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Na luta pela igualdade

Publicada em: 14/07/2018 - 09:00

Mãe, professora, advogada e, acima de tudo, feminista, Josiane Petry Faria acredita que ainda há muito a ser trilhado em prol de uma sociedade menos desigual

Mesmo quando fala sobre seu assunto de maior interesse - as questões relativas a gênero e relações de poder - a postura de Josiane Petry Faria mantém-se calma. A fala é clara e pausada, quase educativa, ao discorrer sobre as inúmeras tarefas que precisa conciliar sendo mãe, advogada, professora e contínua estudante. Os olhos, por outro lado, não disfarçam a paixão e a força que carrega consigo: a do feminismo. Sendo uma ativista pela igualdade de gênero, Josiane sabe que dividir-se entre inúmeras tarefas no dia-a-dia, na esfera que bem entender, é uma escolha à qual as mulheres só tiveram direito depois de muita luta. Talvez seja por isso que desempenha com tanta efetividade as funções às quais se propõe, especialmente em assistência à mulher e ao público LGBT.

À frente de programas como o Projur Mulher e Diversidade e projetos como o Dimensões do Poder, Gênero e Diversidade, ambos vinculados ao Mestrado em Direito da Universidade de Passo Fundo (UPF), Josiane trava uma batalha constante por uma sociedade menos desigual. Sob as atividades ligadas à área jurídica que desenvolve, lança um olhar atento e especializado: é bacharel e doutora em Direito, especialista em Ciência Política e mestre em Direitos Fundamentais e Relações de Trabalho. Além disso, integra o corpo docente da Faculdade de Direito da UPF há 13 anos - lecionando na Graduação, Pós-Graduação e Mestrado em Direito. “Eu não sei dizer exatamente porque eu escolhi o Direito. Desde que eu me lembro, eu já queria isso. Nunca foi uma dúvida”, compartilha. A sede por conhecimento, aliás, parece não cessar: atualmente, realiza pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande, onde passou em primeiro lugar, ainda com foco em gênero e diversidade. “Lá, tenho o orientador dos meus sonhos, o professor Renato Duro Dias, que me faz repensar muito as coisas, com novas metodologias e novas abordagens”.

Para Josiane, a percepção que carrega sobre o feminismo e suas vertentes, como um movimento importantíssimo para o empoderamento feminino, é influenciada pelo contexto que tinha dentro de casa quando criança. “A minha mãe, Liane, é a quinta filha. Eram cinco mulheres e, das irmãs, a minha mãe foi a única que saiu da regra da educação para o casamento. Foi a primeira a concluir o ensino superior, se especializar e fazer concurso público, ter renda própria. Então, embora ela não se reconheça como feminista, foi um exemplo de casa para mim”. Agora, é Josiane quem exerce um papel de modelo para a filha Alice, de cinco anos de idade, para quem passa a importância do feminismo através da noção de gênero. “Eu falo para a Alice que tudo que um menino pode fazer, ela pode fazer também, que ela não deve discriminar ninguém, porque muitas pessoas pensam e são diferentes dela, mas essas diferenças só contribuem. Mas é tudo em um tom bastante natural, nada é como um ensinamento. A Alice vai ver isso a partir dos exemplos, dentro da linguagem dela e do que é capaz de entender, observando as coisas que eu faço, falo, os espaços que eu frequento e os dramas das mulheres que eu atendo. Claro que ela não sabe isso em pormenores, mas vai entendendo da maneira dela”, explica.

É, inclusive, na companhia da filha, da enteada Isadora e de seu namorado e ator do Grupo de Teatro Timbre de Galo, Edimar Rezende, que Josiane encontra um porto seguro na vida atribulada. Ao amor  e carinho que sentem uns pelos outros, soma-se a alegria proporcionada pela presença de Lógica e Maçã, duas cachorrinhas vira-latas adotadas por eles.

Educar para transformar

Mais do que se posicionar pessoalmente em nome da igualdade de gênero, Josiane semeia a ideia do movimento feminista nas iniciativas que promove e nas aulas que ministra, todas fortemente baseadas na ideia de disseminação de informações. Sabe que, assim, o alcance da luta é ampliado e modifica de maneira mais efetiva a realidade enfrentada por toda mulher. Mas, embora fale com muita propriedade sobre as questões tratadas no programa de extensão e no projeto de pesquisa que coordena, Josiane conta que nem sempre foi assim. Vir das Ciências Criminais dava a ela uma perspectiva bastante focada no réu e, a princípio, parecia até mesmo um impedimento para fazer o que faz hoje: dar assistência à acusação. O Projur Mulher, por exemplo, fundado em 2004, começou como um programa de extensão com atuação no atendimento jurídico às mulheres e filhos em situação de violência doméstica, que passavam pela Casa de Acolhimento do Município. A partir de 2017, sob o nome de Projur Mulher e Diversidade, o programa passou a atender toda e qualquer mulher em situação de violência de gênero, de qualquer espécie, e também homens gays, bissexuais, transsexuais e toda diversidade sexual, quando constatado que a violação de direitos deu-se por questões de gênero e orientação sexual. No Projur, o foco sempre foi a vítima. Neste âmbito, oferece à comunidade orientação e acompanhamento jurídico-processual, no intuito de contribuir na luta pela igualdade de gênero. “Fazemos tudo que for necessário para dar cobertura jurídica máxima às pessoas que nos procuram, além de trabalharmos na prevenção à violência e multiplicação cidadã. Levamos as ações a todas as comunidades que nos solicitam e, com isso, acabamos entrando em espaços que talvez não fossem tão visíveis antes”, a professora esclarece.

Apesar da mudança de perspectiva ter sido um desafio, Josiane abraçou com carinho o convite que recebeu do curso de Direito da UPF para coordenar o Projur, ainda no ano de 2010. “Foi a partir daí que eu comecei a pensar teoricamente os feminismos e a me voltar realmente para a questão da desigualdade de gênero. Toda mulher já sofreu com essa desigualdade, só que a gente vai desenvolvendo mecanismos e armaduras para não se importar com essa luta. A partir do momento que comecei a trabalhar no Projur, eu mergulhei na pesquisa a respeito do gênero e da diversidade, de uma perspectiva crítica. Fiz essa passagem para poder realmente olhar o fenômeno da criminalidade e da violência não apenas da perspectiva do crime e do criminoso, mas também da vítima, que talvez na minha formação tenha sido a parte mais carente ou que por muito tempo não me interessou”. De lá para cá, muitos frutos foram colhidos dentro do Projur, especialmente em termos de ampliação no atendimento. O que começou como uma iniciativa passo-fundense, abriu portas nos campus de Sarandi e Soledade, tem data marcada para inaugurar no campus de Casca e previsão para abrir em Carazinho e Lagoa Vermelha e, assim, atender toda a estrutura multicampi da UPF.

Luta constante

Na trajetória profissional, especialmente como vice-presidente da Comissão da Mulher Advogada em Passo Fundo e conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), Josiane observa que o mercado ainda é tão desigual quanto era no início da sua carreira, mesmo depois de conquistas importantes para a figura feminina. Dentro da Ordem de Advogados do Brasil (OAB), por exemplo, mesmo que o número de advogadas seja maior que o de advogados, os espaços de poder dentro da instituição são majoritariamente ocupados por homens. “Existe uma determinação de pelo menos 30% de mulheres nas diretorias e no conselho da OAB e, se não fosse essa cota, talvez nós não conseguíssemos participar. Um exemplo disso é que o Rio Grande do Sul só teve uma mulher presidente até hoje, em mais de 85 anos de história, e nenhuma presidente nacional. De todas as OABs Estaduais, no Brasil inteiro, só uma mulher é presidente hoje. Isso por si só já demonstra que, apesar de sermos muitas, ainda existe dificuldade para assumirmos cargos de poder”, exemplifica.

Por outro lado, a professora acredita que a desigualdade e os reflexos dessas desigualdade hoje são mais visíveis do que eram antigamente. “A partir de todo o trabalho que se faz de prevenção à violência, de tomada de consciência dos direitos da mulher e da comunidade LGBT, existe toda uma habilidade para reconhecer cenários de preconceitos e de violação de direitos. Também se tem trabalhado muito na divulgação de como proceder em situações em que seus direitos são violados. Então, hoje, você falar em desigualdade de gênero e nos feminismos é o assunto da vez”. Josiane pontua também que as redes sociais, como um meio de comunicação importantíssimo, auxiliam na divulgação de informações, tornam visíveis casos de violência que não teriam repercussão antes e abrem debates. No entanto, é preciso ficar atento às partes negativas das redes, sendo elas um espaço em que há grande facilidade para divulgação de notícias e informações falsas que criam ideais estereotipadas e, às vezes, violam direitos.

A esperança é que, com mais acesso à informação e iniciativas educativas que promovem uma maior conscientização e sensibilização quanto às questões de gênero, a luta pela desigualdade alcance resultados maiores. Ainda mais quando, dentro dos lares, mães como Josiane passam aos filhos, desde a infância, a ideia de que garantir às mulheres e à comunidade LGBT seus direitos não são privilégios, tampouco favores. São premissas básicas para qualquer ser humano. “Felizmente, me parece que essa nova geração está mais preparada para perceber o mundo como ele é e não aceitar as condições sociais de desigualdade - tudo elas querem saber o por quê, o que aquilo significa. Não vejo uma atitude passiva. É mais questionadora, mais aguerrida e querendo uma transformação”.

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