Em relações comerciais internacionais não há um bandido e muitos mocinhos, apenas os interesses dos Estados nacionais em proteger as suas indústrias nacionais. O discurso de que Trump seria o bandido e os demais países, mocinhos, atende a uma lógica ideológica reiteradamente reforçada. A forma que medimos o protecionismo de um país se dá, como já alertamos aqui na coluna, via alíquota média de importações, estando países como o Brasil, Índia e China – entre os mais protecionistas do mundo. Ocorre que historicamente muitos produtos americanos entravam, em diversos países, com taxas de importação consideráveis, sem que os EUA promovessem uma reciprocidade. Antecipamos aqui também o cenário da “guerra tarifária” que se instalaria e ela chegou. Trump anunciou uma lista com as novas tarifas de importação americanas, a começar por alíquotas de base (10%) até alíquotas consideravelmente maiores, como no caso da China (34%), Índia (26%) e Europa (20%). Tudo isso sem contar as tarifas que serão impostas à indústria automobilística no México, por exemplo, com alíquota de cerca de 25%, afetando diretamente uma série de marcas automobilísticas, estando o menor impacto na Ford, que hoje mantém quase 80% da sua produção em território americano. A aposta de Trump é que as fabricantes venham a se instalar em território americano, e já há anúncios.
Brasil
Em sentido geral, o Brasil não será diretamente afetado, pois, a tarifa anunciada foi de 10% (tarifa base do programa de Trump). Os principais produtos brasileiros com destino aos EUA são: óleos em bruto, semimanufaturados de aço/ferro, celulose, café, sucos, carnes e aeronaves. Alguns desses produtos pagavam taxas de importação como no caso do café (9%). Do total de exportações brasileiras para o mundo, cerca de 12% destinam-se aos EUA, do Rio Grande do Sul (8,4%) – dados de 2024. A alíquota brasileira de 10% foi calculada pelos americanos pela divisão do déficit comercial americano com o Brasil pelo valor proveniente das importações desse mesmo país.
Estratégias
Os próximos dias e semanas serão decisivos; ou o Brasil partirá para a retaliação direta (o que não seria inteligente) ou terá uma abordagem mais gradual, que leve em conta a possibilidade de negociações pontuais a partir dos interesses de setores produtivos brasileiros. Caberia também, desde agora, um estudo técnico e aprofundado de como se comportariam os produtos no cenário da alíquota proposta de 10%. A questão que deve ser levantada é a de quais concorrentes mundiais dos produtos brasileiros que exportam aos EUA, agora com taxas mais altas do que a proposta no caso brasileiro. Isso poderia abrir mercados e trazer ainda mais competitividade para os produtos brasileiros. Será necessário também analisar as novas alternativas de cadeias globais de fornecimento e até mesmo, por meio de um diálogo produtivo, levar o Investimento Externo Direto brasileiro aos EUA, na construção de empreendimentos greenfield, que pudessem ficar isentos das tarifas que se anunciam. O momento é propício para a rediscussão das políticas industriais brasileiras e a mitigação de riscos geopolíticos aos investimentos futuros.