Preço dos combustíveis sobe e poder de compra das famílias reduz

Professor da UPF, Julcemar Zilli, avalia a política de preços da Petrobrás e os motivos que fazem com que o combustível pese mais no orçamento das famílias

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Na última semana a Petrobras anunciou aumento do preço dos combustíveis nas refinarias. A elevação foi de aproximadamente 8% na gasolina e 6% no diesel. É o terceiro aumento da gasolina e o segundo do diesel em 2021.  Os aumentos já chegaram nas bombas e o motorista já está pagando mais caro pelo combustível, que já estão custando mais de R$ 5 reais em alguns postos de Passo Fundo.

Para analisar este mais recente aumento, bem como avaliar o impacto que ele terá no bolso no consumidor, o jornal O Nacional conversou com o professor de economia da Universidade de Passo Fundo, Dr. Julcemar Zilli.

 

ON - O que explica este mais recente anúncio da Petrobras de aumento nos preços dos combustíveis?

 Julcemar Zilli - A Petrobras adotou em 2017 uma nova política de preços de combustíveis. Desde então, os preços da gasolina e do diesel vêm mudando, às vezes dia-a-dia. A ideia é transmitir com mais frequência as flutuações cambiais e do preço do petróleo e, no curto prazo, fazer com que os preços do mercado interno se adaptem melhor aos mercados internacionais e dê condições para competir em um mercado de maneira ágil e eficaz. Assim, analisando o comportamento do preço do barril do petróleo nota-se que ocorreu elevação de US$ 10,00 a partir de janeiro/2021, aumento de 22,65%, que associado a desvalorização do Real afetam diretamente os preços dos combustíveis no Brasil, gerando a necessidade de aumentos dos preços nas refinarias e, consecutivamente, nas bombas.

 

ON - Como é definido os preços dos combustíveis no Brasil? Quais são os fatores que são considerados no momento de definir o preço?

 Julcemar Zilli - A política de preços dos combustíveis praticada pela Petrobras está relacionada com o comportamento dos preços do principal insumo – Petróleo – e da variação cambial. Portanto, quando ocorrem elevações nestas variáveis a Petrobras repassa os aumentos – custos – para as refinarias e os distribuidores ao comprarem os novos estoques acabam pagando mais caro pela gasolina e óleo diesel.

 

ON - É possível comparar o preço dos combustíveis no Brasil com o de outros países para definir se nosso combustível é “caro” ou “barato”, comparando com o mercado internacional?

 Julcemar Zilli - A análise comparativa do preço da gasolina em dólares entre países demonstra que o combustível mais caro está em Hong Kong e o mais barato aparece na Venezuela. Entretanto, uma comparação mais precisa deve ser feita analisando o preço da gasolina e o Salário Mínimo desses países para retratar o impacto que o preço dos combustíveis gera sobre a renda das pessoas.

 

Assim, a comparação demonstra que mesmo tendo a gasolina mais barata, o venezuelano consegue comprar apenas 186 litros com o Salário Mínimo. Por outro lado, o cidadão norte-americano adquire 1703 litros com seu Salário Mínimo. Já o brasileiro consegue comprar 229 litros de gasolina. Portanto, comparando os preços relativos, podemos afirmar que a gasolina brasileira é cara quando comparado com o poder de compra dos brasileiros.

 

ON - Como a elevação ou queda dos preços dos combustíveis impacta na economia das famílias?

 Julcemar Zilli - O combustível é um dos principais gastos em uma família que possui veículos. O efeito da elevação do preço da gasolina eleva as despesas com este item, principalmente para aqueles que utilizam o veículo para realizarem suas atividades profissionais. Além disso, o aumento dos preços dos combustíveis gera aumento nos custos de todos os bens e serviços que utilizam como insumo no processo de produção ou de prestação do serviço. Sem conseguir arcar com a elevação dos custos os empresários repassam o aumento para o preço dos bens e serviços. Diante disso, as famílias terão redução no seu poder de compra.

 

ON - O senhor considera que o preço dos combustíveis precisa ser regulado pelo mercado, ou é benéfica uma interferência do Poder Público na regulação de preços?

 Julcemar Zilli - Na minha opinião a regulação pelo mercado torna-se mais eficiente, mesmo que ocorram alterações diárias no preço dos combustíveis. Antigamente, os preços eram administrados pelo Governo. A Petrobras absorvia todos os aumentos do Petróleo, sem repassar periodicamente aos combustíveis. A acumulação dos custos gerava constantemente prejuízos significativos para a estatal. Além disso, quando ocorria o repasse dos custos gerava um impacto de curto prazo nos custos de produção dos bens e serviços, sendo repassados aos preços finais. O repasse elevava os preços e gerava inflação. Atualmente, como diariamente podem ocorrer variações nos preços, os repasses dos custos não ocorrem de forma elevada e, com isso, a população praticamente não percebe as variações no preço do combustível.

 

ON - O que o consumidor pode esperar para um futuro próximo em relação a estes preços?

 Julcemar Zilli - Enquanto tivermos um Real desvalorizado – câmbio elevado - e grande dependência do Petróleo como principal matriz energética, o brasileiro sentirá as variações no preço dos combustíveis. As expectativas é que o Barril do Petróleo termine o ano de 2021 entre US$ 50,00 e US$ 60,00, sendo que atualmente está em US$ 62,00. Da mesma forma, espera-se que ocorra uma valorização do Real com as reformas propostas pelos governantes. Neste cenário, poderíamos esperar um abrandamento nos preços dos combustíveis nos próximos meses. Entretanto, guerras comerciais associadas aos países membros da OPEP podem manter a produção do petróleo em patamares baixos para pressionar o preço do barril para maiores valores. Neste cenário, ficaria difícil percebermos reduções no curto prazo. 

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