OPINIÃO

Ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial no ON

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No imediato pós-Primeira Guerra Mundial muitos imigrantes italianos se estabeleceram em Passo Fundo, inclusive, ex-combatentes do conflito mundial. Para os italianos que já residiam no município, a experiência do associacionismo, isto é, a formação de sociedades, já era algo muito corrente, dada a existência de, desde 1901, uma sociedade italiana, a Società Yolanda Margherita di Savoia. No entanto, na década de 1920, a maior parte dos imigrantes italianos ex-combatentes, não aderiu à essa sociedade, preferindo criar uma nova e muito específica: a Sociedade dos Ex-combatentes Italianos, formada por alguns indivíduos simpáticos ao movimento antifascista e a maioria operários ou pequenos comerciantes. Sobre a existência desta associação, há apenas uma notícia de jornal, publicada n’O Nacional, alusiva ao evento que a fundou, em 4 novembro de 1929:

 

Comemoração da Batalha de Victorio Veneto

 Realisou-se domingo ultimo, no capão do “Araujo”, uma festa commemorativa da batalha de Victorio Veneto, cujo aniversario decorreu á 4 de Novembro, assim como o do armisticio pela Austria. Essa festa, que foi feita por iniciativa dos ex-combatentes italianos residentes nesta cidade, constou de um suculento churrasco, tendo decorrido entre francas expansões de alegria. Os iniciadores da festa foram os ex-combatentes: Mario Ferrari, Salvador Mancuso, Evenzio Sfoggia, Guido Prele, João Sartori, Cesaro Roin, Salvador Picolloto, Attilio Pavan, Virginio Milan, De Poli, José Trucolo, Francisco Bazen [Basei] e dr. Dino Caneva. [...].

 

Da notícia, podemos extrair informações que nos permitem ir para além do que é relatado. Primeiramente, a festa foi organizada em celebração à passagem do décimo-primeiro aniversário da Batalha de Vittorio Veneto, ocorrida entre 24 de outubro e 3 de novembro de 1918, quando as tropas italianas atacaram o Exército Austro-Húngaro já em retirada, tendo sido a última na qual participou o Exército Italiano na Primeira Guerra Mundial. Essa vitória foi particularmente importante para o moral do Exército, sobretudo após o fracasso das operações na Batalha de Caporetto no ano anterior, que havia redundado em um avanço sem precedentes das forças inimigas sobre o território italiano e ao aprisionamento de cerca de 300.000 soldados italianos em campos de concentração austríacos. Logo, é compreensível que essa data, da última grande vitória, tenha sido escolhida pelos ex-combatentes como símbolo do triunfo final italiano e como fundante da condição de ex-combatente.

 

Embora não seja precisado o espaço específico onde a festa ocorreu, sabemos ter ocorrido em um arrabalde da cidade de Passo Fundo, que ainda não havia sido integrado à malha urbana, mais especificamente, ao longo daquela que até então era referida como a “Estrada para o Marau”. Essa região da ainda zona rural do distrito sede, era cortada pela estrada que conduzia ao distrito de Marau e era lindeira da propriedade do já falecido tenente-coronel Lucas José de Araújo, da qual vem a referência ao “capão do Araújo”, onde se realizou a comemoração. Esse espaço, após o evento, como destaca a notícia, passou a ser denominado como “Vila Victorio Veneto”, em partes do atual Bairro São Cristóvão.

Acerca esse reduzido, mas heterogêneo grupo, podemos ainda fazer algumas considerações sobre seus integrantes, a partir das informações que coletamos ao longo das páginas d’O Nacional, de maneira geral, em anúncios e declarações. Esses indivíduos, todos imigrantes italianos, encaixavam-se pelo menos em duas categorias, à primeira vista: eram ou operários ou pequenos comerciantes, exercendo atividades que estavam de acordo com os primeiros tempos de estabelecimento desses na sociedade receptora. Evenzio Sfoggia, João Sartori e Guido Prelle eram operários. Os dois primeiros eram membros da Sociedade Operária Beneficente de Passo Fundo. Guido Prelle, de profissão mecânico, depois foi admitido como funcionário da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, ocupando o cargo de ajustador de 2ª classe. A outra parte dos ex-combatentes atuava ou atuaria ainda no comércio local à época: Salvador Piccolotto era proprietário do Hotel Roma; Mario Ferrari, da Casa Veneta, armazém de secos e molhados e restaurante; Virginio Milan, da Casa Gaúcha; Attilio Pavan, da Attilio Pavan & Cia., com armazém de secos e molhados, produtos coloniais e bomba de gasolina, na Vila Vittorio Veneto; e Francesco Basei, que tinha armazém de secos e molhados e dirigia o restaurante da Società Italiana Principesca Mafalda.

 

Sobre a fundação da Sociedade, podemos conjecturar que estes indivíduos, em sua grande maioria, não se vissem representados na “associação maior” que representava a colônia italiana em Passo Fundo, a Società Italiana Yolanda Margherita di Savoia. É lícito conjecturar que, para além do passado de ex-combatente, outras identificações tenham majorado na formação dessa sociedade, como ser imigrante recém-chegado, operário, pequeno comerciante, o que era diferente de fazer parte da burguesia italiana que compunha parte da elite local e dos quadros da sociedade italiana.

A Sociedade dos Ex-combatentes Italianos provavelmente teve vida efêmera, sendo o único rastro de sua existência a notícia publicada n’O Nacional em novembro de 1929. Não nos foi possível encontrar outras informações acerca de outros membros ou mesmo se essa sociedade continuou a ritualizar encontros. Essa associação foi a expressão de um associacionismo de italianos alternativo, de um grupo reduzido de imigrantes, que o fizeram por meio do elemento distintivo de haverem participado da Primeira Guerra Mundial, mas que reforçaram e auxiliaram na demarcação social de um “espaço italiano” na cidade de Passo Fundo, a Vila Victorio Veneto.

 


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