e dispôs como deveríamos nos comportar em grupos já que somos urbanos e sociais.


A decisão, chegou a hora, traz em se bojo sentimentos contraditórios, reflexos desse enorme poder chamado mídia social. Nunca antes, como dizia Luís Inácio, tivemos tantas oportunidades de expressar e de receber informações, verdadeiras ou não. Muitos de nós precisariam se afastar dela e pensar, conversar com o coração e cérebro e deliberar.


É a hora da decisão...vou abrir o meu voto, um cronista não deve ficar em cima do muro...doa a quem doer, mesmo que machuque o coração de familiares...o Grêmio vai sair campeão.




Vicente

Sábado, 20/10/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

O Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo está centenário e tem programado para 25 próximo o lançamento do livro box “100 anos de história” no auditório da Faculdade de Medicina. Compreende 04 fascículos que retratam a criação e o crescimento dessa potência que orgulha a nossa sociedade. Neste 18 de outubro, dia consagrado ao médico, tivemos um coquetel de confraternização e, mais uma vez, percebo quanto deixamos as nossas vidas passar sem o devido compartilhamento dos bons momentos com os colegas. Devíamos trabalhar menos e prazeirar mais. Pude tietar os colegas Rudah, Paulo Crusius, Luis Carlos Manzato, Adroaldo Malmann e senti saudade de Ruy Donadussi, Carlos Madalosso, Julio Teixeira entre tantos outros - gente que me formou, gente que me moldou, gente que tento me espelhar, sem sucesso em boa parte das vezes. Juntos, São Vicente e seus extraordinários médicos credenciaram a cidade, que me abraçou, à excelência.

 

Olho no caderno de plantões noturnos e percebo que hoje é meu plantão 592, desde 2008. Quase seiscentas noites fora de casa. Como faço plantões há 39 anos, essa conta está pra lá de defasada. Nem contei as noites de Unimed, do Hospital Cesar Santos, Postão, Samur...E o que se faz nos plantões? Tratamos de gente que nem a gente, cuidamos suas dores, angústias, temores e medos, principalmente medo de morrer. Hoje há plantão para todas as especialidades, não era assim há 40 anos. Muitas coisas mudaram, grande parte para melhor. Queria mostrar esses números a meus filhos que estão trabalhando pra caramba, graças a Deus e dizer a eles que o velho já trilhou e ainda trilha essa estrada, essa boa estrada.

 

Vicente de Paulo (Vincent DePaul, 1581-1660) era um religioso Francês que tinha entre suas marcas a humildade e caridade e foi canonizado pelo papa Clemente XII em 1737 e em 1885 foi declarado patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica. Humildade e caridade são características que junto com humanidade deveriam nortear a população médica. A eterna busca do saber é inerente à profissão, não conta, é obrigação. E nessas quatro paredes, dezenas de corredores, centenas de leitos contamos histórias, hospital e nós, nesses cem anos. A maioria delas com finais felizes, outras nem tanto. Mas, não faltou luta, nem garra e mesmo diante do imponderável da morte resta o desatino a grande parte de nós, por perder vidas, por não ter logrado êxito.

 

No coquetel olhava para Deonir de Marco, que conheço desde 1972 quando realizamos curso de teologia nos fundos da catedral sob a batuta do Padre Eli Benincá (ganhei a inscrição de Marco Mattos como presente de quinze anos). Olhava também para Ilário de David, irrequieto, empreendedor. Nestes 100 anos de história crescemos juntos, misto de estruturação e competência, presente da área da saúde a nossa região. Que bom que te vejo da minha sacada em parte de seu esplendor, em cujas entranhas há almas trabalhando intermitentemente e almas em agradecimento. Vicente DePaul deve estar orgulhoso porque aquilo que meus mestres ensinaram ainda vive. Que bom que há hospitais que proporcionem que exerçamos o melhor que cada especialidade necessita em benefício de quem padece.

 

Por isso tudo e por tudo isso parabéns a todos.




Amanhã vai ser outro dia

Sábado, 06/10/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Amanhã será um dia importante para o destino de todos nós. Talvez seja o momento para pensarmos além de nossas ideologias, ódios e ranços. Não pode ser que um país com tamanha riquezas naturais, com extensão continental, com uma miríade de povos que emigraram para cá esteja passando por momentos econômicos tão ruins e descrédito moral e político dessa magnitude. Os rumos serão dados pelos nossos votos. Que Deus ou em que entidade que você acredite nos abençoe.


Quero escrever sobre duas perdas do mundo artístico dessa semana que encerra. Quero falar sobre Abelim e Charles Aznavour. Abelim é o nome de Ângela Maria; teve que ser assim para que pudesse cantar no rádio dos anos 1940-50. A sociedade da época acreditava que artistas e jogadores de futebol viviam numa espécie de antro da perdição e essas profissões de gente da noite pertenciam a um submundo das bebidas, tabaco e outras drogas. Nada de gente decente ali, por isso Abelim se tornou Ângela Maria, para que ao cantar, na surdina, seus pais não soubessem que era a filha. E ela veio num mundo dominado por Dolores Duran, Elisete Cardoso, a divina e estonteante Dóris Monteiro, as irmãs Batista e, é claro, Dalva de Oliveira. Veio e ficou, sua voz emprestava classe às músicas da época, boleros e guarânias, dor de cotovelo, amores desfeitos, abandonos e amarguras. Eram músicas tristes, tipo as que Maysa Matarazzo cantava, Maysa que morreu na ponte Rio-Niterói em 22 de janeiro de 1977 e deu no JN – morreu Maysa, a mulher que não conseguiu ser feliz. Minha mãe chorou e eu chorei pela minha mãe.


Ângela Maria tinha em sua voz a arte, como tinham os cantores de voz possante como Francisco Alves, como o novato Cauby Peixoto, Carlos Galhardo. Depois vieram Dick Farney, João Gilberto que estimularam Roberto Carlos. De todos os que conheci nunca ouvi ninguém como Emílio Santiago. O motorista de Ângela gravou também, ora vejam; seu nome, Agnaldo Timóteo.


Do outro lado do mundo quem brilhava era Charles Aznavour que em sua carreira vendeu 180 milhões de discos. Tínhamos Frank Sinatra, Elvis que impactaram enormemente mas, Charles...ah, Charles com aquelas músicas francesas. A gente estudou francês no Cenav, dois anos, e as professoras colocavam Salvatore Adamo e Charles; elas mostravam Yves Montand e Mireille Mathieu e a gente ía e voltava para Paris com as garotas dos nossos sonhos, garotas que nem olhavam para as nossas caras imberbes. Dance in the Old Fashioned Way, La Bohème, Que C’est Triste Venise (que ele gravou para um amor que se desfez com Amália Rodrigues)... e a gente curtia. Mas, a paulada veio no programa de Hélio Ribeiro, na Band. Hélio apresentou She que dizia todas as coisas que gostaríamos de dizer para nossas namoradas, tudo o que elas representavam, para nós. Elvis Costello regravou She em Notting Hill (aquele filme bacana com Julia Roberts e Hugh Grant).


Hoje é um novo dia...amanhã vai ser outro dia...será menos belo do que já foi porque ao partirem, os artistas que embelezaram nossas vidas, levam um pedaço de nós, talvez os melhores pedaços...o romantismo, a ingenuidade, o amor verdadeiro...




Eu vi o menino correndo...

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Neste plantão noturno do Hospital São Vicente duas músicas me vêm à cabeça: Menino do Rio e Força Estranha, ambas do genial músico Caetano. Menino do Rio é sobre Petit (José Artur Machado), sobre o qual escrevi há algumas semanas. Garoto de Ipanema, 1.80 de altura, surfista e praticante de artes marciais, flertava com o mar e com a vida e aos 22 anos mereceu essa música como reconhecimento de Caetano à liberdade de ser. Era o ano de 1980. A fama, as mulheres, a cocaína levaram ao acidente de moto em agosto de 1987 e as sequelas, após 40 dias de coma. Em março de 1989 Petit desistiu da vida e se enforcou com sua faixa de jiu-jitsu. Eu vi o menino correndo...era 1978 e Caetano retribuía ao Rei a composição Debaixo dos caracóis de Seus Cabelos (1972) em homenagem ao baiano exilado em Londres. Neste álbum do Rei constava, além de Força Estranha, Lady Laura, entre outros sucessos que o Rei emendava continuamente.


Há quase trinta anos, como o tempo passa depressa, eu vi o menino correndo...alto atlético, loiro, educado, fino. Tinha sido atleta profissional de voleibol; contava que jogou ou conviveu com os mestres Amauri, Marcelo Negrão, Bernardinho, Jorge Edson, Tande, William, Domingos Maracanã, Bernard, Montanaro, Pampa...atletas que conhecíamos pela TV. Parecia mágica, eu que na memória desses esportes de quadra lembrava do basquetebol de Ubiratã, Carioquinha, Marcel, Marcelo Vido, Gerson, Ary Vidal... e, ali, através do amigo convivia de alguma maneira com os astros desportivos; e sabia de algumas de suas intimidades. E era bacana ouvi-lo falar da vida e das quadras. Agora, não mais atleta, era médico residente da cirurgia geral e nós, de alguma forma, éramos seus novos ídolos.

Doutor Hélio Renan e eu vimos o menino correndo nos plantões, nas cirurgias que partilhamos, nos churrascos, nas cervejadas...ele fazia sucesso, ele fará sucesso, todos diziam. E assim foi no São Vicente, Cesar Santos, UPF, Unimed...Era um garoto, era um menino, tinha saúde, tinha gás...tinha tudo.


Certo dia, por motivos alheios ao meu conhecimento, forças estranhas foram se avolumando e o menino começou a soçobrar. Perdeu o viço, perdeu a luminosidade do olhar, enfraqueceu sua aura. Era um set perdido, um atrás do outro; a reação não vinha e não veio. E foi paulatinamente deteriorando e ficando avesso a quase tudo; para seus colegas sempre pareceu menino. Sua partida aos 57 anos, trouxe desalento poucas vezes visto no círculo de homens cascudos acostumados à vida e morte, que são os médicos seus colegas. Um dia, há muito tempo, ele desistiu da vida e nesta semana a vida desistiu dele. Era um menino...sim...e eu juro prá vocês...eu vi o menino correndo...correndo...correndo guiado por uma extraordinária força estranha...prá Deus...para a paz. Viverá em nossas memórias sempre na plenitude de sua energia...e por ela e por tudo o mais que ficou dito, vivido e nas entrelinhas, o que consigo escrever com os olhos marejados, tal qual o da maioria dos que conviveram contigo é...obrigado por tudo, Doutor Pitágoras.




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