A quebra da safra de pinhão não tem resultado apenas no aumento surpreendente do preço do produto no supermercado. A falta da semente tem gerado reflexos principalmente para os animais silvestres que, nesta época do ano, dependem do pinhão como um de seus principais alimentos. O papagaio-charão é uma ave migratória que neste período do ano geralmente está em Santa Catarina onde se alimenta das sementes. Neste ano, por outro lado, as aves já começaram a voltar ao Rio Grande do Sul o que é reflexo da menor produção. A falta de alimento pode influenciar ainda no ciclo reprodutivo das aves que tendem a gerar menos filhotes.
O professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) e coordenador do Projeto Charão, o biólogo e engenheiro agrônomo Jaime Martinez, explica que a menor oferta de recursos alimentares acaba interferindo no ciclo de várias espécies. Isso envolve, por exemplo, pequenos roedores que acabam diminuindo suas populações e gerando reflexos para animais maiores como guaxinins, gatos do mato, corujas e outros carnívoros que se alimentam deles.
O papagaio-charão é outra espécie que acaba enfrentando problemas quando a produção de pinhão diminui. Nesta época do ano a alimentação destas aves fica entre 80% e 90% baseada na semente das araucárias. Por ser uma ave migratória, é comum que neste período elas voem até o estado vizinho, Santa Catarina, onde costumam ficar e de onde voltam para se reproduzirem. Neste ano, no entanto o papagaio-charão já retornou o que evidencia novamente a falta de alimento.
Reprodução
Essa volta antecipada em função da menor disponibilidade de alimento pode influenciar o ciclo reprodutivo das aves. A tendência, segundo Martinez, é de que acabem colocando menos ovos e gerando proles menores. Neste retorno as aves acabam se alimentando das gemas florais de eucaliptos e dos frutos do cinamomo. “Entramos num período complicado porque não tem fruto nenhum na floresta, mas logo começa a ameixa amarela que eles utilizam muito até outubro”, pontua. Após este período já começam a ser encontrados frutos nativos como cereja e camboatá. Na época do nascimento dos filhotes a disponibilidade é ainda maior com guabiroba e guabijú, por exemplo.
É comum também avistar o papagaio-charão na cidade onde ele encontra as espécies exóticas, como o eucalipto e o cinamomo. Por isso o professor reforça a importância do planejamento urbano com espaços como praças e parques que acabam sendo importantes para a conservação de espécies.
Quedas consecutivas
O engenheiro agrônomo da Emater Regional de Passo Fundo Ilvandro Barreto Mello esclarece que a redução na produtividade das araucárias tem sido percebida nos últimos quatro anos. Em 2016 ela foi ainda mais significativa. A queda chega ser de 60% em relação ao ano passado, quando já tinha sido registrada menor produção. “Tivemos no ano passado uma geada em setembro que matou a pinha”, elenca entre as causas da queda. Em anos normais, a média de pinhão comercializada no Rio Grande do Sul é de 880 toneladas. Neste ano o volume está muito abaixo disto. “A pinha leva de dois a três anos pra se formar e fica muito tempo exposta na natureza”, explica sobre o ciclo.
Para o próximo ano
A tendência é que para o próximo ano possa haver novamente um aumento da produção, embora ainda abaixo dos anos com safras normais. Conforme Mello, as pinhas que estarão maduras na próxima safra já são vivíveis e pela quantidade é possível se estimar esse aumento. “Se não ocorrer frio fora do tempo, como aconteceu no ano passado com geada muito forte, vamos ter uma safra com maior quantidade de pinhão em relação a essa safra, mas não vamos voltar ainda aos níveis normais de produção”, pondera.
Extrativismo
O pinhão comercializado atualmente é praticamente todo de origem extrativista. No Estado não há programas de incentivo a plantação de araucária. Por outro lado, a lei que restringe o corte deste tipo de árvore tem contribuído para o aumento da população. O corte é proibido para usos comerciais e permitido apenas em casos de árvores que morreram ou que representam algum risco para o ambiente ou para as pessoas nas proximidades de onde ela se encontra. “A araucária tem capacidade de propagação muito grande à medida que a semente cai no chão a tendência é ocorrer a germinação”, observa. Os próprios animais que se alimentam do pinhão contribuem com a ressemeadura natural dos pinheiros.