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Quando a vida mostra o caminho da mudança

Publicada em: 30/12/2018 - 12:30

Advogada, empresária, ela enfrentou e superou as próprias dores para realizar um sonho e mudar de vida

Uma mudança de vida nem sempre ocorre como planejamos. Às vezes ela vem de forma traumática e carregada de muitas dores, que aliviadas com o tempo podem resultar em transformação positiva. Foi com este olhar de aceitação e de entendimento de que a vida estava mostrando outra realidade que a advogada e empresária Janaina de Oliveira, 36 anos, decidiu fazer de um problema físico e emocional um trampolim para uma nova vida e de quebra, ainda dar voz a uma parcela da população que sofre com a falta de condições de mobilidade urbana. Ela passou por uma cirurgia no pé, ficou meses acamada, teve síndrome do pânico e depressão, voltou a estudar para concluir o mestrado, mudou radicalmente a tese que iria defender e acabou produzindo um livro sobre acessibilidade e inclusão. Se ela está feliz? “Mudei completamente, mudei como ser humano, mudei uma concepção de vida, passei a valorizar mais todas as pequenas grandes coisas”, responde.

Casada com Gilmar Rosa e mãe dos meninos Gabriel, 16 e Lucas, 10, Janaina por pouco não se tornou veterinária. Chegou a fazer vestibular, passou, mas desistiu de cursar por entender que não teria estrutura para lidar com a situação de perda de animais, pelos quais ela conserva grande afeto. Optou então pela área do direito e, inspirada no pai, Ênio de Oliveira, ex-vereador e de vida política atuante, se especializou em direito municipal e MBA em gestão pública. O trabalho na prefeitura e o envolvimento do pai com o Legislativo foram determinantes na escolha da carreira pelo direito.

Das especializações para o mestrado foi outro passo e sonho realizado. No entanto, Janaina, que trabalhava diretamente com o prefeito Luciano Azevedo, teve que fazer escolhas: precisou mudar de função no Executivo para adaptar o tempo com as aulas presenciais. Foi para a coordenação dos Conselhos Municipais. Em 2016 passou na seleção do mestrado, optando por pesquisar sobre boa governança e os conselhos municipais. Foco de pesquisa que teve que mudar completamente em 2017. Ela pretendia fazer uma pesquisa de campo, percorrendo cidades que fazem parte do Corede Produção para ver como funcionava os conselhos.

Porém, esta história começa a mudar quando Janaina recebe dos médicos a notícia de que precisava fazer um cirurgia para corrigir um problema no pé. A suposta má formação congênita que gerava uma pisada torta poderia evoluir para um problema neurológico, já que ela foi perdendo movimento, o pé foi atrofiando até ficar deformado. Janaina procurou outros tratamentos e médicos e adiou a cirurgia até que no dia 12 de janeiro de 2017 teve que encarar o processo operatório. Pensou que a recuperação seria rápida, mas se enganou. O processo de recuperação foi muito traumático e teve seqüelas: perdeu o movimento de uma parte do pé, não pode mais usar salto, não consegue usar chinelo, eu não segura mais o calçado. Além disso, ficou com um pé maior que o outro. A recuperação foi difícil, dependeu da família para fazer qualquer tarefa, até mesmo tomar banho. Ficou seis meses na cama e sofreu as conseqüências disso. “Eu não estava preparada. Acho que não compreendi que a agressividade seria isso e como eu vinha de um ritmo muito acelerado, de repente me vi numa cama e dependendo de todo mundo pra tudo. Aquilo abalou muito o meu psicológico. Eu digo que sofri mais no psicológico do que no físico, por ficar fechada dentro de casa. Janaina teve síndrome do pânico e diante de mais esta situação foi forçada a tomar uma decisão: precisava retomar o mestrado, caso contrário perderia a vaga. “Pra mim era algo absurdo: sair de casa pra ir até a UPF e enfrentar uma turma, fazer um estágio, docência, porque eu teria que dar aula e nesse ponto sim, eu tive um apoio muito grande da UPF, através do Saes. No inicio era eu e o professor, meu pai ia junto porque eu não saia de casa sozinha. Aos poucos, eles foram inserindo alunos até que eu me sentisse apta a freqüentar uma turma normal”, conta.

Foi nesta retomada que Janaina resolve mudar a tese de mestrado, decidindo contar a própria história, com foco na dificuldade que encontrou com a acessibilidade no município. “Eu quis abordar um tema que tratasse da realidade de muitas pessoas. A gente não tem a noção do que uma pessoa com mobilidade reduzida passa e sofre diariamente. Conversei com a orientadora e ela concordou com a mudança, indicando o professor Giovani Corralo para ser o novo orientador, que aceitou prontamente. Trocamos ali nos 45 do segundo tempo”, revela

A tese de mestrado em que tratou da acessibilidade mostrou a experiência pessoal, mas também revelou a grande dificuldade de locomoção das pessoas com mobilidade reduzida. Há poucas vagas nos locais de estacionamento e, mesmo os que têm vagas marcadas, as pessoas não respeitam. “Quando eu precisava fazer um exame médico, receber um benefício não tinha lugar pra parar o carro para descer a cadeira de rodas”, diz. A falta de rampas é outra deficiência e, às vezes, tem a rampa, mas só tem de um lado e não tem do outro pra subir. Janaina também conversou com mães de filhos com problemas de mobilidade e verificou que há uma grande deficiência de brinquedos para estas crianças. Hoje só existe uma praça no Parque da Gare.

O desafio de apresentar uma tese, cujo foco de pesquisa foi mudado na última hora não foi o único a partir dessa experiência. Apesar de sempre amar ler e escrever, ela nunca imaginou que a pesquisa pudesse virar livro. “Fiz minha dissertação em um prazo muito curto em que precisei me dedicar de corpo e alma e eu trouxe toda essa minha bagagem, tudo que eu tinha passado pra dentro dessa dissertação e quando fui pra banca, realmente eu defendi aquilo como uma bandeira minha de vida. Falei com humildade, mas com propriedade de quem vivenciou tudo. Para minha surpresa a professora Janaina Santin, que fazia parte da banca, sugeriu no momento da apresentação que eu deveria mandar a dissertação para uma editora porque ela entendia que aquilo não era uma letra fria da lei, aquilo tinha uma vivência”, revela.

Despretenciosamente, ela encaminhou para a editora Lumen Juris o seu trabalho, que foi prontamente aceito. Ficou surpresa com a rapidez da resposta, mas não vacilou em aceitar publicar o livro o Município e a Acessibilidade Urbana, que ganhou um lançamento festivo no dia 3 de novembro, no Clube Caixeral, para mais de 200 pessoas.

 

Depoimentos

Depois de toda esta experiência, Janaina tomou uma decisão: resolveu deixar o trabalho na Prefeitura, voltar para a empresa do pai, da qual é sócia, a Auto-Escola Janaina e passar a se dedicar muito mais a sua família. “Entendi essa vivência como uma nova oportunidade e pensei, a minha vida vai ser outra daqui pra frente, a minha prioridade são os meus filhos, é o convívio com a minha família. Hoje eu sou mais pacienciosa no sentido de, se algo não deu certo, não fico mais reclamando, sempre tento ver o outro lado. Minha cirurgia me fez aprender a tirar lições das situações. Nem sempre o que vai acontecer conosco é aquilo que a gente espera, mas o que eu posso tirar de melhor disso?”, reflete. 

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