Com a intenção de trazer esclarecimentos e ampliar o debate junto à comunidade, a Câmara de Vereadores de Passo Fundo sediou na sexta-feira (26), uma Audiência Pública cujo tema foi a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 6/2019, que trata da Reforma da Previdência Social.
A iniciativa do evento foi da Mesa Diretora do Legislativo em conjunto com a Comissão de Direito Previdenciário da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB/Subseção Passo Fundo. Também contou com a participação de representantes de diversas instituições ligadas ao assunto.
Na abertura, o presidente da Câmara, vereador Fernando Rigon (PSDB), endossou a finalidade do evento, visando aproximar a população da discussão dos temas relevantes na atualidade. “Este assunto envolve a todos nós e é fundamental que eventos com esse ocorram na Casa”, salientou.
Representando o Ministério Público de Passo Fundo, o promotor de Justiça Marcelo Silveira Pires, apontou movimentos semelhantes feitos em governos federais anteriores. “Nos últimos 30 anos foram feitas seis reformas. O grande problema é que, no final, o povo sai perdendo. A atual conjuntura deflagra um grande problema de gestão e irresponsabilidade com a coisa pública. Para mudar, é preciso cobrar de quem deve mais, ao invés de debitar na população”, afirmou.
OAB e Assembleia Legislativa
A presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS) subseção Passo Fundo, Morgana Bordignon, falou na sequência sobre fatores da Proposta de Emenda Constitucional que representarão mudança para a sociedade. “Provavelmente a PEC trará modificações para a grande maioria das pessoas. A reforma impactará em mudanças sensíveis à população”, ponderou.
O deputado estadual Pepe Vargas, apresentou seu posicionamento contrário à PEC, através de explanação sobre os artigos 194 e 195 da Constituição federal, que tratam da seguridade social. De acordo com o deputado, alguns termos da nova proposta ferem princípios expostos nos artigos citados.
Também atuando como presidente da Frente Parlamentar de Apoio à Previdência Pública da Assembleia, Pepe ponderou sobre a forte recessão que acomete a economia brasileira nos últimos anos para justificar o atual déficit da Previdência. “Com essa PEC, o Brasil se tornará um país com muitos idosos empobrecidos”, advertiu.
Senado e Congresso Nacional
Representando o senador Paulo Paim, Cleonice Fabiani Back, apontou falhas na proposta de reforma previdenciária que “prejudicarão muitos idosos e mulheres, em especial as trabalhadoras rurais”. Posteriormente, a representante do gabinete do senador Luis Carlos Heinze, Fabiana Camargo, reforçou a ideia de discutir com a sociedade sobre pontos da PEC que tratam diretamente do que pode afetar a população.
Já o deputado federal Pompeo de Mattos, destacou que a atual proposição encaminhada pelo Governo Federal fere diversos princípios constitucionais, afetando especialmente as mulheres, agricultores e os idosos. Lembrou também sobre a situação da maioria dos municípios brasileiros, que terão sua arrecadação diminuída, caso a nova regulamentação entre em vigor. “Ele não enfrenta quem deve enfrentar, que no caso, são os grandes devedores, mas se prevalece em cima dos mais humildes”, declarou sobre o governo federal.
Pontos técnicos
A Defensora Pública da União, Patrícia Bettin Chaves, argumenta que a PEC propõe uma desconstitucionalização das normas previdenciárias. Um dos pontos onde ela situa esta mudança é na citação de um sistema de capitalização, incluído no documento. Ele consta no Artigo 201-A, e se trata da instituição de modalidade de contribuição definida e de caráter obrigatório, onde se garantiria o salário mínimo como piso com contas individualizadas em um fundo próprio.
O representante da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência Social (Anfip), Paulo Correa Rodrigues, destacou ações por meio de leis aprovadas a partir de 1991, que culminaram em gradativas desonerações, através de alterações no orçamento do chamado “tripé da previdência”, composto por saúde, previdência e assistência social.
Fetag
Integrante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Elisete Kronbauer Hintz, apontou fortes prejuízos ao trabalhador rural, em especial às mulheres. O fator principal é o aumento de idade colocado para aposentadoria, no caso, 65 anos para homens e 60 anos para a mulher no meio rural, a partir do ano de 2024. No entanto, para as mulheres a regra passará a vigorar já em 2020. Além disso, outro ponto criticado é o da contribuição mínima atual de R$ 600. Caso não seja atingida a meta, o agricultor não terá acesso ao benefício. “Para o agricultor não há domingo, nem feriado. Trabalhamos sol a sol para produzir alimentos e outros bens para a sociedade. Consideramos injusta essa PEC para nossa categoria”, endossou.
O advogado previdenciário Anderson de Tomasi Ribeiro, também fez apontamentos sobre a PEC 6/2019, identificando falhas no planejamento do ponto de vista das pessoas que se aposentarão a partir de agora. Anderson apresentou um dado estatístico divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), onde 44,4% das mulheres que se aposentaram até 2014, tinham atingido ao menos 20 anos de contribuição. “Com a nova regra, como ficarão as outras 55,6%? Quanto tempo mais elas terão de trabalhar? ”, questionou.
Com base neste argumento, o advogado membro da Comissão Estadual da Seguridade Social (CESS) da OAB/RS, Edmilso Michelon, endossou sobre o risco da nova proposta quanto à constitucionalidade, pois segundo ele, “esse documento fere princípios essenciais”, salienta. Ele também adverte sobre o risco de afetar a economia nacional, com a eminente diminuição de benefícios.
No encerramento, o presidente da Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar e Bombeiros Militares (ASSTBM), 1º Tenente José Luiz Zibetti, discordou sobre alguns posicionamentos expostos referente a benefícios concedidos aos militares através da PEC. “Nós não temos privilégios, já que o tempo de contribuição do policial militar também aumentará de 30 para 35 anos”, argumenta,” sublinhou.
Câmara debate Reforma da Previdência em audiência
Aberto ao público, evento reuniu representantes de diversas entidades ligadas ao assunto
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