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Cidade que pulsa sobre a arte

Publicada em: 21/07/2018 - 09:00

Produtor musical há cerca de 25 anos, o porto-alegrense Michael Correa conta que se surpreendeu com a efervescência cultural que encontrou em Passo Fundo, onde mora há três anos

Cidade que pulsa sobre a arte

Michael Correa em estúdio do Reduto Sonoro

Crédito: Claudia Dalmuth/ON

Pré-produzir, gravar, editar, mixar, masterizar. Quando o assunto é registrar obras fonográficas de maneira profissional, os produtores musicais costumam ser os encarregados de realizar uma série de tarefas indispensáveis dentro do estúdio. No ramo há quase 25 anos, Michael Correa define o produtor musical como o responsável por todo processo de adaptação do artista com o estúdio em questão e, muitas vezes, com sua criação. Conforme ele explica, é comum que artistas entrem no estúdio com a ideia pronta - desde a arte do álbum, a ordem das faixas, os instrumentos que serão usados e a visão geral do produto final -, mas acabem saindo de lá com algo completamente diferente. “Isto acontece porque a criação em conjunto e a experiência do produtor somam e ajudam o músico”, esclarece.

Assim, ao acompanhar o desenvolvimento de uma obra antes mesmo de sua concepção, é natural que o estilo e a visão do produtor musical fiquem fortemente marcados na obra que ele ajudou a construir - embora, ao admirar nossos álbuns ou singles favoritos, como leigos, tendamos a pensar somente no empenho dos músicos responsáveis pela composição das peças e nos esqueçamos da importância da equipe presente nos bastidores. Neste sentido, ao dirigir o registro de obras musicais, o produtor oferece não somente seu conhecimento técnico, mas também sua expressão artística. “Eu me defino como um montador, porque hoje mais que nunca o produtor musical é quem busca a essência dos timbres e precisa estar sempre em cima de novidades. O mercado flutua muito e as tendências surgem e somem muito rapidamente”, Michael complementa.

Trajetória

Há três anos como morador passo-fundense, Michael Correa traçou uma longa trajetória antes de se instalar de fato no município. Nascido em Porto Alegre e produtor musical desde 1994 (época em que tinha apenas 15 anos), Michael especializou-se em música publicitária, mercado em que atuou por mais tempo. Nos primeiros anos, trabalhou em produtoras porto-alegrenses, como o selo Antídoto, até mudar-se para São Paulo em 1997, onde trabalhou diretamente com a produção de músicos. “Em SP tive uma abrangência maior, o mercado era quase exclusivo de músicos que tinham seu trabalho autoral e precisavam de um produtor para criar um estilo e dar um rumo mais concreto na carreira”, lembra. Foram três anos morando na capital paulista, antes de retornar para sua terra natal e atuar como sócio em um produtora de áudio até 2013.

Nos últimos anos morando em Porto Alegre, Michael conta que ocasionalmente vinha a Passo Fundo para participar de alguns projetos independentes a convite de Clarice Castro, da Sonata Produções Musicais, e posteriormente dos então sócios do Centro de Ensino Musical Musiclass, Jonathas Ferreira e Samuel Quadros. Foi a partir deste contato cada vez mais frequente com a Musiclass, para ministrar workshops e produzir alguns artistas, que a possibilidade de Michael deixar para trás a vida agitada que havia levado nas capitais por onde passou, e mudar-se para uma cidade relativamente menor, foi concretizada. “Eu sempre estive em grandes centros, como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Para o interior, eu só viajava se ia tocar com alguma banda. Então quando eu vim para cá imaginei que encontraria uma cidade pacata, mas eu encontrei outra capital”, comenta.

Terra de oportunidades

Hoje, aos 39 anos de idade, Michael está prestes a completar 25 anos de carreira, com a coparticipação e registro em mais de oito mil músicas, segundo ele. Nas mais de duas décadas de atuação na indústria fonográfica, circulou com seu trabalho por diversas capitais brasileiras, o que permitiu a ele observar as características e os estilos de cada espaço. Só não esperava surpreender-se e apaixonar-se pela vida que levaria no interior gaúcho.

Como o produtor mesmo conta, a visão que ele tinha de Passo Fundo transformou-se quase que completamente quando passou a viver efetivamente na cidade. A impressão de um lugar pacato deu espaço à percepção da efervescência criativa que emana da região. “Nós estamos afastados da capital, uma distância longa o suficiente para você não poder ir para lá toda hora, então acaba que todo mundo dos arredores se concentra em Passo Fundo”, pontua. “E eu me apaixonei pelo talento das pessoas daqui. Quando eu estava em São Paulo, fui trabalhar em um selo ligado à Abril Music, onde lidava com muitos artistas grandes e, cara, não era essa vontade, esse amor por arte que a galera tem nesta região. Eu nunca estive em um lugar com tantos artistas bons quanto aqui. Acho que Passo Fundo tem um fator que falta em Porto Alegre: o bom gosto. Lá, a gente tem muita quantidade e não tanta qualidade, aqui a gente tem os dois”.

Michael conta ainda que, conforme conhecia o contexto passo-fundense, foi surpreendendo-se com o número de oportunidades presentes na cidade, em diversos sentidos. “São espécies de frutos. As bandas da região vêm de outras bandas que o pessoal mais novo se inspira e, a partir disso, cria uma coisa muito semelhante a elas ou até melhor. Ao mesmo tempo, as bandas mais antigas fazem um trajeto diferente: elas evoluem para outro lado e abrem espaço para as bandas mais jovens”. Neste sentido, ele considera ainda que o funcionamento da cidade, quando comparado a outras grandes cidades, é muito colaborativo.

Outro ponto positivo para quem trabalha com música, na opinião do produtor, é que os artistas passo-fundenses compreendem a importância de escalonar e admitem não saber de tudo. Uma maturidade que, para ele, tem muito a ver com a presença de boas escolas de música na cidade. “Acho que a Musiclass é um exemplo, porque nestes doze anos [de instituição] praticamente todos os músicos da região passaram por ela de alguma forma - ou para dar aula, ou para estudar ou para gravar. Ela praticamente formou um cenário musical”, expõe. “Estar dentro da Musiclass efervesce uma coisa: tem professores de música por todos os cantos, então você pode falar sobre música, viver de música aqui dentro. A cidade em si também fala e pulsa sobre arte. Passo Fundo cria oportunidades. Há grandes espaços, ótimas escolas e estúdios que não ficam devendo em nada para os da capital, com profissionais qualificados, tem o Sesc, tem uma Secretaria de Cultura muito ativa. O cara pode fazer tudo aqui, ele não precisa de grandes espaços ou grandes centros, onde ele pagaria o triplo por cursos, por exemplo, que aqui são ofertados até de graça”.

CETEM

Percebendo o rico cenário musical da região, a Musiclass, além de oferecer cursos que vão desde técnica vocal até gaita de boca, conta também com um espaço especial para a formação de produtores musicais. No Centro de Tecnologia Musiclass (CETEM), os alunos podem utilizar um laboratório completo e ideal para quem tem interesse em produzir e gravar, seja profissionalmente ou por hobby. Os cursos acontecem em ambiente controlado e com estações de trabalho individuais. O aluno entra e já começa no mundo do áudio, terminando com a produção completa de uma banda, que se propõe ao Dia do Produtor. Além disso, a escola realiza anualmente a Semana do Áudio, um evento gratuito no Teatro do Sesc, com duração de uma semana; são mais de 15 horas de aulas e produção no palco com a participação de uma banda convidada.

Reduto Sonoro

Fruto da parceria entre Michael Correa e Samuel Quadros, o Reduto Sonoro é um estúdio que funciona dentro da Musiclass e conta com três espaços próprios para produção musical. Além disso, é filiado ao Audio Porto, um dos maiores estúdios do mundo, localizado em Porto Alegre. “O Reduto é baseado em planos. A pessoa vem gravar e ela não só grava. Ela passa por toda uma experiência, onde testa timbres, usa uma sala para fazer a pré-produção, grava no nosso estúdio, pode fazer análise de letras conosco... É um estúdio que trabalha o lado experimental do músico”, explica Michael.

O plano mais completo do Reduto, por exemplo, tem duração de 18 meses e conta com 108 horas de estúdio disponíveis para o artista gravar todas as suas ideias em álbum com pré-produção, ensaios, testes e ferramentas que irão ajudar em todas as etapas. Ainda, ganha a criação de logotipo e capa do disco, acompanhamento em redes sociais, pesquisa de marketing, videoclipe do single e making of dos 18 meses.

Palavras-chave:

arte

cultura

música

musiclass

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