Liberdade para expressão vital

O ato de brincar é a primeira forma de participação social e cultural das crianças, mas esse exercício não termina com a infância. ?? expressão vital, ao longo da vida

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Uma semana para celebrar a importância da infância e do brincar. Esse é um dos objetivos da Semana Mundial do Brincar, internacionalmente celebrada na última semana de maio, que visa chamar a atenção para o “Direito de Brincar”, previsto no artigo 31º da Convenção Sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembleia das Nações Unidas em 1989, e ratificada pelo Brasil em 1990. Para a pedagoga e psicóloga, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo (Faed/UPF) e coordenadora da Brinquedoteca da Faed, Rosana Coronetti Farenzena, que também é mestre em educação e doutoranda em Estudos da Criança na Universidade do Minho, Portugal, o ato de brincar está associado à forma primeira de participação social e cultural das crianças, entretanto esse exercício não termina com a infância, transcende-a e é expressão vital, ao longo da vida. “O conhecimento científico não deixa dúvidas de que o jogo e a brincadeira são vivências incontornáveis à produção de cultura, de comunicação, de aprendizados individuais e sociais relevantes. Portanto, é paradoxal a enorme pressão restritiva sobre o direito de brincar. Isto altera as formas de ser criança, de viver a infância, de participar na vida da comunidade e de exercer o ofício de aluno”, salienta Rosana, que também é pesquisadora da área da infância, especialmente no que se relaciona ao jogo, a brincadeira e ao bullying.
De acordo com Rosana, é preciso manter ativo, ao longo da vida, o brincante que institui o humano e sua cultura. “Alegria, autonomia, flexibilidade, livre escolha, experimentação calculada de riscos, aventura, mobilidade, interações com os pares, desenvolvimento do senso de si, do outro e percepção do mundo são constructos indissociáveis do brincar. Brincar é uma prática democrática, requer disposição e concordância entre os brincantes”, afirma a pedagoga.

 

Benefícios do brincar e o papel dos adultos
De acordo com a especialista, na primeira infância, através dos movimentos naturais, quando rastejam engatinham, rolam, entre outras ações, as crianças não apenas ganham em desenvolvimento motor, como descobrem e constroem um modo próprio de aprender. Isso tudo é possível pela experimentação e os adultos tem participação decisiva nesse processo. “Não se trata de estimular excessivamente, com brinquedos ou outros recursos. O que faz a diferença é a presença lúdica estável, sensível, alegre e espontânea, disposta a interagir na perspectiva do que, de fato, necessitam e comunicam as crianças”, destaca Rosana.

Crianças precisam de vitamina “N”
A professora chama a atenção para a escolarização precoce e a liberdade limitada do brincar. “Apesar das pressões higienistas e produtivistas sobre as crianças, numa perspectiva de escolarização precoce (a aquisição apressada cultura escrita, do trabalho individualizado...), elas brincam incansavelmente, mesmo que isso represente transgredir. Brincam com menor liberdade para integrar-se aos pares; modificar o espaço e fazê-lo um lugar de cultura infantil”, comenta a professora. As crianças estão cada vez mais distantes de elementos do ambiente natural, considerado um território de aprendizados significativos. “As crianças dedicam imensas horas diárias aos jogos informáticos ou à televisão, e nesse exercício solitário, perdem interações com outras crianças, mobilidade ativa, possibilidades de avaliar riscos, e comprometem o desenvolvimento pleno de habilidades corporais”, destaca Rosana.
Estudos consistentes mostram as decorrências de um brincar excessivamente orientado por intervenções normatizantes, limitado a áreas mínimas, e ao sedentarismo patrocinado por modelos educativos. Além da exigência para que as crianças permaneçam horas sentadas, defrontam-se com equipamentos de recreação, que em nome da segurança, subestimam capacidades, ainda com brinquedos prontos, não raro para serem olhados e exibidos. “Esses condicionantes comprometem o processo de subjetividade; o gosto por conhecer, descobrir, pesquisar; a autonomia; o aprendizado do respeito ao outro; também o desempenho das funções executivas (relacionadas à capacidade de planejar, tomar decisões e executar ações). Crianças precisam de “vitamina N” (natureza), de liberdade para sentir os limites e as possibilidades da linguagem corporal”, garante a pedagoga.
Em contato com habitats naturais as crianças se envolvem com explorações sensoriais, descobertas, e sentem-se mais predispostas a aceitar colegas que em outros espaços são vítimas habituais. De acordo com Rosana, há notável conhecimento científico a atestar que longas vivências ao ar livre relacionam-se ao desenvolvimento da autoconfiança, liderança, resiliência, consciência ambiental, capacidade para tomar decisões, entre outros. “Brinquedos são mediadores do encontro e do conhecimento entre as crianças. É equivocada a ideia de que precisam de brinquedos sofisticados, ou da moda. Materiais desestruturados permitem e convidam à experimentação, podem ser transformados e recombinados com outros em situações de livre brincar”, ressalta.


Uso precoce e excessivo de brinquedos eletrônicos
São previsíveis, crescentes e incontroláveis as queixas, bem como a aflição de pais e de professores, diante da dependência das crianças aos brinquedos tecnológicos. A especialista destaca ainda outras problemáticas como o sedentarismo, a fragilização dos laços e da comunicação com as pessoas reais do núcleo familiar, as noites amanhecidas dos pais e o baixo desempenho escolar das crianças.
Conforme Rosana, entre os fatores que favorecem o uso precoce e excessivo de tablets, smartphones, videogames e demais brinquedos eletrônicos estão: a cultura excessivamente protetora; o não reconhecimento de que são legítimas características da infância; a precarização dos espaços públicos – também pelo não uso da população; as políticas públicas que determinam áreas físicas mínimas para às escolas, com a penalização dos espaços de recreio; a conjugação da lógica consumista com a higienista, que leva adultos a vestirem e a calçarem crianças para serem expectadoras, mais que participantes de jogos ou exploradoras do ambiente e das suas propriedades e a negatividade atribuída ao ócio (descanso).
As crianças têm acesso aos equipamentos eletrônicos por meio dos adultos. “Manter a lógica de culpabilização das crianças é como tentar tapar o sol com a peneira. Esses equipamentos chegam às mãos infantis através de decisões e de mãos adultas, as mesmas que pela via dialógica, tem o compromisso de estabelecer um sistema de acompanhamento e de co-responsabilidade no uso”, explica a pedagoga.
Os adultos são inspiração e os exemplos para as crianças. “Educar exige coerência e é um processo trabalhoso. Buscar atalhos, tais como fazer desses equipamentos, e do seu uso, moeda de troca para pressioná-las a determinadas condutas; meio de “calmaria” da linguagem corporal e lúdica, ou, ainda, de compensação por possíveis ausências, é sabotar-se a si e as próprias funções parentais”, observa Rosana.
As crianças devem ter o direito de serem crianças nos diversos espaços da cidade, da habitação, da escola, entre outros. “Crianças precisam brincar e interagir em ambientes reais, assim como precisam de adultos presentes, que permitam a sua autonomia e o façam com respeito, ternura, paciência e confiança. Adultos que não tenham esquecido a criança que foram e que ainda os habita”, afirma a especialista.

O direito de brincar
Conforme Rosana, o prazer dos banhos de chuva, de brincar nas poças d’água e de tantas outras brincadeiras relacionadas à construção dos próprios brinquedos, são cada vez mais uma exceção. “Brincar é uma dimensão fundante do humano que não pode ser reduzida ao conceito de consumo de brinquedos, ou mesmo, associado a ambientes específicos como parques infantis, áreas lúdicas em shoppings, brinquedotecas, etc. Crianças devem ter o direito de serem crianças nos diversos espaços da cidade, da habitação, da escola, entretanto, elas têm sido “expulsas” para serem confinadas em áreas separadas”, enfatizou a especialista.

Programação
A data de 28 de Maio, que coincide com o aniversário da International Toy Library Association (ITLA), foi desde 2001, adotada como o Dia internacional do Brincar. Neste ano, a Brinquedoteca da Faed celebrará a Semana com programa integrado à agenda extensionista da unidade. No contexto da Semana do Meio Ambiente e da Feira Ecológica, no Campus I da UPF, desenvolverá programa lúdico educativo com crianças da rede escolar estadual, na tarde de 24 de maio. Também fará exibições públicas seguidas de debate, dos documentários “Território do Brincar” e “O Começo da Vida”, que ocorrerão no mês de Junho.
A Brinquedoteca da Faed celebra cotidianamente o brincar, através de uma agenda aberta a visitas de brincantes de escolas e de outras instituições, com atividades gratuitas. Também se dedica a atividades formativas, tendo o brincar como centralidade das iniciativas.
Confira outras atividades:
24 de maio: Oficina e visita na Feira Ecológica UPF
02 de junho: Tarde - Oficina sobre alimentação saudável e produção de orgânicos;
02 de junho: Noite - Espaço pedagógico envolvendo Semana do Brincar, Semana dos Orgânicos e Semana do Meio Ambiente.
02 de junho: Exposição na Faed e na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAMV) sobre Semana dos Orgânicos e Meio Ambiente.

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