É até comum as pessoas se queixarem de dores que sentem e não sabem explicar de onde elas vêm. Ou sentir algo que não aparece em exames clínicos ou laboratoriais. Ou, ainda, terem problemas crônicos que se resolvem quando o tratamento inclui a “cura” da alma. Tudo isso pode ser uma soma dos problemas de psique que aparecem no corpo. De acordo com a psicanálise, isso é perfeitamente possível
As dores que sentem pelo corpo, até mesmo as crônicas, podem ter uma explicação que vem do que acontece de dentro para fora: angústias por desejos não realizados, espera por um ideal que não acontece, e por aí vai. Na psicanálise, tudo isso tem uma explicação. E para tentar entender como tudo isso acontece, a psicanalista Rossana Stella Oliva Braghini, conta a seguinte história:
“Dois fragmentos clínicos: quando eu estava fazendo minha formação em psicanálise, atendi uma jovem durante três anos que vinha três vezes por semana. Como analista iniciante ela me produzia muitas inquietações. Primeiro falava sem parar numa espécie de catarse com mínimas pontuações. Raro escutava verdadeiramente alguma intervenção minha. Ouvia, mas na pausa que eu fazia para a vírgula, ela dizia, '- sim, sim captei!', que era o equivalente de: não quero me ocupar com isso agora. Ao final dos três anos, tempo em que eu havia terminado a primeira parte da formação, já podia convidar estes analisantes a passarem para meu consultório particular. Inicialmente, eles eram atendidos na instituição. Neste momento, ela me surpreende com a seguinte informação:- 'Bem, agora posso tentar passar um tempo sem análise. Meus ataques cessaram completamente.' O espanto para mim foi que nenhuma espécie de ataque havia sido mencionado até então nas sessões. Solicitei o porquê desta escolha dela, uma vez que uma entrega em outros assuntos, doloridos e íntimos havia acontecido. E ela respondeu: - no início da análise eu pensei que se fosse mencionar estes ataques epiléticos, a minhas sessões deveriam girar em torno disso. E eu queria falar de outras coisas. E essas outras coisas talvez tenham feito que nestes anos eu não tivesse nenhum ataque, embora tenha suspendido a medicação. Bravo! pensei eu. Isso é a essência da psicanálise. O paciente fala o que quer e a cura vem por acréscimo, como já dizia Freud.
Uns 10 anos depois, ainda em Porto Alegre, outra jovem ao ser convidada a passar da poltrona para o divã, comenta ao deitar: '- Hum, me esqueci de te falar, mas eu tenho contratura crônica nas costas que me fazem tomar anti-inflamatórios como balas. Tem noites que mal consigo dormir.' E, disparou para assunto da vez. Novamente o namorado que ela escolhera lhe causava sofrimento. Depois veio o problema do peso, depois do mestrado e doutorado, etc. Uns seis meses haviam se passado, e em um determinado dia, ela me disse en passent, ao iniciar uma nova sessão enquanto se recostava no divã. -"Nunca mais tive dores nas costas que impossibilitaram dormir. Uma dorzinha aqui e outra acolá, sim.'”
Com essas histórias, Rossana não quer dizer que as dores todas têm origem emocional, mas sim que o 'emocional' por ser expressado pelo corpo. “Hora de esclarecer uma coisa: eu não penso que toda dor, mais ou menos crônica, seja necessariamente de fundo emocional. Podemos comprovar em outras situações como por exemplo, no exercício de uma bailarina profissional, que provavelmente terá dores corporais frequentes e isto será o preço da atividade escolhida. Ou naqueles que tem um trabalho que exige a repetição de um determinado movimento por longas horas; sem falar, em problemas de más formações congênitas etc”, comenta a psicanalista.