Tratamento adequado ao câncer infantil

Medicina & Saúde - Apesar de ser uma especialidade relativamente nova, a oncologia pediátrica se destina ao adequado tratamento e acompanhamento de crianças que se encontram na luta contra o câncer.

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Doenças em crianças são sempre motivos de abalo nas famílias. E quando essa doença é o câncer, o problema parece se tornar ainda maior. Apesar de ser uma especialidade relativamente nova, a oncologia pediátrica se destina ao adequado tratamento e acompanhamento de crianças que se encontram na luta contra o câncer. E Passo Fundo já estuda a implantação de uma ala especializada para este tipo de tratamento. Para saber mais, confira a entrevista com o médico pediatra Pablo Santiago.

Medicina & Saúde – A oncologia na pediatria, como especialidade, é algo novo?

Pablo Santiago – O câncer é uma doença antiga, sendo a primeira descrição médica encontrada num documento egípcio de 2.500 a.C., sobre o tratamento, o escriba escreveu: "não existe". Realmente, como especialidade médica, não poderia haver especialistas para uma doença que não tinha maneiras de cura. As primeiras medicações contra o câncer surgidas na década de 50 demonstravam efeito contra as células doentes, porém não produziam efeito prolongado. A especialidade de oncologia foi se alicerçando à medida em que a medicina foi entendendo o funcionamento do câncer e desenvolvendo combinações de estratégias no tratamento desse mal. A oncologia pediátrica é mais recente, surgiu da necessidade de ter profissionais especializados na terapia anti-câncer, mas que também tenham entendimento no manejo de pacientes infanto-juvenis. Em pediatria embora o câncer não seja comum, nos países europeus e nos Estados Unidos, é a segunda causa de morte em crianças menores de 14 anos, ou seja, é um problema de saúde pública. No Brasil os dados são escassos, porém imaginamos que a realidade seja parecida. Hoje, de cada 10 crianças com câncer 7 podem ser curadas se forem tratadas adequadamente.

M&S - Em que momentos os pais devem levar o filho a um oncologista?

PS - Os pais devem sempre conversar com o pediatra da criança sobre sintomas atípicos ou que evoluam sem resolução satisfatória. A partir de uma boa conversa e de um exame físico completo, o pediatra tem condições de confirmar a hipótese de câncer e encaminhar ao oncologista para uma avaliação complementar. É importante ressaltar que o tempo é precioso no diagnóstico e chances de tratamento do câncer, portanto, o encaminhamento deve ter burocracia zero. Na suspeita, nada de consulta em dois meses com o especialista, câncer é urgência!

M&S - Quais as doenças mais comuns que chegam ao consultório?

PS - Até os 14 anos as leucemias agudas são as mais prevalentes, seguidas dos tumores do sistema nervoso e linfomas. A partir dos 14 anos, durante a adolescência, diminuem as leucemias e aumentam os casos de linfomas, tumores gonadais e tumores ósseos.

M&S - Quais sintomas devem ser observados na criança?

PS - Como o câncer infanto-juvenil não está relacionado aos hábitos de vida da criança, não existe maneira comprovada de evitá-lo, portanto, é no diagnóstico precoce que deve residir o esforço que guardará um tratamento bem sucedido. Sintomas em lactentes como falta de reflexo vermelho do olho em fotografias, dificuldade de ganho de peso, atraso no desenvolvimento de habilidades como sentar sozinho, passar objetos de uma mão a outra, aumento exagerado do abdome ou do tamanho da cabeça, devem alertar sobre a possibilidade de que pode ser câncer! Além disso, em crianças e adolescentes, o surgimento de palidez, sangramentos, febre prolongada com perda de mais de 10% do peso, aumento de ínguas no corpo, todos podem ser o prelúdio ou a marcha da doença. Dores nas pernas ou inchaço em qualquer parte do corpo nunca devem ser interpretados como simples "batidas", um Raio-X muitas vezes é simples e eficaz para o diagnóstico de um tumor ósseo, por exemplo.

M&S - Existe a ideia de criar uma ala no hospital para a oncologia pediátrica?

PS - Sim, no Hospital São Vicente de Paulo há 4 anos vem sendo estruturado o serviço para o tratamento do câncer infanto-juvenil. Há poucos centros especializados no estado e Passo Fundo é o responsável pelo tratamento crianças oriundas de várias cidades das regiões Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul, bem como de Santa Catarina, porém, tudo precisa convergir para uma abordagem centralizada, numa ala destinada a esses enfermos, onde possam receber tratamento, conforto e condições de infância digna.

M&S - Qual a vantagem de uma ala especializada?

PS - A criança com câncer tem uma doença grave, que se encaminha para ser a segunda causa de mortalidade infantil no Brasil. Os centros destinados para o tratamento de tumores na infância necessitam de uma ala onde trabalhem profissionais acostumados a vivenciar a realidade desses pequenos enfermos, a estrutura, o espaço físico destinado precisa estar preparado para encarar os desafios da doença. Uma criança com câncer é antes de tudo um ser humano em construção, precisa de uma equipe multidisciplinar para agir em duas frentes ao seu favor: o tratamento da doença e a garantia de sua qualidade de vida. Os médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, dentre outros especialistas, farão parte do dia a dia do paciente dentro do hospital já que muitas vezes as internações demandam meses da vida da criança. O remédio é importante, mas não é o suficiente. O tratamento debilita o paciente que fica exposto a problemas colaterais como desnutrição e infecções. O enfermo muitas vezes não pode dividir o quarto com outras crianças, precisa de isolamento protetor, a mãe precisa de acomodação adequada para acompanhar o filho por semanas. Além disso, aqueles que estão em idade escolar, ao se afastar do colégio e dos amigos, necessitarão de acompanhamento psico-pedagógico e promoção de lazer nas dependências do hospital.  No mundo todo existem centros regionais referenciados de tratamento e todos seguem essa linha de pensamento.

M&S - Em que momento estão as tratativas a este respeito?

PS - A equipe multidisciplinar do HSVP reúne-se quinzenalmente para discutir caso a caso assuntos que vão desde detalhes clínicos e demandas familiares dos pacientes, até a suficiência nos estoques de medicação. Atualmente, entre pacientes ambulatoriais e hospitalares, o HSVP conta com, aproximadamente, 30 pacientes em tratamento, além de dezenas de outros pacientes que já encerraram a terapia e estão em consultas de acompanhamento. Muitas reuniões foram feitas com a direção do hospital para a construção de uma ala voltada à criança e ao adolescente com câncer e tudo se encaminha para isso. Já existe uma área prevista para a obra, a comunidade precisa ser mobilizada para essa realidade, todos podemos participar da luta contra o câncer infantil!

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