O Dia Mundial Contra Agressão Infantil, lembrado no dia 4 de junho propõem atividades de conscientização sobre a violência que, infelizmente, atinge de maneira chocante crianças e adolescentes. Os tipos de agressão infantil são diversos. Os mais comuns são a violência física, a psicológica e a sexual.
Em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia no Brasil. Os dados, apresentados pela Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani), representam 12% das 55,6 milhões de crianças menores de 14 anos. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) mostram que 80% das agressões físicas contra crianças e adolescentes foram causadas por parentes próximos: a maioria das denúncias de agressão física contra crianças foram praticadas pela própria mãe, enquanto que o abuso sexual normalmente é praticado pelo pai ou padrasto.
De acordo com o Centro de Combate à Violência Infantil (Cecovi), entre as diversas causas para a agressão estão: ver a criança e o adolescente como um objeto de sua propriedade; a projeção de cansaço e problemas pessoais nos filhos; fanatismo religioso; problemas psicológicos e psiquiátricos. Esse quadro demonstra a necessidade de conscientização de toda a sociedade para os sinais clássicos de violência em criança.
A psiquiatra do Instituto de Psiquiatria e Psicoterapia (IPP), Dra. Juliana Severo da Rosa, fala sobre a identificação dos sinais de violência, as consequências da agressão na vida das crianças e a responsabilidade de todos de proteger os pequenos.
Quais as consequências da violência no psicológico das crianças em curto e longo prazo?
Dra. Juliana Severo da Rosa- O impacto no psicológico das crianças vítimas de violência, independente da forma, é muito negativo. Em curto prazo essas crianças podem apresentar desde sintomas depressivos, ansiosos, insegurança, até dificuldades no aprendizado e na forma de interagir com outras pessoas. Em longo prazo, podem se tornar adultos com insuficiência cognitiva, inseguros, agressivos, reproduzindo suas vivências. Afinal essas crianças estão em uma fase de formação cerebral, da personalidade, de valores e de caráter.
A violência pode gerar transtornos e doenças psiquiátricas? Cite e explique resumidamente as mais comuns.
Sim, pode. Os mais comuns são os quadros de depressão, de ansiedade, dificuldades na escola tanto de aprendizado como de socialização, transtorno opositor desafiante, e ainda as situações irreversíveis, em que a violência leva ao óbito ou ao suicídio, este sendo a quarta maior causa de morte entre crianças e adolescentes no Brasil.
A criança que sofre violência demonstra isso em sintomas que podem ser percebidos por adultos? A quais sintomas e sinais devemos ficar alertas?
Sim, as crianças demonstram seu sofrimento através de alguns sintomas. O primeiro quadro que se percebe é a mudança de comportamento. A criança pode ficar mais agitada, às vezes até mesmo agressiva, se comportando da mesma forma que o agressor. Também pode ficar mais isolada, introspectiva, evitando contato com os demais. E quando esses sinais de alerta não são percebidos, ou, de alguma forma são ignorados, podem gerar consequências sérias no desenvolvimento, aumentando muito as chances dessa criança desenvolver algum transtorno mental.
Fale um pouco sobre a violência psicológica e verbal: ela pode ser tão prejudicial quanto a física? Quais as consequências nas crianças?
Todas as formas de violência, de qualquer natureza ou intensidade, são prejudiciais. Não se pode negligenciar este tipo de violência, pois as consequências são tão catastróficas quanto as outras formas. A exposição a experiências traumáticas nos primeiros anos de vida da criança ainda pode levar a alterações na estrutura e funcionamento cerebrais, impactando tanto na parte cognitiva quanto emocional.
Como a escola e a comunidade deve agir ao perceber que uma criança sofre violência na família?
Na maior parte das vezes, é no ambiente escolar que se identifica os primeiros sinais. O papel da escola ou da comunidade é fundamental como rede de apoio, comunicando aos órgãos competentes para que se possa oferecer um ambiente seguro à criança. Além disso a escola pode encaminhar a serviços de apoio e acompanhamento psicológico. Na suspeita de um caso de violência o profissional de saúde tem a obrigação de fazer a denúncia e a comunidade em geral pode fazê-la pelo disque 100 de forma anônima.
Como é realizado o tratamento psiquiátrico com crianças que sofreram violência?
A criança que sofre violência precisa de um acompanhamento multiprofissional, basicamente recebendo apoio e um ambiente seguro e acolhedor. Na forma da lei esta criança deve ser encaminhada a uma equipe especializada e a escuta deve ser qualificada e no menor número de vezes possível, tentando evitar a fixação de memória traumática e formação de falsas memórias.
DENÚNCIA
Quem suspeita de que uma criança esteja sofrendo agressão deve encaminhar a denúncia para o Conselho Tutelar de sua cidade o mais rápido possível.
Para saber qual o telefone do Conselho Tutelar mais perto de sua casa, ligue para o número 100 (ligação gratuita). A denúncia pode ser anônima.